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Urano: o Planeta Antroposófico

URANO – O PLANETA ANTROPOSÓFICO

(por Paulo Urban, médico Psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento)

Afinal, quando é que se inicia a Nova Era de Aquário? E o que Urano, regente deste signo, tem a ver com isso? Maléfico ou Benéfico, o que se pode dizer dele? Planeta das Rupturas ou do Despertar da Consciência? _________________________________________________

– Por isso que te digo: dentre os Trunfos Maiores do Tarô, é ‘O Julgamento’, Arcano XX, aquele que melhor representa o tema uraniano.

Em minhas quatro décadas de tarologia, desde quando aos 13 anos comecei a estudar a simbologia dos Arcanos, não havia visto quem fizesse tal associação, a dizer, impecavelmente precisa.

Mestre Nicolau acabara de regressar da França, por onde estivera desde abril a cumprir longo périplo esotérico por casas templárias que visitou como emissário de nossa augusta Ordem da TAO. Também viajara a convite da Universidade de Montpellier, cujo reitor, confrade de Ordem, lhe encomendara uma conferência sobre Michel de Nostradamus (1503-1566). Pois, o renomado astrólogo se matriculara aos 23 de outubro de 1529 no curso de medicina de Montpellier, conforme se preserva o registro, para vir a colar grau em 1533 e laurear-se com distinção já no ano seguinte.

– Ora, qual dos Arcanos melhor representaria o despertar de alma, o renascimento do Eu para uma nova realidade espiritual? Pois, não é justamente Urano o planeta das rupturas, o transgressor que nos impulsiona a uma Nova Consciência?

Michel de Notredame (1503-1566)

Ele argumentava tomado pelo espírito de Urano. Discurso destemido, deixava transpassar pelos olhos, dois faróis de entusiasmo, um vislumbre libertário; era como se enxergasse outras realidades além dos horizontes concebidos.

– Maléfico ou Benéfico? Eis a questão que não me cala.

– Nem uma coisa nem outra; ou quem sabe, as duas ao mesmo tempo.

Nicolau, que mais ampliava os temas do que os resolvia simplesmente, prosseguiu:

– Urano não aceita convenções, não se encaixa em classificação alguma que seja ordinária. Ele prefere dar nó em pingo d’água e beliscão em fumaça a permitir-se ser chamado disto ou daquilo. Imponderabilíssimo, Urano é ele só. Quem quiser acompanhá-lo, se não souber atirar-se à dança de sua imprevisível música, vai sobrar no vácuo desses astrólogos cartesianos que se põem a ler os mapas como se fizessem palavras cruzadas.

As comparações de Nicolau eram mesmo divertidas.

– Ora, onde quer que se situe Urano ao nascimento, esse ponto há de ser nevrálgico, espécie de epicentro mais propenso a terremotos. Já em trânsito, por onde quer que passe, Urano lança todo tipo de provocações sobre os demais planetas constelados; também não há um só signo que durma sossegado durante sua influência, propiciadora tanto das mais inesperadas vantagens quanto dos mais drásticos infortúnios. Conforme o tom do movimento, o timbre dos aspectos, para alguns será maléfico, para outros, entretanto, far-se-á benéfico; e isto conforme os caprichos de seu humor imprevisível e, claro, o estofo desde o berço por nós angariado, capaz de assimilar todo o abalo que ele causa. Urano não costuma dar conversa, vem pra derrubar, sejam valores pessoais ou sistemas coletivos, mas sempre em prol de uma evolução, ainda que esta irrompa aos trancos e seja dolorosa.

– Pelo que sei, sua descoberta se deu em momento fervilhante da cultura ocidental, em meio a duas grandes revoluções da humanidade. Que sincronicidade é esta, não?

– A combinar com o caráter do mais rebelde dos planetas!

E deitando sobre a mesa de sua biblioteca-observatório alguns títulos de astronomia, dentre eles From the Beginning to the End of Time, 250 Milestones in the History of Space & Astronomy, de Jim Bell, 2014, obra de sedutoras imagens, pôs-se a discorrer romanticamente:

William_Herschel

– Desde os primórdios da astrologia, quando, por volta de 5.000 a.C. os caldeus, sacerdotes babilônicos, a instituíram como arte divinatória, em toda a história da humanidade ninguém havia visualizado nenhum outro planeta além da órbita de Saturno. Galileu Galilei (1564-1642), Christian Huygens (1629-1695) e Domênico Cassini (1625-1712), graças à invenção do telescópio, já tinham perscrutado a Lua e descoberto satélites de Júpiter e de Saturno, mas jamais dado com algum novo planeta. Tal honra coube ao músico erudito inglês William Herschel (1738-1822) que, amante da cosmogonia pitagórica, buscando compreender a Sinfonia das Esferas, pôs-se a estudar o comportamento dos astros. Herschel era amigo do reverendo Nevil Maskelyne (1732-1811), astrônomo real britânico, de quem apreendeu valiosas lições de óptica, com o que passou a fabricar telescópios que logo se fizeram os mais aprimorados de sua época.

– E foi assim que avistou Urano…

– Precisamente aos 13 de março de 1781, Herschel, no incrível observatório giratório que ele mesmo construíra para si. De lá observou um objeto estendido de magnitude 6 a peregrinar pela constelação de Gêmeos, signo este, a propósito, dado a agitações repentinas e oscilações bruscas de humor, próprias também do caráter uraniano.

