Amigo da Alma Rotating Header Image

Caminho do Sol: uma Senda de Iluminação

CAMINHO do SOL: UMA SENDA DE ILUMINAÇÃO

(Matéria publicada na Revista Nova Consciência, edição # 2, novembro/2007, da qual o autor foi editor-chefe). 

Texto de Paulo Urban, médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento.

Fotos de Ana Paula Brasil, artista plástica e peregrina: peregrinapaula@hotmail.com

“Muito mais que meras provas de esforço e resistência, as peregrinações guardam consigo o poder de nos levar, passo a passo, a enxergar melhor nossa própria natureza”. 

Ilusão acreditar que possamos controlar o curso da vida. Havia um chamado. Teimei o mais que pude ignorá-lo, mas o tema ressurgia como um eco a repetir meu nome. Certa feita, entre sonhos e devaneios, de novo ouvi a luz e vi mais claro o tal chamado. Era o Sol me convidando a seguir sua estrada! E esta era sua lição preliminar: quando quer que nos abramos para a vida, ela, a vida, nos revela seus caminhos.

Eu recebera uma excelente mochila em meu aniversário, o que demoveu minhas últimas resistências. O presente me incentivou a comparecer à palestra obrigatória de apresentação do Caminho do Sol. Na mesma noite, inscrevi-me na aventura. Iria experimentar as emoções dos 242 quilômetros que, perseverantes, trilhamos ao longo de 11 transpirados dias.

Pousada 1896 – Santana de Parnaiba, noite de 20 de março de 2006. Recebendo as credenciais de José Palma, idealizador do Caminho do Sol.

Em duas semanas tudo estava organizado. Reunia-me com um grupo de peregrinos na Pousada 1896, prédio tombado, em Santana de Parnaíba, local de pernoite à véspera da partida. Percebia-me tocado em meio a uma vintena de pessoas entusiasmadas com o empreendimento que faríamos.

Semana antes eu consultara um velho amigo, cujos pés já rodaram mais de 7.000 quilômetros pelo mundo. Fora ele quem pela primeira vez me falara do Caminho do Sol, tão logo inaugurada sua rota, em 2002. Deu-me uma série de conselhos. Teimoso como eu só, não querendo seguir ao “pé da letra” (com o perdão do trocadilho) tudo o que ele me falava, guardei comigo uma certeza que contrariava suas dicas. Eu elegera para o percurso o meu fiel coturno, velho companheiro de aeronáutica, desde quando eu servira como médico, isso há quase vinte anos. Embora surradas, as botas estavam em excelente estado e bem adaptadas aos meus pés, acostumadas às trilhas nas montanhas. Ora, se no serviço militar serviam para correr três quilômetros todo santo dia, por que não se prestariam agora para andar esses 242? E foi assim que, logo de início, comecei quebrando a cara, melhor dizendo, quebrei os pés!

O primeiro trecho de 16 km entre Santana de Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus é percorrido à beira-estrada. Um “tirinho” de reconhecimento. Somos assim apresentados ao Caminho do Sol enquanto ele, por sua vez, a nós se apresenta. Aprendemos a seguir as setas amarelas que nos orientam a cada bifurcação. Nesse dia, os peregrinos costumam trocar piadas, num falatório sem importância. Nosso grupo, ainda tímido, preferia estar coeso para conhecer-se melhor. Meu amigo veterano dos caminhos nos acompanhou até a cidade seguinte, onde faríamos o primeiro descanso.

Tão logo chegamos, soltei a pesada mochila sobre a cama e descalcei as botas. Os pés estavam ótimos; olhei com ares de vitória para meu amigo. Ele ainda comentou que eu carregava bagagem em excesso. Justifiquei que era o equipamento necessário à foto-reportagem que faria para esta Revista. À mesa de refeições, sentou-se um bando voraz. Mais à tardinha, à beira da piscina, converso com um espanhol que veio ao Brasil especialmente para fazer o Caminho. Ele havia servido por 14 anos na organização internacional Médico Sem-Fronteiras, em missões na Libéria, Angola, Iraque e outros países. “Sou seu colega de profissão”, revelei, “psiquiatra”. Conversa fascinante, inevitáveis temas, entramos pela psicanálise de Freud, viajamos pelos arquétipos de Jung e empreendemos psicodélica jornada pela psiquiatria de Grof, e expliquei-lhe a influência do xamanismo andino sobre a Psicoterapia do Encantamento. Após o jantar, aquele meu amigo veterano despediu-se do grupo – só viera mesmo apadrinhar-me – desejando a todos un Buen Camino, como se diz nas terras de Santiago.

