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Reconhecendo o Céu de Verão

PARA VER E ENTENDER ESTRELAS

RECONHECENDO O CÉU DO VERÃO

Texto de Paulo Urban, publicado na Revista Planeta, edição nº 387, dezembro/2004

Paulo Urban é médico psiquiatra e Psicoterapeuta do Encantamento.

Ilustração de Rubens de Azevedo

Não são apenas os animais, as florestas, a água e o clima do planeta que estão ameaçados, a noite também é um espécime em extinção! Metade da Europa já não tem mais como observar a Via-Láctea, aquele rastro discreto e luminoso composto por bilhões de estrelas que são parte da Galáxia. Nos E.U.A., tanto pior, são mais de 85% da população os que jamais viram uma noite!

A República Checa foi dos países o primeiro que aprovou em junho de 2002 uma lei visando a proteger o céu, delimitando áreas que deverão permanecer sem iluminação artificial, para que a noite possa ser vista do jeito que ela realmente é! Por conta disso, e pressionada pela comunidade mundial de astrônomos, a Unesco foi conclamada a fazer da noite patrimônio da humanidade, no intuito de preservá-la.

Em nosso Brasil, entretanto, agraciado com uma biodiversidade ímpar e recursos exuberantes por todo o seu território de proporções continentais, a noite, ao menos por enquanto (sejamos vigilantes em preservá-la!), continua sendo um espetáculo à parte, um convite generoso da natureza que nos permite escolher se desejamos trilhar poética ou cientificamente os misteriosos caminhos do universo.

Aproveitemos nossa preciosa chance! Oferecemos aqui ao leitor um retrato simplificado e prático do céu de verão, de modo que qualquer leigo interessado nas curiosidades astronômicas possa ver e entender um pouco melhor o fabuloso mapa celeste que todas as noites se abre sobre nossas cabeças.

Céu Austral, Andreas Cellarius, 1660.

Céu Austral, Andreas Cellarius, 1660.

Para início de conversa é aconselhável que o leitor procure se afastar o mais possível das zonas urbanas, pois nas grandes cidades, poluídas e demasiado iluminadas, não há céu que se apresente. Dê preferência a regiões altas, das quais possa melhor avistar a maior extensão possível do horizonte à sua volta. Pois bem, uma vez eleito o local a nos servir de observatório, tanto melhor se igualmente optarmos por noites límpidas de lua nova (quarto minguante ou quarto crescente também servem), de maneira que as estrelas não sejam intimidadas pelo clarão de nosso satélite natural. Garantidas estas providências, olhe agora, caro leitor, para a profunda imensidão celeste que nos cerca. Se a receita foi seguida direitinho, cumpre dizer: há aqueles que chegam mesmo a sentir certo medo ou estranhamento diante dessa incomparável maravilha; e costuma ser universal a sensação de gratidão aos deuses e de humildade diante dos milagres da vida, sempre que devidamente nos colocamos sob a abóbada absoluta e estrelada.

Hiparco de Nicéia

Cláudio Ptolomeu

À vista desarmada conseguimos observar, ao longo de uma noite, cerca de sete mil estrelas nascendo no leste e caminhando 15 graus/hora até descambarem no poente. Vemos mais de duas mil ao olharmos para o céu em cada determinado horário, estrelas de distintos tamanhos, brilhos e cores, agrupadas em diferentes constelações. Nosso intuito é indicar ao leitor aquilo que pode ser visto a olho nu ou melhor observado com o auxílio de simples binóculos ou modestos telescópios. A propósito, somente os olhos eram os instrumentos de investigação do grego Hiparco de Nicéia, (190-125 a.C.), fundador da astronomia, primeiro a classificar cerca de mil estrelas. Outro matemático grego, Cláudio Ptolomeu (90-168 d.C.), 300 anos mais tarde, atualizaria o trabalho de seu antecessor por meio da famosa obra Almagesto, catalogando 1028 estrelas, agrupadas em 48 constelações, 12 zodiacais, 21 boreais (do norte) e 15 austrais (do sul), que permaneceram intocáveis até a época das grandes navegações.

