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Psicoterapia do Encantamento: Fundamentos, Símbolo e Arquétipos

PSICOTERAPIA do ENCANTAMENTO

seu fundamento, seu símbolo e seus arquétipos

Sic absconditur altitudo et manifestatur profunditas.
É preciso que as altitudes (o ego) se ocultem para que as profundezas (a alma) se manifestem.

(texto de Paulo Urban: urban@paulourban.com.br)

Psicoterapia do Encantamento: Fundamento e Propósito

A práxis da Psicoterapia do Encantamento essencialmente consiste em ‘explorar nossa Mitologia Pessoal e interpretá-la à luz da Alquimia’. Eis sua filosofal pedra de toque, a catalisar seu maior propósito que não é outro senão levar a alma à sua cura verdadeira e arquetípica.

Afinal, é com a alma, com sua presença viva, que lido em minha clínica todos os dias. Sim, creio na alma, entidade esta, infelizmente, cada vez mais desprezada, senão de todo ignorada pela psiquiatria que detém o discurso dominante ensinado nas Escolas. Aliás, tolice maior seria acreditar que a psiquiatria acadêmica pudesse considerar a alma, quando ela própria já vendeu a sua aos interesses da indústria farmacêutica.

Pois é na contramão dessa tendência dominante que exerço minha clínica. Nada distante dos preceitos fundamentais da psicologia profunda, a Psicoterapia do Encantamento valoriza, sobretudo, a realidade anímica, diante da qual diariamente me curvo frente à concretude dos fenômenos de sua inequívoca presença. E é pelo contato com cada um de meus pacientes que vislumbro suas almas; faço-o através do vivo brilho de seus olhos, e com elas posso ainda conversar através do sorriso e das pessoais histórias que me trazem. Também dou com as almas que gritam pelas chagas afetivas de que sangram, feridas estas por onde, desde que convidado a fazê-lo, com sacralidade irei entrar. E aprendi a tomar também a pulsação das almas através do humor, ora mais colérico ou sanguíneo, ora mais fleumático ou melancólico, com que se expressam tanto quanto eu cada um dos pacientes que me visitam. A propósito, é esse humor quem tempera as relações, quem vive a dar o sal e o sabor de cada um, a permear toda troca de energias que se estabelece entre mim e os que, buscando conhecer-se mais profundamente, me confiam sua clínica.

Autoconhecimento: a Intempestiva Busca por Si Mesmo

Conhecer-se, todavia, é tarefa que primeiro nos obriga a saltar no abismo de nós mesmos. Só mesmo ousando desse modo é que talvez possamos dar com a chave que nos abrirá as portas para uma melhor compreensão do drama da existência. Embora efêmera, nossa passagem por este mundo é mar revolto de provações e desafios, também um intrincado labirinto que cruzamos como peregrinos entregues ao bel-prazer da vida, sem garantia alguma de que venhamos a dar com a linha que nos guie à tão sonhada liberdade, à transcendência, à comunhão de consciências mais sublimes.

As Três Maiores Questões

Mas para que singremos os mares da vida, a fim de que o labirinto da existência seja um dia vencido, cabe à alma peregrina responder primeiro a três questões: De onde vimos? Quem somos? Para onde vamos?

É esta a trípode sobre a qual se escora a filosofia perene, também o núcleo em torno do qual orbitam os grandes questionamentos religiosos e científicos. Três grandes questões! Mas o que torna grande uma pergunta? Ora, justamente constatar que depois de termos lidado exaustivamente com os problemas que propõe, descobrimos que o melhor a se fazer é abandonar a tola pretensão de responder completamente a ela. Grandes perguntas cumprem, antes de tudo, nos levar à aventura do descobrimento, alçam-nos a reinos desconhecidos, e têm ainda o poder de nos desconcertar ao mesmo tempo em que nos convidam a penetrar nos Grandes Mistérios.