Na manhã seguinte, comecei a fazer as primeiras coisas erradas. Peregrino inexperiente, último a sair do albergue, atrasara-me ao rearranjar a mochila, fazendo caber tudo ali dentro de novo, protegendo o pesado equipamento fotográfico. Pior, quis ainda tomar um banho, ideia que se revelou fatal para meu ego tão certo daquilo que fazia. Peguei estrada uma hora depois do grupo e, com os pés úmidos pela ducha matinal, terríveis bolhas se formariam ao longo dos próximos 24 quilômetros. Dali até Cabreúva, meus pés estouraram.

A chegada na pousada foi dramática. Lembro-me de ter me animado ao entrar na zona urbana, exausto e com as botas me moendo. E o medo de e ver os pés incharem a ponto de não mais caberem no calçado? Dava tudo para alcançar o albergue, mas ele, simplesmente, não chegava. Ingratas setas amarelas me afastaram da cidade. Na dúvida, consultei o guia. Sim, era preciso tomar uma segunda estrada. Meus pés aguentariam o martírio? Uma lâmina penetrava a carne a cada passo. Eu não andava; tergiversava. Pensamentos daninhos me tomavam. Faltavam três quilômetros, mas as subidas os multiplicavam por cem. Fui o último a chegar. A mocinha da portaria deu-me boas-vindas, dura ironia diante da íngreme subida que me levaria à recepção. A mochila pesava uma tonelada. Suas alças massacravam-me os ombros que, tensos, doíam demais. Não houve outro jeito senão subir aquele o morro. Um calvário.

Márcia, dona da pousada, experiente hospitaleira, humor dos melhores, ao ver-me, compreendeu: era eu o retrato da ruína. Destacou um funcionário para ajudar-me e aconselhou que eu aproveitasse o restinho do Sol na piscina enquanto agendava para mim uma sessão de massagem. Única pousada a oferecer profissionalmente este serviço, justamente onde mais dele precisei. Descalcei o coturno e avaliei o estrago: uma bela bolha em cada sola e os entrededos todos em carne viva. Era este o bisturi que me cortava. Após a massagem, senti certo alívio, mas havia dor pra muito tempo ainda.

À noite, missão especial de guerra, lá estava o médico sem-fronteiras atendendo o médico sem-juízo… o que é que eu estava fazendo ali?, perguntava-me em meio a um bando de curiosos que se divertiam, fazendo até pajelança para que eu me recuperasse. Para quem nunca havia tido uma só bolha nos pés em toda a vida, honra maior era poder entregá-las aos cuidados de um cirurgião especialista. Um peregrino chique!

Manhã seguinte, gaze nos curativos e duas meias em cada pé, para diminuir o atrito. Quase impossível calçar as botas. Tentei-o várias vezes. Foi preciso abrir a língua e repassar todo o cadarço, furo por furo, mesmo assim meus pés mal entravam no coturno. O dia começou com uma escalada de 700 metros por uma trilha que sai dos fundos da pousada. Márcia sempre acompanha os grupos nessa subida. Ô, subidinha puxada! Como galgávamos devagar, os pés não deram alarme. Fosse subir morro o dia todo, creio até que bem suportaria os 24 km desse terceiro dia. Mas ao descermos pelos prados, voltando à rodovia, a história fez-se outra. Impossível acompanhar o pessoal. Meus pés voltavam a doer e tornei-me novamente o retardatário. Perdi todos de vista. Havíamos saído tarde e o Sol ardia já bem alto. Mais adiante, uma seta mandava desviar por uma estradinha de terra.

