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Sala de Visitas > Patrícia Lucchesi
continuação (3)

Patrícia pode ser contactada pelo e-mail:
patricia.lucchesi@terra.com.br

  
  
Índice dos Artigos: 1. Setenta vezes sete vezes.
2. Kali, a terrível.
   
   

 

 

 

 

 

A r t i g o s

artigo > Patrícia Lucchesi (1)

"Setenta vezes sete vezes"

Estamos iniciando a sétima era astrológica da época do Holoceno, que se iniciou há 10000 anos a.C. e foi dividida em 12 eras, cada uma com duração de 2000 anos: Leão (10000 a 8000), Câncer (até 6000), Gêmeos (até 4000), Touro (até 2000), Áries (até o ano 0), Peixes (até 2000 d.C.) e Aquário (até 4000).

A infante mentalidade aquariana traz, como marco importante na história do pensamento, o paradigma holístico, que vem triunfando sobre o dualismo cartesiano, dominante nos últimos séculos. Não chega a ser inédita a perspectiva de uma interdependência dinâmica entre o micro e o macro, a qual, a meu ver, é a essência da episteme contemporânea. Esta premissa já se encontrava presente em todas as teogonias da antigüidade, entre os egípcios, gregos, hebreus, hindus, assírios e outros.

Desde Pitágoras, em 529 a.C., o número era considerado a força que mantém a permanência eterna do cosmo pois, segundo ele, tudo que existe é regido pelo número. Balzac, 20 séculos depois, afirmava que tudo existe exclusivamente pelo movimento e pelo número, sendo que o movimento é, de qualquer forma, o número atuando. Para Pitágoras, todas as coisas eram números e qualquer número é uma divindade em si mesmo e na sua interação com os demais. Divindade ou não, o que eu sei é que o número vem exercendo, há milênios, um fascínio quase místico sobre nossa estimada lógica racional.

Deixando à parte toda logorréia "new age" que elege chique e famoso o sujeito que altera sua identidade, acrescentando ou subtraindo letras ao nome, por uma pretensa influência maléfica da somatória numerológica - coisa que me deixa nauseada, afinal a evocação simbólica do número não deveria ser reduzida a esta concretude limítrofe - considero extremamente estimulante a exploração do universo mágico do número

Dedico-me, nesse artigo, a um em especial que considero mitológica, mística e simbolicamente o mais transcendente: o sete. Tal número é notável pelo poder profundo de ressonância analógica e pelas inúmeras correspondências encontradas nos textos antigos que alicerçaram toda a nossa teologia.

O número sete é citado na Bíblia dezenas de vezes, assim como no Alcorão - livro sagrado dos muçulmanos - no Mânava-dharma Çastra - livro sagrado brâmane das leis indianas e no Talmude - livro sagrado dos judeus. Está presente nos textos da alquimia, nos princípios do hermetismo e até na cultura indígena, como referência à "sétima raça dos duas pernas", que corresponderia à humanidade na era de Aquário.

Sua origem vem da polarização da unidade, mais precisamente da dubla polarização, já que a primeira gera o 3. A luz branca (símbolo da unidade), ao atravessar o prisma (representando a tríade) se decompõe nas sete cores do arco-íris: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta. Cores estas que correspondem, respectivamente, às vibrações dos 7 chakras: básico, esplênico, plexo solar, cardíaco, laríngeo, frontal e coronário.

Sete é a soma do ternário (céu), com o quartenário (terra), resultando na totalidade do universo criado. Deus precisou de sete dias para criar o mundo (gn 2.1-3), e o próprio nome de Deus, segundo os gnósticos, seria composto por sete letras: IEHOUAH - Jehovah. Sete são os principais mensageiros da luz espiritual neste planeta: Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Lao-Tse, Confúncio e Jesus Cristo.

No gênesis encontramos a referência à morte de Caim que seria vingada sete vezes. Jesus, ao revolucionar a lei mosaica do olho por olho, dente por dente, assegura que, ao irmão, deveríamos perdoar não apenas sete, mas setentas vezes sete vezes. Sete foram os demônios expulsos de Maria Madalena. Sete são os pecados capitais, a saber, a gula, a vaidade, a cobiça, a ira, a preguiça, a luxúria e a mentira. No apocalipse, a vitória do Senhor e do Cristo seria após o soar da sétima trombeta do sétimo anjo. Sete dias é a duração de cada um dos ciclos lunares, totalizando 28 dias, equivalentes ao ciclo hormonal feminino. A clássica dança dos sete véus parece aludir ao aspecto lunar do feminino: o segredo oculto atrás de um véu, que recobre outro véu e assim sucessivamente, sendo que a revelação, assim como a lua, reflete luz indireta. A propósito, nada mais deliciosamente feminino que colecionar uns segredinhos a sete chaves, não acham?