‘Observatório de Herschel’ – Nanquim de Patrick Nicolle (1986)

– De novo as sincronicidades!

– Inicialmente, Herschel acreditou tratar-se de um cometa, mas, seguindo diligentemente o estranho corpo, registrou suas posições até 1783, quando concluiu tratar-se de um planeta situado a 19 UA do Astro-rei [1 UA (Unidade Astronômica): equivale à distância média da Terra ao Sol, 150 milhões de Km]. A dizer, estava a nada menos que 2.850 milhões de quilômetros, o dobro da distância da órbita de Saturno ao Sol! Puxa-saco que era de George III, rei da Inglaterra, o músico deu-lhe o nome de Georgium Sidus (Estrela de Jorge), mas a comunidade astronômica posteriormente teve o senso de alterá-lo para Urano, deus greco-romano que representa o Céu.

– Pai de Saturno e de outros tantos titãs, inclusive.

– Exato. Como bem observaste, a descoberta se deu entre duas das principais revoluções do mundo Ocidental: a industrial, de 1777, ocorrida na Inglaterra, e a social Francesa, que logo mais, em 1789, fazendo sucumbir a monarquia, instauraria uma nova ordem democrática. Esta, por sua vez, rapidamente descambaria para o terror da guilhotina, a compor um cenário absolutamente caótico, próprio do intempestivo caráter uraniano. Isto sem falar da Guerra de Independência dos Estados Unidos que se arrastou de 1775 a 1783, posta a termo no mesmo ano em que Herschel oficializava sua fantástica descoberta. Urano, semelhante ao revolto do momento, são vulcões a jorrar lavas, custem estas a dor de onde caiam. Radical, é um dínamo do cosmos primordial, mais propriamente um caleidoscópio do caos.

‘Tomada da Bastilha’ – óleo s/tela – Jean Pierre Louis Houël, 1789.

– Mas Saturno, houve um dia, o destronou…

– Sim, e por urgente premência de pôr fim à incontrolável efervescência de seu pai. Urano é o Céu que se deita sobre Geia, a Terra, e põe-se a amá-la em desenfreada volúpia, com o que a consome de modo ininterrupto, sem dar-lhe chances de repouso. Ao mesmo tempo em que fertiliza Geia, exaure-a a cada coito, sem oferecer qualquer oportunidade para que a vida prospere. Pois, era preciso que se desse cobre a essa fecundação insana e disparatada, sem sentido nem propósito, sem o que jamais o Universo se estruturaria.

– Por isso que Saturno, belo dia, castrou seu próprio pai…

‘Castração de Urano’ – Polidoro de Caravaggio (1495-1543)

– E o fez para o bem de nosso mundo e de todos os seres que nele sobrevivem, e, bendita foice, para o supremo gozo de Freud, sem o que o homem de Viena não edificaria sua Psicanálise.

Nicolau adorava incutir em sua fala observações do métier de seus ouvintes. Sabendo-me aceite à ideia do inconsciente e à realidade da alma, não podia deixar passar a chance. Olhos brilhosos, tal o entusiasmo com que falava, continuou:

– Se Urano é o deus primordial por trás da cosmogênese e representa esse motocontínuo inesgotável de vida e movimento, Saturno, por sua vez, é o portador da esquizogênese, a separação primeva sem a qual não haveria propriamente nem tempo nem espaço. Urano cria, mas é Saturno quem traz o corte que divide, a formar o espelho capaz de refletir todas as imagens e as criaturas. Por isso que Saturno é pai mais palpável; é ele o demiurgo que confere estrutura à Criação sob a forma de uma realidade que Urano jamais saberia arquetipar dado à sua energia portentosa, mas de todo inconvergente.

– Saturno, então, é quem decreta desde seu primeiro ato cósmico o senso de realidade em nosso mundo…

– Compreendeste bem; ao separar o Céu que vivia deitado sobre Geia em seu frenesi fertilizante, com a mutilação pela foice, Saturno dá termo à insanidade maníaca de seu pai. Curiosamente, do sangue e do sêmen de Urano, jorrados com o corte e que se espalham sobre a terra, nascerão as Melíades (Ninfas dos Bosques), e ainda os Gigantes e as Erínias, estas últimas, terríveis deusas sempre prontas a vingar os homicídios, às quais os romanos chamarão de Fúrias. Nosso confrade de Ordem e de letras, meu discípulo na astrologia, tem um fabuloso soneto a respeito delas. Pede a ele permissão e publica-o também em teu Amigo da Alma.

‘O Remorso de Orestes’ (1862) – William A. Bouguereau (1825-1905)

Alan Rodrigues de Carvalho?

– Quem outro seria? E pede ainda que te acompanhe em nosso próximo encontro, quando trataremos de Netuno.

– Levarei vosso recado.

– Em contrapartida, porém – Nicolau não perdia a narrativa – dos testículos ensanguentados de Urano, ainda jorrando sêmen, que vieram a cair no mar, formou-se a espumarada das ondas de onde surgiu deslumbrante e bela Afrodite, planeta Vênus em nossos mapas.

– Fantástica cena imortalizada por Boticcelli.

