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No Túmulo de Christian Rosencreutz

Fascinado pelo mito da falsa morte do Pai Rosa-Cruz e
pelo tesouro espiritual descoberto em sua tumba,
Fernando Pessoa resolveu também guardar nela,
a sete chaves, o seu maior segredo.
(Por Paulo Urban) *

(Publicado originalmente na edição #3 da Revista Nova Consciência, dezembro-2007, da qual Paulo Urban foi editor-chefe. Pela primeira vez, nesta edição #91 da Revista Mirante, dezembro/2015, este ensaio é publicado em sua versão integral, sem os cortes de edição que antes, por questão de espaço, se fizeram infelizmente necessários).

“Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo, porém, a intenção e a ela respondo”, diz Fernando Pessoa (1888-1935), em carta de 13 de janeiro de 1935, a seu amigo Adolfo Casais Monteiro, integrante da Revista Presença, de Coimbra, para a qual o poeta contribuía desde junho de 1927. E continua: “Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões,(…) a Maçonaria evita(…) a expressão “Deus”, dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer “Grande Arquiteto do Universo”, expressão que deixa em branco o problema de se Ele é Criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação direta com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos”.

Eis como o poeta declara sua cosmogonia. Na mesma missiva, mais adiante, explica: “Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (…), extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve a transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os demais caminhos não têm”.

Sempre foi intenso o fascínio de Pessoa pelo ocultismo, com o qual permeou toda a sua Obra, desde Mensagem, seu poema épico mais famoso, até seus escritos filosóficos, centrados numa metafísica panteísta, própria dos que comungam da visão gnóstico-alquímica da Criação.

O espólio do poeta, catalogado na Biblioteca Nacional de Lisboa, reúne exatos 27.543 textos em verso e prosa, também as milhares de cartas que compõem seu legado espiritual à humanidade. Em sua maior parte constitui um extrato esotérico, acessível aos olhos iniciados capazes de mirar o encoberto além dos véus de sua arte poética. Sua pena está sempre a velar e revelar o ouro alquímico guardado em suas entrelinhas, e sua trama poética a nos enredar no labirinto de seu cotidiano tão insólito, que nos leva a questionar toda a metafísica do universo (in)contida na complexidade de seus heterônimos ou de si mesmo.

Fernando Pessoa em Durban, África do Sul, aos 10 anos

O interesse de Pessoa pelo transcendente já se fazia notar precocemente, desde sua juventude vivida em Durban, para onde foi levado aos 7 anos de idade, posto que seu padrasto fora nomeado cônsul na África do Sul, em 1896. Em julho de 1904, um ano antes de retornar definitivamente a Europa, publica em The Natal Mercury um poema satírico, em inglês, assinado por Charles Robert Anon, possivelmente o primeiro de seus 72 heterônimos a ser concebido. C. R. Anon viria a produzir uma obra extensa, mas vários de seus fragmentos poéticos de 1904 a 1906 foram mais tarde atribuídos com datas retroativas a Alexander Search, espécie de alter-ego de Pessoa, heterônimo que ainda recebeu o privilégio de ter “nascido” em Lisboa na mesma data de seu criador: 13 de junho de 1888.

Em Durban vemos surgir, já maduras, as primeiras reflexões do poeta: Mas que é o próprio homem senão um insecto cego e inane, zumbindo contra uma janela fechada? Instintivamente pressente, para além da vidraça, uma grande luz e calor. Porém é cego e não pode vê-la; nem pode ver que algo se interpõe entre ele e a luz (…) mas não consegue chegar mais perto desta do que a vidraça o permite. Como irá a Ciência ajudá-lo? (…) E todavia acredito que o homem de gênio, o poeta, consegue de algum modo atravessar a vidraça e sair para a luminosidade exterior; sente calor e satisfação por ter ido tão mais longe do que todos os homens, mas mesmo ele não continua cego? Estará mais próximo de conhecer a Verdade eterna?