Nesse ponto, eu, que mal podia andar, vi um dos peregrinos voltar correndo em minha direção, mochila nas costas, falando ao celular. Que teria acontecido? Estariam precisando de um médico? Nada disso. A preocupação era comigo mesmo. Era Márcia ao telefone. Ela já havia retornado à sua pousada e a questão era a seguinte: dali pra frente era só terra, estradinha bem ruim até a próxima fazenda. Logo, queriam saber se eu precisava de uma carona. Márcia se oferecia para levar-me pela rodovia diretamente até o destino, onde eu teria trégua, a fim de melhor recuperar-me para o dia seguinte. A oferta me pegou de guarda baixa. Respirei fundo, pensei uns segundos e pedi o telefone:

– Conhece o Paulo Coelho, Márcia?

– Aquele que escreveu um livro sobre o Caminho de Santiago?

– Sim, o mesmo que diz ter feito tal caminho. Pois então, você está falando com o primo dele, Paulo tartaruga, peregrino do Sol.

Ouvi risadas.

– Agradeço-lhe pela preocupação e juro que não se trata de orgulho besta, se eu vier a precisar de um carro, saberei aceitar, mas, por ora, creio que ainda dá. irei andando; chego tarde, mas chego.

Ela ainda lembrou a fábula da tartaruga que, em sua constância, vence o coelho espertalhão. Nisso se precipitou em mim um dos mais simples entendimentos: pra que viver correndo, tentando desdobrar-me em mil só para estar em grupo ou atender necessidades alheais? Conforme me ensinara o serviço em pronto-socorro: o principal é sempre o principal, só não é principal para sempre. Reconhecer o principal consiste em eleger o que imediatamente deve ser feito, sem que nos preocupemos com quaisquer outras pendências. É saber distinguir o mais importante do resto todo que pode esperar. Às vezes, o principal é alguma urgência nossa; outras vezes, o momento é o de atender a um ente querido ou cuidar de algum entrave, sejam os problemas mais simples ou as demandas mais sérias. É preciso saber distinguir quando as pessoas realmente precisam de nossa ajuda das vezes em que estão apenas atuando sobre nós, sugando-nos por conta de suas carências, atalhos suspeitos capazes de nos desviar de nossa rota.

Para mim, estava claro, o principal ali era o próximo passo. Era dar conta de meu caminho. Lucidez em cascata, entendi ainda que só devemos aceitar o peso justo sobre as costas, aquele que nos diz essencial respeito, jamais a culpa dos outros. E eu ali, bela metáfora ambulante, com quilos de equipamento e outras não necessidades na mochila. Claro, um dos objetivos era escrever esta matéria, mas seria isto agora o principal? Como preocupar-me com fotos de arte quando mal se sabe andar?

O peregrino que viera em meu socorro pediu licença e pôs em meu pescoço um singelo rosário trazido da Espanha, asseverando que o terço me protegeria. E contou que já andara de Roma a Santiago, hospedando-se nas igrejas. Não obstante sua extrema boa vontade para comigo, nossos passos eram em tudo desiguais. Sugeri-lhe que não se prendesse por mim. “O caminho nos põe sozinhos, respondeu-me, justamente para que reflitamos mais e melhor”. E se foi. Dura mestra a solidão. Pus-me a seguir absorto, incapaz sequer de imaginar o fantástico que me reservaria aquela curva mais adiante.

De repente, percebi-me atravessando um santuário de borboletas. Uma miríade delas voava à altura dos pés. Era preciso o cuidado de não as esmagar. Miúdas, amarelinhas, pareciam setas vivas do caminho. Às tantas, uma borboleta maior, toda laranja, pousou em meu coração e aí se manteve por mais de um quilômetro. Emocionava-me ver aquela frágil mandala abrindo e fechando as asas em meu peito. Ao voar, circunscreveu acrobacias próprias do Cirque de Soleil e voltou a pousar, desta vez sobre o dorso de minha mão direita, onde se manteve por mais meia-hora. A cena fez-me rasgar outro véu. Sempre entendi as borboletas como bênçãos-fractais; agora curavam meus pés e aquela maior, especialmente, vinha soprar-me que para trilhar os caminhos da vida, é preciso um coração. Eu vivenciava o holograma de meu mito pessoal, afinal, sou curador, e escritor também. Preciso, literalmente, de minha mão, com ela exerço meu sacro-ofício; ela representa a síntese de meus talentos, é símbolo maior de meu trabalho.