Vejamos: simplesmente não sabemos se vimos da água, como acreditava Tales de Mileto, ou se somos oriundos de outras estrelas ou galáxias como creem os mais entusiasmados. Também nunca detivemos em nossas mãos a essência de quê é feita a vida, o chamado apeiron de Anaximandro, o pneuma de Anaxímenes, o Fogo de Heráclito ou o Éter de Pitágoras. Os hindus nomeiam essa essência por prana, os taoistas o concebem como chi, os judeus o intitulam huarch, e a milenar cultura andina chama o alento por samay. Muitos são os nomes atribuídos a esse insondável mistério que nos põe vivos e existentes; cada uma das culturas arcaicas que especularam acerca da origem e das bases da vida lhe deu um nome diferente. Vale lembrar, contudo, que nossa ciência moderna, por mais que se locuplete de glórias, até hoje não decifrou que essência vital seria esta, como também jamais realizou o milagre de dar vida a organismo algum, ainda fosse este um mero protocelular.

Já na outra ponta do dilema, em que pesem os reiterados esforços das pesquisas científicas, o fato é que resta incólume e indevassável a ‘Velha e Metafísica’ questão: há vida após a vida? Sobrevive a consciência ao fenômeno da morte? Quem saberia dizê-lo? Que certeza há sobre isso?

Vale dizer ainda que, independentemente do tanto que filósofos, religiosos e cientistas palpitem a respeito, estas três questões são próprias dos homens comuns, de todo aquele que resolva investigar mais a fundo sua condição essencial, suas perdidas origens, seu desconhecido mundo interior. E, se por um lado, talvez jamais saibamos precisar a nossa origem, nem certeza alguma tenhamos do que nos espera após a morte (se é que, de fato, algo nos espera), por outro lado creio seja obrigação arriscarmos ao menos alguma resposta possível à segunda questão da tríade. Por sinal, a única que se nos revela mais palpável, haja vista que indagar ‘quem somos nós’ implica concomitantemente responder ao que ‘estamos fazendo aqui’, além do fato óbvio de que, por estarmos vivos, temos uma consciência, a importar consigo todos os mistérios que sob esse nome se incluem.

Óleo sobre tela do artista plástico Eduardo Vilela

Das três grandes questões, é esta aquela que tanto nos implica no drama da existência quanto nos instiga a buscar por aquilo que ‘somos essencialmente’, também por saber ‘por que estamos aqui’, algo que, necessariamente, leva-nos a indagar mais crucialmente acerca da missão pessoal que nos cabe na vida. E só mesmo em posse dela é que este labirinto da existência se nos revelará uma estrada com sentido.

Por isso, a Psicoterapia do Encantamento se dedica diligentemente a explorar a Mitologia Pessoal. Pois será através dela que melhor descobriremos qual missão nos cobra seja desempenhada por nós ao longo da vida. Quando tal entendimento acontece, entramos na frequência curativa que se traduz por uma verdadeira sensação de pertencimento a este mundo, fruto da natural reconexão de nossa alma com sua essência ulterior, seu âmago divino. Ademais, estar na posse de nossa própria Mitologia não só nos leva ao autoconhecimento e ao aprimoramento individual, senão, sobretudo, por ser ela nosso maior e mais autêntico portal de comunhão anímica, nos permitirá alçar às esferas mais sublimes de consciência, tanto interiores quanto transcendentes, mas, sobretudo, divinas.

Explorando a Mitologia Pessoal

arte de Christiane Messias

Uma Mitologia Pessoal compreende não só nossa individual biografia, isto é, a cotidiana história de nossa existência terrena, nosso Curriculum Vitae a bem dizer, mas, engloba também todo um Curriculum Animae, que se traduz por toda experiência arquetípica acumulada pela alma ao longo de sua peregrinação evolutiva, cabedal este que transcende infinitamente a dimensão do ego, posto que diz respeito às nossa memória atávica, à ancestralidade genealógica, também à ontologia da espécie.

Isto porque cada ‘personalidade alma’ (cada um de nós), em sua verdadeira essência não traz somente em seu psiquismo a noção de sua individualidade, senão todo um passado psíquico e holográfico do qual somos extensão viva e que sobre nós atua, inclusive com demandas próprias de cura. Noutras palavras, somos tão somente um ‘fractal de consciência’ que se atualiza a cada dia em relação a si mesmo no tocante à sua presente realidade, de modo que cada alma vivente se faz receptáculo de todo um passado que em sua complexidade genealógica lhe diz particular respeito. Somos, pois, recipiendários de experiências arquetípicas relativas a tudo aquilo que a espécie humana já vivenciou ou produziu em termos de cultura viva e manifesta.

