Amigo da Alma Rotating Header Image

Psicoterapia do Encantamento

PSICOTERAPIA do ENCANTAMENTO

seu símbolo e seus arquétipos

Texto de Paulo Urban, publicado na Revista Medicina Atual, edição nº 5, outubro/2003

Nada distante dos preceitos fulcrais da psicologia profunda, a Psicoterapia do Encantamento, conforme venho formulando-a ao longo de toda a última década, constitui-se fundamentalmente num mergulho absoluto em nosso mundo inconsciente, com vistas ao autoconhecimento e ao aprimoramento pessoal. Inéditos somos, entretanto, na maneira de nos propormos a este intento. A pedra de toque desta nova abordagem psico-clínica é explorar a Mitologia Pessoal, e procuramos fazê-lo com propriedade por meio de técnicas específicas capazes de trazer à consciência a suprema realidade da alma, oculta por detrás do véu que nos separa de nossas profundezas psíquicas, instância vesânica cujos potenciais latentes podem tanto aniquilar como transmutar intrinsecamente o ego.

A Psicoterapia do Encantamento assume a Psicologia Analítica (Junguiana) como seu principal referencial teórico e regra-se particularmente pela senda místico-esotérica da Alquimia, enxergando em cada indivíduo que nela deseje mergulhar a imagem do verdadeiro alquimista, sincero postulante à Luz Maior da Consciência que, em busca da Pedra Filosofal Pessoal, pretenda alcançar a transcendência pela transmutação de seu chumbo bruto em ouro psico-alquímico. Para tanto, faz-se mister que o buscador esteja disposto a cruzar o umbral do desconhecido e percorrer complexos caminhos arquetípicos, os únicos verdadeiramente capazes de nos levar ao encontro inequívoco do Si-mesmo.

A Psicoterapia do Encantamento estrutura-se sobre quatro graus distintos, não hierárquicos,*1 que se complementam mutuamente e interagem entre si, possibilitando que ao longo dos mesmos o indivíduo explore e vivencie inauditas capacidades pessoais, no intuito de que melhor se conheça e se transforme plenamente. São eles:

 1. Sessões de Hiperventilação

2. Sessões Psicoterápicas do Encantamento, propriamente ditas;

3. Vivências Xamânicas e

4. Ritos Iniciáticos. 

Entendo que uma das melhores formas de introduzir o leitor a essa nova Psicoterapia, seja a de expor resumidamente o sentido do símbolo que a representa, imagem esta que a mim surgiu num sonho que tive faz anos, após haver praticado a hiperventilação, em função da qual adormeci em estado alterado de consciência.

Símbolo da P.E. – Psicoterapia do Encantamento – material registrado e protegido por lei

O símbolo da Psicoterapia do Encantamento expressa o casamento alquímico entre as artes médicas e a psicologia profunda, fonte natural de onde podem surgir as psicoterapias genuínas.

Tal união encontra-se aqui representada pelo entrelaçamento da serpente de Asclépio (consagrada à medicina) em torno da 23ª letra do alfabeto grego, psi, que lhe serve de caduceu. Psi tanto é raiz da palavra psicologia, como também ícone que alude ao tridente de Posêidon, mestre dos mares, senhor das profundezas desconhecidas e titânicas.

A intereção alquímica entre medicina (particularmente, a psiquiatria) e psicologia ocupa o centro de uma estrutura elíptica e mandálica, portanto, íntegra e completa em si mesma, delineada dinamicamente pela perene dança de quatro golfinhos, símbolos por excelência do mundo inconsciente, que giram em sentido anti-horário, a potencializar o caráter introspectivo e espontâneo de seu movimento.

O número quatro, conforme nos ensinam os pitagóricos, por sua vez, reforça a idéia de totalidade. Tal noção originalmente foi concebida pela mente arcaica, que leu nas estações do ano a inteireza e plenitude dos ciclos naturais que se sucedem e se renovam uns aos outros ininterruptamente. Desta apreensão intuitiva derivou, p. ex., a concepção cosmogônica de Empédocles, filósofo pré-socrático, para quem a essência última da vida deveria ser composta pelos quatro elementos básicos da natureza (água, fogo, terra e ar), de cuja interação todas as coisas se manifestam; e seu pensamento muito influenciou a Escola Pitagórica como também toda a medicina hipocrática.