Neste vislumbre de um jovem, revela-se uma alma muito velha, sábia o bastante para perceber o panorama comportamental de uma humanidade acostumada a viver fechada em seu cotidiano mecanicista, teimosamente cega, alienada das possibilidades transcendentes. E a angústia que pulula no trecho, a fazer do poeta um atormentado visionário, equivale ao grande dilema universal: “de onde vimos, quem somos, para onde vamos?”

O poeta aos 19 anos

Noutro excerto de mesma época, falando de si, Pessoa mostra ser adepto do mais puro Carpe Diem: “Adorava admirar a beleza das coisas, descortinar no imperceptível e através do muito pequeno a alma poética do Universo. A Poesia da Terra nunca está morta. (…) Há poesia em tudo – na terra e no mar, nos lagos e margens dos rios. Também há na cidade – não o neguem – é evidente para mim aqui onde me sento: há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro, há poesia na trepidação dos carros nas ruas, em cada movimento ínfimo, trivial, (…) Há para mim um significado mais profundo do que os medos humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas deitadas num monturo (…) Pois a poesia é assombro, admiração, como de um ser caído dos céus que toma plena consciência da sua queda, espantado com o que vê. Como se alguém conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por recordar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas não se lembrando de mais nada”.

Desde cedo o poeta direciona sua alma a especular qual o “sentido da vida”, enquanto procura decifrar o enigma de sua própria origem. E nos confessa ser sua poesia fruto de seu estado de “participação mística”. O poeta se declara em perfeita harmonia com tudo à sua volta e se entrega à experiência sublime do “aqui-agora”, único continuum de espaço-tempo que existe, real, antes de tudo, porque é só com ele que estamos sempre interagindo. Ao menos é assim que nos explica a mecânica quântica, à qual os paradoxos são a melhor maneira de se compreender os fenômenos. Ao que Pessoa retrucaria: Se há (em minhas respostas) qualquer coisa de paradoxo, o paradoxo não é meu: sou eu. 

Ao longo de sua vida, Pessoa reuniu uma notável biblioteca de ocultismo. Devorava esses volumes; estudava-os, sublinhava várias partes, tecia comentários à margem da leitura. Redigiu uma infinidade de textos esotéricos, interessou-se pelo hermetismo clássico, pelo tarô, a cabala, a magia pagã, e por todas as Ordens iniciáticas ativas ou extintas de seu tempo. Debruçou-se sobre as principais obras da teosofia, traduziu várias delas, e elaborou centenas de mapas astrais de celebridades como Napoleão, Goethe, Shakespeare, Dom João III e outros tantos, além de compor um detalhado estudo astrológico sobre si próprio e seus vários heterônimos. Em 1916, chegou a pensar seriamente em estabelecer-se como astrólogo em Lisboa. Legou-nos ainda seu Tratado de Astrologia, obra do sub-heterônimo Raphael Baldaya, autor também do ensaio Princípios da Metafísica Esotérica. Raros são os astrólogos cientes do fato de ter sido Pessoa, por meio desse seu heterônimo Raphael Baldaya, um judeu português, o introdutor do planeta Plutão, descoberto em 1930, nas cartas natais, como novo regente do signo de Escorpião.

Conforme o espólio desse gênio vem sendo trazido à luz, seus escritos continuam provocando reviravoltas e assombro entre seus críticos e biógrafos. Em 2003, organizados pelo editor-literato Ricardo Zenith, veio a público em Lisboa Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal que reúne, entre vários textos, as psicografias que o poeta recebeu, maior parte delas entre 1916-17. São mais de 200 comunicações mediúnicas, em inglês, francês ou português, com caligrafias distintas e reputadas a heterônimos desencarnados, dentre os quais se destaca Dr. Henry More (1614-1687), um dos chamados Platônicos de Cambridge, astrólogo e ocultista, também um dos adeptos da Fraternidade Rosa-Cruz. Embora o próprio poeta demonstrasse clara descrença no caráter genuíno de tais comunicações, conforme nos revela seu texto Um Caso de Mediunidade (1918/19), o fato é que ele continuou “recebendo-as” praticamente por toda a sua vida.

