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Oração: Chave das Curas

ORAÇÃO: CHAVE DAS CURAS

(Breve excerto do “Confessio Medicinalis“, ensaio clínico ainda inédito, pelo qual, à moda de uma carta de intenções, o médico psiquiatra Paulo Urban declara alguns princípios terapêuticos da práxis da Psicoterapia do Encantamento).

Por mais distintos e complexos que possam ser os seus processos, também devido às suas idiossincrasias, as curas não somente exigem dos curadores que estes se entreguem inteiramente a elas, como cobram igualmente certas virtudes por parte dos pacientes que desejam libertar-se de seus males.

Hipócrates, por Robert A. Thom (1915-1979)

Mesmo assim, ainda que o paciente se mostre receptivo a recebê-la e, de meu lado, por mais que eu me sinta modestamente habilitado por um diploma médico e um título de especialista em psiquiatria – o que, aliás, é muito pouco – a acreditar que eu possa porventura vir a curar alguém ou a sanar determinada doença, o fato é alguns processos de adoecimento psíquico podem revelar-se desafios bem maiores do que nossa vã pretensão de dominá-los, a envolver mistérios mais profundos do que toda nossa experiência clínica nos permita compreender. Parafraseando o dramaturgo, “há mais mistérios entre a cura e a doença do que pode imaginar nossa vã psiquiatria”.

Por isso, confesso, recorro sempre às orações. Não guardo constrangimento algum em declinar aqui o que a maioria dos colegas de formação acadêmico-científica teme dizer (e igualmente o declaro aos pacientes que nos depositam sua confiança), que peço, sim, auxílio às hostes espirituais para que estejam sempre a nos guiar os passos nesta missionária estrada que abracei.

‘Ora et Labora’, dístico alquímico, foto de Rodolfo Bonamigo

Vale dizer: cada um de nós tem uma missão que lhe é específica e se faz fundamental para a cura holográfica da alma que saibamos descobrir e conhecer qual é a nossa.

Por outro lado, fique claro: não me filio à religião alguma. Professo antes uma espiritualidade libertária, sem dogmas que a limitem nem doutrinas que se proponham dirigi-la, desvinculada, portanto, de toda e qualquer instituição religiosa. Essa religiosidade que permeia meus passos, presente em minha vida e meu trabalho, é tanto o fundamento quanto a substancialidade, o estofo de minha práxis terapêutica. E é através dela que busco alçar-me, dentro de minhas humanas capacidades, à verticalidade da estreita sintonia entre mim e a Grande Consciência. Busco assim, nas orações diárias, nas meditações que procuro diligentemente cumprir, essa inspiração necessária que possa compensar-me em minhas tantas imperfeições; pois, curar pede sabedoria, e sem o toque do divino, sem o sopro de nosso daimon conselheiro, nada somos senão surdos e cegos para tudo aquilo que de essencial precisamos perceber. Consoante nos ensina mestre Paracelso (1493-1541), médico astrólogo e alquimista: “Guardai, pois, isto, e sabeis, que sempre o supremo médico é Deus!”

Asclépio, deus grego da medicina.

Neste particular é que confesso ainda minha predileção pelo mestre de Assis, alma pura, um dos homens mais simples de toda a humanidade. É São Francisco quem nos ensina: o simples é que cura. E será preciso preferir a bondade para que possamos ser simples. Ora, os antigos gregos já estavam em posse de tal entendimento, haja vista que fizeram chamar Asclépio seu deus da medicina, cujo nome quer dizer: ‘o bom e o simples’.

Portanto, médico bom é o que busca ser simples, e praticar o bem tão-somente compõe o sacerdócio de todo aquele que deseje estar curando conquanto exerça sua arte. E é para isso que as práticas espirituais infinitamente corroboram.

Ao longo desses 26 anos de experiência clínica, por exemplo, desejoso por conquistar verdadeira ‘amizade de alma’ com meus pacientes, e tendo me sentido chamado ao exercício das curas, diariamente professo a oração legada pelo mestre de Assis, a quem pedi autorização pudesse proferi-la assim:

“Senhor, fazei-me instrumento de Vossa cura!”

Francisco de Assis, por Cândido Portinari (1903–1962), Igreja da Pampulha, MG.

Não que a paz seja graça menos importante, mas consoante esta minha vocação de entregar-me às curas, não vejo esteja errado pedir ao Pai que me renove a cada dia na fé que me permita melhor cumprir este ministério. Até porque, convenhamos, quem cura é Deus; já o médico, sem amor, não será nada. E é a fim do bem curar que, além das orações e da meditação como práticas diárias, desenvolvo ainda a arte de ouvir e narrar histórias. Mas isto já é tema a ser desenvolvido noutro capítulo deste ensaio: as Histórias como Medicina para a Alma.  (Paulo Urban)

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