Consoante essa idéia de integração, dinamismo e completude, são quatro os graus da Psicoterapia do Encantamento, cada qual representado por um golfinho de cor distinta, a expressar a totalidade harmônica de seu conjunto, que perenemente se transforma em sua dança, favorecendo a transmutação de todo aquele que se permita levar pela sintonia desse eterno movimento; afinal, “Não deveríamos crer num Deus que não soubesse dançar”, disse Nietzsche, certa feita.

Os quatro golfinhos descrevem ainda um Oroboro clássico em seu conjunto. Oroboro*2 é símbolo arcaico, presente na sabedoria alquímica, a expressar o caráter divino e perfeito da Criação, segundo formas circulares ou elípticas, geralmente circunscritas por uma serpente ou dragão alado cuja boca morde a própria cauda, de modo a insinuar que a natureza divina seja algo essencialmente sem começo, meio ou fim, também absoluta e fechada em si mesma, e que, paradoxalmente, evolui e se transforma enquanto se devora. O oroboro expressa a vida em pulsação, a fazer da morte mera metáfora a ser transposta pela alma em sua perfeita sintonia com o ritmo cíclico da dança da existência.

As distintas cores dos golfinhos têm também seu particular significado, posto que se relacionam aos diferentes graus que compõem a Psicoterapia do Encantamento em sua totalidade.

O golfinho de cor laranja, associado ao elemento ar, é selo do 1o Grau da Psicoterapia do Encantamento, que se traduz pelas Sessões de Hiperventilação.

Laranja é cor da vitalidade e da respiração. Haja vista as vestes dos monges tibetanos, geralmente túnicas de cor laranja envoltas por um manto cor de vinho, cujo intuito é o de lhes favorecer em suas práticas contemplativas e religiosas, a envolver exercícios de meditação com mandalas, orações mântricas e, sobretudo, práticas respiratórias voltadas à elevação espiritual.

O laranja expressa a revitalização de nossas energias, particularmente quando alcançada por meio da respiração. A Hiperventilação, conforme a exercitamos, constitui-se numa verdadeira disciplina respiratória, e somente a constância de sua prática pode nos levar a um sempre crescente aprimoramento técnico no que tange à sua execução. A Hiperventilação, bem como uma infinidade de outras técnicas respiratórias, encontra suas origens em saberes e tradições milenares, sendo prática comum entre monges, sábios e xamãs de diferentes culturas, orientais e ocidentais.*3

Sua prática nos leva a alterações fisiológicas qualitativas e seguras que geram estados alterados de consciência, servindo-nos, pois, como poderoso recurso propiciador de vislumbres de nosso mundo psicológico abissal. As Sessões de Hiperventilação geram e constelam energia psíquica própria; não raro permitem o resgate de experiências emocionais inerentes à nossa história particular de gestação e parto, ou trazem a revivescência de situações traumáticas inconscientes, bem como a elaboração profunda de seus conteúdos emocionais. Por meio dela também revisamos nossas demandas existenciais, focalizando a consciência sobre relacionamentos pessoais, conjugais, profissionais, e questões geradoras de angústia, que exigem pronta lucidez para que melhor decidamos sobre elas. As Sessões ainda propiciam, em virtude do material psíquico imprevisível que vem à tona, o desencadear de fenômenos psíquicos incomuns, desconsiderados pela psicologia acadêmica, pela psicanálise, e também pelo discurso médico neurocientífico, fenômenos estes, via de regra pertinentes à esfera transpessoal e/ou parapsicológica.

O golfinho verde, selo de nosso 2o grau, associa-se naturalmente ao elemento água. Ele é o primeiro a “mergulhar” na metade inferior (mundo oculto) da mandala elíptica, abrindo as portas para o exercício da Psicoterapia do Encantamento propriamente dita, classicamente caracterizada por sessões individuais e regulares, mediante as quais se estabelece o vínculo transferencial, invariavelmente ancorado em bases emocionais que serão revolvidas e tratadas ao longo de todo o processo psicoterapêutico.

O verde, especialmente escolhido para representar o alcance deste grau, é mítica e universalmente listado como a cor da cura; propriamente, é também a cor da medicina. A tradição remonta à Idade Média, época em que os médicos, doutos das primeiras Universidades, desde quando fundadas a partir do séc. XIII, usavam toga verde em alusão às plantas medicinais usadas em seus tratamentos. O verde sempre esteve associado ao reino vegetal, que se renova e se mantém lustroso graças às águas regeneradoras e doadoras da vida. Por isso o verde é anunciador da primavera, guardando ainda a propriedade de ser envolvente, acolhedor, tranqüilizante e tonificante.