A mensagem era clara: sem coração, não há cura; sem amor, nenhum passo faz sentido, nem nada do que escrevesse estaria autorizado. Médico-escritor, jamais devo esquecer que meu foco é sempre a cura, seja clinicando no dia-a-dia, seja cirurgicamente revisando meus textos. Meu escrever é um exercício de cura pessoal quanto e, ao mesmo tempo, um meio de levar alguma cura a todo aquele que nos lê.

Quando deixei o santuário, a borboleta se foi; voltei a sentir o peso nas costas e os ossos dos pés pareciam de novo estar moídos. Uma pequenina sombra me aguardava. Sentei-me numa valeta, pernas esticadas para cima. Logo um carro estacionou à minha frente.

– Aceita carona, peregrino?

Era um senhor simpático. Perguntei seu nome.

– Clemente, dono do armazém Limoeiro, local de descanso mais adiante.

Sob um Sol inclemente, aquele nome reverberava de sentido. Perguntei quanto faltava. “Quatro quilômetros”, ele disse. Calculei que andando devagar, em algo mais de uma hora estaria lá. Agradeci e o carro se foi. Retomei o caminho resignado, as bolhas me matavam e clemência era tudo o que eu buscava para as dores. Foi quando resolvi apelar aos mantras e entregar-me à orientação divina. Dali a vinte minutos e diferentes mantras, ocorreu-me uma ladainha em espanhol: “Soy el corazón de la madre, soy el corazón del’amor, soy el corazón del padre, su unión con dios…” A repetição do verso musical em pouco tempo me levou a um estado de participação mística. Tudo à minha volta tornou-se de repente mais brilhante e a natureza assumiu um aspecto soberano. As rochas da paisagem tinham vida, o chão pulsava, e o gado nos prados era a própria mansidão de Deus. Lembrou-me a miração da ayahuasca. A beleza da paisagem suplantava infinitamente minhas dores, e percebi que podia pisar. Eu estava na força. Meus pés pareciam curados, já não doíam, e meus passos, ora seguros eram quase velozes. Logo ouvi o vozerio dos peregrinos e facilmente os alcancei. Passei por eles cantando. Mal criam no que viam: “É o Paulo!”. Alguns fizeram coro à ladainha que, peito aberto, eu entoava, e deles me distanciei. Pela primeira vez eu seguia sem peso, respirando em liberdade.

Mais adiante, pressenti que alguém me alcançava, podia ouvir nitidamente uns passos firmes de mim se acercando. Entretinha-me com o espetáculo natural à minha volta e calculei que fosse um peregrino mais forte, que eu sabia estar lá atrás andando devagar apenas para conversar um pouco. Sim, seria o único capaz de fazer páreo ao meu alucinado ritmo.

– Pedro, é você? – E cantei mais alto para ver se ele dizia alguma coisa. – E aí, Pedro? Força que estamos chegando! – Ninguém respondeu. Mas os passos se fizeram ainda mais próximos. Lá vem brincadeira, pensei, e resolvi olhar pra trás e ver quem era. Arrepiei-me todo. Simplesmente, não havia ninguém, exceto a natureza inteira me sorrindo. Desabei a chorar. A sensação daquela presença fora bem forte, eu escutara nitidamente aqueles passos. Emocionado, entendi que nunca estivera sozinho desde o santuário das borboletas, quando fiz as minhas preces. Alguém mais forte me guardava, talvez desde o primeiro passo no caminho. Guardei a intenção em saber quem era e veio-me instantaneamente a imagem de um paciente a quem eu ajudara em sua derradeira hora. Se o destino me fizera outrora anjo da morte para ele, parecia ser ele agora o meu anjo peregrino, a trazer-me a benção de me sentir assim, bem acompanhado em meu caminho.