– E será Vênus quem, desde então, irá imprimir ao mundo organizado de Saturno toda beleza e harmonia do padrão estético, com o que a Criação se orienta agora pela primeira vez para um crescimento com propósito, a bem do processo evolutivo.

– É ela a mãe das maravilhas do mundo!

– E ainda de nossos sentimentos em relação a elas. Por isso, te digo: todas as vezes em nossos mapas em que Saturno desafia Urano, é Vênus quem cresce. Se tal aspecto já se encontra constelado no tema natal, mais provável é que Vênus, desde que bem posicionada, seja o vetor de todo o mapa. E mais bênçãos herdarão tanto a casa quanto o signo em que uma Vênus assim se encontre, bem como as tendências de Touro e Libra também se farão acentuar nestes abençoados nativos.

– Mais uma vez a mitologia emprestando luzes ao entendimento astrológico!

O mestre me sorria ao tempo em que vasculhava as estantes. E de uma delas puxou enorme livro de arte, capa trabalhada em couro. A página estava marcada por colorida pena: era deusa Vênus, longos cabelos ruivos ondulados, magnânima em nua perfeição, em pé sobre uma vieira a servir-lhe de pedestal. Era trazida às margens da praia pelo sopro de Zéfiro, o Vento Oeste, aí recebida por uma das Horas, deusas das Estações, que a acolhia com um manto bordado de flores. A legenda instruía: ‘Sandro Boticcelli – 1453 – Galleria degli Uffizi, Florença’.

Permaneci em embevecido silêncio observando a imagem. Nicolau aproveitou para trocar alguns tocos de velas por outras novas nos candelabros que alumiam sua biblioteca. Tão logo terminou a operação, perguntei-lhe:

– Mas a mitologia nos ensina que Júpiter virá também, por sua vez, eras mais tarde, depor Saturno. Tomará o trono do Olimpo e enviará seu pai ao exílio; como entender isso?

‘Jupiter Olympien’ por Quatremère Quincy, 1815

– Com Júpiter se inicia o reinado da 3ª geração divina. É ele artífice da chamada autogênese, terceira fase alquímica da Criação desde o Ovo Cósmico primordial (1ª fase) que, cindido pela foice de Saturno (2ª fase), gerou a condição propícia à eclosão da consciência humana (3ª fase), a deflagrar assim a Era em que o homem se vê chamado às suas responsabilidades, a dar conta de seu próprio arbítrio.

– Fascinante… os mitos, depositários perfeitos de nossas origens mais remotas…

– Uma vez logrado o êxito em deter o subjugo imposto por Urano, por sua vez, Saturno firma-se como o grande pai castrador, austero como ele só, um ferrenho disciplinador. Nada de absolutamente errado em fazer-se tirano quando a missão é a de organizar o caos, mas tão reativa foi a força dispensada a conter os ímpetos de seu pai que, fosse deixado o Universo às suas ordens ad infinitum, chegaria a hora em que tudo pereceria pela inércia da lei de sua lâmina, cujo corte alquímico representa o princípio da fixação. Tudo já não seria caótico, outrossim, o Cosmos inteiro se coagularia!

– Por isso, a cumprir as profecias, era preciso que viesse aquele que o destronasse…

– Sem o que jamais haveria uma consciência humana a dar-se conta do tempo e do espaço rasgados por Saturno.

– E como se deu o reinado de Júpiter?

– Tem-se dado desde então – corrigiu-me Nicolau – vivemos todos sob seus auspícios. A partir do momento em que Júpiter assume o trono, toma para si, inclusive, alguns atributos de seus antecessores. De Urano, rei dos Céus, encarna seu papel de gerar as chuvas, os trovões e tempestades. De Saturno assimila a obrigação de pôr ordem ao cosmos, mas, claro, sem ferir agora a principal lei da vida, que é deixá-la evoluir naturalmente, também sem interferir no arbítrio dos seres conscientes, que devem aprender a ser responsáveis por seu próprio destino. Júpiter é o princípio volátil que, em oposição ao fixo, permite que o Universo expanda em todas as direções, a favorecer ainda a consciência dos homens no intuito de que esta se alce a outros céus (consciências ) superiores, mais sublimes e remotos. Sem a benevolência de Júpiter, William Herschel jamais teria apontado seu telescópio aquela noite para Urano. Em que pese sua desmedida vaidade por saber-se pai dos homens, não obstante seu comportamento ciumento e passional em relação a seus filhos, Júpiter ao menos permite que cresçamos para longe de seus braços, que realizemos por nós mesmos nossas infinitas possibilidades de expressão. Júpiter pede solvência; estagnação é mania obsessiva de seu pai, defeito este que ele esconjura.

– Urano maníaco, Saturno neurótico obsessivo… Júpiter narcisista e pródigo… uma mito-patologia inteira ao nosso dispor…

– Não é? Afinal, nosso psiquismo está projetado arquetipicamente nos deuses, de mesmo modo que de seus arquétipos tiramos o estofo de que são feitos nossos sonhos.

