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O Mito de Sísifo-Poeta

Escrevo Sonetos (*). Respiro Sonetos. Sofro da maldição de Sísifo-poeta preso à febre intempestiva de compor sempre sonetos. Nos momentos mais intensos, em comunhão com algo que, vulcânico, se me jorra, que, tirânico, me comanda, e que, vesânico, não comprrendo, sou forçado a grafite dar vazão a esses sentimentos que em catorze versos me assolam e me conclamam a declamar aos quatro ventos suas quatro estrofes em decassílabos heroicos bem cantadas.

Porque sou eu mesmo essa canção que vem à tona, aquela que jaz guardada no profundevisceral de minha alma… e quando entre metáforas e delírios a concebo e por versos a desfio, e pretensamente creio esteja finda tal tarefa, basta pôr-me a reler com (c)alma as linhas desfiadas para que, num assombro densaflito, já no inaudito instante seguinte, tudo então incontrolavelmente recomece. Então sou de novo essa inquietudinsana que me domina e me faz subir montanha até que uma vez mais galgado o cume eu me projete sobre o abismo que me convida a seu irresistível mistério. E sempre assim, fadado à queda de mim mesmo, atado a esse terrível fado que tanto mais dói conquanto em mim verseja, volto a deslindar imagens consoante meus passos sobem montanha a impregnar e assolar-me de poesia, passos estes que não comando e me atormentam lancinantemente.

Talvez por isso escreva sonetos, senão para saber-me, para abismar-me… alma atraída para o Mistério que me obriga ao paradoxo de mergulhar cada vez mais profundamente em busca das alturas e do vislumbre de entrelinhas que jamais em meus olhos saberei. E como, em verdade, nada sei, resignado cumpro a maldição de…

 

Sísifo

 SÍSIFO

Tomado pela febre e desatino
eu sofro feito Sísifo poeta
o peso do trabalho cuja meta
me prende à maldição de sonetino.

Escrevo e nunca chego ao fim da reta,
a linha é eterna fita e seu destino
faz percorrer em versos de menino
meus passos que perseguem cruz e seta.

Não posso terminar nunca uma frase
no cárcere das letras infinitas;
a cada meus quatorze versos subo

ao monte e, quase ao cume me derrubo,
meu grito ecoa em rimas colorfitas…
papéis sonetespalho e volto à base!

Paulo Urban, maio, MMVIII

(*) o termo “soneto” provém do provençal sonet, a significar “pequena canção”, ou “cançoneta”.

2 Comments

  1. Amável Paulo, que dizer diante do magnífico? E pensar que estou lendo por meus próprios olhos, e que Tudo Isto me toca, de alguma forma sou eu dentro do Soneto.
    Esplendoroso, Paulo, admiro o poeta que és.

  2. Rosangela Coelho disse:

    e nunca chegaremos ao fim.
    já nem sabemos se existe o tal fim.
    Lindo soneto.

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