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Blue Moon

Havendo o majestoso Sol cumprido uma vez mais seu ciclo e regressado ao nodo vernal da eclíptica, ponto cósmico da semente e da potência, onde tudo (re)começa e dia e noite se equilibram, por decretastrológico cruzamos o portal do Equinócio de Outono. (A efeméride ocorreu neste sábado, 20 de março de MMX, precisamente às 14h33min, hora de Brasília).

Neste auspicioso instante estávamos em pequeno grupo reunidos. Veteranos e iniciandos, todos devidamente instruídos quanto à ritualística e aos propósitos de nossos trabalhos de cura. Servida a ayahuasca, demos início àquele que se revelaria o mais difícil rito de III Grau do Encantamento (desde quando, em 1990, comunguei da madrecita pela primeira vez; também o mais difícil desde quando, era 2001, dirigimos nossa primeira sessão de III Grau). O sumo é que este trabalho de Equinócio nos banhou com uma flagrante constelação de eventos, dando a todos evidência do quanto as sincronicidades assumem anda maiores significados em relação àquilo tudo que, de essencial, precisamos perceber e aprender.

Blue Moon, fotografia de Homero Pimentel

Blue Moon, fotografia de Homero Pimentel

E foi assim que entramos madrugada reunidos em comunhão, surpreendidos por uma abençoada chuva que literalmente nos lavou as almas sem, contudo, apagar o fogo ritualístico, que vingava forte, diante do qual nos mantivemos em roda de cura. Sinal dos céus a dar conta dos arquétipos envolvidos, o primeiro relâmpago fez-se presente à exata hora do batismo de fogo, e com ele a retumbante trovoada a tornar mais vívida aquela cascata de entendimentos que se nos apresentavam em perfeita economia desde os preparativos para o trabalho e ao longo dele, até seu fechamento. Clara e evidente a presença das Graça Efetiva, cujo poder determina transformações em nossa tola pretensão egoica, a lembrar que nada somos senão instrumento da vontade divina,  pondo-nos, assim, mais conscientes da imago dei que todos trazemos, sem exceção, posto criaturas, impressa em nossas almas. Pois, somente pela Graça Efetiva é que somos levados a corrigir o nosso rumo, à maneira como nos ensina o poeta quando diz que ‘navegar é preciso’. Mais do que um farol a clarear o arbítrio, a Graça Efetiva é esse poder que nos fortalece em nosso propósito de conduzir, com engenho e coragem e, sobretudo, humildade, a pessoal caravela pelos mares da vida, sejam estes calmos ou bravios, próprios ou distantes. Sim, porque a cada um de nós cabe um leme e uma nau, com o que nos atiramos a singrar o portentoso mare nostrum que em seus segredos guarda os mistérios de nossa própria origem.

E como todo novo ano astrológico roga esperanças, diante do fogo sagrado, aquietadas nossas mentes a zero grau de Áries, oramos pela cura de todo o zodíaco. No silêncio e na vigília, sob aquele céu plenestrelado que incrivelmente se abriu depois dos tonitruantes trovões a estremecer os Céus e a Terra, e já acordado o gigante que habita nossas pessoais cavernas, é que acertamos nossos corações com esse Sol hoje criança, recém-(re)nascido a ensaiar seus primeiros passos além da porta aberta do equinócio. Pois, é sempre para todos o Novo Sol, e seu nome é Graciema (em tupi, a “saída do Sol”), dádiva a convidar todo herói a ampliar a consciência e entregar-se com plenitude à sua própria missão, fazendo assim mais congruentes os passos do ego sob a regência da alma, ambos em harmonia com a soberana intenção de toda Grande Obra, que sabemos ser divina. Por isso, segue o signo:

BLUE MOON

Meu lado Sol me diz que eu sou só um,
meu lado Lua diz que eu sou metade,
e que por mais que eu brilhe, em paridade,
no espelho eu resto em Cogito ergo sum.

Às vezes o crepúsculo me invade;
às vezes, Lua cheia, sou Blue Moon,
sou árvore sem folhas, sou nenhum
mistério que mereça claridade.

Mas quando em solidão estou carvalho
e ao cerne de meus galhos retorcidos
resgato a seiva bruta da esperança,

em sonhos de equinócio renascidos,
descubro-me esse herói, um Sol criança,
e em lágrimas de aurora sei-me orvalho.

Paulo Urban
21 de março, MMX
decassílabos heroicos

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