‘Nova Consciência’, óleo sobre tela do artista plástico Eduardo Vilela

Bebendo da sabedoria do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), vale lembrar que trazemos em nosso âmago anímico tudo aquilo que desde os primórdios das Eras a humanidade produziu sob a forma de padrões psíquicos de funcionamento, material esse que reside essencialmente guardado nas instâncias mais arcaicas de nosso inconsciente arquetípico. Uma Mitologia Pessoal abrange, pois, todas as experiências que possam dizer respeito à alma, sejam vivências remotamente radicadas em nosso passado ancestral, sejam as experiências vividas atualmente, bem como as revelações que nos esperam no sagrado devir, toda vez que nossa personalidade comungue de estados ampliados de percepção e consciência.

Resumindo: uma Mitologia Pessoal é fruto de tudo aquilo que estamos aptos a vivenciar em termos psíquicos, oníricos e emocionais; é todo material arquetípico, elementar ou complexo, bruto ou trabalhado, simbólico ou não, que trazemos inerentemente presente em nosso psiquismo individual. E explorar essa mitologia, e interpretá-la à luz da alquimia, com dissemos desde o início, é o modus operandi da Psicoterapia do Encantamento.

Manuscrito Ripley, texto alquímico do séc. XV

A alquimia, nesse sentido, vem a ser tanto o mapa náutico quanto o fio de Ouro de Ariadne a servir ao psicoterapeuta do Encantamento em sua ousada tarefa de peregrinar lado a lado com seus pacientes-heróis por seus labirintos míticos. E desvendar a Mitologia que nos diz especial respeito talvez seja a aventura mais curativa capaz de nos reintegrar à nossa perdida fonte divina. Pois, a chave da felicidade primeiramente em descobrir qual missão nos pertence, e nada haverá de mais saudável do que dar vazão a ela e realizá-la em sua virtuosa plenitude só isso pode dar a alma o real sentido de seu fundamental papel no fabuloso drama cósmico da vida. Por isso o psicoterapeuta do Encantamento deve inspirar-se na sabedoria esotérica da alquimia, pois nela é que melhor encontrará todas as referências tanto simbólicas quanto práticas para intuir como deverá agir junto a seus pacientes-peregrinos, no intuito melhor curá-los, ajudando-os, pois, a compreender mais visceralmente o significado de seus próprios mitos, pois, assim como roga a Psicoterapia do Encantamento: os mitos só têm mesmo sentido quando são, de fato, sentidos.

Mas… de que se compõe uma Mitologia Pessoal?

Pitonisa sobre a trípode – Oráculo de Delphos

Dado ao seu aspecto oracular, a orientar os nossos peregrinos passos na estrada da existência, podemos poeticamente imaginar a Mitologia Pessoal como se fosse ela própria uma Pitonisa de Delphos, assentada sobre uma trípode, sempre pronta a nos soprar seus melhores vaticínios, seus dísticos enigmáticos que farão instigar a alma a descobrir por si tudo aquilo de que mais precisa. Sua sagrada trípode faz-se assim representar por:

1. O estudo do Nome, a apontar para nossa ancestralidade geográfica, genealógica e psicogenética;

2. O estudo do Mapa Astral, com toda a complexa mitologia que nele se deslinda e nos é inerente; nosso mapa natal é propriamente a ‘Mitologia que inspiramos’ junto com nosso primeiro alento, e, ainda:

3. Nossos ‘Sonhos de Vida’, a apontar para o devir, para tudo aquilo que devemos realizar como obra pessoal e missionária nesta vida.

Esta trípode nos cobraria um capítulo inteiro a destrinchar o que mais suporta cada um de seus pés, tarefa muito além dos limites deste texto, mas, para que não deixemos totalmente aberta esta lacuna, citemos:

Quanto aos nossos Nomes

Nossos nomes são peças-chave no entendimento de nossa própria mitologia. Cada nome encerra em si um inconsciente segredo que requer ser desvendado; contêm não somente a intenção mais clara de nossos pais em decifrar o mistério de nossa alma, como trazem consigo, em seu bojo genealógico e ancestral, toda a energia que sintetiza, em sua literal pronúncia, em sua imagem mais perfeita, a essência de nossa atual missão terrena.

