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Máscaras – Os Dez Mil Rostos de Deus

 Máscaras – Os Dez Mil Rostos de Deus  

Texto publicado na Revista Planeta, edição 362, novembro/2002.

Todas as ilustrações que acompanham este texto, são máscaras criadas pela artista plástica Mônica Facó, e suas imagens e seus respectivos direitos autorais estão protegidos por lei, exceção feita à imagem do feiticeiro de Trois Frères, bem como a foto de Joseph Campbell, que foram colhidas na internet.

Contatos com a artista plástica podem ser feitos pelo e-mail: :monicaf@solar.com.br

 

mascara4BEnigmáticas, inquietantes, trágicas ou cômicas, assustadoras ou belas, as máscaras compõem um extraordinário acessório de formas e funções múltiplas, cujas origens se perdem na noite universal dos tempos. Simples ou complexas, articuladas ou imóveis, antropomorfas, zoomorfas ou híbridas, feitas de folhas, de cascas e de ramos vegetais ou de tecido, de pele ou de couro, de madeira, de conchas, forjadas em ouro, prata ou outros metais, esculpidas em pedra ou cozidas em cerâmica, moldadas em papel etc, as máscaras são artefatos omnipresentes que espelham as sociedades que as engendram.

Sua ocorrência é de tal ordem diversificada que, desde os primórdios da humanidade, pelos cinco continentes encontramos variações de seu uso que chegam quase ao infinito. Remarquemos ainda que mesmo os povos primitivos que ignoraram os mais simples utensílios e ferramentas e que prosperaram sem sequer conhecer a roda, fabricavam suas máscaras para usá-las num contexto ritualístico e sagrado. Estudos antropológicos e descobertas arqueológicas feitos a partir do século 19 atestam serem as máscaras mais difundidas pelo mundo do que o arpão, a alavanca e o arado.

Xamã de Trois Frères, Ariege, França – máscara mais antiga de que se tem registro, em toda a humanidade

A primeira máscara de que se tem registro está gravada, entre centenas de outras figuras, na caverna labirinto de Trois Frères, em Ariège, nos Pirineus, datada do Paleolítico Superior (30.000 a 10.000 a.C.), descoberta em 20 de julho de 1914. Com a eclosão da I Grande Guerra dali a um mês, seu estudo só pôde ser iniciado pelo abade Henri Breuil em 1918. O arqueólogo interpreta a imagem rupestre do feiticeiro barbudo, cujas pernas são de homem e cujos membros dianteiros são de urso, como um xamã antropozoomórfico que, usando máscara de cervo, preside um ritual de cura e caça, associado à fertilidade.

Joseph Campbell

De fato, consoante o mitologista Joseph Campbell (1904-1987), temos de buscar no mundo primitivo, onde deuses e demônios não são realidades fixas e rígidas, a maioria dos indícios sobre a origem da mitologia; um deus (na acepção arcaica) pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares, como uma melodia ou sob a forma de uma máscara tradicional. E onde quer que ele surja, o impacto de sua presença é o mesmo: ele não é reduzido pela multiplicação. Além disso, a máscara em um festival primitivo é venerada e vivenciada como uma verdadeira aparição do ser mítico que ela representa. Durante o ritual do qual a máscara faz parte, aquele que a estiver usando é identificado com seu deus.

Etimologicamente, o termo máscara tem origem controversa. Para uns procede do italiano maschera que, no século XIV, se constituiu sobre a forma anterior mascara. Originalmente, estaria relacionada ao baixo latim mediterrâneo masca, cujo sentido era o de “demônio” e que no século VII assume a acepção de “bruxa ou feiticeira”, que se transferiu ao francês occitânico. Para outros, o termo maschera introduziu-se na Itália a partir das invasões árabes, sendo corruptela de mashara, a significar “personagem bufão”, por sua vez derivado do verbo sahir, que quer dizer “ridicularizar”.

Dentre as inúmeras funções das máscaras está a de reanimar os mitos que sustentam os costumes sociais; por meio de seu uso os homens cumprem seus ritos cosmogônicos e tomam consciência de seu lugar no universo. Citemos as danças em procissões mascaradas que fecham os trabalhos de cultivo, semeadura e colheita na maioria das culturas primitivas de base agrícola, mais arcaicamente presentes entre os povos da África negra. Os dançarinos mascarados kurumbas, por exemplo, fazem gestos e movimentos circulares de cabeça que reproduzem o ato criador de seu herói civilizador Yrigué e de seus filhos, descendentes do céu.

