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Mas
Carlos Prado não é um curandeiro qualquer; associando
a sabedoria andina ao conhecimento científico, dedica sua
vida à divulgação e preservação
de sua milenar cultura. É fundador de uma ONG, chamada KU.S.KA,
atuante nas áreas de saúde, educação
e ecologia. O nome é abreviação de Kuska
Sumaj Kausanapaj, que em kechua significa "Juntos
para viver melhor". Kuska oferece uma série de
cursos ministrados na língua nativa, e se preocupa em educar
crianças, bem expressando seu ideal de preservação
dos valores da sociedade andina, não competitiva, em que
as pessoas se ajudam mutuamente e respeitam sobretudo a natureza.
O xamã é ainda criador da Escuela Inkari de Medicina
Tradicional, reconhecida desde 1995 como utilidade pública
pelo Governo boliviano, voltada que está para a formação
de promotores de saúde em seu país. Além disso,
Carlos desempenha há anos a função de médico
naturista em Cochabamba (Bolívia). O trabalho social que
desenvolve repercute internacionalmente, recebendo tanto o respeito
da ciência acadêmica como do saber tradicional, preservado
por curandeiros de várias etnias andinas.
Conheci o bruxo por acaso, em 1996; desde então tenho
aprendido o quanto se escondem infinitas razões em nossas
vidas por trás do aparente imprevisto dos encontros. Eu fora
chamado a estar presente num Congresso Internacional de Psiquiatria
realizado em sua cidade e, observando toda a programação,
pude notar que dentre tantos doutos professores e médicos
convidados, havia uma única palestra a ser proferida logo
no primeiro dia, por um simples sr. Carlos, sem dr. nem títulos
colocados diante de seu nome: "A ayahuasca no tratamento de
toxicomanias; proposta de tratamento não coercitivo da drogadependência".
Fiz questão de conferir. Tão logo o sr. Carlos iniciou
sua preleção, o auditório todo foi tomado de
um silêncio expectante, de uma aura especial, incaracterística
nesses encontros acadêmicos. Ocorria de fato um fenômeno:
a platéia estava absorta, literalmente tomada por aquele
índio que discorria com propriedade sobre temas científicos
delicados, e os enfocava com uma espontaneidade segura, própria
de sua sabedoria ancestral. Decidi-me ali mesmo a praticamente abandonar
o Congresso; apresentei-me ao curandeiro ao final de sua charla,
e com sua permissão passei todos os demais dias do evento
quase que inteiros em sua casa, local em que Carlos cultiva e armazena
suas plantas medicinais, onde tem seu forno mágico, seus
objetos de poder, também espaço de sua própria
enfermaria, acostumada a receber pessoas de todo o país,
às quais o curandeiro presta assistência. Pude assim
explorar in loco seus profundos conhecimentos médicos,
dando início àquilo que seria uma relação
mestre-discípulo que até hoje se estende, semelhante
à descrita por Carlos Castañeda em seus romances sobre
o brujo iaque Don Juan.
Sem o saber, fora especialmente feliz em minha aproximação;
pois Carlos Prado, ainda que conserve a simplicidade estampada em
sua face, iniciava a partir de sua apresentação no
citado Congresso, um caminho de crescente respeito no meio acadêmico
internacional. Dentre tantas outras referências, vale dizer
que Carlos, no semestre seguinte, já era capa da revista
austríaca científica de farmácia, ÖAZ
Österreichische Apotheker-Zeitung, edição
de janeiro 1997, ano este em que esteve pela primeira vez no Brasil
a meu convite, lotando os auditórios nas palestras que proferiu
no CEP - Centro de Estudos Psicanalíticos e na USP,
a convite do departamento de História. Nessa passagem fez
seu primeiro contato com a Escola Mutirão de ensino infantil,
fundamental e médio (pois Carlos faz questão de falar
às crianças e aos jovens nos países por onde
passa), situada numa chácara na Granja Viana, em Cotia (SP),
com a qual tem estreitado laços, inclusive via Internet,
a fim de promover uma verdadeira troca cultural e pedagógica
entre jovens brasileiros e bolivianos interessados em preservar
a identidade cultural que nos irmana. Curiosamente, o sentido da
palavra mutirão é uma tradução
perfeita daquilo que significa o termo Kuska.
Quis o destino que, em 1999, São Paulo fosse sede
do V Congresso Ibero Americano de Psiquiatria, cujo tema
central foi "Saúde e Hospitalidade no III º Milênio",
promovido pela Ordem Hospitaleira de São João de Deus.
Na ocasião, eu dirigia um hospital psiquiátrico pertencente
à Ordem, e insisti, posto que era um dos organizadores do
evento, para que Carlos Prado viesse abri-lo. Palestrantes da América
Latina e Central, convidados europeus e várias autoridades
da psiquiatria brasileira assistiram a uma não ortodoxa conferência
de abertura; pela primeira vez um congresso médico internacional
era aberto por um xamã, com uma demonstração
ritualística de suas práticas mágicas terapêuticas.