Johann Wolfgang von Goethe

Parafraseando o poeta Fernando Pessoa (1888-1945) em seu clássico poema “Iniciação”, permito-me dizer que “Nossos Nomes são sombras das vestes que encobrem nosso ser profundo”. E vale trazer à nossa ilustração a clássica frase de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) quanto ao tema:

“O nome de um homem não é como uma capa que lhe está sobre os ombros, pendente, e que pode ser tirada ou arrancada a bel prazer, mas uma peça de vestuário perfeitamente adaptada ou, como a pele, que cresceu junto com ele; ela não pode ser arrancada sem causar dor também ao homem”.

Quanto ao estudo do Mapa Natal

Comungamos aqui em gênero, número e grau com os princípios da medicina alquímica e astrológica de mestre Paracelso (1493-1541), que nos deixou sua lapidar premissa, norte desse meu trabalho psico-clínico:

“Todo Homem nasce constelado, e a Via Láctea passa por seu ventre”.

A fazer valer a segunda lei da Tábua de Hermes Trimegistus que roga que “Assim como é em cima é embaixo, e assim com é em baixo, é em cima, e isso para perpetuar o milagre da coisa inteira”, Paracelso enxergava o corpo humano como um perfeito correlato (holográfico, eu diria) do ‘céu que respiramos’ e que, por isso, nos pertence, cuja constelada essência é impressa feito imago dei em nossa alma por ocasião de nossa primeira inspiração. Compreender esse céu, roga o Encantamento, por conseguinte, é apropriar-se de todos os deuses e deusas que nos pertencem, tanto aqueles que nos abençoam quanto os que nos lançam seus desafios, em perfeita consonância com os aspectos planetários presentes em nossa Mandalastral natal.

Ademais, citemos novamente mestre Pessoa por meio de Raphael Baldya, judeu português, seu heterônimo astrólogo: “A função de toda astrologia não é outra senão trazer luz e ampliar a consciência humana”. Daí a razão de ser imprescindível o estudo do tema natal e dos trânsitos planetários de cada um dos pacientes do Encantamento. Só mesmo trazendo à luz consciência o significado de suas consteladas matrizes simbólicas e arquetípicas constantes em sua Mandala natal, é que cada um de nós melhor descobrirá quais são seus principais naturais talentos, virtudes estas que pedem sejam trabalhadas e desenvolvidas ao longo de nossas respectivas histórias de vida. E nessa particular preferência não me uno somente aos mestres Paracelso e Fernando Pessoa, mas também ao psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, criador da Psicologia Analítica, outro farol a guiar pelos mares do inconsciente as Caravelas do Encantamento, cada vez que me lanço em nova venturosa empreitada terapêutica.

Quanto aos Nossos Sonhos de Vida

De toda a Mitologia que nos diz especial respeito, é esta sem dúvida sua melhor parte. Ora, quão espúria seria a vida se não sonhássemos, afinal, “Somos feito do estofo com que se fazem os sonhos, e nossa vida é curto intervalo entre dois sonos”, palavras do mago Próspero, último ato de ‘A Tempestade’ de Shakespeare (1564-1616). Nossos sonhos têm a ver precisamente com o mundo que queremos ver realizado à nossa volta, com a realidade que ansiamos seja a nossa. Sigamos, pois, o conselho do mitologista Joseph Campbell (1904-1987): “We just have to follow our bliss, wherever it goes… – …tudo o que precisamos fazer é seguir nossos sonhos, aonde quer que eles nos levem”.