Perceba agora o leitor que as estrelas têm, evidentemente, diferentes brilhos. Hiparco observou o mesmo e classificou inicialmente as estrelas em seis classes; as mais brilhantes foram nomeadas de 1ª magnitude, e as seguintes em ordem decrescente de brilho, de 2ª a 6ª magnitude. Ptolomeu designou essas magnitudes pelas seis primeiras letras gregas e criou magnitudes intermediárias. Até hoje a astronomia se vale dessa classificação, mas a usa sobre uma base mais acurada. Os cientistas sabem que cada magnitude representa, numa escala algorítmica, 2,5 vezes mais brilho que a magnitude imediatamente inferior. Logo, um astro de 1ª magnitude é 100 vezes mais brilhante que os de magnitude 6. O avanço das pesquisas, entretanto, fez notar que as estrelas costumam ter magnitude variável, e que algumas eram ainda mais brilhantes que as de 1ª magnitude, de modo que surgiram astros de magnitude zero ou mesmo de magnitude negativa, mais brilhantes ainda. Também foi preciso dividir o intervalo entre as magnitudes em centésimos, para melhor comparar o brilho entre as mais diferentes estrelas. Citemos aqui a estrela mais brilhante de todos os céus, por sinal visível nos meses de verão, Sírius, que pertence ao Cão Maior, cuja magnitude é de –1,58. Isto significa dizer que Sírius é uma vez e 58 centésimos mais brilhante que os astros de magnitude zero e cerca de 1000 vezes mais brilhante que os corpos celestes de 6ª magnitude, que se encontram no limite da visão comum. 

Convém explicar também que não é por esta escala de magnitude, dita aparente, que podemos saber quais os astros mais próximos ou mais distantes de nós. Há estrelas que brilham muito, mas se acham remotamente afastadas daqui, ao passo que outras tantas, bem mais próximas, têm menor brilho intrínseco. Se quisermos comparar a magnitude absoluta (real) das estrelas, temos que trazê-las todas imaginariamente a uma mesma distância de nosso sistema solar, definida em 10 parsec pelos astrônomos (1 parsec = 3,26 anos luz); somente assim podemos saber quais as que realmente brilham mais que as outras, intrinsecamente.

Constelação de Órion e suas "Três Marias"

A Constelação de Órion e suas Três Marias

As noites de verão, no Hemisfério Sul, são especialmente ilustradas pela imponente figura do caçador Órion, constelação melhor indicada para iniciar todo aquele que deseja penetrar nos segredos desta aventura fascinante que é o reconhecimento celeste. Localizemos o gigante caçador por meio de sua bainha, delimitada pelas tão popularmente conhecidas Três Marias.  Seus nomes, conforme batizadas pelos árabes, são Mintaka, Alnilam e Alnitaka, respectivamente conhecidas na astronomia como delta, épsilon e zeta de Órion. O uso de letras gregas foi proposto por John Bayer, em 1603, quando da publicação do primeiro Atlas Celeste, intitulado Uranometria. Inspirado em Ptolomeu, Bayer designou, de modo geral, a estrela mais brilhante de cada constelação por alfa, a segunda mais brilhante por beta e as seguintes, em ordem decrescente de brilho, por gama, delta, épsilon, zeta, eta etc… Esgotado o grego, valeu-se de letras latinas, maiúsculas e minúsculas. Embora tal classificação ainda hoje esteja presente nas cartas celestes, os astrônomos viram-se obrigados a usar números para denominar a infinidade de estrelas observadas por seus telescópios.

Grande Nebulosa de Órion, telescópio Hubble

Grande Nebulosa de Órion, telescópio Hubble

O leitor facilmente irá notar que as Três Marias acham-se cercadas por um trapézio, demarcado por quatro estrelas. A mais brilhante delas é Betelgeuse, ou alfa Orionis, que corresponde ao ombro direito do gigante, uma supergigante situada a 520 anos-luz, cujo diâmetro é cerca de 350 vezes o do sol. Bellatrrix, gama Orionis, é seu ombro esquerdo, e os antigos viram em Rigel, beta Orionis e em Saiph, kapa Orionis, respectivamente seus joelhos, direito e esquerdo. Vale lembrar que de nossa perspectiva (Hemisfério Sul) vemos a figura de cabeça para baixo. Um pouco mais ao sul das Três Marias, encontra-se a Grande Nebulosa de Órion, uma das raras nebulosas visíveis a olho nu e que, com o auxílio de um pequeno binóculo, nos revela a soberba imagem de uma nuvem difusa, de cor azul-esverdeada e brilhante. Com esse mesmo binóculo focado sobre Mintaka, perceberemos que em verdade estamos diante de um sistema binário, duas estrelas de 2ª magnitude, orbitando em torno uma da outra.