Na mandala astrológica a sétima casa é regida por libra, o signo da balança, representante da arte da diplomacia e do equilíbrio nos relacionamentos. Traduz a busca do belo, da perfeição, da boa convivência e do amor, sendo o mais elegante dos signos do zodíaco. A figura correspondente na mitologia grega é a rainha Afrodite, a deusa do amor, também conhecida como Vênus, nome dado pelos romanos. A posição de Vênus em seu mapa astrológico irá traduzir a área em que você busca a medida precisa e sutil de equilíbrio entre os pólos.

Na cabala - palavra que originalmente era composta por sete letras: Kabalah - o sete corresponde a sefirot Netzach, cuja virtude simboliza o amor, a natureza e o triunfo do iniciado, ao fim de sua busca. Também no Tarot o sete está associado à vitória, é a carta do guerreiro em seu carro, dominando dois cavalos, um negro e um branco, cada um apontando para direções opostas. É o triunfo da consciência, dominando os pólos antagônicos e a impetuosidade das emoções. É o homem tomando as rédeas de sua trajetória, rumo à realização pessoal.

As analogias se estendem ao infinito, poderíamos ficar o resto do dia "deslizando" pela cadeia dos significados associados. Sete são as maravilhas do mundo, os dias da semana, as notas musicais, os orifícios do rosto humano e por aí vai... Por essas e outras, escolhi o sete como meu número de sorte, escolha também o seu e aventure-se pela deliciosa viagem através das correspondências simbólicas. E que as bênçãos dos sete céus caiam sobre nós em abundância!

Patrícia Lucchesi. Psicóloga (31) 3274 6363 / 91046640       

   
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artigo > Patrícia Lucchesi (2)

Kali, a terrível

"Certa vez, Durga estava furiosa e produziu uma divindade aterradora, Kali, que brotou rugindo de sua testa. De rosto negro, presas enormes, língua em forma de chama e aspecto horrendo, ela usa um colar de crânios humanos e muitas vezes aparece segurando uma cabeça decepada. Kali ajudou Durga a matar um demônio chamado Raktabija, que ninguém conseguia derrotar porque produzia um outro demônio a cada gota de seu sangue derramado. Kali lambeu o sangue, engoliu os novos demônios e derrotou Raktabija. Bêbada de sangue, ela dançou uma dança da morte"(Mitologia Hindu).

O hinduísmo está repleto de uma infinidade de deusas, muitas delas são faces de Mahadevi, a grande deusa, também chamada Devi, a mãe, uma das forças criadoras mais importantes de todo o cosmo. Ela traz fertilidade à terra, mas também exige sacrifícios. Em algumas versões, a mãe assume formas benignas como as de Sati, Parvati e Lakshmi - mulher de Vishu - deusa da beleza e da boa fortuna; mas também pode tomar formas funestas como as de Durga, a deusa guerreira, e Kali, a terrível.

O arquétipo da mulher odienta encontra correspondentes nas mitologias pelo mundo afora; vemos, por exemplo, nas Górgones gregas uma de suas expressões. Com cobras na cabeça, corpo coberto de escamas, elas têm um olhar tão aterrador que petrifica os mortais que ousem encará-las. Vivem numa caverna subterrânea guardada por suas irmãs, as Gréias, cujos nomes bem retratam seus atributos: Penfredo (Rancorosa), Dêion (Terrível) e Énio (Guerreira). As beldades gregas partilham um mesmo olho e um mesmo dente!

A cosmologia egípcia, por sua vez, adorava a deusa mãe Neith, famosa caçadora e guerreira, cujo símbolo é o de um escudo com duas flechas cruzadas. Diz a lenda que ela cuspiu na água e sua saliva transformou-se em Apep, a serpente do mundo dos mortos. Boquinha santa, não?

