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Histórias: Medicina para a Alma

HISTÓRIAS: MEDICINA PARA A ALMA

(Breve excerto do “Confessio Medicinalis”, ensaio clínico ainda inédito, pelo qual, à moda de uma carta de intenções, o médico psiquiatra Paulo Urban declara alguns princípios terapêuticos da práxis da Psicoterapia do Encantamento)

É a fim de ‘bem curar’ que desenvolvo a arte de narrar histórias. Aprendi com mestre Paracelso (1493-1541) desde cedo a fazer as coisas de meu jeito; foi ele, inclusive, quem me sugeriu curar assim, conversando tanto com os pacientes quanto com suas respectivas doenças que pedem ser tocadas e tratadas em sua verdadeira natureza. Por isso, quando clinico, ouço histórias de vida em resposta às quais, conto outras de cura.

Spirit of Freedom – pintura do artista plástico Alex Fishgoyt

Tudo que as histórias mais pedem é que possam ser contadas. Eis o seu maior segredo. Estar sensível a isso nos põe decididamente na senda que permite à alma expressar plenamente todo o potencial guardado em sua divina essência. Essa é a verdadeira cura a que aspiramos: conhecer face a face o Ser que habita em nós essencialmente. E as histórias cumprem esse fabuloso papel de nos dar o itinerário a ser seguido para que o real encontro de cada um consigo mesmo se realize à Luz da Grande Consciência, e assim se perpetue por natural encantamento.

Desse modo é que se opera a alquimia clínica da Psicoterapia do Encantamento, a mesma que me cobra estar aberto à mitologia pessoal de meus semelhantes para interagir sobre cada uma delas com minha própria mitologia. Ao longo desse processo interativo, na intimidade de almas que uma práxis assim requer, é que tantas sincronicidades se apresentam. Presumo sejam elas as ‘assinaturas dos anjos’ que vêm assim distribuir suas benesses sobre o caminho que surge toda vez que dois ou mais se reúnem em nome do amor e na sincera intenção de servir ao propósito da cura. Esta via que se abre, diga-se ainda, é de mão dupla, a facilitar esse natural milagre de que paciente e terapeuta se curem mutuamente, um através do outro, ambos pelo banho desse amor que lavando nossas almas, nos purifica.

Tal interação, essa troca de confidências e de histórias de vida, traduz sempre um rito a ser oficiado no secreto laboratório alquímico de todo peregrino que, submetendo-se à Psicoterapia do Encantamento, busque conhecer-se melhor e mais profundamente. Para tanto, porém, é preciso antes percorrer intrincados labirintos existenciais que, apenas se trilhados com entrega e perseverança, acabam mesmo por nos levar à soleira desse laboratório, que não é outro senão o sagrado coração de cada um. Só assim podemos então, arregaçadas as mangas, junto a cada paciente começar a depurar a ‘prima-matéria’ psíquica individual que pede ser alquimicamente transmutada.

Em cada labirinto desses que penetro, quero apenas dar com a linha. E é a fim de encontrá-la que a mitologia pessoal de cada paciente cobra ser explorada e vivenciada, para que seja em seus mistérios decifrada. Desfiar esta linha e seguir seu curso por onde quer que nos leve, é aprofundar-se nessa trama arquetípica. É ainda permitir à alma que vivencie seu particular enredo, o mesmo que a levará a interagir com toda a potência das personagens que fazem parte de sua particular mitologia, bem como provar das diferentes situações que igualmente dizem respeito às suas viscerais histórias de vida.

Observo ainda que vivemos todos à procura de um melhor desfecho para os capítulos do grande romance em que se traduz nossa existência. Ser personagem principal de nossa própria história, entretanto, não é tarefa fácil. Tudo só começa a melhorar quando, enredo já avançado, compreendemos que não há quem possa nos substituir nesse papel, e aceitamos de uma vez por todas encarná-lo com a viva promessa de dar vazão aos nossos melhores talentos, no intuito de bem encontrar nosso ‘bom destino’. Por isso é que, clinicamente, importa descobrir em que passagem de suas respectivas histórias nossos pacientes se perderam; onde foi que exatamente deixaram cair o archote que os guiava pelos meandros de seus labirintos, em que ponto do caminho se apartaram da linha, do fio guia que norteia toda alma em seu natural processo de gravitação celeste, em direção à luz Maior do Espírito.

