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A
r t i g o s
artigo
> Patrícia Lucchesi
(1)
"Setenta
vezes sete vezes"
Estamos iniciando
a sétima era astrológica da época do Holoceno,
que se iniciou há 10000 anos a.C. e foi dividida em 12 eras,
cada uma com duração de 2000 anos: Leão (10000
a 8000), Câncer (até 6000), Gêmeos (até 4000),
Touro (até 2000), Áries (até o ano 0), Peixes (até
2000 d.C.) e Aquário (até 4000).
A
infante mentalidade aquariana traz, como marco importante na história
do pensamento, o paradigma holístico, que vem triunfando sobre
o dualismo cartesiano, dominante nos últimos séculos.
Não chega a ser inédita a perspectiva de uma interdependência
dinâmica entre o micro e o macro, a qual, a meu ver, é
a essência da episteme contemporânea. Esta premissa já
se encontrava presente em todas as teogonias da antigüidade, entre
os egípcios, gregos, hebreus, hindus, assírios e outros.
Desde
Pitágoras, em 529 a.C., o número era considerado a força
que mantém a permanência eterna do cosmo pois, segundo
ele, tudo que existe é regido pelo número. Balzac, 20
séculos depois, afirmava que tudo existe exclusivamente pelo
movimento e pelo número, sendo que o movimento é, de qualquer
forma, o número atuando. Para Pitágoras, todas as coisas
eram números e qualquer número é uma divindade
em si mesmo e na sua interação com os demais. Divindade
ou não, o que eu sei é que o número vem exercendo,
há milênios, um fascínio quase místico sobre
nossa estimada lógica racional.
Deixando
à parte toda logorréia "new age" que elege chique
e famoso o sujeito que altera sua identidade, acrescentando ou subtraindo
letras ao nome, por uma pretensa influência maléfica da
somatória numerológica - coisa que me deixa nauseada,
afinal a evocação simbólica do número não
deveria ser reduzida a esta concretude limítrofe - considero
extremamente estimulante a exploração do universo mágico
do número
Dedico-me,
nesse artigo, a um em especial que considero mitológica, mística
e simbolicamente o mais transcendente: o sete. Tal número é
notável pelo poder profundo de ressonância analógica
e pelas inúmeras correspondências encontradas nos textos
antigos que alicerçaram toda a nossa teologia.
O
número sete é citado na Bíblia dezenas de vezes,
assim como no Alcorão - livro sagrado dos muçulmanos -
no Mânava-dharma Çastra - livro sagrado brâmane das
leis indianas e no Talmude - livro sagrado dos judeus. Está presente
nos textos da alquimia, nos princípios do hermetismo e até
na cultura indígena, como referência à "sétima
raça dos duas pernas", que corresponderia à humanidade
na era de Aquário.
Sua
origem vem da polarização da unidade, mais precisamente
da dubla polarização, já que a primeira gera o
3. A luz branca (símbolo da unidade), ao atravessar o prisma
(representando a tríade) se decompõe nas sete cores do
arco-íris: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta.
Cores estas que correspondem, respectivamente, às vibrações
dos 7 chakras: básico, esplênico, plexo solar, cardíaco,
laríngeo, frontal e coronário.
Sete
é a soma do ternário (céu), com o quartenário
(terra), resultando na totalidade do universo criado. Deus precisou
de sete dias para criar o mundo (gn 2.1-3), e o próprio nome
de Deus, segundo os gnósticos, seria composto por sete letras:
IEHOUAH - Jehovah. Sete são os principais mensageiros da luz
espiritual neste planeta: Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Lao-Tse,
Confúncio e Jesus Cristo.
No
gênesis encontramos a referência à morte de Caim
que seria vingada sete vezes. Jesus, ao revolucionar a lei mosaica do
olho por olho, dente por dente, assegura que, ao irmão, deveríamos
perdoar não apenas sete, mas setentas vezes sete vezes. Sete
foram os demônios expulsos de Maria Madalena. Sete são
os pecados capitais, a saber, a gula, a vaidade, a cobiça, a
ira, a preguiça, a luxúria e a mentira. No apocalipse,
a vitória do Senhor e do Cristo seria após o soar da sétima
trombeta do sétimo anjo. Sete dias é a duração
de cada um dos ciclos lunares, totalizando 28 dias, equivalentes ao
ciclo hormonal feminino. A clássica dança dos sete véus
parece aludir ao aspecto lunar do feminino: o segredo oculto atrás
de um véu, que recobre outro véu e assim sucessivamente,
sendo que a revelação, assim como a lua, reflete luz indireta.