Henry More tem ainda o requinte de assinar suas mensagens com a insígnia Frater R+C, às vezes acompanhada de sinais cabalísticos; na comunicação de 29-6-1916 aconselha a Pessoa que leia não mais de três livros: 1) A Chave Absoluta para a Ciência Oculta: ou O Tarô dos Bohêmios, de Papus, pseudônimo do médico Gerard Encausse (1865-1916), um dos mais afamados ocultistas franceses; 2) Os Rosa-cruzes: Ritos e Mistérios, de Hargrave Jennings, obra mestra da qual Pessoa possuía um exemplar de 1907, 4ª edição, e 3) More (?), talvez referindo-se aos ensaios de sua própria autoria, ou ainda, dado aos malabarismos do contraditório que abundam pela obra pessoana, o poeta estivesse aí a brincar conosco e consigo mesmo, aconselhando-se por intermédio de Henry More a ler sempre ‘mais’, indefinidamente, haja vista ser este o significado da palavra ‘more’, em inglês.

Impossível, pois, interpretar Pessoa sem levar em conta a afinidade visceral de sua alma com as proposições do hermetismo, incluindo sua confessa atração pelas mais importantes ordens iniciáticas de sua época: os Rosa-cruzes, os Templários, a Maçonaria. Em sua Nota Biográfica, escrita em Lisboa, de 30 de março de 1935, Pessoa declara ter sido “Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemene extinta) Ordem Templária de Portugal”.

Os Rosa-cruzes são tema recorrente em sua Obra, vide, por exemplo, o denso manuscrito Rósea Cruz (1933-35), que trata da natureza andrógina de Deus, também uma discussão sobre Sua imanência e Sua transcendência, e da “não eternidade” do Universo. Entretanto, é No Túmulo de Christian Rosencreutz, composto por três herméticos sonetos, que reside a principal chave para entendermos o quanto Pessoa era iniciado nos grandes mistérios.

Junto à trilogia, o poeta faz constar algumas linhas do famoso manifesto Fama Fraternitatis, publicado em Kassel, Alemanha, em 1614. Não à toa, escolhe justamente o ponto em que os adeptos rosa-cruzes, estupefatos, dão com o cadáver ainda intacto de seu mestre, 120 anos após sua morte, a guardar consigo seus tesouros e tendo sobre o peito o Livro secreto com as diretrizes para o renascimento espiritual de toda a humanidade. Pessoa faz deste cenário mítico sua metáfora mais ousada, aquela por trás da qual resolveu “enterrar” por séculos a fio a preciosidade de sua cosmovisão esotérica, que seus tantos anos de reflexão acerca da origem da vida e do Universo lhe fizeram perceber.

Transportemo-nos, pois, (e)levados pela magia da pena pessoana, ao misterioso pórtico da Tumba de Christian Rosencreutz; busquemos penetrar nela também, passos cuidadosos sobre as linhas e entrelinhas destes versos, deixando que Pessoa ele próprio nos guie pelo labirinto desta sua trilogia, ao encontro de seu centro:

I

Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio.
Por isso afastamos para um lado o altar.
Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo,
e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto…,
e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho,
escrito a oiro, intitulado T. que é, depois da Bíblia,
o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente
submetido à censura do mundo.
Fama Fraternitatis Rosae Crucis

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida…
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu…
De além o Abismo, Sprito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.

O poeta em 1914

Tudo começa com uma complexa questão, que se estende pelos seis primeiros versos deste primeiro soneto. Comparando a vida a um estado de sono, do qual só despertaremos pelas mãos da morte, e procurando sondar também o mistério em que a derradeira hora se traduz, o poeta se pergunta se um dia chegaremos a conhecer toda a escondida Verdade quanto àquilo que somos, ou sobre aquilo tudo que é, que há, ou que flui. Mas fecha o segundo quarteto sem guardar esperanças quanto a isso, dizendo que ‘nem à alma livre (tal Verdade) é conhecida’. Pior, nem mesmo Deus sabe dela toda, tampouco em Si a inclui.

