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A Mensagem de Pessoa

A MENSAGEM DE PESSOA 

(Texto inédito de Paulo Urban, publicado na Revista Literária Mirante, edição #92, Jan/Fev/Mar 2016) *
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Embora seja este ensaio ‘completo em si’, representa também a terça e derradeira parte da Trilogia Pessoana de Paulo Urban, composta por outros dois trabalhos, peças igualmente ‘inteiras em si’, podendo, pois, ser lidas em qualquer ordem e separadamente:
Primeira Parte: Pessoa Oculta em Pessoa
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“Tenho pensamentos que,
se pudesse revelá-los e fazê-los viver,
acrescentariam nova luminosidade às estrelas,
nova beleza ao mundo e
mais amor ao coração dos homens”
(Fernando Pessoa, 1888-1935)

Sempre à frente de seu tempo, as artes guardam em si um caráter revolucionário, qual clarim dos anjos, anunciam novos tempos e entendimentos que virão.

Dotada de uma rara sensibilidade, a visionária alma de Fernando Pessoa soube ler no psiquismo coletivo de sua época os arquétipos constelados de uma nova ordem, prestes a eclodir. Fazendo jus à gloriosa herança lusitana, do alto posto de vigia de sua nau poética, foi Pessoa quem primeiro deu o grito: “Nova Consciência à vista!”. Sim, ele enxergara a terra utópica a ser alcançada, ainda um ponto longínquo, emergindo impávida nos horizontes de seu tempo.

Ciente, porém, de conviver com uma humanidade cega que, em seus caprichos egoicos, mal compreenderia a natureza dessa descoberta, o poeta fez preservá-la intacta no vaso hermético de sua Obra (prosa e poesia). Paradoxo vivo ele próprio, escolheu velá-la e revelá-la tanto na essência quanto na estrutura de seu poema épico Mensagem, por sinal, o único livro em português que publicou em vida.

Mensagem teve seus primeiros exemplares impressos em outubro de 1934, de modo a poder concorrer ao prêmio Antero de Quental, criado pelo Secretariado de Propaganda Nacional. Seu lançamento, entretanto, deu-se em 1º de dezembro, exatamente a 365 dias da morte do poeta, que ocorreria em 30 de novembro de 1935. Este seu trabalho receberia ainda, em 21 de fevereiro, o prêmio de 2ª categoria, pois, com menos de cem paginas, não pôde concorrer à 1ª classe.

Talvez Pessoa presumisse que seu poema simbólico viria a se tornar um de seus mais famosos textos (embora seja até hoje também um dos seus menos compreendidos trabalhos), daí o intuito de nele encerrar uma insólita mensagem, dirigida a toda humanidade. Sim, Mensagem é um manifesto psico-alquímico, por meio do qual o poeta nos conclama ao advento de uma nova ordem espiritual que (re)nasceria de além-mar, vinda da América portuguesa. E o épico cumpre mostrar que não é outro senão o Brasil o berço da boa nova, a terra em que Pessoa deitou as esperanças de sua incrível profecia.

Mensagem é o destilado literário de um projeto que se organizou, tal qual opus magnum, ao longo de toda uma vida: são 44 poemas recolhidos; o mais antigo datado de julho de 1913, os derradeiros de 1934, conjunto este que inicialmente recebeu o nome de Portugal, substituído poucos dias antes de sua publicação pelo título que o consagrou, mais acertado no que se refere ao caráter esotérico de suas entrelinhas, a guardar realmente uma “mensagem secreta”, cifrada sob o intrincado código de um poeta iniciado nos Mistérios.

Cabe a nós parafrasear aqui a pergunta feita pelo poeta à Dª Philippa de Lencastre, Madrinha de Portugal, a quem Pessoa chama de “princesa do Santo Graal”: “Que enigma havia em teu seio, que só gênios concebia?” Espelhemos, pois: “que gênio havia no seio de Pessoa, que só enigmas concebia?”

Mera tolice esperar pelo Édipo capaz de decifrar a complexidade da esfinge pessoana, que mais soube expressar-se por paradoxos e se ocultar por trás do jogo híbrido das 127 faces de seus heterônimos, capazes de fingir em plenitude a dramaturgia humana. Por outro lado, conforme vamos sendo devorados pelos enigmas de sua rede de heteronímias, nada impede que desfiemos um pouco mais o fio de Ariadne, a nos levar a ter logo mais à frente com um novo caráter sempre inédito da esfinge pessoana, produto de seu fabuloso labirinto de espelhos.