Só assim, indo atrás do perdido fio da meada pessoal, dando novos significados a velhos valores, e buscando levar cada paciente a apropriar-se de seus legítimos talentos, é que estaremos honrando a confiança que nos deposita cada um dos que nos revelam suas histórias mais secretas; só assim é que podemos avançar juntos em compasso de cura a deslindar os enigmas de cada alma peregrina. Eis em suma no que se traduz toda a práxis de um Psicoterapeuta do Encantamento.

Desde o início intuí ser cada paciente um peregrino. E ainda um alquimista. Noutras palavras, somos todos peregrinalquimistas em permanente processo de lapidação, postulantes em trabalho e oração, desejosos por obter através da infinita paciência a Pedra Filosofal (pessoal e intransferível ela é), exclusivamente aquela que nos permitirá transmutar o denso chumbo de nosso mundo psicoemocional no ‘ouro divinal’ da numinosa Consciência.

Por isso é que somos nós mesmos os heróis de nossa pessoal jornada, a propósito, toda ela também intransferível. Afinal de contas, ninguém nasceu na nossa vez, de mesmo modo que nenhum outro morrerá quando for a nossa hora. Somos, pois, única e exclusivamente os protagonistas das histórias que ao longo de nossa vida se desfiam, umas a mais revelar, outras mais a ocultar seus fabulosos caminhos de cura. Por isso, segue o signo: onde quer que haja uma intenção, ali se abre um caminho. Analogamente, onde quer que se encontre um alquimista, um laboratório inteiro ali espera para ser operado. Destarte, toda vez que nos pomos diante de um peregrinalquimista, ora, há razões de sobra para que comecemos logo a ouvir suas histórias. Por elas é que se desvenda sua pessoal mitologia, com seus múltiplos temas arquetípicos a compor suas respectivas mandalas narrativas. Por isso, contar histórias é tanto uma arte como uma das mais poderosas medicinas: consiste em ‘tirar de dentro e pôr pra fora’, trazer coisas do fundo à superfície. É ainda saber abrir a boca para que através dela possa o Arcanjo Trombeteiro, ou quem sabe o Daimon Conselheiro, nos surpreender com suas inimagináveis Boas Novas.

Detalhe do ‘Manuscrito Ripley’ – Obra Alquímica – século XV

Vivenciar nossas próprias histórias, nesse sentido, é expor à luz da consciência os elementos mais significativos que contribuem para o engrandecimento desse herói, desse peregrinalquimista que habita nosso Ser profundo.

Quanto mais espontâneas, mais as histórias têm o poder de nos fazer felizes. Claro, elas têm seu próprio sal, seu sabor, seu quê de magia e diversão. No fundo, sabemos que elas guardam em seus mistérios muito daquilo que mais precisamos a fim de darmos conta de nossas espirituais necessidades. Por isso é que nos faz tão bem um faz de conta. Esse prazer de criar e narrar enredos faz enorme conta à alma; sim, não somente as histórias propiciam entretenimento como têm o poder de nos contagiar com seu entusiasmo e, mais que tudo, animar, isto é, ‘dar alma’ àqueles que mais carecem de cuidados e que pelas histórias se permitam tocar por aquele inominável estado de ‘santa alegria’. Mesmo quando tristes, haja vista as tragédias, genuínas ao retratar a condição humana, as histórias fazem-se repletas de células arquetípicas que devem ser reconhecidas como próprias e assimiladas por todo herói que, em busca de sua própria transcendência, de sua vital transformação, ouse lançar suas caravelas ao mar desconhecido. E todas as vezes que nos identificamos com estas ‘gemas arquetípicas’ presentes nas histórias que nos dizem essencial respeito, permitindo-nos ainda ao prazer de seu mistério, nos entregamos ao toque mágico e curativo da sabedoria que permeia suas invisíveis entrelinhas.