Tal entendimento confere com o que está expresso na carta citada a Casais Monteiro, pela qual Pessoa se mostra reticente quanto a acreditar num Deus Criador. Adepto do mais puro panteísmo gnóstico, afeito à cosmogênese dos alquimistas, cujo caminho elegeu como o mais apropriado à transmutação de sua própria personalidade (conforme o declara na missiva), o poeta crê que o Universo em que estamos inseridos não seria obra senão de um demiurgo; daí dizer que esse Deus que concebemos, em verdade, é ‘o Homem de outro Deus’ que, por sinal, Lhe é maior. O demiurgo – tratado aqui por Adão Supremo – assim como nós, teria também sofrido sua queda. Embora seja ele o nosso ‘criador’, por sua vez, também foi criado pelo Deus maior do qual se apartou, em razão do que a Verdade a ele também se morreu. Disso decorre o aparente pessimismo do poeta quanto à possibilidade de alcançarmos um dia ‘a Verdade do que é tudo que há ou flui’, justamente aquela nos permitiria entrar na posse do Mistério de todas as coisas. Resignado quanto a tal impedimento, assim se concluem os dois últimos versos do I Soneto, explicando-nos que, se por um lado tal Verdade subsiste velada além do Abismo de Seu próprio Espírito (por trás do Incognoscível que Lha veda), por outro, esta mesma Verdade acha-se também ausente entre nós, no aquém deste Mundo em que vivemos, mera extensão do Corpo de Deus e, por conseguinte, também separada do divino âmago, Ele próprio um obstáculo ao nosso hipotético acesso à Verdade das Verdades, ao Mistério de nossa própria criação. E para sondar Verdade assim que nos escapa, nada melhor que o paradoxo – exercício preferido de Pessoa, ferramenta mestra pela qual mais tangenciamos as verdades que raciocínio algum tolera. Por isso o poeta nos convida a entrar com ele no túmulo de Christian Rosencreutz: não só faz deste cenário mítico o depositário de seu maior segredo, como nos obriga primeiramente a morrer simbolicamente junto do Pai Roseacruz no intuito de quem sabe possamos vislumbrar o encantamento da vida através do mistério de nossa própria morte.

Para tanto, o segundo soneto aprofunda o absoluto paradoxo do Mistério de toda Criação. Seus versos trazem o contraponto, lançam a semente da ideia de que nem tudo está perdido. Resta-nos sim, embora remota, uma possibilidade de irmos ‘buscar além de Deus (do demiurgo, fique claro)’, junto ao ‘limiar dos Céus’ (isto é, em instância ulterior e mais sublime), a Verdade proibida, aqui tratada como ‘o Segredo do Mestre e o Bem Profundo’.

II

Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue atual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.

Acompanhemos estes 14 versos, passo a passo: do primeiro quarteto depreendemos que ‘antes era o Verbo, aqui perdido’ em meio ao Caos (que o poeta chama de ‘chão do Ser’ – metáfora para o estado primevo do Universo, o ‘não tempo’ de nossas mais remotas e olvidadas origens) de onde se ergueu certa feita a ‘Infinita Luz (da Criação)’. Esta Luz, entretanto, que até então estivera apagada, ao levantar-se, cumpre o propósito de seu imponderável Mistério: ao rasgar o Caos, ao mesmo tempo em que dá vida a todas as coisas, faz com que sobre tudo aquilo que é, que há, ou que flui, também se projete a Sua Sombra, com o que, inevitavelmente, já nasce escurecido o nosso Mundo, desde os primórdios apartado do Verbo Criador, ‘ausente’ de nós por ser em Si incognoscível.