Analisemos, pois, alguns fragmentos desta grande viagem de circunavegação da alma em que se traduz toda Mensagem, e busquemos pelo segredo submerso no mar de sua poesia.

Comecemos pelo exórdio do poema, escrito em tom de advertência. Nele, o poeta nos prepara à compreensão do hermetismo que permeia sua obra: “O entendimento dos símbolos e dos rituais simbólicos exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles”. E Pessoa se estende sobre cada uma dessas condições, que aqui exponho resumidamente, sendo a primeira a simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar; a segunda a intuição, espécie de entendimento além do símbolo; a terceira a inteligência, que o analisa e o decompõe; a quarta a compreensão, que envolve o conhecimento de outras matérias que permitam iluminar o símbolo por várias outras luzes, para completar que: “A quinta é menos definível. Direi talvez, falando a uns que é a graça, falando a outros que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo que cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo”. Ora, fica claro que o entendimento de toda a complexidade simbólica de Mensagem deve passar primeiro por nossa pura intenção (simpatia) de compreender seu texto de modo mais intuitivo que racional, e que sejamos capazes, sobretudo, de entregar nosso intelecto ao governo de algo maior, que não só nos inspire a perceber o verdadeiro sentido da mensagem oculta em Mensagem, como nos permita alçar à graça semelhante àquela que iluminou o poeta que a escreveu.

Atentemos ainda à estrutura da obra: não à toa o poeta a dividiu em três partes, numa tácita referência (dado ao caráter profético do texto) tanto à trípode sobre a qual se sentavam as pitonisas do oráculo de Delfos, quando vaticinavam aos homens seus destinos, quanto às três fases obrigatórias por quais transcorre e se transmuta a Grande Obra alquímica, a saber e nessa ordem: o Nigredo (a morte simbólica), o Albedo (o renascimento da alma) e o Rubedo (o rebis, a fusão andrógina de nosso ser profundo com a divina Consciência). Além disso, Mensagem é obra tripartite também em clara alusão às três ciências proibidas do hermetismo clássico, por ordem de antiguidade, assim desdobradas: primeiro a magia, estado natural e primitivo de nosso psiquismo, daí a astrologia, conforme a desenvolveram os sacerdotes-magos caldeus há mais de sete mil anos (por isso são doze os poemas da segunda parte de Mensagem, respectivamente relacionados aos signos do zodíaco) e, por último, a alquimia, arte esta mais recente, surgida poucos séculos antes da era cristã, a à qual Fernando Pessoa, conforme lemos em missiva sua enviada ao amigo Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de janeiro de 1935, confessava ao menos ser afeito, se já não fosse, mais que isso, assim presumo, propriamente dela Adepto praticante: “Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (…), extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve a transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os demais caminhos não têm”.

A Primeira Parte de Mensagem intitula-se Brasão. É ao mesmo tempo um decifrar e um velar simbólico dos segredos templário e alquímico contidos nas armas de Portugal. O poeta inicialmente analisa seus dois campos heráldicos: os castelos e as quinas, para em seguida descrever a coroa e o timbre. O campo dos castelos (há sete deles, e são dourados) é vermelho, cor esta que contorna todo o escudo, delimitando o campo branco interno onde estão as quinas (cinco ao todo, cor azul-escuro, a formar uma cruz). Cada castelo relaciona-se a um nome da dinastia portuguesa, também a um dos sete metais alquímicos. De mesmo modo, as cores em questão fazem referência às três fases da transmutação já citadas: o Nigredo, representado pelas quinas escuras; o Albedo, a área branca em que se encontram; e o Rubedo, a cor rubra a cercar todo o emblema. Pessoa ainda explora poeticamente o significado do elmo coroado sobre o brasão e fecha este primeiro terço de Mensagem discorrendo acerca do dragão, que é seu timbre, ao qual o poeta chama de Grypho, cujas asas estão abertas a guardar a coroa, enquanto a besta alquímica cospe seu fogo, elemento este sem o qual não haverá jamais transmutação alguma, em especial da personalidade do Adepto que a prepara.