Isso sem falar nas sereias, criaturas famosas por provocarem naufrágios com seu canto sedutor. Há ainda as não menos famosas Valquírias entre os mitos escandinavos. E quem não se lembra de Morgana, inimiga do rei Artur, que tramava contra ele para provocar o fim da raça humana. E que tal a Baba Yaga dos eslavos? A famigerada deusa da morte matava as pessoas, levava os corpos para casa, devolvia-lhes a vida e devorava-os em seguida! É mole?! E se você pensa que essas canduras só existem pras bandas de lá, já se esqueceu da concubina do padre? A tal Mula-sem-cabeça que tanto assombrava nossa infância com seu galope violento, soltando chispas de fogo...

É... parece-me que a morte é mesmo feminina, como sugere o artigo definido que a precede. Mas voltemos à nossa senhora simpatia, a deusa Kali. Ela não ganharia disparado no quesito originalidade na Apoteose carioca? Já imaginou que luxo, desfilando com aquele colar de crânios, vasta cabeleira, língua de serpente, cabeça decepada a tira colo, e presas de mamute!?

A deusa negra, macabra e horrenda, possui contudo outras digressões além de seus aspectos externos forjados para ocultar seu simbolismo profundo e esotérico. Corre à boca miúda, inclusive, que esses mesmos aspectos nada mais são que embuste para confundir e afastar os profanos e instruir os iniciados nos mistérios da Vida e da Morte. Ela personifica a consciência pura, incognoscível, indiferenciada, não-manifesta, impessoal, absoluta, não circunscrita ao plano da forma. Força cósmica inelutável que destrói as ilusões (Maya) e devora as mediocridades do mundo polarizado e dual. Início e fim em si mesma, é o esteio da Criação, arrimo arquetípico que alicerça a origem e a finalidade do criado. É o útero materno que acolhe o sêmen da vida, e a terra que recolhe os restos mortais e os transforma em adubo, preparando nova semeadura. Sua escuridão avassaladora é tanto sinal de nossa pequenez frente ao absoluto, quanto o prelúdio da libertação última de toda limitação que advém da forma.

O caráter universal desta imagem arcaica, tal como identificamos nas diversas culturas espalhadas pelo globo, evidencia sua incidência ubíqua no inconsciente coletivo. Quiçá seja ela a sombra mais temível, justamente por apontar para a aniquilação definitiva das estratégias neuróticas de auto manutenção. Vai saber... Fico com Jung ao afirmar que quando negamos ou reprimimos alguma coisa em nós mesmos, os outros a expressam por nós. A destrutividade, em seu aspecto mitológico, nada tem a ver com a violência estúpida acionada pelo acirramento dos desejos egóicos, mas é a própria condição da regeneração e manutenção da vida. A negação da morte e da dissolução como processos naturais, esta sim, é fator que gera a projeção de nossa sombra e contribui para os índices alarmantes de violência social.

Negando o feminino, reprimimos a força da instintividade, o sincretismo com a natureza, o mergulho no corpo da mãe; tornando-nos reativos, misóginos e belicosos. Haja vista os horrores do mundo islâmico, a violência disseminada pelos quatros cantos do planeta patriarcal, o desprezo pela dimensão do corpo e da natureza etc. Kali nos reintroduz na dimensão abissal da Vida, Morte e Renascimento; exige o rito de passagem pelas profundezas do inconsciente e o reerguimento renovado à luz da consciência ampliada.

Paulo Urban, em seu artigo "Os Mistérios da Iniciação", revela-nos: "Só por meio do contato com a noite que trazemos em nossas próprias cavernas é que compreenderemos, por contraste, o paradoxo desta inexorável condição, a de estarmos morrendo e renascendo a cada instante. Sem essa visão profunda, nenhum ser se completa, e passa pela vida em brancas nuvens. É necessário pois que busquemos o mundo subterrâneo que nos suporta".

Em teleconferência com a deusa mãe, transcodifico as palavras que concluem sua tessitura tectônica: "O ódio é o espelho da repulsa ao que te escapa, por não te pertencer inteiramente. Ofereço-te meus seios generosos, como expressão de maternal alento. Lanço-te contudo a maldição de despencar do alto da torre que tua própria soberba ergueu do solo".

Patrícia Lucchesi é psicóloga e escritora, especialista em Psicopatologia e Metodologia do Ensino Superior.

E-mail para contato: patricia.lucchesi@terra.com.br

 

   
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