“Minhas imagens requerem uma explicação, porque sem isso elas são muito herméticas e têm muito de uma fórmula só para os Iniciados. Ao mesmo tempo, o conjunto de ideias que elas expressam, embora essencialmente factual e impessoal, parece, para minha constante surpresa, ser tão pouco usual e, nesse sentido, tão inédito, que eu não conseguiria encontrar um expert com suficiente compreensão para escrever a seu respeito, sem ser eu mesmo”, escreveu Escher, em 1958.
Sinto-me solidário ao artista holandês neste particular, pois, bem sei o quanto meus sonetos são via de regra herméticos, daí a necessidade de serem muitas vezes precedidos por uma parte texto, que componho eu mesmo para assim apresentá-los ou, melhor explicá-los (a compor os assim chamados “sonetextos”), haja vista o milenar peso da TAO - Tradição Alquímica do Ocidente, que os influencia desde quando aos 13 anos, em 1978, comecei a escrevê-los, tão logo ingressara nos estudos da Nobre e Secreta Arte professada por Christiano Sotero, meu mestre sonetista (mestre também de Alan Rodrigues de Carvalho, meu colega dos idos do Colégio, ora confrade de Ordem e de Letras, iniciado na TAO em 1980).
Por conta disso, foi de tal ordem o impactassombro de que me vi tomado quando, pela primeira vez deitei os olhos nas maravilhas de Escher que, vez por outra, ponho-me a escrever alguns sonetos sobre seus trabalhos, jamais na vã pretensão de explicá-los, senão na humana tentativa de poeticamente resgatar algo de sua anatomia esotérica, cuja singularíssima simetria constante em seus trabalhos cumpre encerrar as mais profundas e paradoxais verdades filosóficas. Ora, as obras de Escher expressam o inusitadabsurdo daquele quê de divinexistência que brilha em nosso pasmolhar todas as vezes que miramos, através das janelas da face, a beleza da Criação a envolver (e ao mesmo tempo, a revelar) os seus naturais segredos impressos no cerne de todas as coisas, bem como na raiz de toda e qualquer imago dei que flamba nossas almas.
Sim, as litografias e xilogravuras de Mauritius Cornelius Escher revelexpressam por todos os ângulos e olhares os Grandes Mistérios que jazem guardados no mais profundestado de nós mesmos, onde as maiores antíteses polares e os absolutos contrastes se relativizam na plena comunhão de um perfeitestado de conflitarmonia. Os mirabolantes escherefeitos traduzem, pois, quase sempre em preto e branco, as cores todas de uma geometria anímica que universalmente especula a si mesma em sua fulcral questão, ao longo de sua particular jornada de retorno àquilo que poderia ter sido o antes de seu “vir a ser”, momento este que nunca deixou de ser nem mesmo existiu. E assim seguimos todos, sem exceção nem lei, perdidos a indagar o que é que estamos fazendo nesse estranho mundo em que vivemos, que nos prende em seu giro e torvelinho dia e noite e por todos os séculos desde sempre ou mesmo nunca nesse seu até quando então assim girar.
E na certeza de que sonetilustrados também não se explicam, ainda que em versos se enredem e se desfiem tal qual os desenhos de Escher fazem sofismar os maiores koans jamais escritos, é que procuro tão-somente deixar aqui minha contribuição ao murmúrio do tempo, artesão do futuro, que, em seu semprassoprar nos traz o desejo de um perene devir, ao mesmo passo em que nos promete que jamais haverá liberdade enquanto nos deixarmos levar pelo eternilusório giro da Velha Grande Roda.
E como nos faz lembrar cada estudado traço do nanquim de mestre Escher, o negro e o branco são mesmo as mais cruéis realidades de uma imponderável relatividade que se esconde na virtualidade de todas as cores, tanto quanto a Luz divina se traduz em mistérios e matizes através da benção com que Ela própria se esparge pelo universinteiro em Sua cosmiquinfinita compaixão cromática.
RELATIVIDADE
soneto inspirado em litografia homônima de1953,
de Mauricius Cornelius Escher (1898-1972)
Samsara que eu só subo e desço escadas,
autômato trabalho em andamento,
na relatividade eu saio e entro
por portas que abrem fecham sempre aos nadas.
Imagens matemáticas têm centro,
mandalas simetrieternestradas,
o mundo em labirinto é conto em fadas,
vertiginoso sopro em que me alento.
Nova litogravura em quadros velhos,
nas lides sem sorriso em torvelinho,
sem rosto, eu só repito os movimentos.
Na roda em quadratura eu bebo o vinho
e morresqueço em meus renascimentos,
sou Escher, sou Mauricius, sou Cornelius!
Paulo Urban, Sonetista do Aquarismo
decassilabos heroicos
18 de julho, MMX – 13h


Sempre gostei muito dessa imagem.
Ainda, com soneto!!…
Excelente!