Nicolau Nicolei, distante da hipocrisia do politicamente correto, fazia-se adepto do psicologicamente poético. E estava com a corda toda:

Júpiter, Cabeça em Bronze (c. 100 d.C) – Museu de História da Arte de Viena

– Júpiter deseja ver a humanidade entregue à vida, satisfeita em seus afazeres. Felicita-se, por exemplo, quando nos percebe entretidos em compreender o real sentido de nossos atos e suas consequências; eis aí seu resquício saturnino, respeita nossa liberdade, mas nos chama tempo todo à razão. E como não podemos resolver todos os nossos dilemas apenas por meio dela, leva-nos ainda a buscar por vias intuitivas maior inspiração, seu quê uraniano, também o que faz dele regente de Peixes em paridade com Netuno.

– Ou seja, ele nos quer devotados aos compromissos mundanos, mas sempre cientes de nossa divina natureza.

– Sim, jamais esquecidos dela. Destronou seu pai justamente para que aprendamos a ousar… e vive nos sugerindo que há vida inteligente pra lá de Saturno; Júpiter nos incita, pois, a perscrutar além do universo fechado, dos velhos céus conhecidos… no fundo, seu caráter mais benéfico decorre desse voto de confiança que dá aos homens; ele sabe que mais dia menos dia, assim espera, iremos acessar realidades transcendentes, inerentes à energia de…

‘O Arbítrio’ – Arcano XX do “Tarô da Nova Consciência” do artista Eduardo Vilela – (óleo sobre tela)

– … Urano! – exclamei.

– O primeiro dos planetas transpessoais!

– Daí dizer-se de Urano, que é o planeta do despertar de uma Nova Consciência!

– Regente da Era de Aquário, inclusive. Como te disse de início, Arcano XX, o arquétipo mais uraniano do Tarô. Mas Urano traz muito também do Louco, Arcano sem número, pelo seu quê imprevisível, seu ar desconcertante. E pede a deposição dos olhos crus; por excelência, é o orbe dos estados alterados de consciência. Onde quer que se apresente em nossos mapas, está a catalisar processos psíquicos latentes; tem o poder de eclodir, de trazer à tona o emergencial; é ele quem responde pelas crises espirituais, pessoais e coletivas. Lidar com sua energia explosiva pode causar acidentes das mais variadas ordens, desde os alquímicos até os cerebrais.

Eu sentia agora um estremecimento dos pés à cabeça, um frisson a correr-me a pele, a acelerar o coração. A figura de Nicolau sempre me fora hipnótica; era como se Urano, eletrizante, estivesse a me provocar, a fazer chiste de mim. Como que instigado por ele, ocorreu-me a pergunta:

– E por qual a razão Urano foi associado a Aquário, até então regido apenas por Saturno?

– Ora, nada mais apropriado se lembrarmos que Aquário é representado pela imagem do Aguadeiro. O grafismo deste signo, inclusive, traz duas ondas justapostas que tanto podem ser interpretadas como raios cósmicos, eflúvios eletromagnéticos, correntes telepáticas, como preferires… temas relacionados à energia uraniana. Ademais, Urano reúne em si tudo aquilo que o Céu sabe verter; é ele quem derrama todos os líquidos sobre nós, não só as tempestades, mas ainda seu sangue e seu sêmen… é tanto pai das abençoadas chuvas como também das terríveis maldições que sobre os ímpios caem sob a forma de vingança.

Meus pensamentos, puro ruído eletrostático, saltaram como dúvida da ponta da língua:

– Nunca compreendi isso direito.

– Sim?

– Mestre Nicolau, estamos ou não em plena Era de Aquário? A Nova Era já se abriu ou ainda tarda por chegar?

Coisa rara, o ancião rasgou-se em risadas. Insisti:

– Afinal, o que define o fim de uma Era e o início da seguinte?

– Põe-te tranquilo, nem os mais experientes astrólogos se entendem muito quanto a isso.

Fiz-me espanto.

– As Eras decorrem do fenômeno da Precessão dos Equinócios.

Abrindo outros livros de astronomia, explicou-me:

– E a precessão se deve ao fato de a Terra girar em torno de si mesma como se fosse um pião à meia força, numa inclinação de 23º26’. Isto faz com que haja apenas dois únicos momentos ao longo de nossa translação em que o Sol incide sua luz de modo absolutamente igual sobre os dois hemisférios, Sul e Norte. Estes pontos demarcam sobre a eclíptica (linha imaginária através da qual observamos o Sol, em seu movimento aparente, ‘caminhar’ em torno da Terra) as duas datas de equinócio (do latim: aequinoctĭum; aequi = igual + noctium = noite), quando noite e dia têm a mesma duração. São as efemérides de 20 de março (início do ano astrológico, quando o Sol se encontra no ponto vernal, a 0º de Áries) e 23 de setembro (metade do ano astrológico, entrada do outono no hemisfério Norte e primavera no Sul).

– Até aqui, compreendi.

– Pois bem, dado ao fato de a Terra girar inclinada, ao projetarmos seu eixo na esfera celeste, teremos a formação de uma linha imaginária que descreve um círculo, e que ‘anda para trás’ 50,29 segundos de arco em relação ao ponto vernal no equador celeste, a cada entrada do ano astrológico. Embora quase imperceptível aos nossos olhos, tal fenômeno foi pela primeira vez observado e medido com perfeição por Hiparco de Alexandria em 129 a.C., que argutamente percebeu uma mínima alteração na posição dos astros que caracterizavam as entradas de Estação.