Numa de suas versões o mito grego nos conta que Órion, filho de Posêidon, contraiu contra si a fúria de Ártemis, deusa das matas, por haver trucidado um cervo a ela consagrado. A virgem encantou um escorpião a fim de matar o gigante, posto que sabia ser somente os calcanhares seu ponto vulnerável. Ocorre, porém, que tendo certa feita visto passar pelas matas seu desafeto, sem que, entretanto, ele a visse, Ártemis caiu surpreendentemente apaixonada. Não mais podendo desfazer seu próprio feitiço, ao menos tratou de re-encantar o animal para que ele em seu desígnio de perseguir o gigante, nunca alcançasse sua presa. Por isso estão os dois imortalizados de modo sui generis em nosso firmamento: quando Órion surge no leste, Escorpião (constelação do céu de inverno) está se pondo no oeste, de modo que os dois jamais se encontram sob o mesmo céu.

Prolongando para nordeste uma linha imaginária traçada sobre as duas estrelas que demarcam os joelhos de Órion, o leitor irá de encontro a Sírius, já citada, que define o peito do Cão Maior. Sírius, a 8,5 anos-luz, sexta estrela mais próxima da Terra, em verdade é um sistema duplo, somente observável por bons telescópios, e sua companheira descreve em torno dela uma órbita de 50 anos.

De mesmo modo, se prolongarmos para a mesma direção uma linha que passe pelas espáduas do gigante, encontraremos a estrela Procyon, do Cão Menor. Procyon também é uma das mais brilhantes do céu de verão, de magnitude aparente 0,5. O Cão Maior apresenta-se espetacularmente a um binóculo: sete pequenas estrelas formam um semicírculo em torno de delta Canis Majoris. Delta e omicron Canis Majoris compõem o dorso do animal. No alinhamento de Sírius com omicron podemos ver a olho nu o aglomerado Messier 41, conhecido pelos gregos da Antigüidade, suntuoso quando visto através de uma luneta ou telescópio refrator dos mais simples. Entre os dois cães, fiéis companheiros de caça do gigante, por onde o leitor observa que passa o braço de nossa extensa Via-Láctea, acha-se também a constelação de Monoceros, ou Unicórnio, formada por estrelas de modesta magnitude.

Aglomerado estelar das Plêiades – sete nifas, todas lindas e desejadas pelos deuses, filhas do titã Atlas e sua esposa Pleione. Mérope, única a se casar com um simples mortal, assume brilho mais fraco na constelação.

Constel.Touro.0.5

A noroeste de Bellatrix, no prolongamento de uma linha traçada entre ela e as Três Marias, chegamos à mais antiga constelação, a primeira a ser demarcada pelos babilônios, o Touro, pertencente ao zodíaco. Isto porque há 4 mil anos, devido ao movimento de precessão dos equinócios, era com ela se iniciava o ano vernal, a demarcar o início da primavera, quando as Plêiades (outro lindo aglomerado de nove estrelas a olho nu – mais de 400 estrelas se visto ao telescópio) surgiam no céus matutinos. Fácil observar o “olho do Touro”, Aldebaran ou alfa Tauri, sua estrela mais brilhante, 40 vezes maior que o sol, a meio caminho na linha imaginária entre Bellatrix e as Plêiades. Outro aglomerado que se revela ao olhar desnudo são as Híades (200 estrelas ao telescópio), localizado quase na boca do Touro, uma formação em forma de “V”, cujo vértice é gama Tauri e cujos prolongamentos dos lados formam os chifres do animal. Próxima à zeta Tauri, naquilo que seria o término do chifre direito do Touro, encontra-se o aglomerado Messier 1, ou Nebulosa do Caranguejo, em verdade um grupamento de gases estelares remanescentes de uma super-nova cuja explosão foi registrada pelos astrônomos chineses em 4 de julho de 1054.

Nebulosa do Caranguejo

Na ponta do chifre esquerdo, brilha El Nath ou gama Aurigae, na constelação de Auriga, ou o Cocheiro. É muito fácil reconhecer Auriga, composta por cinco estrelas que formam um brilhante pentágono. A curiosidade está no fato de que em 1922, segundo a reforma celeste empreendida pela União Astronômica Internacional, numa desatenção ao nome árabe que significa “viagem”, El Nath foi classificada como beta Tauri, e Auriga ficou desmembrada, sem a sua estrela gama. Como ela representa uma das rodas dianteiras da carruagem, imagine o leitor o acidente que não acontecerá logo mais ali, na próxima curva do caminho sideral! Capella, alfa Aurigae, ombro direito do cocheiro, é quem mais chama a atenção em Auriga, estrela mais brilhante de todos os céus, depois de Sírius.