A propósito, na África e em muitas outras partes, as máscaras não se acham somente associadas às práticas agrárias, mas também aos ritos iniciáticos e funerários, conferindo aos homens a possibilidade de compreensão do drama coletivo que dá sentido às suas vidas. As máscaras presidem cerimônias importantes, são insígnia de grau e de poder, fazem-se presentes tanto na vida quanto na morte, regem ritos sazonais e constituem-se em elemento de controle social, visto que permitem a certos iniciados a comunicação com seus ancestrais e hostes elevadas que protegem ou ameaçam a vida de seu grupo.

mascara8Compreendamos melhor essa relação nas palavras do etnólogo Claude Lévi-Strauss: Animada por seu portador, a máscara transporta a divindade até a Terra, ela revela sua realidade e a mistura à sociedade dos homens; inversamente, quando se mascara, o homem atesta sua própria existência social, manifesta-a, codifica-a à custa de símbolos. A máscara é a mediadora por excelência entre a sociedade e a natureza, e a ordem sobrenatural subentendida.

Portanto, cumpre ressaltar, as máscaras se revestem de um poder mágico especial; por meio delas podemos ter acesso ao mundo invisível e, por isso, não são inócuas. A máscara e seu usuário se alternam e se mesclam numa só (inter)face; estabelece-se assim, por intermédio dela, uma ponte onde supostamente se condensa a força vital capaz de apoderar-se daquele que se coloca sob sua proteção.

Máscaras são, destarte, instrumentos de possessão. A multiplicidade de suas formas, que muitas vezes funde numa mesma figura traços humanos e animais, bem expressa a infinidade de forças circulantes no universo que, captadas pela máscara, aglutinam-se de modo a permitir ao ser humano confrontar-se com potências que jazem dormentes no mundo interior, desconhecido e sombrio.

Isto nos reporta aos indígenas norte-americanos - tribos Hopi e Zuñi e outros habitantes pueblos e iroqueses – cujos ritos mascarados são complexos, voltados à proteção contra a fome, a seca, as doenças e as catástrofes naturais. São deuses-animais que presidem a “Sociedade de Medicina” desses povos, todos mestres das ervas medicinais e ritualísticas, também detentores dos segredos da feitiçaria.

mascara5Neste particular, os deuses totêmicos assumem relevante papel, servindo aos iniciados na magia e na cura xamânica como base de identificação dos valores que eles simbolizam. Os totens, representações geralmente colunares de máscaras de animais, plantas ou objetos sagrados, sob esse aspecto, potencializam as qualidades de suas entidades mágicas pela repetição de seus ícones ao longo de sua verticalidade.

Ainda que nos seja impossível esgotar tão fascinante tema, não deixemos passar as tradições gregas que, desde as civilizações de Minos e Micenas, bem exploraram o uso mágico das máscaras, quer em danças sagradas quer em ritos funerários. Foi o espírito grego, entretanto, dotado de argúcia e senso estético, o principal responsável pela primeira grande transformação no que se refere ao sentido e ao uso das máscaras. Os gregos, por meio delas, inovaram o teatro.

A bem da verdade, as primeiras representações teatrais não são gregas, mas egípcias. As mais antigas referências datam de 2.800 a.C. e o drama de Osíris, por exemplo, continuou sendo produzido em estrito senso litúrgico pelo menos até o século 5 a.C.

Também na Grécia antiga o teatro era forma corrente de se dramatizar e reavivar a mitologia; os Mistérios de Elêusis, por exemplo, desde o século 8 a.C. eram encenados segundo um protocolo sagrado imutável e diziam respeito a um rito de fertilidade. Uma montagem teatral em três atos representava os dois graus dessa iniciação; o primeiro de caráter popular; o segundo, reservado aos eleitos. Mas, por conta de festivais anuais dedicados a Dionísio, instituiu-se a competição teatral nas categorias tragédia e comédia. A propósito, a palavra teatro provém do verbo grego theasthai, cujo significado é “ver e enxergar”.

A primeira encenação artística foi uma tragédia escrita por Téspis de Icaria, realizada em Atenas, em 534 a.C., durante o governo do tirano Pisístrato. O primeiro autor foi também ator de seu drama; engajou-se num diálogo com o coro e, para melhor expressar a densidade trágica de seu texto, posto que a platéia se sentava no chão ou sobre rochas, distante da cena, introduziu as máscaras. Estas eram mantidas frente ao rosto apenas durante as falas, seguras pelas mãos. Os trágicos clássicos Ésquilo e Sófocles, mais tarde acrescentaram um segundo e um terceiro atores ao drama, que mantinham diálogos com o coro. Este, chefiado pelo corifeu, era composto por 15 homens. Já as comédias admitiam coros de 24 integrantes; e às mulheres estava vetada a função. O teatro grego, originalmente, era um simples grande círculo conhecido por orquestra, que em grego quer dizer “local onde se dança”; somente em 460 a.C. foi introduzido o palco de madeira, embora o coro continuasse a colocar-se lateralmente a ele, na orquestra.