A propósito, nada mais deliciosamente feminino que colecionar
uns segredinhos a sete chaves, não acham?
Na
mandala astrológica a sétima casa é regida por
libra, o signo da balança, representante da arte da diplomacia
e do equilíbrio nos relacionamentos. Traduz a busca do belo,
da perfeição, da boa convivência e do amor, sendo
o mais elegante dos signos do zodíaco. A figura correspondente
na mitologia grega é a rainha Afrodite, a deusa do amor, também
conhecida como Vênus, nome dado pelos romanos. A posição
de Vênus em seu mapa astrológico irá traduzir a
área em que você busca a medida precisa e sutil de equilíbrio
entre os pólos.
Na cabala - palavra que originalmente era composta por sete letras:
Kabalah - o sete corresponde a sefirot Netzach, cuja virtude simboliza
o amor, a natureza e o triunfo do iniciado, ao fim de sua busca. Também
no Tarot o sete está associado à vitória, é
a carta do guerreiro em seu carro, dominando dois cavalos, um negro
e um branco, cada um apontando para direções opostas.
É o triunfo da consciência, dominando os pólos antagônicos
e a impetuosidade das emoções. É o homem tomando
as rédeas de sua trajetória, rumo à realização
pessoal.
As
analogias se estendem ao infinito, poderíamos ficar o resto do
dia "deslizando" pela cadeia dos significados associados.
Sete são as maravilhas do mundo, os dias da semana, as notas
musicais, os orifícios do rosto humano e por aí vai...
Por essas e outras, escolhi o sete como meu número de sorte,
escolha também o seu e aventure-se pela deliciosa viagem através
das correspondências simbólicas. E que as bênçãos
dos sete céus caiam sobre nós em abundância!
Patrícia
Lucchesi. Psicóloga (31) 3274 6363 / 91046640
artigo
> Patrícia Lucchesi
(2)
Kali,
a terrível
"Certa
vez, Durga estava furiosa e produziu uma divindade aterradora, Kali,
que brotou rugindo de sua testa. De rosto negro, presas enormes, língua
em forma de chama e aspecto horrendo, ela usa um colar de crânios
humanos e muitas vezes aparece segurando uma cabeça decepada.
Kali ajudou Durga a matar um demônio chamado Raktabija, que ninguém
conseguia derrotar porque produzia um outro demônio a cada gota
de seu sangue derramado. Kali lambeu o sangue, engoliu os novos demônios
e derrotou Raktabija. Bêbada de sangue, ela dançou uma
dança da morte"(Mitologia Hindu).
O
hinduísmo está repleto de uma infinidade de deusas, muitas
delas são faces de Mahadevi, a grande deusa, também chamada
Devi, a mãe, uma das forças criadoras mais importantes
de todo o cosmo. Ela traz fertilidade à terra, mas também
exige sacrifícios. Em algumas versões, a mãe assume
formas benignas como as de Sati, Parvati e Lakshmi - mulher de Vishu
- deusa da beleza e da boa fortuna; mas também pode tomar formas
funestas como as de Durga, a deusa guerreira, e Kali, a terrível.
O
arquétipo da mulher odienta encontra correspondentes nas mitologias
pelo mundo afora; vemos, por exemplo, nas Górgones gregas uma
de suas expressões. Com cobras na cabeça, corpo coberto
de escamas, elas têm um olhar tão aterrador que petrifica
os mortais que ousem encará-las. Vivem numa caverna subterrânea
guardada por suas irmãs, as Gréias, cujos nomes bem retratam
seus atributos: Penfredo (Rancorosa), Dêion (Terrível)
e Énio (Guerreira). As beldades gregas partilham um mesmo
olho e um mesmo dente!
A cosmologia egípcia,
por sua vez, adorava a deusa mãe Neith, famosa caçadora
e guerreira, cujo símbolo é o de um escudo com duas flechas
cruzadas. Diz a lenda que ela cuspiu na água e sua saliva transformou-se
em Apep, a serpente do mundo dos mortos. Boquinha santa, não?