Arcano VII do ‘Tarô da Nova Consciência’, do artista plástico Eduardo Vilela (óleo sobre tela)

Quando quer a alma se deixe encantar por seus sonhos e os veja realizando-se, aprende logo a contar e a cantar suas histórias. Ter sonhos e crer em suas verdades, dar vazão ao que eles pedem, talvez seja a melhor maneira de criarmos as condições necessárias para que a personalidade alma se realize plenamente, que se perceba, enfim, feliz em si mesma. Claro que não me refiro aqui à falsa alegria, própria dos estados de euforia e de entusiasmo tolo, senão à felicidade do estar em paz consigo mesmo e, por conseguinte, com o meio que nos cerca. Felizes são os simples, bem-aventurados os que mantêm seu coração de criança, pulsando em concordância mística com o Universo que nos contempla, do qual somos divina centelha em vias próprias de expressão.

E este é o único momento em que o devir realmente importa: quando sonhamos. Nada a ver, portanto, com a prospecção de desejos egoicos, com projetos de posse e conquista, planos de poder que tanto nos afligem e cumprem nos tirar do eixo cósmico e anímico de harmonia.

Ter sonhos de vida, fundamentalmente, nos põe em contato direto com a beleza do mundo, em sintonia com o sagrado instante do ‘aqui e do agora’. Em nada tais sonhos prejudicam a alma em seu processo sempre legítimo de apropriar-se de seus reais talentos e vê-los prosperar, tanto para o bem de si mesma quanto para o dos que se envolvam em sua aura de alegria. E é assim que as almas também se descobrem mais encantadas com a vida.

O Símbolo da Psicoterapia do Encantamento

O símbolo da Psicoterapia do Encantamento expressa o casamento alquímico entre as artes médicas e a psicologia profunda, fonte natural de onde podem surgir as psicoterapias genuínas.

Tal união encontra-se aqui representada pelo entrelaçamento da serpente de Asclépio (consagrada à medicina) em torno da 23ª letra do alfabeto grego, psi, que lhe serve de caduceu. Psi tanto é raiz da palavra psicologia, como também ícone que alude ao tridente de Posêidon, mestre dos mares, senhor das profundezas desconhecidas e titânicas.

A interação alquímica entre medicina (particularmente, a psiquiatria) e psicologia ocupa o centro de uma estrutura elíptica e mandálica, portanto, íntegra e completa em si mesma, delineada dinamicamente pela perene dança de quatro golfinhos, símbolos por excelência do mundo inconsciente, que giram em sentido anti-horário, a potencializar o caráter introspectivo e espontâneo de seu movimento.

O Sagrado Quatérnio

O número quatro, conforme nos ensinam os pitagóricos, reforça a ideia de totalidade. Tal noção originalmente foi concebida pela mente arcaica, que leu nas estações do ano a inteireza e plenitude dos ciclos naturais que se sucedem e se renovam uns aos outros, ininterruptamente. Desta apreensão intuitiva derivou, por exemplo, a concepção cosmogônica de Empédocles (séc. VI a.C.), médico filósofo da antiga Grécia, também um dos pais da alquimia (de quem Hipócrates foi discípulo), para quem a essência última da vida deveria ser composta pelos quatro elementos básicos da natureza (água, fogo, terra e ar), de cuja interação todas as coisas se manifestam.

Consoante essa ideia de integração, dinamismo e completude, são quatro os graus da Psicoterapia do Encantamento, cada qual representado por um golfinho de cor distinta (laranja, verde, branco e lilás), todos eles, entretanto, em seu movimento cíclico, orientados em torno de um núcleo mandálico que lhes é comum, e a expressar a totalidade harmônica de seu conjunto, que perenemente se transforma em sua dança, favorecendo a transmutação de todo aquele que se permita levar pela sintonia desse eterno movimento; afinal, “Não deveríamos crer num Deus que não soubesse dançar”, disse Nietzsche (1844-1900), certa feita.

Estes 4 Graus do Encantamento, entretanto, não correspondem a nenhuma escala hierárquica; pelo contrário, guardam entre si uma permeabilidade recíproca, a formar um todo holográfico em que cada uma de suas partes, ainda que distinta das demais, se completa mutuamente e conserva em seu âmago as propriedades do conjunto. São eles:

1º Grau: Sessões de Hiperventilação
2º Grau: Sessões Psicoterápicas do Encantamento, propriamente ditas;
3º Grau: Vivências Xamânicas
4º Grau: Ritos Iniciáticos e de Peregrinação

Falemos sucintamente deles, no intuito de assim apresentá-los:

I GRAU - SESSÕES de HIPERVENTILAÇÃO  

O golfinho de cor laranja, associado ao elemento ar, é selo do I Grau da Psicoterapia do Encantamento, que se traduz pelas Sessões de Hiperventilação.