Por isso, ao abrir o segundo quarteto, pondera o poeta que ‘a Alma sente a sua forma errada’, afinal, nada somos senão sombra projetada, vivendo num Mundo separado de Deus, mero estado de ilusão. Mas Pessoa nos promete agora a esperança de que a alma, em que pese seja sombra, simples criatura, enxergue em si mesma a centelha divina de que nasceu dotada. Pois, em cada um de nós vive e brilha o ‘luzido Verbo’ que nos torna ‘humanos e ungidos’, a conferir a cada um de nós o sagrado sentido da própria existência. Chave-mestra desta trilogia, em havendo intenção mais alta nossa de conhecermos a Verdade, o poeta faz lembrar que este Verbo outrora perdido é o mesmo que nos torna ungidos, a fazer de cada um de nós ‘Rosas perfeitas (símbolo da alma em sua divina essência) em Deus crucificadas’. Hermética e sublime metáfora, Pessoa nos sopra o grande ensinamento de que nesta peregrinação terrena precisamos viver aceites e entregues de corpo e alma à sacralidade da própria existência; esta, por sua vez, representada pela cruz, símbolo máximo da intransferível e pessoal missão que nos cabe neste Mundo de sombras em que vivemos.

Pois, só mesmo quando entregues à mais prosaica tarefa de viver cada um dos nossos dias, e desde que cientes da divina instância que habita cada ser e cada instante vivido, é que poderá a criatura alçar-se à decantada Verdade que se encontra guardada além de Deus, aquela mesma que o poeta denomina de ‘o Segredo do Mestre e o Bem Profundo’. Pessoa nos remete assim, em sua ambiguidade sempre legítima, tanto ao insondável Mistério de Deus (ao Segredo do Mestre), quanto ao mítico enigma que o ‘Pai Roseacruz’ esconde consigo em sua tumba, lembrando-nos ainda de que tal Segredo não somente se traduz por um ‘profundo Bem’; como também, por jazer silente no ‘bem profundo’ de seu túmulo, assim se protege do profano olhar do Mundo, restando, pois, inacessível às almas que não ousem penetrar no mistério de si mesmas, que não se proponham a visitar-se em suas salas mais escuras e sombrias.

Ricardo Reis pela pena de Almada Negreiros (1893-1970)

Às que ousem fazê-lo, entretanto, e assim se concluirá o segundo soneto, estarão não somente atentas à realidade comum e às armadilhas do Mundo (Não só de aqui), mas acordarão do esquecimento, do sonho que sonham de si mesmas (já de nós, despertos) pela presença viva do Cristo que em todos nós habita. E só assim, ‘despertos’, é que estaremos sendo banhados ‘no atual sangue do Cristo’, no cálice de Seu amor cujo poder faz perfumar e desabrochar todas as Rosas em Deus crucificadas (todas as almas que se descobrem perfeitas à Sua imagem e semelhança). Neste dia estaremos ‘enfim libertos do a Deus que morre a geração do Mundo’. Estranho último verso que requer devida explicação: o poeta lembra aqui que não podemos desperdiçar nossa existência deixando a Deus que tudo seja feito conforme a Sua vontade, sem que nos entreguemos ao humano cumprimento da parte que nos cabe, como criaturas que somos, da Grande Obra divina e alquímica. Maior tolice é viver esperando que os anjos façam por nós aquilo que só a nós compete. Oração, já diz o nome, é orar, mas pede ação. E é justamente desse mal, denuncia o poeta, ‘que morre a geração do Mundo’, adoentado pelos tantos que se descomprometem em descaminhos, que abandonam seu compromisso com a existência. E a cura arquetípica para tal mazela, onde estaria? Segundo Pessoa, secretamente guardada na atualidade do sangue de Cristo, pela qual se fará desperta toda Rosa (que é a alma) que em Seu cálice se banhe. Pois, só quando entregues estejamos aos esforços em imitá-Lo à nossa melhor maneira, por sermos feitos à Sua semelhança, e primando pela perfeição possível – aquela que talvez jamais se alcance – é que desabrochará (despertará) a nossa consciência ‘em Deus crucificada’ (para acordar na Luz da Vida, na Grande Consciência). Nessa hora, através de seu aprendizado mais humano, exalando os ares da divina fragrância (o alento) de que nasceu dotada, é que toda alma e cada criatura tanto mais perfumará o Mundo à sua volta, por estar aceite a vivenciar em si as chagas do Cristo crucificado. Noutras palavras: só mesmo conquanto entregues às dores de nossa própria existência é que estaremos de fato buscando pela suprema Verdade. Verdade esta, outrossim, que talvez só venhamos a alcançar, inevitavelmente, através da morte, por penetramos conforme o Cristo nos ensina no Mistério da Ressurreição (da transmutação alquímica), no milagre da divina transcendência. E será justamente este o tema do terceiro soneto, a desfechar tão fabulosa trilogia. 