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Após
o Congresso, Carlos viajou para ministrar palestras no
Instituto de Ciências Humanas da UFOP (Universidade
Federal de Ouro Preto, Minas Gerais), e a partir daquele dezembro
seria ano a ano convidado a apresentar-se nos países
nórdicos, sempre falando a doutos cientistas e às
crianças nas escolas, ocasiões em que o bem articulado
curandeiro nos conta um pouco de sua história, fala de
suas origens, discute botânica ou medicina com a mesma
espontaneidade com que toma seus chás, e apresenta os
principais enfoques de seu empolgante trabalho. |
Carlos nos revela ser especificamente um Jampiri Kechua;
o termo tem dupla raiz etmológica, formado pelo verbo
Jamp, que em kechua significa "curar", acrescido
de um sufixo aymara, ri, a designar "aquele que pratica
curas". Mas há muitas classes de curandeiros andinos,
conforme variem as etnias ou os propósitos do trabalho praticado
por eles. O Jampiri corresponde ao Yatiri, termo exclusivamente
aymara a designar a mesma coisa. Os Yatiris, os Amautas e os Quilliris,
por exemplo, habitam predominantemente na região altiplânica.
Não menos famosos são os Kallawayas, cujo nome deriva
de duas palavras aymaras, kulla, que significa "erva
medicinal", e waya, a expressar o modo característico
com que levam suas bolsas ao ombro. Os Kallawayas são feiticeiros
temidos; antes viviam circunscritos à região de La
Paz e do lago Titicaca; mas como particularmente formam um grupo
itinerante, têm se espalhado pelo interior da Bolívia
e por países vizinhos, mesclando seus conhecimentos com os
de outras regiões. Já nas zonas mais baixas dos vales
estão radicados os Pampa Jampiris, os Aysiris, os Layqas
e os Paqos, entre outros. Nas regiões tropicais estão
os Ipayes, os povos de ascendência Tupi-Guarani e, além
desses, os Xamanes. Apenas a esse último grupo étnico
de sacerdotes caberia precisamente chamar de xamãs, na América.
Curiosamente,
a despeito do termo ter-se universalizado, sendo aplicado a
todo e qualquer curandeiro especialmente detentor do saber médico-religioso
de seu povo, o nome xamã, originariamente, é asiático.
Samans são os feiticeiros Tungues, um dos povos da
família altaica que habitava a região centro-setentrional
siberiana, no Paleolítico tardio, cerca de 20.000a.C. O termo
é aparentado do sânscrito sramana e do pâli
samana, a designar o "homem inspirado por espíritos".
Uma questão polêmica é se durante as glaciações
ocorridas, presume-se, entre 20 e 10 mil a.C., esses povos, seguindo
seus rebanhos de renas, teriam migrado para a América cruzando
o estreito de Bering, ou uma ponte terrestre existente entre os
dois continentes. O romeno Mircea Eliade (1907-1986), historiador
das religiões, por sua vez, vê traços evidentes
de influências iranianas sobre o xamanismo da Ásia
Central, e defende que o termo se origine da Mesopotâmia.
De qualquer modo, explica-nos Carlos Prado, os Xamanes andinos
são curandeiros especializados no preparo de substâncias
psicoativas; e utilizam-se principalmente da ayuasca. "Também
nós Jampires", continua, "assim como os Yatires
e outros tantos, podemos nos valer em nossos rituais de beberagens
alucinógenas, mas com outras propriedades, de acordo com
a oferta da flora típica de nossas regiões".
Esses grupos étnicos, entretanto, olham-se com mútua
desconfiança no que tange aos conhecimentos secretos de cura
que detêm, mas iniciativas de reunir, confrontar e fortalecer
estes saberes têm sido esforços válidos mais
constantes hoje em dia; daí a formação, por
exemplo, da SOBOMETRA (Sociedade Boliviana de Medicina Tradicional)
e de outras associações de natureza semelhante. A
Escuela Inkari de Medicina Tradicional também se propõe
à tarefa de encontrar aspectos comuns na heterogeneidade
andina, no que se refere ao tratamento das doenças, por isso,
Carlos Prado, fato inédito em sua cultura, vem preparando
um livro, no qual pretende sistematizar as bases temáticas
e culturais da medicina de seu povo, fundamentadas obviamente na
cosmovisão andina.
Em termos simples, os povos andinos concebem a Mãe-Natureza,
chamada Pachamama, como um universo dividido em três
instâncias: Janaj Pacha, que é a "terra
de cima", todo espaço aberto que nos permite ver o sol,
a lua, as estrelas e demais corpos celestes; Kai Pacha, ou
"terra em que vivemos", onde desenvolvemos nossos afazeres
cotidianos; e Uku Pacha, ou "interior da terra",
o mundo subterrâneo. Cada um desses níveis acha-se
habitado por inúmeras divindades, deuses maiores e menores
de acordo com suas funções mitológicas. Impressionante,
o cosmos andino tripartido bem como as características de
seus respectivos deuses guardam incríveis semelhanças
com a cultura grega, a fomentar outras instigantes teorias de que
há 3 mil anos os gregos tenham atravessado o Atlântico
e alcançado os Incas após cruzar o Pongo de Manseriche,
também chamada Porta do Inferno, depois de terem subido o
Rio Amazonas. As ruínas do palácio Inca de Chavin
de Huántar, por exemplo, exibem inúmeras correspondências
com a arquitetura grega.