Assim, por onde quer que se derivem, jamais por obra do acaso, as histórias nos levam a provar daquilo tudo de que mais precisamos. Seja por fazer rir nossa criança interior, seja por drenar nossas mágoas através de comovidos prantos, ou ainda por nos fazer cantar nostálgicas cantilenas folclóricas, as histórias nos ensinam a lidar tanto com nossos sonhos mais sensíveis quanto com nossas feridas mais profundas.

Seu extraordinário poder curativo reside justamente nisso: na potência nuclear de suas células arquetípicas. Sempre que tocados por algum mito que nos diz particular respeito, deixamo-nos transformar pelo dom inerente a cada um dos arquétipos que compõem sua complexidade mítica. Por isso, ouso dizer: mitologia alguma teria sequer razão para existir se não trouxesse antes consigo aquilo tudo que possa servir de referência e cura às almas peregrinas. De onde advém uma das fulcrais premissas da Psicoterapia do Encantamento: “Os mitos só têm sentido quando são verdadeiramente sentidos”. Não fosse essa função, não passariam de nulidades narrativas; por outro lado, sempre que nos abrimos a senti-los à flor da pele e aos poros d’alma, encantamo-nos com a vida.

OS XAMÃS CONTADORES DE HISTÓRIAS

Composição de Foto-Imagens pela fotógrafa Andrea Camargo

Estar ciente do poder curativo das histórias e saber aplicá-las como instrumentos de cura faz dos ‘terapeutas contadores de histórias’ autênticos xamãs. Claro que isto não nos torna melhores que os xamãs que trabalham com outros infinitos métodos de abordagem, mas aqui a vocação é esta: no bojo da oralidade, no sagrado exercício de manter vivas as tradições, nos dramas ritualísticos em que se desdobram as narrativas, é que se atualizam os elos da verticalidade capaz de pôr cada herói peregrino em contato com as divindades que, no plano superior arquetípico, dizem respeito à sua pessoal mitologia; sejam as que buscam protegê-lo e ampará-lo em seu progresso, sejam as outras todas que só farão desafiá-lo ao lhe criar dificuldades e obstáculos.

Histórias são, portanto, poderosas ferramentas dos xamãs que se fazem consagrar à linhagem sagrada da ‘fala/escrita’ de Mercúrio, e que por conta disso ainda se descobrem apadrinhados pela inventiva originalidade de pai Urano. Em sua oralidade mágica, sempre que narradas com intuito de cura, histórias cumprem estabelecer essa ‘ponte mágica’; a dizer, essa perfeita sintonia holográfica entre o mundo invisível e o ordinário, entre a cura e a doença, entre o humano e o divino; também entre o tempo presente e as hostes ancestrais, entre a realidade interna da alma e as concretas pedras a serem transpostas na senda da existência. Contar histórias permite assim invocar os personagens certos que farão dinamizar o papel do herói no intuito de tornar plenos seus principais talentos, suas reais capacidades.

Arte de Christiane Messias

No tocante a isto é que são de fundamental importância os elementos de mitologia pessoal que trazem à presença de cada herói a força e os segredos de seus antepassados, que de um modo ou de outro presentes em suas histórias de vida, lhe permitirão provar da seiva bruta de sua vital genealogia. Convocados pela corrente narrativa, muito contribuem os ancestrais em nos reconectar à memórias afetivas, especialmente curativas, que moram silentes nas criptas de nossas mais perdidas origens.

Não por acaso as crianças, na simplicidade de seu estado de pureza, gostam tanto de ouvir histórias. Lembro-me muito bem de que, quando pequeno, pedia à meu pai e à minha mãe que me fizessem ‘ver histórias’, tal era a força imagética com que suas narrativas vinham dotadas. Eu não lhes pedia, ‘Contem pra mim uma história?’, mas ‘Papai, mamãe, qual de vocês pode agora me fazer ver uma história?’ E eles nunca me negavam uma. Adormecia vendo histórias que meu pai contava para acordar manhã seguinte vendo poesias que minha mãe declamava, algumas de própria lavra. Era assim.