O golfinho do I Grau curva-se em sentido anti-horário para iniciar seu mergulho em busca das hostes inconscientes. Leva consigo todo o ar inspirado que lhe oxigenará suas descobertas na viagem para dentro de si mesmo. Por isso este Grau é eminentemente respiratório, para que as Revelações vindouras, fruto do dedicado trabalho de busca pessoal, mostrem-se à alma lúcidas e hipeventiladas.

II GRAU – PSICOTERAPIA CLÍNICA

O golfinho de cor verde, associado ao elemento água, é selo do II Grau da Psicoterapia do Encantamento, que se traduz pelas Sessões Psicoclínicas.

Ele é o primeiro a penetrar na metade inferior (mundo oculto) da mandala elíptica, abrindo as portas para o exercício da Psicoterapia do Encantamento propriamente dita, classicamente caracterizada por sessões individuais e regulares, mediante o que se desenvolverá todo o processo clássico psicoterapêutico.

Este II Grau responde pela Clínica, compreende, pois, nossas regulares sessões de terapia, tratamentos individuais que ocorrem no âmbito de um consultório. Clínica é termo cunhado por Hipócrates (séc V a.C); em grego, significa “medicina ao pé do leito”. Traduzindo-o em acordo com os nossos ideais, a Clínica do Encantamento, particularmente, exige do psicoterapeuta que este se torne verdadeiro “amigo da alma” de seus pacientes, que se ponha, pois, o mais próximo e acercado dela. A propósito, seja qual for a linha de psicoterapia em curso, jamais haverá cura possível sem que primeiramente se estabeleça alquímica empatia entre paciente e terapeuta. Lamentavelmente, este princípio acha-se por muitos esquecidos. Quanto a isto devo dizer: em suma, nunca é o ego do médico quem realiza as curas, mas sim a dose de amor divino que ele é capaz de suportar todas as vezes que se ajoelha ao pé do leito de seus pacientes na esperança de ajudá-los. Por isso, acercar-se das almas que sofrem e reconhecê-las em suas reais necessidades, é o mais acertado passo para que um trabalho clínico se inicie e dê bons resultados. Toda vez que esta ponte clínica se estabelece, assim compreendo, muitos são os anjos e as bênçãos que cuidam orientar médico e paciente em direção à cura desejada.

É de vital relevância a relação entre terapeuta e paciente; desde que regrada por paciência e oração, poder-se-ão operar todos os ensaios e experimentações necessários até que o paciente, sentindo verdadeira confiança, entregue a quem lhe trata a chave com que se abrirá a porta de antecâmara de seu templo interior, em cujo altar mora o Eu Maior. Este Primeiro Átrio é passagem obrigatória e preparatória a todo Templo de Cura. Neste Átrio é que a alma se descobre em posse da palavra de passe, isto é, de sua senha pessoal, que fará proferir seu mais justo pedido (de ajuda), nenhum outro senão aquele que lhe permitirá ingressar na sacralidade de seu universo psico-mitológico.

III GRAU -RITOS XAMÂNICOS 

O golfinho de cor branca, associado ao elemento terra, é selo do III Grau da Psicoterapia do Encantamento, que se traduz pelas Sessões Xamânicas com Plantas de Poder.

O III Grau do Encantamento recebe nítida influência da cosmovisão andina, a qual venho paulatinamente assimilando desde 1996, ano em que se deu meu primeiro contato pessoal com um médico e sacerdote jampiri, de etnia quetchua (nome também da língua que unia todo o Império Inca), mestre este que me iniciou nos mistérios da Ayahuasca e da Uachuma, muito embora eu já comungasse desse sacramento desde 1990.

Por isso o 3o golfinho acha-se em sentido ascendente, em oposição ao golfinho laranja, visto que provém de nossas absconsas profundezas, trazendo à consciência os potenciais que jazem em nosso interior e que cobram ser assimilados para que o psiquismo se reconheça como um todo.