Segundo sua cosmovisão, Carlos diz que há um
equilíbrio permanente e íntimo entre ser humano e
natureza, que só é possível em termos de reciprocidade,
pois tudo aquilo que fazemos à natureza, dela recebemos em
proporção e semelhança. "Se a humanidade
atentasse para este detalhe o planeta não estaria correndo
tantos perigos de extinção", diz o bruxo, "assim,
uma harmonia deve existir entre nós e o meio onde vivemos;
o mesmo ocorre entre as ordens material e espiritual, também
entre aquilo que chamamos de passado, presente e futuro, superando
os conceitos clássicos de tempo-espaço. Temos uma
visão holográfica do universo; o corpo humano, por
analogia, reflete a Pachamama em sua totalidade. Macro e microcosmo
não estão separados. Todo e qualquer dano que se faça
à natureza é um mal que o homem comete contra si mesmo,
também em prejuízo de sua comunidade e de sua saúde.
Isso explica o absoluto respeito que o povo andino tem pela Pachamama,
que para nós é sagrada, o que justifica tanto nossa
preocupação ecológica quanto as oferendas que
fazemos à Mãe-Natureza sempre que desejamos alcançar
alguma cura física ou espiritual por meio de nossos rituais".
Carlos herdou o conhecimento de sua mãe, uma curandeira
Amauta, natural de Cuzco. Os Amautas são sacerdotes-mestres
dos mais respeitados no Império Incaico. Via de regra um
curandeiro se faz assim, ele recebe o saber ancestral de seus pais.
Mas alguns sinais desde o nascimento e primeiros anos de vida também
podem identificar aqueles que assumirão esse papel; Carlos,
particularmente, nasceu de parto podálico, e sobreviveu a
ele. Um parto desses no campo significa quase sempre a morte da
mãe ou da criança. A vida resolveu submetê-lo
a provas desde o início. Também houve vocação
e discernimento próprios, visto que entre dez filhos de mesma
mãe feiticeira, Carlos foi o único que resolveu seguir
os passos do xamanismo. Por conta disso passou por rituais iniciáticos
provatórios e de confirmação; o primeiro deles
aos seis anos de idade, um segundo aos doze. Nessa idade, Carlos
decidiu buscar sua independência. Pediu autorização
à sua mãe e deixou sua casa, partindo numa extensa
peregrinação. Por vinte anos a fio percorreu a pé
todo o Império Incaico; enfrentou inúmeros percalços
e alcançou terras compreendidas desde o norte Chile até
o Equador, conhecendo todo o Peru, Colômbia e Bolívia.
Em cada parte manteve contato com os curandeiros locais e, trocando
informações, pôde aprender muito.
Um feito extraordinário, a fazer dele um dos raros
que têm a visão clara daquilo que poderíamos
chamar de um denominador comum de toda a medicina tradicional andina,
capaz, portanto, de um dia cumprir o propósito de sistematizar
numa obra esse saber milenar. Perguntei-lhe como seria seu livro,
o que representaria sua edição para a tradição
andina, que se perpetua eminentemente sob forma oral. Carlos, raciocínio
rápido, respondeu-me: "Por certo não será
um livro romântico como as obras de Carlos Castañeda.
Sempre me pergunto como não ficariam suas histórias
se tivessem sido contadas não por ele, mas por Don Juan.
Não quero dizer com isso que os livros de Castañeda
não sejam válidos; eles o são, mas invariavelmente
são sociólogos ou antropólogos que escrevem
sobre nossa gente, como se fôssemos peças de museu.
Em meu livro estarei expondo a realidade da cosmovisão andina,
o uso ritualístico da coca e os princípios de nossa
medicina tradicional herbária, mineral e animal segundo seu
autêntico ponto de vista. Por certo há coisas que não
poderão ser ditas, que devem ser guardadas por tradição
familiar, e desde que comecei o trabalho tenho recebido algumas
críticas por parte de outros curandeiros que imaginam que
um livro possa estar traindo nossa cultura, cujo caráter
é de nunca haver escrito nada. A estes digo que vivemos numa
sociedade que sofre mudanças radicais neste final de milênio;
se não houver quem um dia sistematize nosso conhecimento
médico, como o fizeram os chineses na antigüidade, continuamos
em risco iminente de desaparecimento por conta das dificuldades
que hoje se interpõem à tradição exclusivamente
oral do saber. Não se trata de profanar aquilo que é
sagrado, mas de criar meios eficientes para que nossa cultura milenar
se perpetue". 
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