Bem da verdade, diga-se ainda que dos livros de contos de fadas se extrai uma surpreendente farmácia. Cada história bem narrada é como um cântaro cujo bálsamo tem o poder de aplacar a dor do espírito. Reproduzir narrativas, ou ainda as inventar, escrevê-las, dramatizá-las, são os diferentes ‘modos de usar’ dessas receitas maravilhosas em que consistem os enredos arquetípicos. É neles que verdade e ficção se mesclam de modo a compor sempre novas e velhas mitologias, sementes que farão prosperar e perfumar tanto os nossos jardins quanto os das gerações vindouras. E é sua repetição contínua que sela a tradição da cura. Contadas através das gerações e por várias e indefinidas vezes, histórias passam adiante tanto a força de sua sabedoria quanto sua medicina. Daí a razão porque se tornam ainda melhores remédios ao longo das épocas, desde o ‘era uma vez’ de quando remotamente surgiram, até o ‘felizes para sempre’ que os heróis esperam um dia conquistar, caso venham a comungar da nova consciência que seus enredos insinuam e anunciam.

A GRANDE TEIA MITOLÓGICA

O processo de autoconhecimento, esse trabalho alquímico interior, ganha densidade quando o peregrino, em sua senda, põe-se a visitar seus maiores temores, a assombrar-se diante de seus próprios abismos. Nem seria para menos, nossas salas íntimas guardam de tudo, desde os mais secretos males até os tesouros mais preciosos. Há quartos que se referem ao presente, outros que nos remetem ao passado, e os aposentos todos têm memória e sentimentos… em algumas das salas há somente espelhos, noutras estão nossos pais ou nossos filhos, ou ainda os ancestrais à nossa espera; e claro, somos a toda hora surpreendidos pelos monstros que habitam os espaços interditos. E é assim que seguimos desfiando histórias que nos levam às salas das paixões, onde moram os amores mais fortes, inclusive os perdidos, ou às salas dos medos, onde sobrevivem os fantasmas que precisam ser, um dia, exorcizados.

Vivenciando nossas histórias nos pomos ainda a abrir uma infinita série de camarotes (ou seriam camarins? – o que importa nesta visitação interna é conhecer todo o teatro, inclusive seus aposentados porões) onde encontramos outras personagens, amigas ou não, dentre outros ilustres desconhecidos com as quais nos relacionamos. Só assim, provando dos temas pertinentes à nossa pessoal história, explorando seus poderes e perigos é que nos preparamos para o dia em que, porventura, viremos a beijar a princesa encantada que, cercada de unicórnios, nos espera aos pés da fonte da eterna juventude.

Arte de Christiane Messias

Viver a magia das histórias nos leva ainda a perceber que há uma infinidade de outras pessoais mitologias que, embora não nos pertençam propriamente, acham-se entrelaçadas ao nosso tema principal. São essas diferentes mitologias enoveladas, imbricadas entre si, que compõem a Grande Teia Mitológica, cujo modelo arquetípico é o de uma inesgotável mandala em seu eterno e vivo desdobrar-se, a pulsar e florescer sempre novas pétalas, conforme se desfiam suas fractais linhas narrativas.

Foto de Maíra Meyer

E assim, enquanto nos devotamos a seguir histórias, mesmo que não o percebamos, vamos fabricando com a instintiva perfeição das aranhas a incomensurável teia das mitologias todas, sejam humanas ou divinas. A qualquer suave toque dado numa dessas linhas fractais, a teia inteira repercute, reverbera, estremece. Seu movimento vibratório, em reciprocidade faz balançar as outras teias todas que se acham a nossa ligadas. Ao percutir a Grande Teia, todas as teias são tocadas; ao percutir a nossa própria, transmitimos nosso impulso à Suprema Teia Cósmica. Todas as linhas repassam entre si vivamente seu pulso e fazem alastrar universalmente sua onda vibratória.