Isso
sem falar nas sereias, criaturas famosas por provocarem naufrágios
com seu canto sedutor. Há ainda as não menos famosas Valquírias
entre os mitos escandinavos. E quem não se lembra de Morgana,
inimiga do rei Artur, que tramava contra ele para provocar o fim da
raça humana. E que tal a Baba Yaga dos eslavos? A famigerada
deusa da morte matava as pessoas, levava os corpos para casa, devolvia-lhes
a vida e devorava-os em seguida! É mole?! E se você pensa
que essas canduras só existem pras bandas de lá,
já se esqueceu da concubina do padre? A tal Mula-sem-cabeça
que tanto assombrava nossa infância com seu galope violento, soltando
chispas de fogo...
É...
parece-me que a morte é mesmo feminina, como sugere o artigo
definido que a precede. Mas voltemos à nossa senhora simpatia,
a deusa Kali. Ela não ganharia disparado no quesito originalidade
na Apoteose carioca? Já imaginou que luxo, desfilando com aquele
colar de crânios, vasta cabeleira, língua de serpente,
cabeça decepada a tira colo, e presas de mamute!?
A deusa negra, macabra
e horrenda, possui contudo outras digressões além de seus
aspectos externos forjados para ocultar seu simbolismo profundo e esotérico.
Corre à boca miúda, inclusive, que esses mesmos aspectos
nada mais são que embuste para confundir e afastar os profanos
e instruir os iniciados nos mistérios da Vida e da Morte. Ela personifica
a consciência pura, incognoscível, indiferenciada, não-manifesta,
impessoal, absoluta, não circunscrita ao plano da forma. Força
cósmica inelutável que destrói as ilusões
(Maya) e devora as mediocridades do mundo polarizado e dual. Início
e fim em si mesma, é o esteio da Criação, arrimo
arquetípico que alicerça a origem e a finalidade do criado.
É o útero materno que acolhe o sêmen da vida, e a
terra que recolhe os restos mortais e os transforma em adubo, preparando
nova semeadura. Sua escuridão avassaladora é tanto sinal
de nossa pequenez frente ao absoluto, quanto o prelúdio da libertação
última de toda limitação que advém da forma.
O caráter
universal desta imagem arcaica, tal como identificamos nas diversas
culturas espalhadas pelo globo, evidencia sua incidência ubíqua
no inconsciente coletivo. Quiçá seja ela a sombra mais
temível, justamente por apontar para a aniquilação
definitiva das estratégias neuróticas de auto manutenção.
Vai saber... Fico com Jung ao afirmar que quando negamos ou reprimimos
alguma coisa em nós mesmos, os outros a expressam por nós.
A destrutividade, em seu aspecto mitológico, nada tem a ver com
a violência estúpida acionada pelo acirramento dos desejos
egóicos, mas é a própria condição
da regeneração e manutenção da vida. A negação
da morte e da dissolução como processos naturais, esta
sim, é fator que gera a projeção de nossa sombra
e contribui para os índices alarmantes de violência social.
Negando o feminino,
reprimimos a força da instintividade, o sincretismo com a natureza,
o mergulho no corpo da mãe; tornando-nos reativos, misóginos
e belicosos. Haja vista os horrores do mundo islâmico, a violência
disseminada pelos quatros cantos do planeta patriarcal, o desprezo pela
dimensão do corpo e da natureza etc. Kali nos reintroduz na dimensão
abissal da Vida, Morte e Renascimento; exige o rito de passagem pelas
profundezas do inconsciente e o reerguimento renovado à luz da
consciência ampliada.
Paulo Urban, em
seu artigo "Os Mistérios da Iniciação",
revela-nos: "Só por meio do contato com a noite que trazemos
em nossas próprias cavernas é que compreenderemos, por
contraste, o paradoxo desta inexorável condição,
a de estarmos morrendo e renascendo a cada instante. Sem essa visão
profunda, nenhum ser se completa, e passa pela vida em brancas nuvens.
É necessário pois que busquemos o mundo subterrâneo
que nos suporta".
Em teleconferência
com a deusa mãe, transcodifico as palavras que concluem sua tessitura
tectônica: "O ódio é o espelho da repulsa ao
que te escapa, por não te pertencer inteiramente. Ofereço-te
meus seios generosos, como expressão de maternal alento. Lanço-te
contudo a maldição de despencar do alto da torre que tua
própria soberba ergueu do solo".
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Patrícia
Lucchesi é psicóloga e escritora, especialista em
Psicopatologia e Metodologia do Ensino Superior.
E-mail
para contato: patricia.lucchesi@terra.com.br
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