esteve separado da natureza, senão que todas as partes componentes
do todo estão de alguma forma em permanente comunicação
entre si e que, por conseguinte, qualquer partícula diminuta
pode bem representar o todo transcendente. Haja vista que o termo
universo sempre trouxe semanticamente a idéia do Todo Absoluto,
como bem soube dizer, em 1803, o poeta William Blake: To see
a world in a grain of sand.
Ademais, penso que Heráclito e Parmênides
já podem encerrar sua clássica contenda filosófica
e juntos abraçar amigavelmente esta nova concepção
cosmológica, afinal, o Universo está aberto para todos
ao mesmo tempo que é fechado nele só; ainda que infinitamente
desconhecido de nós, dado às suas múltiplas
manifestações e sempiternas mudanças macro
e microcósmicas que desafiam nossa capacidade de exploração
e entendimento, seu nome traz o inequívoco conceito de algo
inteiramente pleno de si mesmo, essencialmente dotado de uma única
e absoluta natureza:
Uni = um + verso = versão; conforme o ratifica cada vez mais
a física moderna em seus experimentos de investigação
dos fenômenos imponderáveis.
O polonês Dr. Jacob Bekenstein, professor
na Universidade Hebraica de Jerusalém e membro da Academia
de Ciências da Humanidade de Israel é um dos físicos
teóricos que primeiramente apontam para essa nova tendência
científica em aceitar o Cosmos como um sistema holográfico,
constituído essencialmente de informação que
continuamente se deposita e se renova por meio de uma escala quântica
imponderável de interação, sendo matéria
e energia suas meras entidades incidentais. Segundo Bekenstein,
detentor do prêmio Rothschild por seus estudos a respeito
da termodinâmica de buracos negros e sua relação
com a teoria da informação e a gravitação
universal, nosso Universo poderia nada mais ser que a projeção
holográfica de campos quânticos capazes de imprimir
em todos nós a ilusão de uma realidade virtual na
qual, ignorantes disso tudo, vivemos a temporaneidade da existência.
Incrivelmente,
a idéia nuclear do hinduísmo prega ser a
realidade uma grande roda de ilusão, construída por
artifício de nosso próprio ego e alimentada por nossos
humanos desejos, dita Roda de Samsara, à qual vivemos
presos posto que estamos inexoravelmente atrelados a seu movimento
circular contínuo, por meio do qual tudo se cria em nosso
mundo aparente concomitantemente ao tempo em que se destrói,
consoante os passos da eterna dança de deus Shiva,
uma das três entidades da divindade absoluta, responsável
por fazer morrer o velho e (re)nascer o novo.
Pode aqui o leitor descobrir o porquê do
extraordinário sucesso de Matrix. A fantástica
trilogia soube brilhantemente tirar proveito dos velhos e metafísicos
enigmas sob as tecnológicas vestes da mais avançada
cibercultura, projetando nas telas do cinema os principais arquétipos
que compõem os mitos de nossa enigmática condição
humana, sempre a esbarrar em paradoxos que envolvem nossa dificuldade
científica e filosófica em saber distinguir essencialmente
o que é sonho daquilo que é realidade, o que é
virtual daquilo que tem existência, ou ainda, mais cruel,
o que é a vida daquilo que é a morte.
Um dos melhores livros que primorosamente revira
essas questões, recentemente lançado pela Editora
Madras, é Universo Holográfico,
de Marcos Torrigo. A convite do autor escrevi algumas linhas em
sua 4ª capa: Este livro é um holograma que se lê:
cada capítulo, cada página, cada linha, cada letra;
tudo nele (re)vela essencialmente o descortinar de uma surpreendente
Nova Era!
Marcos Torrigo soube amarrar em seu ensaio literário
um fascinante universo holográfico. Numa mixleitura lucidalucinante
somos levados pela segura companhia do autor a penetrar nos guetos
da cibercultura e do mundo ciberpunk, mais que isso, seu livroholograma
passa por estradas da sabedoria arcaica e por caminhos futuristas,
condensa numa mesmimagem o mítico e o tecnológico,
a mecânica quântica e o xamanismo, e faz-se operar tanto
pela magia quanto pela ciência, permitindo-nos refratar sua
luz tanto pelo prismolhar da ficção científica
como pelos fatos da real humanistória. O texto de
Marcos Torrigo é um apropriado holograma da Era de Aquário,
e nos permite viajar em sua luminescência enigmática,
sempre a mesclar nossa estranha realidade à virtualidade
da existência.
A obra, convidativa, fácil leitura, um opúsculo
de 96 páginas, bem se assemelha ao canto do rouxinol do imperador
chinês (a propósito uma lendária alegoria da
qual se vale o autor), que melhor pode trazer aos nossos ouvidos
entorpecidos pela dura realidade, a beleza da vida de que há
muito nos esquecemos sempre que deixamos de perceber com sensibilidade
a linguagem naturalmente sagrada do mundo à nossa volta.