Pessoa lê no brasão nacional um selo secreto; deslinda sua simbologia esotérica e faz dele a chave de um portal a nos descerrar os mistérios do além-mar. Como veremos, o poeta entende que “O Ocidente é futuro do passado”, ou seja, que o verdadeiro Novo Mundo descoberto pelo viver bravio dos navegadores portugueses ainda está por vir, e que seu reino (e o teor alquímico de Mensagem se encarrega de prová-lo) é, sobretudo, de ordem espiritual.

É assim que sua pena, inspirada pelos tradicionais cartógrafos que desde o século XIV costumavam retratar seus mapas como figuras antropomórficas, com cabeça, tronco e membros, abre sua Mensagem:

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é um ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apóia o rosto;

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.

‘Europa’, de ‘Mensagem’, por Almada Negreiros

Não podemos deixar passar um inquietante paralelo: a imagem de abertura de Mensagem coincide com a das últimas linhas do Ultimatum, propriamente um texto-manifesto de caráter iconoclasta, assinado pelo heterônimo Álvaro de Campos. Trabalho de fôlego a derrubar os ultrapassados valores de uma sociedade avara, espiritualmente medíocre, hobbeanamente presa ao lema “o homem é lobo do homem”, com o qual jamais se conformou o ideal libertário da poesia de Pessoa. Mais do que isso, por meio do Ultimatum, o poeta grita ao mundo que está por vir uma nova era em que a sensibilidade da alma estará revitalizada, posto que libertada dos “preconceitos, dogmas ou atitudes que o cristianismo fez com que se infiltrassem no psiquismo humano”.

‘Álvaro de Campos’, nanquim por Almada Negreiros

Vão aqui suas derradeiras linhas: “E proclamo também: Primeiro: O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo! E proclamo também: Segundo: O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais complexo! E proclamo também: Terceiro: O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais harmônico!
Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas pra a Europa, braços erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstratamente o infinito!”

Mas o que estaria vislumbrando Álvaro de Campos a encerrar assim o seu libelo, braços abertos e com as esperanças voltadas para o Novo Mundo? E quem seria este proclamado Super-homem, igualmente completo, complexo e harmônico? Ora, voltemos à Mensagem em busca desta bem guardada metáfora, perdida na historiografia portuguesa.

O caráter épico de Mensagem explora o arquétipo nacionalista português criado em torno da figura de El-Rei Dom Sebastião (1554-1578), da II ª dinastia, navegador que desapareceu na flor da idade na batalha de Alcácer-Quibir, travada contra os mouros, no norte da África. O XI poema do terço astrológico de Mensagem, A Última Nau, está consagrado ao moto: “Foi-se a última nau, ao sol aziago, erma, entre sonhos e presago Mistério. Não voltou mais. A que ilha indescoberta aportou? Voltará da sorte incerta que teve?…”.

El-Rei Dão Sebastião (1571-1574), óleo sobre tela de Cristóvão de Morais

Ocorre que já em vida o jovem monarca era mui amado por seu povo, visto como um redentor da pátria. Sem a evidência de seu corpo morto, seus súditos mantiveram-se indefinidamente crendo no regresso do herói. Os séculos de espera só fizeram alimentar seu mito, e os jesuítas não perderam a chance de fortalecer seu discurso, identificando El-Rei em suas homilias à figura do mártir São Sebastião. Tanto e que até hoje, em Sintra, no Pentecostes, dão-se os festejos do Culto do Divino Império do Espírito Santo, quando então se renovam as esperanças portuguesas do ressurgimento de um messias nacional, que viria incumbido da missão de instaurar o Quinto Império, já que a monarquia portuguesa, que se estendeu de 1128 até 1910, contou ao todo com quatro dinastias.

Houve quem, querendo aproveitar-se dessa onda do “profetismo” português, ao longo dos séculos XVI e XVII se fizesse passar por D. Sebastião ressurgido, vindo em segredo da África para retomar o trono do Império. Mas, descoberto o embuste, todos esses terminaram seus dias de pseudo-realeza presos ou mortos.

