CARICATURA
DE MULHER
Sou endoscópio
para o mundo interior
Filtro policromo de espectros sutilíssimos
Receptividade centrípeta, atração irreprimível
Incandescência laminada, espelho d'água, alma clara.
Se tu vens a mim, segurança não deves supor
Meu terreno é cavernoso, insólito, intangível
Minha face é mutante, quadrifásica e errante
Portal soturno de poder intrapsíquico.
Eu sou o feminino, o feminil, o femíneo
Dos princípios, a introversão
Dos pólos, o negativo
Dos sexos, o oculto
Das verdades, o velado
Dos impulsos, o sombrio.
Sou tua anima, amante-meretriz
Giro a síntese de tua loucura
Na redondez de meus quadris.
Minhas motivações são involuntárias
Meus padrões são devaneios
Inchaço de emoções inconsistentes
Metade de baixo, sou complemento.
Hemisfério direito, analógicas percepções
Sentimentos, elementos, sonhos, especulações
Reações ilógicas de orientação intuitiva
Cenário de desejos e demandas volitivas.
Oriento-me por ciclos anímicos
Serpenteando entre a tua lucidez
Raízes ancestrais de temor inverossímil
Floresta negra, de trevosa morbidez.
Objeto de fetiche, dos enamorados sou parceira
Palco secular de amores profano-santos
Sou tua contra-face, contra-parte, feiticeira.
Sexta-Feira 02:57, 29 de março de 2002.