O alemão Werner Heisenberg (1901-1976),
um dos pais da física quântica, autor de seu desconcertante
“Princípio da Incerteza”, disse certa vez que
“o homem, ao examinar a natureza e o universo, em vez de encontrar
fenômenos objetivos, encontra-se a si mesmo”. Wolfgang
Pauli (1900-1958), físico austríaco, inspirado nesta
máxima e fortemente influenciado pelas conquistas da psicologia
analítica de Carl G. Jung (1875-1961), foi outro dos que
seriamente se preocuparam em considerar a natureza “a priori
e eminentemente psicológica” de muitos dos fenômenos
observados no campo científico, em experimentos que procuram
explicar a realidade. Pauli foi um dos ilustres analisandos de Jung,
e se reconheceram mutuamente como promulgadores de idéias
bastante originais, curiosamente complementares entre si, ainda
que firmadas em terrenos distintos do conhecimento humano. Ambos
comungavam da idéia de que um bom modelo para o entendimento
do Universo não poderia deixar de lado esta notável
complementaridade existente entre a Psicologia Analítica
e a mecânica quântica, cujas posturas enxergam uma íntima
relação entre o universo psíquico e o nosso
mundo físico.
Hoje, a mecânica quântica atesta nossa
atuação como co-criadores do universo. Participamos
de todos os fenômenos que observamos e seria infantil se julgássemos
que estamos de fora deles, assumindo um olhar meramente expectante.
Somos, por conseguinte, os maiores responsáveis pela realidade
que criamos! “Tudo leva a crer que nosso cérebro seja
um processador de dados”, diz Torrigo em seu Universo Holográfico;
“o cérebro captaria inúmeras freqüências
dimensionais, faria a leitura e as re-arranjaria para criar a realidade”.
Mais adiante, ele nos conta: “Os universos são como
uma grande teia tecida pela aranha do destino; cada fio está
interligado ao outro. Quando um é tocado, a impressão
é passada a todos os demais. Qualquer mudança reverbera
na teia inteira, o que faz lembrar a filosofia tântrica”.
Fascinante, não?
Cabe aqui o clássico exemplo da física
contemporânea: da mesma forma que a luz só pode ser
melhor compreendida pela microfísica quando esta se propõe
a estudar a natureza do fenômeno luminoso como algo ambivalente
e contraditoriamente dotado de onda e partícula, em extensão
aos paradoxais conceitos explorados pelo pensamentalquímico
de Jung, ouso dizer que entre matéria e psiquismo não
deva haver sequer diferença, sendo ambas essas instâncias
nada mais que manifestações complementares (ainda
que contraditórias também) de um mesmo manancial psiquicuniversal
e energético.
Destarte, por mais que avancemos na área
da especulação quântica científica, jamais
estaremos tão perto de um modelo que nos resolva as principais
equações do cosmos holográfico, enquanto nossos
pesquisadores teóricos não tiverem a sensibilidade
de procurar conceber um universo subatômico e energético
essencialmente dotado de natureza psíquica.
Logo, não deveríamos estar buscando
somente um novo modelo cósmico, senão algo verdadeiramente
holográfico, dentro de padrões (meta)físicos
sem estreitos horizontes e de múltiplas dimensões
que pressuponham um verdadeiro modelo psicocósmico emergente.
Conforme segue resoluta a carruagem das Eras, é
seguro que chegaremos mais cedo ou mais tarde a nos deparar com
esse novo padrão cosmogônico revolucionário
- a ciência já faz o alarde de que irá atingi-lo
em 2050(!), pena que o anuncie mais com bases em sua sólida
e histórica pretensão positivista do que humildemente
diante de suas desconcertantes e surpreendentes descobertas. Também
é certo que esse novo padrão estará centrado
sobre paradigmas que o sábio Isaac Newton nem teve a chance
de conceber, também sobre conceitos psicológicos que
nem mesmo Freud, do alto de sua estupidarrogância dogmática,
saberia imaginar. Isto porque a física e a psicologia profunda
têm muito a oferecer desde que andem juntas, de mãos
dadas procurando tocar por todas as faces possíveis a virtualidade
do holograma cósmico que nos prende em sua imagem. E é
claro, a ciência, ainda que resolva estes próximos
e tão arcaicos mistérios, dará de novo com
os burros n’água se considerar que suas teorias possam
um dia explicar tudo. Nem Freud explica tudo(!), embora assim pensasse.
Como diria o sábio Jung, nossas últimas
verdades serão sempre nossas penúltimas certezas.
E este texto nada mais é que um holograma, que se dê
a ele somente sua diminuta importância necessária!
O que vale mais é ler o livro de Torrigo, na sala de leitura
Portal da Nova Era! 
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