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A Pedra

Perguntávamos àquela noite a Christiano Sotero qual a natureza última da Pedra, em que se resumia, cabalmente, o arcano segredo do Lapis Philosophorum, esse mercúrio redivivo dos alquimistas que nosso mestre, particularmente, denomina Pratalíquis. Escorreito metal, melífluo e corredio, volátil e pressuroso, que a tantos sopradores de vidro custou-lhes a vida ou a saúde, que a raros outros trouxe a glória da sublime alçada, e que à maioria conduziu somente à loucura.

Nossas tertúlias se registravam àquela época sempre às noites das quartas-feiras, dia de Mercúrio, nosso bom patrono, que diligentemente e cvm. patientia nos reunia em torno de seu incógnito mistério na biblioteca-laboratório de Sotero que, dado aos raros volumes e pergaminhos ali guardados, mais se parece uma secreta Alexandria. Alan e eu, cada vez mais intrigados com as demandas propostas pelo mestre, obrigados éramos a cuidar de manter vivo e brando o fogo do atanor, alimentado pela madeira de nossas mais consumíveis questões, animado pelo fole de nossas expectativas.

Ao início de cada trabalho, à caótica Prima-mater juntávamos nossos mais inconciliáveis conflitos, buscando alcançar pelo fogo e pela prece a alentadora promessa de uma experiência redentora.

“Oedipus Chimicus”; J. J. Becher, 1664

Primeiro, combinávamos; daí, separávamos; e queimávamos ainda para, logo em seguida, dissolver o impuro decomposto, e depurávamos destarte o dividido para depois juntar a ele novamente o oleoso extrato obtido à custa da matéria que sobrara coagulada, conforme regrava o manuscrito, e procedíamos todo tempo de avental, fole à mão, pipeta à boca, pondo a mistura líquida na quimérica retorta noite afora, ousando assim lograr o milagre de unir o rei vermelho à sua esposa virgem e branca. E quando por pura veleidade de aprendiz julgávamos estar prestes a entrar no Templo em que se celebram as núpcias entre alma e Espírito, bem ali, naquela biblioteca, suspenso nos ares, não raro se fazia presente deus Mercúrio, fiel companheiro dos homens, pés e têmporas alados; e vinha caçoar de nós, zombar de nossa incapacidade em capturá-lo entre os dedos das mãos. E quando ao término desse trabalhesforço todo mais uma vez rompia no horizonte nosso frustrado último intento, sabe-se lá porquê, percebíamos-nos como que por encanto transformados, tocados pelo caduceu e pela chama de tão mercuriana aventura.

Sotero, lembro bem, Alan e eu já nos púnhamos prontos a ir embora, baqueta à mão como se regesse os astros, detendo-nos, pôs-se a declamar solenemente, pés descalços cravados na marmórea herma do pórtico de sua casa, a resposta daquilo que há tanto tempo perguntávamos, sempre àquelas repetidas noites de quarta que, entretanto, se nos revelavam sempre novas:

A PEDRA

Desconhecida, próxima e tão íntima,
oculta aos olhos virgens por tão óbvia,
desperta por chamado as almas sóbrias
que buscam em seus silêncios águas límpidas.

Incógnita e ubíqua tem lei própria:
serpente, come o rabo, língua bífida;
escrita sem pronúncia, é uma sílaba,
jamais lhe alcança o nome a boca pródiga.

Profanos dão com ela em seu caminho,
mas a chutam por entrencruzilhadas;
pedreiros quando a têm jogam-na fora,

Guerreiros a desprezam por batalhas,
pois, raros logram ter desta Senhora
o d’Ouro transmutado em seu cadinho.

C+S .:.
N.N.D.N.N.
Equinócio Vernal, ano da Graça de MCMLXXXVII

“Tabula Smaradigna”, monumento fulcral do imaginário alquímico, in “Amphitheatrum Sapientiae Aeternae”, por Heinrich Khunrath, Hanover, 1606.

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