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Paracelsomancia

 PIROMANCIA À PARACELSO

Porque… estive conversando com as salamandras do fogo, e elas me mandaram publicar coisas ocultas.

Diante do Sol noturno aceso em meu jardim, rompantes labaredas me alumiam. 

Em labor e oração leio Paracelso à luz do fogo: roga o mestre que aprendamos a perquirir através dele pelo nome oculto de todas as coisas, de modo a penetrar no âmago da matéria e na secreta fragrância das almas, e assim buscar pelo espírito do enxofre, do sal e de mercúrio, que tanto têm a revelar e que habitam todos os seres e todas as coisas. Noite plácida, branda é a brisa. No espocar das brasas percorro o luzidio caminho das centelhas tentando compreender o que sibilam as salamandras.

Diz o mestre: “Por isso não se pode crer que coisa alguma tenha sido de fato provada antes de ser submetida à prova de fogo. Ninguém se faz Iniciado ou Adepto da Espagírica (da Alquimia) se não se sujeitar a essa prova. Pois, é o fogo o elemento que prova todas as coisas, por transmutá-las naquilo que elas realmente são. Ao separar as impurezas, sempre faz o fogo surgir as três substâncias puras, tais quais seus respectivos espíritos assim as determinam. Também será destarte, e só assim, que o médico será devidamente provado. Não será por escolha sua, nem conforme a sua natureza, mas segundo saiba se entregar à sua arte em sua prática, segundo tenha sido ele próprio transformado através de seu batismo de fogo. Eis o arcano sacramento! Porque estes três princípios de que falo não são jamais perceptíveis aos olhos rústicos, nem se deixam captar pelos sentidos profanos; é preciso ter olhos que saibam ver a fim de percebê-los, e só o fogo é capaz de vencer todo o obscurantismo que os envolve, e nos permite conhecê-los, pois os expõem nitidamente aos sentidos quando quer que nos tornemos em alma íntimos com o fogo”.

Tomo fôlego, realimento a secreta pira das curas. Pressinto passos rasteiros na relva próxima, lagartos e outros seres; saindo por detrás das bananeiras, vêm os morcegos com seus rasantes, pedindo-me sintonizar certas frequências até que… … deparo-me com o vulto, percebo-o entre as sombras e a folhagem… e estremeço. Silente, faço correr meus olhos pelas rubedas linhas do Opus Paramirum, seu ‘Livro Mais que Admirável’:

“Assim, pois, como todas as obras de Deus, os médicos e a medicina também foram criados pelo fogo. Pois nenhum médico existe por si mesmo, mas em função da medicina, que é seu sacerdócio, razão pela qual todo médico deve primeiro se submeter ao exame da Natureza do mundo e de todas as coisas que ela contém. (…) Exibindo as suas obras, jamais as ocultando, é que podem os médicos ser dignos de serem vistos como merecem. (…) Pois, o médico deve ser antes pela medicina e não para o orgulho de si próprio, pois a medicina é anterior a todo médico e existe por si só. (…) E será na Natureza que o médico deve buscar sua sabedoria e encontrar a sua prática e a sua retórica, pois é nela que habita o divino fogo que se transfere por justiça aos verdadeiros mestres, e destes, por merecimento, a seus melhores e mais fiéis discípulos”.

Alimentado pela magistral fogueira, sob o orvalhado licor mercurial da madrugada, ao olor volátil do espírito sulfuroso que se desprende da lenha transmutada, passo em revista cada um de meus pacientes e os convoco por seus nomes a receberem suas graças, e perscruto o sal e o Arcanum de cada um deles na intenção de bem os curar; mestres meus os pacientes, são eles que me inspiram toda clínica; e é assim que entre sombras e centelhas, agradecido pelos ensinamentos desta noite, prancheta, papel e grafite a mão, redijo a Paracelso minha missiva indagadora:

PARA CELSO

Escrevo para o excelso, ao alquimista,
hipocrático médico de Asclépio
curador (seu romano é Esculápio),
escrevo para o sábio esoterista:

Pergunto a Paracelso acerca do ópio,
do qual pedras de ‘láudano barista’
fazia, se ao tomá-las, feito artista,
voava como as águias em volúpia.

E o excelsalém de Celso me responde:
– Justamente! Esta pílula de ‘láudano
barista’, meu Arcanum, me protege,

Tomei-a agora mesmo sob o plátano
e como ‘em cima e embaixo a coisa rege’,
chegamos aonde a cura não se esconde!

Paulo Urban
decassílabos heroicos
27 de novembro, MMXII
sob a constelada conjunção de
Marte e Plutão a 8º de Capricórnio

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