Gonçalo Anes Bandarra (1500-1566)

Por outro lado, em 1603, publicou-se em Portugal um opúsculo póstumo intitulado Trovas do Bandarra, reeditadas como Profecias Trovadas do Bandarra, em 1644. As trovas traziam uma coleta de cantos populares de caráter nacionalista, alusivos à vinda de um novo D. Sebastião, consoante a genuína tradição oral, que vinha sendo anotada desde 1545 por um sapateiro de Trancoso, chamado Gonçalo Anes (1500-1566), mais conhecido pela alcunha de O Bandarra, nome este derivado de Bérrio, anjo Custódio de Portugal.

Com Gonçalo Anes foi que nasceu o “bandarrismo”, designativo da prática de se narrar histórias fantásticas de teor profético, razão pela qual o termo “bandarra” tanto ganhou a sinonímia de “adivinho” como a de ofício, a designar o “sapateiro”. E arrisco dizer de Gonçalo Anes que, sob alguns inegáveis aspectos, é ele propriamente o arcabouço arquetípico português sobre o qual se estruturaria poucos anos depois a visionária figura de Jacob Boehme (1575-1624), também sapateiro filósofo, natural da Silésia, cuja doutrina cosmogônica alicerçaria todo o esoterismo alemão, por essa época emergente. Mas, voltando ao profeta português: a Inquisição de Lisboa condenou as Trovas do Bandarra em 1655, embora já houvesse excomungado o seu autor, em 1581.

Pe. António Vieira – óleo s/ tela – autor desconhecido – Casa Cadaval, Muge, Portugal

Contraditoriamente, porém, foi do seio da própria Igreja que nasceu o maior defensor público do sapateiro-poeta: o jesuíta Antônio Vieira (1608-1697). Homem erudito, também autor de vários textos de cunho profético-nacional a pregar o sebastianismo, entre eles As Esperanças de Portugal e O Quinto Império do Mundo. Padre Vieira, estudioso da cabala e das letras hebraicas, afiançava: eram divinamente inspiradas as Trovas do Bandarra, que tal qual ele próprio, anunciavam o “Quinto Império da Humanidade”, cujo reino seria tanto temporal quanto espiritual.

Fernando Pessoa, envolvido na mística do sebastianismo, dedicou ao sapateiro seu Comentário Maior às Profecias do Bandarra: “O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso”.

Também Os Avisos que compõem a segunda parte do último terço de Mensagem são nada mais do que os três sinais históricos que antecipariam a vinda do messias-rei dos novos tempos. Vejamos, ao lado do Primeiro Aviso, Pessoa escreveu O Bandarra: “Sonhava anônimo e disperso, o Império por Deus mesmo visto (…). Não foi nem santo nem herói, mas Deus sagrou com seu sinal, este cujo coração foi, não português, mas Portugal”.

Antônio Vieira, segundo sinal a revelar o V Império, está homenageado no poema seguinte, Segundo Aviso de Mensagem, que também leva seu nome: ”… No imenso espaço seu de meditar, constelado de forma e de visão, surge, prenúncio claro do luar, El-Rei D. Sebastião”.

Já no Terceiro Aviso, não por acaso a nenhum outro nome associado, o poeta reserva para si o lugar desta incumbência, a de se colocar à disposição de desígnios que estão acima de sua simples vontade: “Escrevo meu livro à beira-mágua, meu coração não tem que ter”. E ele espera pela Hora, isto é, aguarda pelo momento de servir, por meio de sua obra, a algo transcendente, e considera-se pronto a instaurar a nova ordem: “Mas quando quererás voltar? Quando é o Rei? Quando é a Hora? Quando virás a ser o Cristo, de a quem morreu o falso Deus, e a despertar do mal que existo, a Nova Terra e os Novos Céus? Quando virás, ó Encoberto,…”.

A propósito, a consciência que o poeta tinha desta sua heróica missão já fora claramente anunciada em Padrão, terceiro poema da Segunda Parte. Outra preciosa chave de Mensagem se esconde naquilo a que o poeta chama de o “Encoberto”. O termo, escrito assim, com “maiúscula alegorizante”, insinua algo de natureza superior que permanece oculto, e aparece grafado ao longo de todo o poema sob três diferentes graus, em ordem crescente aqui citados, isto é, do mais simples para o mais importante: primeiramente, surge como uma simples palavra a integrar seus versos, depois, “O Encoberto” é nome do 5º poema da Terceira Parte e, por fim, revela-se como título de toda a Terceira Parte de Mensagem.