A tradição órfica, por exemplo, que tanto influenciou o pensamento pitagórico, e a partir deste, o platonismo, considerava verde o espírito da luz que fecundara as águas primordiais que jaziam esquecidas nas trevas, fonte de todo o Universo concebido. Para os alquimistas, o verde associa-se à Pedra ou Tábua de Esmeralda, cujas treze assertivas cumprem legar aos homens a doutrina oculta de Hermes Trimegistro. Também o Santo Graal, símbolo de integração perfeita entre os homens e a divindade, é descrito como um cálice de esmeralda ou cristal verde, receptáculo de todo amor e sacrifício que devem ser devotados por cada um dos que se dediquem ao encontro numinoso com Deus em nosso mundo interior.

Por isso a Psicoterapia do Encantamento enxerga cada um dos que escolhem se entregar de corpo e alma ao trabalho deste seu 2o grau como um verdadeiro alquimista, buscador da Pedra Filosofal, absolutamente secreta e particular, único elemento capaz de catalisar a transmutação total de nosso denso chumbo pessoal (a envolver conflitos pessoais e constelações neuróticas de todas as ordens) em ouro psico-alquímico, cuja sutileza cumpre enriquecer e iluminar a alma, resgatando-lhe seus valores essenciais, que geralmente restam esquecidos em nosso abismal mundo sombrio.

É preciso, pois, muita coragem e humildade a fim de que desejemos saltar em nosso particular abismo, para que, depois de explorar as trevas pessoais e sofrer as conseqüências desta dura travessia, possamos visceralmente conhecer e exorcizar os fantasmas que habitam os porões da alma, e só assim vencer o labirinto psicológico que, via de regra, ilude nossa frágil consciência, fazendo dela prisioneira de seu intrincado castelo de espelhos.*4

O golfinho branco, selo do 3o grau, refere-se aos ritos xamânicos e associa-se ao elemento terra. Presto aqui uma homenagem ao Império Inca, cuja bandeira é um todo quadriculado formado por 49 (7×7) quadrados coloridos, a representar a imensa variedade da natureza (também humana) pelos diferentes matizes do arco-íris. Escolhi então o branco para este grau, fusão de todas as cores possíveis e metáfora com a qual desejamos expressar que nas diferenças étnicas é que reside a maior riqueza da espécie humana, posto que cada indivíduo se complementa e se identifica ao espelhar-se diante de seus semelhantes. As culturas andinas têm a Terra (Pachamama) como mãe sagrada; respeitam-na sabiamente e valem-se de plantas de poder para alcançar estados ampliados de consciência consoante os quais podem mais profundamente perceber as leis do coração. Por isso o 3o golfinho acha-se em sentido ascendente, visto que provém das nossas mais absconsas profundezas, e traz à consciência potenciais que jazem guardados em nosso mundo interior, que devem ser assimilados para que o psiquismo se reconheça como um todo.

Os ritos xamânicos da Psicoterapia do Encantamento são igualmente trabalhos experimentais terapêuticos inspirados nos princípios de cura da medicina andina, principalmente no que se refere à terapia da polaridade, prática esta, a propósito, professada por todas as sabedorias médicas ancestrais, podendo ser encontrada, por exemplo, tanto na medicina ayurvédica (hindu) quanto na taoísta (chinesa), também na medicina hipocrática (grega e ocidental). Tais medicinas guardam entre si, em respectivas cosmovisões, enorme intimidade conceitual e afinidade terapêutica. Ademais, em seu trabalho de cura, o principal papel do xamã é o de servir de mediador legítimo entre este mundo e tudo aquilo que o transcende; entre nós, homens comuns, e as hostes ancestrais superiores que se situam além da mera consciência.

O golfinho de cor lilás ou violeta, que completa o oroboro, relacionado ao elemento fogo, é selo do 4º grau, que se faz representar por ritos iniciáticos.