– Fantástico!

– Estes míseros 50,29 segundos de arco, que correspondem a 20 minutinhos de precessão, através dos séculos somados, fazem com que em pouco mais de 2 mil anos estejamos um mês inteiro astrológico atrasados em relação ao ponto vernal. E seguindo assim, de precessão em precessão, a Terra chega a dar uma volta inteira na eclíptica a cada 25.920 anos, o chamado ano Platônico. E se dividirmos o ano platônico por 12, número das constelações do zodíaco, temos que a cada 2.160 anos aproximadamente a precessão dos equinócios se faz sob uma constelação diferente. Atualmente, quando a Terra regressa ao ponto vernal, o que vemos por trás do Sol é ainda o signo de Peixes, ao passo que na Antiguidade, era em Áries que se davam os equinócios. Em termos astronômicos, só teremos a constelação de Aquário ocupando este lugar por detrás do Sol no ano de 2.150, até lá, portanto, estamos sob a Era de Peixes.

– E eu aqui achando que já havíamos entrado de sola na Nova Era.

– Pois, do ponto de vista astrológico não tenho nenhuma dúvida quanto a isso.

Ar de dúvida outra vez.

– Não há uma uniformidade quanto a isso. Astrólogos mais radicais pontuam que o início da Era de Aquário deu-se exatamente aos 13 de março de 1781, quando Urano pela primeira vez foi avistado. Convenhamos, foi a descoberta astronômica mais importante do século XVIII, a expandir nossa realidade para quase 3 bilhões de quilômetros a partir do Sol; em termos astronômicos, transformação semelhante à expansão de consciência que as grandes navegações dos séculos XV e XVI trouxeram à mentalidade europeia, posto que com elas não somente se enterrou a ideia de uma Terra plana como se revelou todo um ‘novo mundo’ no Ocidente. Algo tão forte quanto o golpe que Copérnico em 1543 aplicou no modelo geocêntrico de Ptolomeu, que imperava há mais de mil anos. Mesmo modo, Urano deu xeque-mate à concepção de um Universo aristotélico fechado, delimitado pela esfera das estrelas fixas e pela órbita de Saturno.

– A ver assim, não só não estamos ainda distantes um século da Nova Era, como já entramos nela há quase dois!

– Pois, é. Outra corrente, entretanto, menos preocupada em fixar as datas, prefere observar os eventos político-sociais de maior relevância que se ajustem às qualidades do novo planeta descoberto. Não por acaso, conforme observamos, a descoberta de Urano se deu em meio àqueles 12 nevrálgicos anos revolucionários (1777 a 1789), palco da troca de regência. Júpiter, até então único regente de Peixes, teria entregue o cetro das Eras a seu avô Urano, novo regente de Aquário, que com ele bateu três vezes no tablado sob o trono: da primeira batida eclodiu a revolução industrial, da segunda a estadunidense e com a terceira pancada, francesa, a proclamar assim o advento da Nova Era recém-chegada.

– Imagem forte, Urano proclamando a Nova Era!

– Como soe negar? A corrida industrial, a domesticação da eletricidade, a invenção do rádio, a invenção da fotografia e a descoberta do raio-X nos fins do século XIX pelo casal Curie, também as vacinas de Pasteur a revolucionar a medicina, daí os motores a explosão e a fantástica invenção do avião pelo brasileiro Santos Dumont em 1906, a fabricação em série de automóveis, a proliferação dos eletrodomésticos, as primeiras campanhas publicitárias, a automatização das linhas de produção em detrimento das práticas artesanais… Toda essa avalanche de invenções e descobertas ocorrendo de modo exponencial e progressivo só vinha mesmo corroborar a tese de que o século XX era eminentemente aquariano e uraniano, muito mais que pisciano.

– Então foi ao longo dos séculos XIX e XX que trocamos Peixes por Aquário…

Max Planck – Pai da Mecânica Quântica

– Faz sentido pensar assim; lembremos que em dezembro de 1900, derradeiro mês do último ano do século XIX, Max Planck (1855-1947), numa conferência à comunidade científica afirmou que a luz só podia ser emitida ou absorvida pela matéria em discretos ‘pacotes’ ou ‘quantidades de energia’, que ele denominou pelo termo latino de quanta, plural de quantum. Nascia aí a nova corrente da física, denominada mais tarde de mecânica quântica, marca registrada desse mundo uraniano em que vivemos.

– Era dada a largada!

– Sim, mas seria somente agosto de 1945, com a explosão da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki que, definitivamente, o homem, em sua pretensão megalomaníaca, traço forte uraniano, chegava ao domínio sobre o átomo. Alguns astrólogos veem aí o desfraldar de Aquário, efeméride esta que entrou para os anais da História como página hedionda, a combinar com o espírito maléfico de Urano. Já os que prefiram valorizar sua faceta benéfica, escolherão junho de 1969 como o verdadeiro marco divisor: “Um pequeno passo para um homem, um grande salto para a humanidade”, disse Neil Armstrong (1930-2012) ao deixar a primeira pegada humana na Lua; frase uraniana bem pensada, por sinal, previamente decidida pela NASA. Caso o astrólogo seja russo, todavia, creio vá preferir o 12 de abril de 1961 como ponto zero da Nova Era, dia em que Yuri Gagarin (1934-1968) se tornou o primeiro homem a entrar em órbita. Lançado pela Vostok-1, deu volta inteira na Terra em 1h48min e nos revelou que, vista do espaço, ‘a Terra é azul!’, ele exclamou. Em contrapartida à frase demandada pela NASA, nem que quisesse o Kremlin teria como antecipadamente saber isso.

