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Reconhecendo o Céu de Primavera

RECONHECENDO O CÉU DE PRIMAVERA

 Texto de Paulo Urban, publicado na Revista Planeta, edição nº 396, setembro/2005

Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento.

ilustração – Gasperi e Uggeri

Neste derradeiro capítulo de nossa viagem cósmica, observaremos o céu de primavera, não menos rico em mitologias e curiosidades astronômicas que os céus das demais estações. Nessa época a Via Láctea se espalha feito bruma predominantemente ao longo do horizonte oeste.

Espinha Dorsal da Noite, arte de John Lomberg

Retomemos nosso percurso a partir da constelação da Águia (Aquila para os romanos). Posicionados de frente para o Norte, a encontraremos num vôo de mergulho em direção ao ocaso, no ponto Oeste (à nossa esquerda, portanto).

Não será necessário grande esforço imaginativo para que vejamos uma águia de asas abertas, demarcada pelas estrelas deste asterismo. Altair (alfa Aquilae), de 1ª magnitude, é sua cabeça. O nome árabe se traduz por “o pássaro que voa”. Altair é ainda uma de nossas companheiras mais próximas, distante somente 16 anos-luz do sistema solar. Beta e gama Aquilae, as proeminências dianteiras das asas, brilham praticamente lado a lado de Altair e compõem respectivamente com teta e zeta Aquilae o desenho de suas asas plenamente abertas. Lambda Aquilae pontua a extremidade da cauda do rapinante e se encontra numa área rica da Via Láctea, que merece ser vasculhada com a ajuda de um simples binóculo. 

Deslocando nosso aparelho óptico algo mais para o norte e um pouco mais para cima em relação à linha do horizonte, encontraremos um pequeno grupamento estelar denominado Delphim. Nosso golfinho celeste ganhará vida se observado através de uma luneta comum. Gama Delphini representa sua cabeça; trata-se de uma binária composta por astros de 4ª e 5ª magnitudes, facilmente observáveis. Curiosamente, o golfinho parece estar imerso nas águas de uma imensidão azul-esverdeada, graças à miríade de estrelas que, feito purpurina sideral, compõem seu pano de fundo.

Sistema binário estelar de ‘gamma Delphini’

Constelação de Delphinus, ou ‘O Golfinho’: a representar no firmamento a Nova Consciência Planetária

No Cosmos infinito voa alado Pégaso, também arquétipo da Nova Consciência, aqui em seu caráter alquímico sublimado

À direita do Delphim, a meia altura no céu e bem diante de nossos olhos que fitam o Norte, facilmente identificamos um quadrilátero (um losango) brilhante formado por estrelas de 2ª magnitude. É Pégaso, o cavalo alado de Perseu, constelação símbolo da primavera. A bem da verdade, somente três destas estrelas compõem o dorso do animal: alfa, beta e gama Pegasi, pois a quarta estrela, na ponta extrema direita do losango, é alfa Andromedae, estrela mais brilhante pertencente à constelação de Andrômeda, esposa de Perseu. A estrela mais alta do losango, Gama Pegasi, recebe o nome árabe de Algenib, que significa “a asa”; alfa Pegasi, na ponta esquerda do losango, é dita Markab, que se traduz por “sela”; dela se estende uma série de estrelas que desenham o pescoço e a cabeça deste eqüino voador, estando Enif (épsilon Pegasi), o “focinho”, também de 2ª magnitude, situado em sua ponta extrema, a 815 anos-luz da Terra.

Perseu liberta Andrômeda, tela de Joachim Wiewael, 1630

Perseu liberta Andrômeda, tela de Joachim Wiewael, 1630

O mito nos conta que Perseu voava montado em Pégaso quando avistou Andrômeda, filha de Cefeu e Cassiopéia, reis da Etiópia, nua e acorrentada aos pés de um penhasco à beira-mar, prestes a ser devorada por Cetus, terrível monstro marinho, enviado por Posêidon primeiramente com o intuito de devastar toda Etiópia por meio de constantes maremotos. O poderoso deus dos mares fizera isso em atenção à queixa unânime das Nereidas, que se viram enciumadas e injuriadas com a arrogância de Cassiopéia, que passava os dias se gabando de ser muito bela, também mãe da virgem mais linda do mundo, ambas de beleza sobejamente superior à de qualquer ninfa marinha. Somente o sacrifício de Andrômeda, oferecida a Posêidon por Cefeu, seria capaz de aplacar a fúria da maldita besta aquática. Nisto surge Perseu, que petrifica o monstro com sua imbatível arma: a cabeça da Medusa. Apaixonado por Andrômeda, o herói decide raptá-la para com ela se casar em Tirinto, onde será aclamado rei.