Em oposição ao verde, que se refere ao estado primaveril e caminha em direção ao fluxo ascendente da vida, o golfinho violeta está no plano superior da elipse e se curva para entregar seu movimento ao primeiro golfinho que de novo irá mergulhar nas profundezas. Isto porque o violeta é a cor outonal da espiritualidade, e alude ao amadurecimento de nossos processos introspectivos e involutivos, capazes de nos levar à sublime experiência de libertação do ego por meio da morte simbólica. São quatro os ritos de iniciação da Psicoterapia do Encantamento que permitem cumprir esse propósito, especialmente preparados para impressionar dramaticamente o psiquismo por meio de exercícios e práticas ocultas conforme rogam as genuínas Tradições, a mim confiados ao longo de minha busca esotérica que se iniciou formalmente em fevereiro de 1978, quando sofri minha primeira iniciação de uma noite inteira, no seio de uma tradicional Escola de Mistério.

Para desvincular, porém, a Psicoterapia do Encantamento de toda e qualquer crença, seita ou religião (embora respeitemos todas elas), escolhemos as quatro datas universalmente privilegiadas por toda milenar cultura que soube desenvolver suficiente conhecimento astronômico/astrológico, percebendo a importância destas datas que assinalam os solstícios e os equinócios, que anualmente demarcam a entrada das Estações.

Ainda que o 4º grau não seja hierarquicamente superior aos demais, nossos ritos iniciáticos reservam-se tão-somente àqueles que já trilharam com esmero os caminhos propostos pelos outros três graus. Não que o 4º grau possa tornar alguém mais sábio ou privilegiado em relação aos que ainda exploram os caminhos a ele precedentes, mas sim pelo fato de que ele se destina, sobretudo, àqueles que, amadurecidos na busca pessoal, estejam vivendo o paradoxal “desabrochar psíquico de outono”, período singular, especialmente oportuno ao recolhimento e introspecção. Centrado no espírito dos Grandes Mistérios de Elêusis,*5 o 4º grau nos ensina a morrer para renascer em plenitude; por isso preferencialmente deve ser vivenciado por almas maduras, que já experimentaram padrões incomuns de consciência, que saibam aproveitar a iniciação como metáfora holográfica dos dramas arquetípicos da existência, e por meio dela rasgar os véus que ocultam o estado numinoso, a ser provado por uma excelsa consciência.

Em síntese, o símbolo da Psicoterapia do Encantamento expressa uma das raras verdades psicológicas, a de que o genuíno caminho da alma, trilhado conscientemente ou não, é aquele que faz cumprir o Oroboro, posto que força a alma a  debruçar-se sobre si mesma em seu desejo puro de conhecer-se, o que a faz projetar-se em seu próprio precipício. Só assim a alma pode retornar para si mesma na esperança de encontrar em seu centro a matriz divina de totalidade e perfeição de que é dotada essencialmente.

Considero, pois, apresentada em suas linhas mais gerais, a Psicoterapia do Encantamento. 


 1. Cumpre dizer que esses quatro graus não guardam relação hierárquica entre si, senão de permeabilidade recíproca e interação holográfica. Cada um deles, ainda que tenha identidade própria, conserva em seu âmago as propriedades do conjunto.

2. Para uma compreensão etimológica do Oroboro; também entendimento de seu sentido alquímico, vide nosso texto O Simbolismo da Serpente, neste site listado sob a categoria ”Mitologia”.

 3. Particularmente, aprendi a hiperventilar por conta de uma incessante busca pessoal, inspirado por leituras que cobrem amplo espectro na área, a incluir livros de alquimia oriental, taoísmo e yoga entre outros. Venho desenvolvendo tal disciplina, praticando-a regularmente ao longo de algumas décadas, procurando experimentá-la nas mais diferentes condições: sentado ou caminhando, em práticas meditativas, em banheiras ou piscinas, em praias ou montanhas, na altitude de La Paz, em climas frios, também dentro de cavernas, ou após períodos de proposital jejum ou insônia, ou ainda sob efeito de beberagens xamânicas psicoativas etc.

 4. Estender-me aqui para melhor apresentar o funcionamento deste 2º grau seria fugir ao tamanho da matéria. Aos interessados nesse detalhamento, sugiro a leitura de Explorando a Mitologia Pessoal, texto referente ao II Grau do Encantamento.

5.  A respeito dos Mistérios de Elêusis, convido a ler meu texto Os Mistérios das Iniciações, disponível neste Site, vide IV Grau do Encantamento.