Vejo nisso um excelente modelo a dar ideia de como atuam os arquétipos universais sobre os mais variados lagos-complexos de nossa pessoal mitologia. Analogamente à imagem desta Grande Teia à qual se acham ligadas infinitas linhas narrativas pessoais é que podemos imaginar nossos complexos neuróticos igualmente relacionados a determinados arquétipos universais, que nos são, entretanto, absolutamente impessoais e superiores. Operar a alquimia das histórias é fazer reverberar esses complexos, é buscar alterar seu padrão mórbido até que, tendo sido operado, assuma nova frequência que se revele mais saudável. E não sejamos ingênuos: ao vasculhar nossas maiores feridas, esses lagos-complexos que rogam ser drenados, ainda que não o percebamos conscientemente, fazemos sangrar os arquétipos todos que nos sejam correlatos e consonantes. E é assim que constatamos por meio da experiência clínica que a mais fulcral das leis de toda alquimia aplica-se intimamente ao universo psíquico, seja ele o pessoal ou o arquetípico, consoante nos ensina o segundo dos treze aforismos da Tabua de Esmeralda de Hermes Trimegistus:

Quod superius est sicut quod inferius;
quod inferius est sicut quod superius
ad perpetranda miracula rei unius.

“Assim como é em cima, é embaixo;
assim como é embaixo, é em cima;
a fim de perpetuar o milagre da coisa inteira”.

Ora, isto significa que todas as vezes que nos debruçamos a tratar os lagos-complexos de nosso individual psiquismo, em natural resposta à medicina aplicada, todas as mitologias que nos são superiores e nos dizem particular respeito, literalmente despertam e se levantam. E é justamente por conta desta nossa fina sintonia com esse plano superior do holograma cósmico que nos deixamos tocar e transformar por seus tremendos valores arquetípicos, por suas numinosas potências curativas.

Paulo Urban e amigos, simpatizantes da Psicoterapia do Encantamento, em Roda de Cura e de Histórias da Mitologia Pessoal – foto de Andrea Camargo

Cabe, pois, ao Psicoterapeuta do Encantamento, saber respeitar a lei de Hermes. Diante de seu sagrado mistério, deve ele procurar encontrar as vias que possam estreitar o contato entre as instâncias arquetípicas que nos são superiores e a mitologia pessoal de cada um de seus pacientes. Tal exercício realiza o milagre de compensar a cruel dissociação de que sofrem os heróis quando, solitários em seus respectivos caminhos, dão-se conta de estarem andando em meros círculos viciosos, ou pior, numa corda estirada sobre o abismo. Mas é justamente a destreza em se andar sobre o fio da navalha que educará o herói a perceber-se como um ‘pequeno deus’ em seus desígnios, e ao mesmo descobrir-se um ‘grande homem’, cônscio do dever de bem realizar sua missão através da humildade de seus passos. Justamente este é o significado do termo herói que, oriundo do grego, quer dizer: ‘pequeno deus, grande homem’. Uma vez restabelecida a conexão entre o elemento humano e o reino que nos é superior, entre nossos pessoais complexos e os arquétipos que, embora impessoais, nos dizem essencial respeito, é que se perpetua o mistério da coisa inteira, e a alma se resgata em sua nobre condição divina. Esta é a alquimia das histórias, a catalisar a reunião entre aquilo que somos e tudo aquilo que misterioso, nos transcende.

‘Artodissey’ – do artista plástico surrealista, nascido na Crimeia, Alex Fishgoyt

Por isso é que as histórias são bálsamos de cura, por meio dos caminhos que nos oferecem é que um dia conquistamos a Catedral das Almas, onde aportam os bem-aventurados peregrinos. Mas é preciso saber: esta Catedral das Almas jamais será um fim em si mesma, senão a bênção a realizar a nossa comunhão com as hostes celestes, algo que pode muito bem ocorrer onde quer que estejamos, a peregrinar pelo caminho. Talvez seja esta a mais incrível e fabulosa das histórias, aquela capaz de nos alçar à sensação de estarmos sendo inteira e profundamente transmutados pelo beijo alquímico de Deus. Não creio possa haver final mais feliz que este. Mas quem foi que disse que histórias de vida têm final? Melhor dizendo, não creio possa haver êxtase anímico mais feliz e assombroso, mais abissal que este. Quem quiser acreditar que acredite, quem não quiser, então que depois nos conte outra.

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Em complemento a este texto, leia também: Oração: Chave das Curas.

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