III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De Ser: mas como, aqui, a porta aberta?

…………………………………………………………….

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.

Heterônimos, por Ademir Pascale

O primeiro quarteto do III Soneto retoma a proposição de abertura de toda a trilogia: a de que nossa consciência ainda dorme. Por isso, ‘dormindo o que somos’, iludidos estamos, e ‘irreais, erramos’ pela estrada da vida. E seguiremos sempiternamente ignorantes da Verdade enquanto não ‘soubermos o que somos’ (segundo verso do I Soneto). Por não passarmos de sombras é que estamos fadados a jamais provar da Verdade. Ademais, ‘inda que enfim a vejamos’, é em sonhos que o fazemos, ‘em falsidade’. Dado a isso, só nos resta sentir a realidade como se fôssemos ‘sombras buscando corpos’ (assim se abre o segundo quarteto), já que ‘nosso toque é ausência e vacuidade’ (assim ele se fecha).

Mas Pessoa bem observa que, embora mal saibamos enxergar a Verdade, sobra-nos ainda o recurso extremo de ‘ouvirmos para além da sala de ser’ o chamado capaz de nos libertar a alma fechada. Só pela escuta (intuição) podem as almas inclinar-se a perceber em todas as coisas e seres a imanente presença de Deus, e ainda seu transcendente aspecto que aponta para uma realidade ulterior ‘além da sala de ser’, algo, portanto, que sendo invisível para os olhos se permite perceber por escuta mais sublime. Por isso é que, perplexo agora, o poeta interroga como pode estar ‘aqui, a porta aberta?’ Justamente, quem nos abre a porta é nossa afinada intuição, função anímica transcendente capaz de nos (re)conectar ao nosso quê de divino. Só assim aquela perdida Verdade, que até ao demiurgo estava morta, pode ressurgir rediviva a ponto de ser vislumbrada (experimentada) através da passagem que não é outra senão a perfeita Rosa ora aberta; a saber, a alma que em seu desabrochar, espontaneamente se entrega à Imitatio Christi, única e sagrada via capaz de fazê-la alçar-se a assimilar em si as duas mais cruciais lições do Cristo.

Fernando Pessoa, xilogravura de Miguel Cabañas

Infelizmente, embora sejam somente duas tais lições fundamentais, o caso é que em nossa humana teimosia a primeira delas dificilmente aprendemos e, na segunda, não acreditamos. A primeira lição, ora, não é outra senão a do amor; já através da segunda, Cristo nos ensina que a morte não existe. Ele próprio, através de Sua Ressurreição nos dá a mais viva prova disso, atestada, inclusive materialmente, pelo mistério do Santo Sudário que até hoje sobrevive entre nós. Pessoa, que bem aprendeu ambas as lições, trata da segunda noutros poemas também, como, por exemplo, em seu “Iniciação”: “A sombra das tuas vestes/Ficou entre nós na Sorte./Não ‘stás morto, entre ciprestes./……./ Neófito, não há morte.”