– Eu nem era nascido quando Gagarin foi ao céu, mas assisti pela TV à lunissagem da Apolo 11, tinha lá meus 4 aninhos.

– E ainda vieram os computadores! De início, pesadas máquinas que executavam certas funções bem específicas, e que já na última década do século se alastraram pelo mundo. Hoje são de uso pessoal, invenção tão revolucionária quanto foi a roda na Antiguidade e a imprensa no século XV. Cibernética, informática, ficção científica, astronáutica, futurismo, todos temas uranianos… e está aí a internet, essa grande teia uraniana que a cada dia se tece mais complexa…

Profecias de Nostradamus em francês, edição de 1605.

– Lembremos ainda a decifração do genoma humano.

– Sem dúvida, outra conquista dos novos tempos! Por outro lado, astrólogos de abordagem menos histórica e mais esotérica, por sua vez, ao sinalizarem a entrada de Aquário, hão de preferir o último eclipse total do Sol do milênio passado, ocorrido em 11 de agosto de 1999, conforme calculado por Nostradamus, que o cita em sua Quadra 72, Centúria X.

Sem abandonar o discurso, o mestre sacou de uma prateleira tomada por livros sobre o profeta de Provence um raro exemplar das ‘Profecias’, originais, em francês arcaico. Perfeita pronúncia marselhesa, ele leu:

“L’an mil neuf cens nonante neuf septs mois,
Du ciel viendra un grand Roi deffraieur.
Resusciter le grand Roi d’Angolmois
Avant que Mars regner par bon heur”.

“Ao ano de mil novecentos e noventa e nove e sete meses,
Do céu virá um grande Rei aterrorizante.
Resuscitará o grande Rei de Angolmois
Antes (até) que Marte reine tranquilo”.

– Angolmois? – perguntei.

– Talvez o profeta estivesse a referir-se a Angousmois, à sua época um vilarejo medieval no oeste francês. Ninguém sabe ao certo o que é isso. Fato é que o primeiro verso anuncia um funesto julho de 1999. Considerando-se o mês pleno, o terrível rei que viria dos céus surgiria em pleno eclipse, que Nostradamus havia calculado com exatidão para o dia 31. Não contava ele que alguns anos após sua morte haveria a reforma do calendário ocidental, que substituiu o antigo Juliano pelo Gregoriano, ocorrida em 1582. Com ela foi necessário saltar 11 dias a fim de corrigir os passos com o Sol. Quem dormiu naquela noite de 4 de outubro, na manhã seguinte acordou no dia 15. Isto fez com que o eclipse de 31 de julho se transferisse para 11 de agosto. Um pandemônio tomou o mundo nesta data; muitos criam fosse chegado o fim dos tempos…

– Lembro bem a loucura dos dias que precederam esta data.

– Houve gente conhecida minha que insanamente deixou a cidade e viajou para o sítio, a fim de escapar do fim do mundo. TVs, rádios e jornais, todos só falavam disso num absurso sensacionalismo, pondo na boca do profeta palavras que ele jamais proferiu. Ademais, onde se lê nesta quadra qualquer menção ao fim do mundo?

Li os versos uma vez mais.

– De fato, não há nada – respondi.

– Nenhuma quadra prevê fim de mundo algum. Nostradamus, todavia, em famosa carta endereçada a seu filho César, afirma que no ano de 3.797 se daria o ‘fim dos tempos’. Mesmo assim, podemos ler aí que esteja a referir-se a alguma mudança de Era. Diga-se ainda que se a humanidade não se autoexterminar até lá, por essa época estaremos saindo de Aquário para entrar em Capricórnio.

– O tempo de uma vida realmente não é nada.

– Pois, é. O que podemos depreender desta quadra é que ela trata de momento conturbado, possivelmente um período de guerras ‘antes que Marte reine tranquilo’… Outra imagem para o ‘Rei do Terror’, não esqueçamos, é a do próprio deus Urano. Mas por certo Nostradamus não se referia a ele quando a escreveu; no século XVI, os astrólogos só contavam até Saturno.

– Imagino como não deva ter sido vossa palestra na Universidade de Montpellier.

– Discorri sobre um Nostradamus astrólogo e alquimista, um humanista, sobretudo, revolucionário no combate à peste negra. Suas receitas de rosas pareciam milagrosas, seus pacientes incrivelmente sobreviviam… sua fama como médico foi sempre muito maior que essa pecha de profeta. Pouco me ative às Profecias, assunto para outras conferências.

– Não imaginava houvesse tanta falta de consenso quanto à entrada da Nova Era.

– Nada mais apropriado quando o tema é Urano. Sua fama é a de ser mesmo o ‘do contra’, tal como se comportam os aquarianos.

A indireta era pra mim. Nicolau adorava provocar-me. Nem adiantava discutir; se o fizesse, daí, sim, estaria a dar-lhe as provas desse meu ‘do contrismo’.