Sigamos, pois, a pista esotérica a nós deixada. Lendo O Encoberto encontramos:

Que símbolo fecundo
Vem na aurora ansiosa?
Na Cruz morta do Mundo
A Vida, que é a Rosa.

Que símbolo divino
Traz o dia já visto?
Na Cruz, que é o Destino,
A Rosa, que é o Cristo.

Que símbolo final
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal
A Rosa do Encoberto.

Decifremos juntos: onde o poeta escreveu cruz podemos ler o ego. Onde lemos rosa, o poeta disse alma, elemento divino presente em todos nós, capaz de conferir vida à cruz de nosso destino, morta sempre que fechada à luz da consciência crística. É esta a natureza divina da Rosa do Encoberto, única verdade capaz de fazer desabrochar nossa alma entreaberta e nos levar a exalar através do coração todo o amor de seu perfume. Sempre que notamos que algo essencialmente divino mora em nós, aprendemos com maior sabedoria a lidar com a cruz da existência que, sem exceção, todos carregamos sobre os ombros.

Mas a poesia de Pessoa é sempre um prisma a refratar imagens que jamais se capturam, que nos surpreendem a cada novo olhar. Penetremos, pois, no sutil mistério de O Encoberto, título que encerra Mensagem, sob o qual o poeta faz constar em letras itálicas a citação Pax in Excelsis, correlata de uma outra, própria dos rosacruzes. Ora, Pessoa nos fala abertamente desta saudação em sua Explicação de Um Livro: Mensagem, manuscrito datado de 1935, que escreveu em resposta ao fenômeno de estranhamento geral que se deu quando ele, certa feita, defendeu a Maçonaria no Diário de Lisboa, tão logo veio a saber de um projeto de lei que havia contra ela: “Um leitor atento de Mensagem (…) instruído no entendimento ou ao menos na intuição das coisas herméticas, não estranharia a defesa da Maçonaria em o autor de um livro tão abundantemente embebido em simbolismo templário e rosacruciano. (…) e girando o rosacrucianismo em torno de idéias de fraternidade e de paz (Pax profunda, frater! é a saudação rosacruciana tanto para Irmãos quanto para profanos), o autor de um livro assim seria forçosamente um liberal por derivação, quando já não o fosse por índole”.

O tema dos rosacruzes acha-se presente em muitos momentos da Obra pessoana. Há, por exemplo, entre outros trabalhos, um denso manuscrito de 1933-35, intitulado Rósea Cruz, em que Pessoa trata da natureza andrógina de Deus, onde discorre sobre a não eternidade do Universo, também sobre a imanência e a transcendência de Deus.

Christian Rosenkreuz, o Pai Rosa-Cruz

Entretanto, é No Túmulo de Christian Rosencreutz que encontramos outra peça chave do hermetismo pessoano. Composto por três sonetos que se expressam em crescentes paradoxos, Pessoa nos leva ao cerne do mito dos Manifestos Rosacruzes do século XVI para daí penetrar na cripta do Pai Roseacruz no intuito de desvendar, por trás de sua falsa morte, a verdade de todo renascimento espiritual. A tríade hermética destes sonetos nos faz refletir acerca de temas cosmogônicos, como a queda adâmica, a origem da alma, as ilusões guardadas neste nosso mundo e a realidade dos mundos que nos são velados e transcendentes, para os quais é preciso abrir nossa consciência no intuito de tangenciá-los ou percebê-los.

Concordantemente, vejamos o que diz Pessoa em carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo C. Monteiro, que lhe perguntava a respeito de suas crenças esotéricas: “Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não”.