Em sua sabedoria de alma velha, nesta trilogia Pessoa resolve encerrar estas duas lições, e a sete chaves guarda, pois, este tesouro, sua Verdade. Genialmente, toma ainda o cuidado de interpor entre o primeiro e o segundo terceto de seu último soneto uma linha intencionalmente pontilhada, a dar ideia do quanto de abissal se abre entre nós e o Velho e Metafísico Mistério. Outrossim, ousando transpor ao menos poeticamente tal abismo, o vate nos convida a mergulhar no profundo Espírito de Deus através da porta ora aberta. Por isso nos conduz à sala mais secreta onde jaz a tumba do ‘Pai Roseacruz’, onde decidiu depositar também seu segredo alquímico mais profundo. Para tanto, vale-se da mítica figura do mestre que historicamente nunca existiu, através da qual alude à redentora imagem do Cristo (não à toa o Pai Roseacruz se chama Christian, não por acaso seu primeiro heterônimo, já o vimos, era C. R. Anon, por onde bem se vê que desde seus 16 anos Pessoa já se interessava por este fabuloso mito, brincando lá do alto de suas conjecturas em criar um personagem que fosse o ‘Anônimo R. C’, alusão ao desconhecido mestre Rosacruz).

Fernando Pessoa, caricatura por Orlandei

Bem assim, ‘Nosso Pai Roseacruz, o livro ocluso contra o peito’, ao mesmo tempo em que ‘conhece’ a Verdade, cala-se sobre Ela. Se diante de nossos olhos profanos nos ilude ‘calmo (que está) na falsa morte’, em contrapartida, frente ao olhar iniciado nos revela a mesma Verdade que o Cristo veio ensinar: a de que a morte, por ser falsa, inexiste, quando quer que se confronte à Verdade da Santa Ressurreição. Penetrar na Tumba de Christian Rosencreutz, nesse sentido, equivale a descerrar o véu da ‘falsa morte’, mero contraste da verdadeira vida que nos espera a todos do “outro lado”, promete-nos o poeta (que viu, por ser p(r)o(f)eta), além do abismo pontilhado de reticências mil que ignoramos, “quando, despertos deste sono, a vida, soubermos o que somos!”.

Enquanto não chegamos lá, a segunda lição do Cristo permanece intacta e incorrupta (como o cadáver de Christian Rosencreutz), inteiramente inacessível. Resta-nos, porém, o consolo de que ao longo da estrada da vida, peregrinas criaturas que somos, possamos ao menos aprender, passo a passo, o teor da primeira das lições. Pois só assim chegará o dia em que, havendo já experimentado das nossas mais dolorosas chagas, atualizados, portanto, pelo sangue do Cristo, isto é, pelo exercício da compaixão, nos flagraremos como se rosas perfeitas fôssemos, a exalar o perfume de nossas almas, na da lide de todos os dias crucificadas.

Fernando Pessoa, tela de Marta Ahou

Mas nesse dia, uma vez assimilada a primeira lição, a segunda já nem terá importância alguma. Pois, nem mesmo o mistério da morte é pedra mais preciosa que o exercício do amor. Este sim, antes da morte, a todos nós redime. E é esta a Verdade perdida desvendada e re-velada por mestre Pessoa; eis aí o ouro alquímico que nos transmuta e vivifica, o natural milagre que nos alça em comunhão com a Consciência além do demiurgo. Guardado a sete chaves nesta trilogia, nenhum outro legado decantado pela pena alquímica poderia ser maior que sua Pedra (que é sua Obra), entregue toda ela a serviço do Pai e de toda criatura que, tendo olhos que escutem, saiba ver.

* Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento
urban@paulourban.com.br

Para saber mais:

1. Fernando Pessoa, Escritos Autobiográficos, Automáticos e de Reflexão Pessoal, Ricardo Zenith, editora Girafa, 2006

2. “Pessoa Oculta em Pessoa”, texto do autor que você encontra neste site e também na Revista Mirante # 90, outubro/2015

3. “O Poder dos Manifestos Rosa-Cruzes”, texto do autor que você encontra neste site

4. “A Mensagem de Pessoa”, texto do autor, também publicado no Amigo da Alma.

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