Própria do céu boreal, Andrômeda só pode ser observada perto do horizonte em nossas latitudes: mostra-se por duas linhas de estrelas perfiladas, quase longitudinais, que partem de sua cabeça (alfa Andromedae) a demarcar os lados direito e esquerdo do corpo da princesa. A 2 graus oeste de nu Andromedae se encontra o mais remoto corpo celeste passível de distinção a olho nu em noites límpidas, a Grande Nebulosa de Andrômeda (Messier 31) que, semelhantemente à Via Láctea, é uma galáxia espiralada. Um simples binóculo é suficiente para a visualização de seu núcleo e ao telescópio esta nebulosa se apresenta sob forma oval. Deve-se ao astrônomo árabe Al Sufi (século X) a sua pioneira observação. O filósofo Emmanuel Kant, ao observá-la no século XVIII propôs que outros sistemas estelares além do nosso existiriam, e os chamou de “Universos-Ilhas”.

Galáxia Andrômeda, NASA, telescópio Wise

Galáxia Andrômeda, NASA, telescópio Wise

Mas foi somente com o advento do telescópio Hubble, lançado em abril de 1990 pela NASA a partir da nave espacial Discovery, que os cientistas descobriram que a Via Láctea está se aproximando da galáxia de Andrômeda a 480 mil Km/h. Como Andrômeda se encontra a 2,3 milhões de anos luz daqui, espera-se um titânico choque de galáxias daqui a uns 5 bilhões de anos! A colisão, em nada parecida à que ocorre entre bolas de bilhar, deverá produzir uma compressão de gases entre ambas as galáxias, capaz de provocar o nascimento de milhões de novas estrelas, ao mesmo tempo em que nosso Sol e seus gravitados planetas serão violentamente desalojados de suas órbitas, uma vez que as duas hélices espiraladas de nossa Galáxia devem partir-se em pedaços em virtude desse eventual mergulho de Andrômeda no coração da Via Láctea.

Capricórnio – tapeçaria do francês Lurçat

Situadas um pouco mais alto na abóbada e ao longo de uma extensa área cuja convexidade cobre Pégaso e Andrômeda, estão as quatro constelações zodiacais que ainda restam por serem identificadas.  Comecemos por Capricórnio, que será visto a noroeste. Constel.Capricórnio.0.55 Os antigos babilônios assim batizaram este asterismo possivelmente por associarem sua presença ao fenômeno da migração das cabras, que abandonavam as montanhas com a chegada do inverno. Isto porque há 2 mil anos, o Sol atingia Capricórnio a 23º30’ ao sul do equador no solstício de inverno, e Câncer a 23º30’ ao norte, no solstício de verão, razão pela qual nossos geógrafos deram estes nomes às duas mais importantes latitudes tropicais. Capricórnio compõe-se de estrelas em sua maior parte inexpressivas; as de maior magnitude, porém, descrevem um triângulo. Alfa Capricorni é encontrada pelo prolongamento de uma linha imaginária que liga beta e épsilon Pegasi ao dobro de sua distância. Quase colada a ela está beta Capricorni. Alfa e beta podem ser vistas separadas se observadas através de um binóculo. Não formam, entretanto, um sistema binário; acham-se apenas aparentemente próximas uma da outra, pois estão na mesma “linha de visão”.

Constel.Aquário.0.45

Nebulosa Anelar de Aquarius

Aquário, décima primeira constelação zodiacal, à leste de Capricórnio, caracteriza-se por uma linha côncava de estrelas cujo início se dá no espaço situado entre Capricórnio e Pégaso. A entrada do Sol nesta constelação indicava para os povos mesopotâmicos que a estação das chuvas era chegada. Os egípcios entendiam que sua presença influenciava, sobretudo, as cheias do Nilo, de modo que sua aparição regrava os ritos de fertilidade. Os árabes igualmente associavam a constelação do aguadeiro ao melhor dos agouros, haja vista que alfa e beta aquarii são chamadas respectivamente Sadalmelik (corruptela da expressão Al sad al malik – “longa vida ao rei”) e Sadalsuud (oriundo da expressão Al sad al suud, usada para desejar-se boa sorte). Inúmeras binárias podem ser vistas no Aquário através de simples instrumentos ópticos. Exemplo delas são delta, lambda e tau Aquarii, cujo colorido em vermelho e branco, sob o fundo negro do cosmo, nos reporta ao romantismo alquímico, associando o espírito ocultista de Urano, planeta regente de Aquário, às operações do nigredo, albedo e rubedo.  Pouco ao norte de beta Aquarii acha-se o aglomerado Messier 2, um dos segredos desta constelação, que pode ser vasculhado por telescópios comuns.

Constel.Peixes.0.4

A constelação de Peixes será vista acima e a leste de Pégaso. Um prolongamento de reta traçado entre beta e gama Pegasi nos levará a descobrir alfa Piscium, de 3ª magnitude, chamada pelos árabes de Al Rischa, que nela viam a “espinha” do peixe. Já para os persas, assírios e outros povos mesopotâmicos, alfa Piscium representava o ponto de união entre dois peixes. Os gregos aproveitaram-se da crença e conceberam que, certa feita, precisando Afrodite e seu filho Eros escapar da perseguição do monstruoso Thyphon, resolveram transformar-se em peixes e mergulhar nas águas de um rio. Palas Atena os teria mais tarde colocado na abóbada, unidos pela cauda. Daí o outro nome deste asterismo: Eros e Afrodite, ou ainda, Vênus e Cupido entre os latinos.