Junto dos sonetos sobre Christian Rosencreutz o poeta faz constar ainda ipsis literis algumas linhas do manifesto Fama Fraternitatis, justamente o ponto em que os discípulos dão com o cadáver intacto de seu mestre, a guardar consigo seus tesouros, tendo sobre o peito o Livro secreto com as diretrizes espirituais para o surgimento de uma nova era na humanidade. Por qual capricho teria o poeta escolhido agir assim?
Vale, pois, voltar àquele Super-homem de Álvaro de Campos, espécie de supra-Camões, alguém capaz de promover uma revitalização da literatura e das artes em benefício de um mundo mais feliz. Não há dúvidas de que Pessoa, consciente do valor de sua obra, assumia estar nesse lugar. Assim afirma em seu Instabilidade: “Pertenço a uma humanidade que está por vir…” E noutro texto, Ressurgimento Espiritual, ele enxerga: “Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração, todas as doutrinas de regeneração, estamos no início de tornar a começar a existir. Chegamos ao ponto em que estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviam-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais de nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível”.

Ora, fica claro que Pessoa não só percebia os novos tempos chegando como sabia ser ele próprio o mais completo e mais complexo poeta de seu tempo, haja vista a profícua produção dos heterônimos capaz de compor uma literatura inteira. Mas ao mesmo tempo, era dotado de uma alma generosa, com o propósito de ser também o poeta mais harmônico. Embora possa parecer paradoxal, convém explicar que o mais harmônico não é outro senão aquele que, mortificando o próprio ego, se entrega verdadeiramente aos desígnios de uma luz maior que a sua, a orientar toda a Obra para uma nova consciência que Pessoa percebia estar na iminência de eclodir, com a proximidade cada vez maior da referida Hora. Assim como está dito no primeiro terço de Mensagem: “Todo começo é involuntário, Deus é o agente”; ou ainda, no verso inicial de seu Mar Português: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

“Não sei quem sou, que alma tenho”; pergunta-se Pessoa em seu Consciência da Pluralidade, e mostra-se perplexo: “Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas”. E mais perplexos ficamos nós diante de sua extrema lucidez em Consciência da Missão: “Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, (…) reentrei de vez (…) na posse plena do meu Gênio e na divina consciência da minha Missão. (…) Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a de ser o que sou. A superioridade não se mascara de palhaço, é de silêncio e de renúncia que ela se reveste”.

Impressionante! Se ao poeta faltava uma completa compreensão de si mesmo, por outro lado guardava a certeza de que, não sendo pequena a sua alma, tudo valia a pena no cumprimento de sua missão de alçar a humanidade a uma nova ordem espiritual. Todo o seu tesouro poético, sua depurada Grande Obra Alquímica, faz evidente este propósito, sua mais nobre, áurea intenção de transmutar a partir de sua poesia o coração dos homens (vide a citação de exórdio). É algo como estar sendo escolhido mais do que escolhendo, estar mais a serviço daquilo que lhe orienta a alma do que nos domínios do mero intelecto ou de seu mundo emocional profundo.

Agreguemos a isso tudo o fato de que em O Futuro de Portugal, Pessoa tece o mapa astral de seu país, regido pelo signo de Peixes. Ele diz: “O Quinto Império, que não calculo, mas sei – está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo”.

Curiosamente, a inferência a que somos inequivocamente levados é a de que não há outro país senão o Brasil que, nascido aos sete de setembro, signo o signo de Virgem (complementar de Peixes), possa cumprir a máxima de Pessoa: “Deus quis que a Terra fosse toda uma, que o mar unisse, já não separasse”. É o Brasil a extensão da Pátria de Pessoa, que é a Língua Portuguesa, também a renovada esperança que se encontra no horizonte para onde Portugal, rosto da Europa, está voltado, o lugar de onde Álvaro de Campos quis ver nascer seu super-homem.

É Hora, pois, de reverberar o grito de Pessoa, de fazer valer as palavras que encerram sua Mensagem, conclamando-nos a todos a um ressurgimento espiritual, inspirado nos ideais do Fama Fraternitatis: É a Hora, Valete Frates!

Espalhemos, pois, a nova ordem para o mundo: Fazei valer, irmãos, é chegada a Hora. É chegada a Hora de uma Nova Consciência! Ouçamos o novo P(r)o(f)ETA, seu arauto, que por clarins toca poesia e se põe a anunciá-la.

A Era de Aquário está lançada, e com ela o Aquarismo, o novo movimento da Nova Consciência artístico-literária que nos amarra a todos em suas provas, em suas boas-novas de cigarra, a cantar as novas trovas de bandarra!

* Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento
e-mail: urban@paulourban.com.br

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