– Se há alguma regra, Urano vem para quebrá-la. É a rebeldia em pessoa, mas de forte senso intuitivo. O positivo desses traços é que os aquarianos costumam ser originais e inventivos. Urano confere-lhes excentricidade, diga-se de passagem, a combinar com o próprio exotismo do planeta: Urano gira em torno de si mesmo numa inclinação axial de 97º53’, seu Equador sofre de ‘mania de Greenwich’.

Esse era o humor do mestre… Guardando uns livros, abrindo outros, continuou:

– Urano,  a meu modo de ver é o planeta antroposófico, ainda que Steiner nunca tenha tratado dele.

Fiz-me interrogação.

Rudolf Steiner

– Se até os limites de Saturno a astrologia é uma ciência antropocêntrica, a partir de Urano ela passa a ser antroposófica, isto é, desloca-se do umbigo do homem para os mundos invisíveis, elevando nosso espírito a perscrutar pela Oculta Sabedoria. Rudolf Steiner (1861-1925), criança prodígio, uma Era à frente de seu tempo, em sua autobiografia nos conta que aos 7 anos de idade começou a ter visões e conversar com seres espirituais que se punham por detrás da natureza material das coisas. Sua vida inteira esteve tomada por eflúvios de Urano. Não por acaso, formar-se-ia em engenharia pela escola politécnica de Viena, diplomando-se ainda em química, física e ciências naturais, áreas de domínio deste planeta, e tudo isso aos 23 anos, numa precocidade uraniamente espantosa.

– Um gênio!

Goetheanum em construção – fevereiro de 1914

– Um gênio apaixonado pelo Idealismo alemão; leu Friedrich Hegel (1770-1831), Friedrich Schelling (1775-1854), e ainda Johann Fichte (1762-1814), pensador que primeiramente empregou no campo da filosofia o termo ‘antroposofia’, no sentido de uma ‘sabedoria do homem’. Steiner identificou-se ainda com as ideias de Arthur Schopenhauer (1788-1860) e, sobretudo, com a arte de Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832) que, além de literato, era filósofo e cientista, versado especialmente em física e botânica. A propósito, Steiner batizaria de ‘Goetheanum’ seu Instituto, fundado em 1914, prédio que ele próprio projetou e fez erguer em Dornach, na Suíça. Uma edificação exclusivamente feita de madeira e sem prego algum, obra arquitetônica inusitada,  completamente uraniana.

– E que foi incendiada em 1922 pela Thulé, comando alemão que fundava por essa época o partido nacional-socialista.

– Exatamente, um dos primeiros crimes do nazismo. Mas Steiner reagiu e fundou a Sociedade Antroposófica Universal no ano seguinte, 1923, e ainda pouco antes de morrer viu reconstruído o Goetheanum, com a prudência de levantá-lo agora em concreto armado. Até hoje o prédio é matriz de sua Sociedade.

Nicolau abria agora alguns livros de Steiner. Obra extensa e variada, sobre educação, sociologia, práticas em medicina, agricultura biodinâmica, além das voltadas ao esoterismo e à Ciência Oculta, como ‘O Conhecimento dos Mundos Elevados’, ‘Ensaios sobre Haeckel e o Carma’, ‘O Homem Cósmico e o Terrestre’…

– São mais de 800 escolas Waldorf espalhadas pelo mundo. Além de pedagogo, Steiner propõe uma cosmogonia complexa que sob alguns aspectos guarda afinidade com a Teosofia, movimento este ao qual esteve por alguns anos ligado, desde quando convidado a expor suas ideias numa sede da Sociedade Teosófica de Berlim. Em 1902, tornar-se-ia Secretário Geral da Sociedade na Alemanha, mas esse namoro terminaria em 1907, quando Steiner se afastou da Teosofia por conta de divergências que surgiram entre ele, Charles Leadbeater e Annie Besent, seus principais dirigentes, herdeiros da Escola fundada por Helena P. Blavastky (1831-1891).

– E o que faz de Urano o planeta antroposófico?

– Resumidamente, para Rudolf Steiner, sete é o número perfeito por excelência. Segundo sua doutrina, a natureza humana é sétupla: são sete os corpos do homem, desde o corpo ‘Físico’ até o do ‘Homem-Espírito’. Sete também são os níveis de consciência planetária, sendo que nos encontramos no 4º patamar, estado de ‘ego-consciência’, distantes ainda do 7º estágio, quando, segundo ele, deveremos despertar para uma ‘consciência universal’. Steiner concebe ainda 7 períodos de evolução da Terra, com 7 épocas dentro de cada um destes. Sua intrincada cosmogonia, enfim, toma o 7 como padrão fractal e holográfico consoante o qual macro e microcosmo se relacionam entre si, haja vista serem igualmente 7 os níveis das hierarquias espirituais a se interpenetrar com os 7 graus de consciência humana. Sua cosmogonia aponta ainda para uma transmutação da alma, espécie de redenção espiritual que ele bebeu em Schopenhauer, que só adviria por nossa experiência íntima com a consciência crística.

– Muito interessante!