Constel.Áries.0.5

Fomalhaut: hoje, sabidamente um sistema planetário

Áries, nosso último grupamento zodiacal, é o primeiro na ordem de apresentação, segundo estabelecido pelos babilônios, isto porque há 2.500 anos o Sol aí entrava para marcar o equinócio de primavera, início do ano astrológico. Áries está a leste de Peixes; tanto quanto a constelação anterior, não apresenta estrelas muito brilhantes. Destaca-se alfa Arietis, de 2ª magnitude, dita Hamal, “a cabeça do carneiro” em árabe, que tem cerca de 70 vezes a luminosidade do Sol e está a 75 anos-luz de distância.

Importante agora que o leitor se volte de frente para o Sul (o leste ficará à esquerda e o oeste à direita) para a apreciação do Peixe Austral, que será visto quase no zênite, a sudoeste. Ele se destaca pelo intenso brilho branco de Fomalhaut, simplificação da expressão Fam-al-hout-al-ganoubi, que significa “o olho do peixe”. Fomalhaut, de 1ª magnitude, a 23 anos-luz de nós, é a quarta e última estrela real de Ptolomeu; há milênios tem servido aos navegantes e constitui-se em um referencial também para os astronautas. Vale a pena localizar a binária beta Piscis Austrini, de 4ª magnitude, que ao telescópio irá revelar sua companheira azulada de 7ª magnitude.

Grande Nuvem de Magalhães

O Hemisfério Sul, por várias razões privilegiado em relação ao Norte, permite ainda a exclusividade do espetáculo das Nuvens de Magalhães, a Pequena e a Grande, próximas entre si na abóbada e distantes de nós respectivamente 190 e 160 mil anos-luz. Abrigam bilhões de estrelas em seu interior. Sem dificuldades o leitor poderá encontrá-las a meia altura no céu, olhando em direção Sul. Elas estão na área que compreende as constelações de Tucano, Hydrus e Dorado, identificáveis em nossos mapas. Tucano está logo à direita (a oeste) da Pequena Nuvem, cujo brilho ultrapassa o da Nebulosa de Andrômeda, já estudada. Hydrus situa-se entre as duas Nebulosas de Magalhães, e Dorado está justaposto à esquerda (leste) e acima da Grande Nuvem. Também chamadas de Nubecula Major e Nubecula Minor, são em verdade galáxias satélites da Via Láctea que, mesmo à vista desarmada, salvo em noites de lua cheia, mostram-se como tênues manchas esbranquiçadas. Seu nome presta homenagem ao navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521) que, durante a primeira viagem marítima de circunavegação, as descreveu em seu diário de bordo. Vale a pena admirá-las!

Pequena Nuvem de Magalhães

Evidentemente, nossa aventura não termina aqui; somente demos uma volta no ciclo celeste, indicando ao leitor o que de mais interessante se pode observar nos fascinantes céus de cada estação. Apenas nos introduzimos num terreno onde nem mesmo a ciência deve ter a pretensão de saber tudo sobre as coisas. Afinal, o mundo atômico, o cosmos estrelado e o psiquismo humano, juntos compõem a trípode dos mistérios sobre a qual a ciência pode até mesmo se sentar, mas nunca com mais verdades do que as proferidas pelas sacerdotisas de Delphos, elas próprias representantes da instância transcendente e sagrada que nossa mente racional não ousa desvendar. Ademais, a martelada de Heisenberg continua ressoando agudamente no abismo: nestes três reinos impera incólume o seu “princípio da incerteza”, que nos ensina que nossas maiores conjecturas são meros olhares desarmados, que se complementam em busca de uma sabedoria imponderável, incapaz de se deter pelas mãos da mais avançada das tecnologias!

 Obs: nosso texto está em acordo com estas duas cartas celestes, que representam uma parte do céu noturno do Hemisfério Sul, válidas para toda a primavera.

Céu de Primavera - vista para o Norte

Céu de Primavera – vista para o Norte

 

Céu de Primavera - vista para o Sul

Céu de Primavera – vista para o Sul

Este é o mesmo céu que o leitor encontrará, por exemplo, em:

1º de setembro às 00h30min

15 de setembro às 23h30min,

1º de outubro às 22h30min,

15 de outubro às 21h30min,

1º de novembro às 20h30min e

15 de novembro às 19h30min.

N.B.: As quatro ilustrações que representam as constelações de Capricórnio, Aquário, Peixes e Áries, foram retiradas de livros que as retratam no Hemisfério Norte; logo, identificar-la-emos respectivamente em nosso céu austral como se estivessem de “cabeça para baixo” em relação às suas imagens, respectivamente aqui postadas.

One Comment

  1. vitor disse:

    Meus parabéns, o texto está perfeito; sou astrônomo (muito) amador e ainda não conheço muito bem o céu de primavera, me dou melhor com as constelações mais fáceis: escorpião, touro, órion, cão maior, etc.

    Mais uma vez, meus parabéns; visite meu blog (www.blog-do-hermes.blogspot.com), lá também tem um pouco de astronomia/mitologia, espero que goste.

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