Cheguei ao armazém do Limoeiro radiante, onde descansamos antes de seguir viagem. Seriam mais 13 km até a fazenda em que nos hospedaríamos. Aos poucos fui sentindo os pés reclamarem mais alto, enquanto as dificuldades do caminho assumiam maior peso agora que a beleza da paisagem. De novo vieram as dores e fui ficando pra trás. Difícil. Tendo-me demorado na venda, a noite já atirava seu manto sobre mim. Dali a pouco nem teria como ler as setas. As primeiras estrelas me desafiavam e o halo débil do crescente anunciava o breu que já viria.

A preocupação tomou conta. Curva adiante, entretanto, dei de cara com outro peregrino, um que pela quarta vez fazia esse Caminho. Ciente de meu estado, ali se pusera à minha espera, a fim de me guiar noite adentro. Prendendo em sua testa uma lanterna, iluminou nosso trajeto. Gesto de irmandade sem o qual eu certamente me perderia. Quando chegamos, o pessoal jantava. Aplaudiram-nos de pé. Abracei meu amigo. Não fosse sua ajuda, perdido em qual quebrada eu estaria a essa hora?

Descalcei o coturno e fui cuidar das bolhas. Outro peregrino acercou-se querendo saber que número eu calçava. Na certa vinha criticar-me, pensei, quem sabe quisesse me dar alguma lição em relação às botas, dizendo o mesmo que eu já ouvira de tantos, que eu devia ter comprado botas um número maior que o do pé etc…

– Calço 40 – respondi contrariado.
– Ah, eu também – disse ele – vou lhe dar então um par de tênis para que caminhe melhor.
– Como é que é? – mal acreditava no que ouvia. Tivesse Deus me dito ali: “Filho, tens direito agora a um único pedido”, sem dúvida eu pediria um par de tênis! – mas não vai fazer-lhe falta? – completei.
– Em absoluto, trouxe três pares comigo, certo de que alguém poderia precisar. Vou deixar um com você, e se servir, é seu!

Ana Paula Brasil me dizendo que eu poderia ilustrar toda a matéria com as superfotos dela.

Manhã seguinte, aposentei o fiel coturno e aceitei o presente que de coração me era dado. Passei a caminhar como se pisasse sobre a relva. Chão macio e bolhas se curando, fui ganhando resistência a cada dia. Impressionante guinada, passei a ser dos primeiros a chegar às pousadas e, ao longo dos onze dias, o único a não aceitar um só metro de carona.

Outra dádiva me caiu nas mãos: no grupo havia uma fotógrafa profissional, cacife de 4 mil fotos na rota de Santiago e outras mil do Caminho do Sol. A propósito, são delas as fotos que ilustram esta matéria. Outro problema que se resolvia de modo simples e surpreendente. Acessei novas lições e entendi bem ali a diferença entre carências e necessidades.

Carências, todos temos. E são essencialmente afetivas. Mas diferem amplamente de nossas reais necessidades. De nada adianta projetar nossas carências sobre os outros, esposa, filhos, amigos etc… Muitos relacionamentos procuram escorar-se sobre padrões emocionais de mera dependência afetiva entre as partes. Um dia, a ilusão se desfaz e percebemos o quanto nos engana “sentir-se amado para sempre”, ou protegidos por alguém que, sabe-se lá quando, poderá faltar ou nos trair de algum modo, ou simplesmente nos abandonar por uma inexplicável razão. Então, com nossas crateras reabertas, resta fácil cair no sombrio da depressão, onde ficamos sofrendo entre altos e baixos, às vezes sob efeito de remédios, até um dia descobrirmos que se encontra exclusivamente dentro de nós a chave capaz de nos libertar de nosso poço de carências. De mesmo modo, trazemos na mochila da vida nossas reais necessidades. E é preciso saber arrumá-la direito.