A máscara dramática introduzida por Téspis fazia figurar o prósopon, isto é, a pessoa ou o personagem que, em latim, se diz persona, sinônimo de máscara, também de caráter ou papel representado pelo ator.

mascara7Dar-se conta das diferentes personas que vestimos, isto é, estar consciente das máscaras que servem ao ego em seu exercício de (re)velar-se aos outros, é fase preliminar e imprescindível de todo e qualquer processo de auto-conhecimento, a que o psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961) chama de individuação. Isto porque, forçosamente, para que estabeleçamos contato com o mundo exterior, assumimos parências que nem sempre correspondem àquilo que somos essencialmente. Sob o prisma da psicologia junguiana, a persona encarna a metáfora da fixidez da máscara do ator que, no transcorrer de sua recitação, desenvolve o papel que lhe cabe procurando fazer coincidir as qualidades de seu personagem com a
(i)mobilidade plástica de seu rosto. Desse modo, tornar-se consciente da própria persona ou de seus aspectos mais relevantes, é perceber aquilo que “já somos” no mundo, posto que a persona traz elementos fortes de caráter que nos são dados desde as primeiras experiências de vida e que se cristalizam sobre o ego ao longo de todo um complexo processo de desenvolvimento da personalidade.

A persona “per si”, é claro, não pode ser entendida como traço psíquico patológico; nem a constatação óbvia de que nos valemos de certas máscaras que intermediam as relações humanas pode ser chamado simplesmente de hipocrisia. As personas são mesmo necessárias e representam até certo ponto um sistema útil de defesa. Tornam-se patológicas quando o ego as valoriza em absoluto e deixa-se enganar por sua mera aparência, a propósito, aquela mesma com ele quer se mostrar aos outros. Em tais circunstâncias neuróticas, comuns por sinal, o ego converge a energia psíquica quase que exclusivamente para os papéis sociais assumidos e guarda uma consciência cada vez mais virtual dos verdadeiros valores perdidos em seu mundo interior, esquecendo-se de si próprio e preterindo o revitalizador caminho da individuação. Nestes casos, restamos presos em nossas próprias armadilhas tal qual o ator que se deixa dominar por seu papel a ponto de perder a noção de sua genuína identidade, negligenciando o verdadeiro sentido de sua existência.

Convém resgatarmos aqui a citada crença primitiva, que ora se reveste de profunda verdade psicológica, que faz da máscara um instrumento de possessão, capaz de pôr em risco a integridade psíquica daquele que a experimenta sem antes sacralizar este seu ato.

A psicoterapia, nesse aspecto, é processo dinâmico e necessário capaz de aguçar o ego para que se conscientize de seus disfarces, a partir do que poderá vislumbrar sua natureza mais profunda. O caminho da individuação pressupõe que nossas máscaras sejam paulatinamente experimentadas, assimiladas, reconhecidas e retiradas; tão logo a última das personas seja compreendida pelo ego, este se depara com sua face natural e despida, até então oculta, entretanto.

Exatamente nesse ponto se imbricam o ego e o eu profundo; abre-se aí o portentoso umbral para o mundo da sombra, psicologicamente denso. Se chegamos a esse ponto da jornada, a alma sabe que voltar é impossível; penetrar nesse reino é inevitável a essa altura do processo. A experiência não é mesmo fácil, assume caráter iniciático e promete dor, morte simbólica, renascimento e transformação.

Em nossa sombra, oculta pelas máscaras cotidianas, encontra-se a possibilidade da plena comunhão psíquica pela conjunção intrínseca de nossos pares opostos e complementares; nesse mundo abissal está a chance do ser humano conhecer-se por inteiro. Os alquimistas representam esse fenômeno pela sigízia, ou o casamento entre sol e lua. Os taoístas revelam-no pela ciência de Yin e Yang. Os povos magistas ensinam, de mesmo modo, há milênios, que assim como é embaixo é em cima; assim como é dentro é fora; assim como tudo foi, tudo é e sempre será. E cada máscara representa um detalhe de Deus a ser reconhecido e experimentado em prol da evolução de nossas almas.

O que há para se ler: 

Masques du Monde, M. Revelard & G. Kostadinova; La Renaissance du Livre, Bélgica, 2000.

Este artigo não pode ser publicado ou distribuído sem autorização escrita do autor ou citado sem referência ao mesmo. Todos os direitos reservados, incluindo as imagens.

Para melhor conhecer a arte de Mônica Facó e maravilhar-se com suas inspiradoras mandalas, suas máscaras e seus talismãs, visite o site pessoal da artista: www.artedaalma.com.br

One Comment

  1. Elaine Noswitz disse:

    “…O confronto entre ego e eu profundo traz a possibilidade da plena comunhão”… Penso que é disso que todos carecemos…e urge uma busca nessa direção.
    Encontrei mais um caminho de grande aprendizagem nestes textos!
    Obrigada!
    Elaine.

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