– Atentemos, então, para a marcha de Urano. Sua translação se completa a cada 84 anos, número perfeito, produto de 7 X 12. Isto faz com que Urano influencie de modo mais enfático um signo ou casa diferente a cada 7 anos em média, salvo exceções. É ele quem demarca também os setênios do desenvolvimento da personalidade, a conferir com a pedagogia ensinada por Steiner. Sete anos após o nascimento encerra-se a 1ª infância; aos 14, deixamos a segunda para entrar na adolescência; aos 21 (1ª quadratura de Urano consigo mesmo) já somos adultos e pensamos em romper as amarras familiares; aos 28 estamos já constituindo família, entregues à vida profissional, em plena fase de trabalho. É quando achamos que sabemos tudo. Aos 35, ingressamos timidamente no outono da vida, surgem os primeiros cabelos brancos; aos 42 cai aquele caminhão de concreto em nossas cabeças, e nele está escrito em letras garrafais: ‘Eis a CRISE DOS 40′, que nada mais é do que Urano em oposição a ele mesmo nos testando, puxando com toda força lá do outro lado do cabo de guerra existencial. É quando descobrimos que não só nunca soubemos tudo, como, a bem da verdade, não sabemos nada! E se não dançarmos conforme a música uraniana, perecemos e nos desgraçamos. Por outro lado, se atravessamos a crise dando escuta à voz do daimon pessoal, à nossa intuição mais profunda, descobrimo-nos eletrizantemente renascidos. E de 7 em 7 anos caminhamos até a 2ª quadratura de Urano, quando, por volta dos 63 anos, grande parte das pessoas se aposenta; muitos são avós por essa época e ensaiam descompromissar-se ao máximo das imposições sociais, preferindo uma vida mais amena, voltada agora a angariar ao menos alguma ‘sabedoria do ser’; ao pé da letra: alguma ‘antroposofia’ que possamos alcançar pela experiência de vida, face à travessia dos anos.

– É quando muitos se entregam àquilo que sonhavam fazer desde os últimos 40 anos!

– Isso mesmo, e ainda a tempo de bem preparar-se para o retorno de Urano, privilégio dos longevos, que alcançam os 84 anos. Via de regra, costuma ser benéfico este retorno, afinal, o que se espera é que a almas a esta altura tenham aprendido bastante com os solavancos de Urano. Não obstante, é preciso dar atenção a como estará aspectado Urano em relação a Marte nesta hora, e ainda como se relaciona com Saturno, Netuno e Plutão em nossos mapas. Este evento pode tanto nos elevar à sabedoria das hostes, uma vez mais pelo fato de ser Urano o planeta da antroposofia, como pode também fazer ferver nossos miolos, no caso dos mapas mais aflitos.

– É assim que a mitologia dos deuses – e a astrologia nada mais é que seu correlato arquetípico e simbólico – permite elucidar a história das almas…

– … e iluminar o caminho dos homens! – completou Nicolau – Hipócrates já considerava a astrologia imprescindível ao conhecimento médico – lembrou o ancião.

E antecipando-se ao pensamento que me ocorria, costumeiro toque de telepatia, pontuou com uma das máximas da Psicoterapia do Encantamento:

– “Por isso, os mitos jamais teriam sentido se não pudessem ser sentidos”. É preciso sim experimentá-los, deixar embebedar a alma pelas delícias de sua ambrosia. Daí a razão de o mapa natal ser uma das chaves-mestras da mitologia pessoal, com o que cada uma das curas será mais eficientemente acessada conforme saibamos decifrar o que nos sopram os deuses através de nossos planetas constelados.

E convidando-me à outra sala, pediu-me que acendesse a lareira, enquanto nos abriu um tinto seco trazido de um fabuloso Chateau du Vin que na Provence visitara. Feito o brinde à Nova Era do Aquarismo, pôs-me na mão o soneto a celebrar Urano, datado dos 34 minutos de 10 de abril, uma segunda-feira, primeira noite em que o mestre já se encontrava devidamente hospedado em uma casa templária, irmanado de alguns confrades de Ordem, em Montpellier.

(Novembro/2017)

URANO

Urano eletrizante, cibernético,
patrono do Aquarismo, a Nova Era,
um revolucionário de alta esfera,
primeiro transpessoal planeta eclético.

Rebelde iconoclasta, vocifera;
promove convulsões timbre apoplético;
caráter radiativo, magnético,
Urano, Rei dos Céus, nos destempera.

É o despertar do fogo em meio ao Kaos,
é o dínamo do Cosmos, primo impulso,
é o sete, antroposófico elemento!

Seu trânsito é o do quântico momento,
catálise das crises, céu convulso,
alçando-nos aos mais sublimes graus!

Nicolau Nicolei de Ptolodamus
Astrólogo do Rei
Porta-Céu de onde estamos
decassílabos heroicos
Sol exaltado a 20º15’19” de Áries
Lua Cheia a 5º13’35’’ de Libra
Urano a 24º12’54’’ de Áries, em casa IV
Sagitário Ascendente a 9º51’

2 Comments

  1. Andrea disse:

    Parabéns pela profundidade e informações contidas neste texto!
    Devidamente uraniano!

  2. Andrea disse:

    Paulo Urban!

    Leitura “obrigatória” para quem está pretendendo ampliar o olhar (telescópico e preciso) sobre a Transpessoalidade. Colocar Urano como um planeta antroposófico relacionando os setênios foi na mosca!

    Parabéns pelo texto primoroso! E rico de informações!

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