Nossa entrada pelas ruas de Águas de São Pedro – 31 de março, 2006

As necessidades nunca são muito nem são pouco, são necessidades. Para mim, a certa altura, ela se reduziu a um simples par de tênis. Nem as fotos de Ana Paula, ainda que vivas brilhem na matéria, eram necessidades. Daria pra seguir todo o Caminho sem elas, ao passo que me seria praticamente impossível chegar a Águas de São Pedro não fosse a aparição sobrenatural daquele par de tênis, sincronicidade tão forte quanto a realidade daquela companhia que me fez chegar ao Limoeiro. A necessidade é sempre uma exclusividade; para alguém, pode ser a extrema cura de um filho, para outro uma chance nos negócios, ou crucialmente um gole d’água para quem está perdido no deserto. A necessidade é mãe do milagre. É Jesus quem nos ensina: “Pedi, e ser-vos-á dado. Buscai e achareis; batei, e a porta abrir-se-vos-á”. Enfim, é preciso tanto saber pedir quanto estar aberto para receber; em verdade, mal sabe o que quer aquele que se permite enganar por seus desejos. Pois, para que possamos pedir algo, é preciso antes estar disposto a entregar o coração ao “dedo de Deus”, única seta verdadeira a indicar o bom caminho. Mesmo assim, ainda que ofereçamos nossas melhores intenções aos desígnios do Pai, certeza nenhuma nos é dada sobre a vida nem as coisas. Às vezes, por exemplo, quebramos direitinho a nossa cara quando, cegos de razão, teimamos crer que com um par de coturno se possa caminhar sem problema algum 242 quilômetros. E todo cuidado é pouco quando se trata de distinguir a tola certeza daquela outra, espiritual, que nos convida a cumprir nossa pessoal missão, mesmo nas horas mais difíceis, quando é preciso fé para seguir adiante.

Benção maior: a chegada à Casa de Santiago em Águas de São Pedro foi a vitória da oração sobre o medo, a glória de encontrar nas próprias dores a semente da compaixão, também a lição de que o simples é sempre o mais forte, que todo amor é curativo. O Caminho, matriz da vida, nos ensina a identificar nossas reais necessidades, mediante o que podemos exorcizar nossas carências.

No Horto de Águas de São Pedro, somos convidados a dar breve depoimento de nossa experiência e recebemos das mãos de José Palma, o Arasolis, certificado de realização do Caminho do SOL

Peregrinar é antes de tudo um exercício de oração, perseverante busca pela abertura da chaga cardíaca capaz de nos abrir o santuário do amor incondicional, única via verdadeira de iluminação.

Uma peregrinação nos atira à missão da estrada, liberta-nos dos antigos padrões que nos amarram e que precisam ser em nome de toda cura transformados. E só podemos vencê-los assim, passo a passo. Caminhando, momento virá em que nos percebemos mais fortes do que antes, quando relutávamos em ouvir o chamado a despertar em nós o Sol de uma Nova Consciência.

Nesse dia, compreendemos que a missão é cada passo, algo como descrever um perene rastro sem vontade alguma de chegar, e saber que para realizar a Obra é confiar nas divinas setas que apontam para o porto d’alma, sempre vivo e por achar. Que também o Sol é peregrino do zodíaco, e conquanto ilumina, nos convida a caminhar.

___________________________________________________________

SERVIÇO: para saber mais acerca do Caminho do Sol, visite:

www.caminhodosol.org

para contato e outras informações: fone: (11) 2215-1661

e leia também aqui no Amigo da Alma: “Caminho do Sol, Saúde e Cultura ao Alcance dos Pés”

3 Comments

  1. wilma disse:

    Encantada, relato maravilhoso para quem já fez, como eu, uma etapa do Caminho de Santiago de Compostela. Saí de Sarria e em 9 dias estava em Santiago às 12 horas para a missa dos peregrinos.
    Aventura maravilhosa, aventura porque não me havia preparado. De uma noite para o dia resolvi e sai para caminhar estes 110 km mais ou menos.

  2. Rosa Maria disse:

    Obrigada!!! Chorei…chorei…lágrimas de saudade,de gratidão.
    Também eu senti durante o Caminho uma forte e terna presença. Durante a leitura do seu maravilhoso relato pude sentir novamente esse doce contato!

    Grande Abraço

  3. Gran contenido, sigue haciendolo de esta manera y cada vez llegará lo
    verá mas gente, como yo, que te he encontrado
    por internet y me has dejado impresionado.

Leave a Reply