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Cosmicalquímico

Em meus preparativos para o próximo curso de Alquimia a ser ministrado, ontem mesmo visitei o mestre em sua casa, e estivemos por algumas horas conversando ao pé do fogo que ele mantém diuturnamente aceso em seu laboratório-biblioteca. Privilégio o meu tê-lo conhecido ainda em minha adolescência, era o ano de 1978. Desde então, nossa relação discípulo-mestre tem me levado pela mesma senda a visitar muitos ramos que se derivam da primeira árvore, bem como suas raízes, inclusive, que são muitas e profundas. Último encontro nosso fora no equinócio de março (efeméride esta que sempre nos reúne junto aos demais Adeptos, seus discípulos) e, antes disso, a tertúlia que eu e Alan Rodrigues tivemos dele em dia de Reis, no início deste ano. Um pouco do que neste sábado que conversamos, reproduzo aqui em breves linhas.

Árvore Alquímica – Mercúrio Confabula com o Adepto – iluminura de Jehan Perréal, pintor de Margarida da Áustria, 1516

– Assim adverte a Natureza ao alquimista errante – encetou o mestre, também, por óbvio, a advertir-me: “Nunca alcançarás o Conhecimento se não vieres ter à minha forja”.

– E qual é ela? – quis saber, já imaginando qual seria sua resposta. A verdade é que eu adoro perguntar ao velho; ouvi-lo assim, em seus entusiasmados discursos, só me acende para novas ideias que jamais me ocorreriam não fosse minha insistência em ouvir de novo e outra vez, e uma vez mais tudo novamente aquilo que ele, Sotero, nunca diz duas vezes da mesma forma.

– Ora, a forja que se escora nas três raízes da mãe terra: Mineralia, Vegetalia e Sensitiva, a sustentar os três troncos da Árvore da Vida, que respondem pelo germe de todos os metais e de todas as criaturas, viventes e sencientes.

– Daí a necessidade da experimentação in loco?

– E que lugar é este senão o trino crisol do sábios, Mater, Anima et Spiritus. Sem a verdadeira experimentação na alma dos elementos da Natureza, a Matéria jamais revelará seu Espírito ao Adepto, nem este jamais se alçará às virtudes relacionadas a cada um dos sete metais que cada alquimista deve encontrar. Toda a Alquimia, em suma, é um grande processo de cura individual pela Natureza, cura esta que carrega em seu bojo a cura de muitos, de uma coletividade imensa formada por contemporâneos e antepassados do Adepto que, cuidando realizar sua própria cura, nem mesmo disso sabe ou imagina.

– Pelo espécime é que se trata o gênero – ajuntei; um dístico típico de mestre Sotero, que adoro repetir a ele como forma de mostrar meu reiterado apreço por seus aforismos.

– Exato! Sem a verdadeira entrega do Adepto ao pathós, isto é, ao verdadeiro ‘contato’ da alma com aquilo tudo que ela necessita provar, como irá curar-se o Adepto? Como abrasará sua alma se, enclausurado em seu laboratório, protegido por seus livros e en train de faire du feu, não souber antes se expor ao Sol do deserto, às chuvas e tempestades do caminho, enfim, às intempéries todas da senda iniciática? Para conhecer o Interior da Terra é preciso atravessá-la por inteiro, só assim é que a alma se ressurge e se renova; noutras palavras, é pelo Hades que se conquista ao Olimpo. Não obstante, a Natureza não pode ser refreada nem forçada, é ela quem nos rege, e não o contrário, por isso, todo resultado da Grande Obra depende exclusivamente do quão mais disposto e inclinado a ela se põe o Adepto; também do quanto em seu silêncio se faz capaz de receber os dons que lhe abrirão a escuta à voz de Mercúrio.

‘Deixa que a Natureza seja o teu Guia’ – Michael Maier, “Atalanta Fugiens”, Oppenheim, 1618

E tomando essas suas assertivas como inspiração ao trabalho a ser desempenhado junto aos meus próximos alunos, agradecendo uma vez mais ao mestre pela acolhida, já prestes a deixá-lo a sós e de volta em seus estudos, Sotero disse ainda que me recomendava um de seus Sonetos, pertinente à discussão. Também, por meio dele, afiançou, ‘pode-se refletir acerca dos desígnios da Obra conforme hoje conversamos nesta nossa última tertúlia’. Por isso, segue o signo:

COSMICALQUÍMICO

Saturno, ele nos cobra uma lição,
que Júpiter promete fará bem;
deus Marte em sua vontade a Obra sustém
e Vênus só quer vê-la em perfeição.

Mercúrio, Pai de tudo, em seu vai-e-vem,
hiperventila o fole, é inspiração,
fiel sempre ao Filósofo em missão,
reúne o Olimpo à Terra e o Hades também:

“Jamais terás teu Sol nem tua Lua
se te puseres preso à tua retorta,
que a Natureza é viva em pedra morta

e três meus Reinos, Seu laboratório:
Rigor, Amor, também Misericórdia”,
roga Mercúrio, deus de elo e concórdia!

C+S.:.
N.N.D.N.N.
junho, ano da Graça de MMV

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