IV GRAU – RITOS INICIÁTICOS e de PEREGRINAÇÃO

O golfinho de cor lilás, associado ao elemento fogo, é selo do IV Grau da Psicoterapia do Encantamento, que se traduz por Ritos Iniciáticos e de Peregrinação.

Em oposição ao golfinho verde, o golfinho lilás está no plano superior da elipse e se curva para entregar seu movimento ao primeiro golfinho que de novo irá mergulhar nas profundezas, de modo a completar a Mandalencantada.

Centrado no espírito dos Grandes Mistérios de Elêusis, o IV Grau nos ensina a morrer para renascer em plenitude. Por isso, preferencialmente deve ser vivenciado por almas mais velhas, inclinadas a ‘sofrer’ sua iniciação como metáfora dos dramas arquetípicos da existência.

Tanto os ritos iniciáticos quanto as peregrinações têm o poder de gerar energia a fim revelar os vales e montanhas pelos quais atravessa toda alma peregrina, e desempenham, sobretudo, o papel de harmonizar nossos complexos mais neuróticos às suas respectivas fontes arquetípicas de cura.

UMA PSICOTERAPIA MANDÁLICA

Neste sentido A Psicoterapia do Encantamento, quer em sua estrutura arquetípica, quer em sua dinâmica, corresponde toda ela a uma mandala viva e operante.

Seu 4 Graus traduzem genuínos processos de catalisação da energia psíquica por eles gerada e experimentada em estados de consciência ampliada ou não, energia esta que, por sua vez, é direcionada em seu caráter quântico e holográfico aos processos arquetípicos de cura. Pelo exercício destes 4 Graus somos levados a receber de nossas águas mais profundas tudo aquilo que esteja prestes a ser constelado à luz da consciência, a fim de que assimilação desses valores alce a alma peregrina a vivenciar sua curativa catarse psicoemocional.

UM OROBORO TERAPÊUTICO

Nossos 4 Graus descrevem, pois, um Oroboro clássico em seu conjunto. Símbolo alquímico universal, o Oroboro expressa o caráter cíclico e perfeito da Criação, representado que é por formas circulares ou elípticas, geralmente circunscritas por uma serpente ou um dragão alado cuja boca morde a própria cauda, a insinuar que a natureza divina seja algo essencialmente sem começo, meio ou fim, além de absoluta, posto que vive ‘fechada em si mesma’.

Paradoxalmente, esta mesma natureza divina, assim creem os alquimistas, tanto evolui quanto se transforma ao mesmo tempo em que se devora. Destarte, o Oroboro expressa a marcha da vida em seu caráter dinâmico, em sua perene pulsação, a fazer da morte mera metáfora a ser transposta pela alma que se permita entrar em justa sintonia com o ritmo e o movimento da ‘eterna dança da vida’.

Em síntese, o símbolo da Psicoterapia do Encantamento expressa sua verdade psicológica: a de que o genuíno caminho da alma, conscientemente trilhado ou não, é justamente aquele que faz cumprir o Oroboro. Pois, só o Oroboro força a alma a debruçar-se sobre si mesma em seu desejo puro de conhecer-se, e só o Oroboro a leva a projetar-se em seu próprio abismo a fim de encontrar-se com si mesma na esperança de resgatar para si toda Luz divina de que nasceu essencialmente dotada.

Assim roga o nosso dístico, a acompanhar o Símbolo da Psicoterapia do Encantamento, conforme extraído de antigo manuscrito da Tradição Alquímica:

“Et ipse quadrangulum qui interficit et vivificat seipsum.
Sic absconditur altitudo et manifestatur profunditas.”

“Esta é a mandala que se devora e se revifica a si mesma.
É preciso que as altitudes (o ego) se ocultem para que as profundezas (a alma) se manifestem.

One Comment

  1. Impressionante! Nem bem Marte entrou em Aries, já caminhando para uma conjunção com Urano e outras configurações pessoais, e eis-me aqui, aos pés do Conhecimento.
    Sim, vou seguir todos os links indicados, Paulo. Muitobrigada.

    Um grande abraço ficando com a Gratidão.

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