Constel.Gêmeos.0.5

Aglomerado estelar aberto Messier 35

 Olhando um pouco a noroeste de Touro encontraremos duas estrelas de 1ª magnitude: são Castor e Pólux (alfa e beta Geminorum), irmãos gêmeos que acompanharam Jasão na expedição dos Argonautas em busca do velocino de ouro. Juntamente com gama e delta Geminorum, compõem um belo retângulo que bem caracteriza esta constelação. Mito dos mais sensíveis, Castor e Pólux são filhos de Leda, mas, ao passo que Castor é imortal por ser filho de Zeus, Pólux é um mortal comum, filho do rei Tíndaro. Os dois concordam, entretanto, em dividir fraternamente a imortalidade entre eles, e cada qual, por sua vez, fica fadado a permanecer seis meses entre os vivos e outros seis meses entre os mortos. A partilha, porém, lhes traz a maldição de nunca mais na vida nem na morte se encontrarem. Castor é uma estrela sêxtupla e duas ou três de seu sistema podem ser observadas com uma pequena luneta. Também em Gêmeos estão a nebulosa planetária NGC 2392 e o aglomerado aberto Messier 35, belo espetáculo para ser admirado por um binóculo ou simples telescópio.

Constel.Câncer

A leste de Gêmeos acha-se outra constelação zodiacal, Câncer, que será pelo leitor mais simplesmente identificada sob a forma de uma forquilha ou estilingue, cujas três pontas são formadas por alfa, beta e iota Cancri, sendo delta Cancri a estrela que corresponde ao cruzamento central do Y. Por volta de 4.000 a.C., o Sol atingia em seu movimento pela eclíptica o seu máximo afastamento do equador no Hemisfério Norte sobre esta área do céu. Como em seu caminho de volta em direção ao equador celeste, parecia inicialmente “andar pra trás”, os babilônios associaram este asterismo à imagem de um caranguejo. Alfa Cancri é um sistema duplo, visível somente ao telescópio. Já iota Cancri é outro sistema duplo que pode ser visualizado por um binóculo, uma das estrelas é alaranjada e a outra é azul. Perto de delta Cancri há um aglomerado estelar, Messier 44, observado por Galileu Galilei (1564-1642), o primeiro astrônomo a se valer de um telescópio de lentes em 1609, que aí contou nada menos que 150 estrelas! Um desafio à astronômica paciência do leitor, que poderá se divertir contando todas elas enquanto aguarda pela seqüência deste assunto, quando trataremos sucintamente do maravilhoso céu de outono.

Ceudeverao.0.35

Obs: nosso texto está em acordo com a carta celeste que o acompanha, que representa uma parte do céu noturno do Hemisfério Sul, visível a um observador que esteja com a face voltada para o norte (tendo, portanto, o leste à sua direita e o oeste à sua esquerda), válida para todo o verão. Este é o mesmo céu que o leitor encontrará, por exemplo, em:

15 de dezembro às 23h30min,

1º de janeiro às 22h30min,

15 de janeiro às 21h30min,

30 de janeiro às 20h30min e

15 de fevereiro às 19h30min.

N.B.1: Nos anos em que houver decreto de horário de verão, o leitor deve considerar, por exemplo, que o céu descrito corresponderá a 1ª de janeiro, às 21h30min; 15 de janeiro, às 20h30min e assim por diante.

N.B.2: As três imagens das constelações do zodíaco aqui apresentadas, Touro, Gêmeos e Câncer, foram retiradas de livros que as retratam no Hemisfério Norte; logo, identificar-la-emos em nosso céu austral como se estivessem de “cabeça para baixo” em relação às três ilustrações que as representam, respectivamente aqui postadas.

O que há para se ler:

1. Atlas Celeste – Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, ed. Vozes – excelente livro de astronomia prática, voltado a qualquer leitor interessado.

2. Fundamentos de Astronomia – Romildo P. Faria, ed. Papirus, – uma boa introdução conceitual e prática à astronomia.

3. O Livro de Ouro do Universo – Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Ediouros, obra genérica abrangente, leitura clara e convidativa.

One Comment

  1. Cindia de Oliveira disse:

    Oi, Querido Amigo Paulo!

    É muito oportuno ” viajar nessas palavras- tesouros” que ” luzem tantos conhecimentos ancestrais!Uau!

    Obrigada, querido amigo por compartilhar tanta sabedoria, salpicada nos véus da noite como pingos de luz no gigante mapa celeste.

    Um Beijo de luz e, Inspiração sempre!

    Com carinho, Cindia e Flavio

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