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Sala
de Visitas
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Diovvani
Mendonça |
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Mandala Sonora
Quando
um pássaro de fogo te traz no sol da meia-noite uma lembrança
CD
de Diovvani Mendonça
- compositor e cantor
Confira
a crítica de Paulo Urban ao primeiro CD de Diovvani Mendonça
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Diovvani
Mendonça, após um longo e produtivo processo de experiências
e busca espiritual, marca seu ingresso na maturidade musical editando
seu primeiro CD: "Mandala Sonora - quando um pássaro de fogo
te traz no sol da meia-noite uma lembrança".
As imagens poéticas incomuns suscitadas pelo título
pronunciam-se por todas as 13 faixas deste trabalho sonográfico,
afinado com as inovadoras tendências que vemos despontar no psiquismo
coletivo, prenúncio de um novo movimento artístico-cultural
sintonizado com os eflúvios de uma Nova Consciência planetária.
Ninguém escapa da mira a laser da verdade, diz o
músico, também letrista, em "Ano Zero", preocupado
em demarcar cirurgicamente o imponderável ponto de onde partem
suas especulações filosóficas que se desdobram em
puras pétalas de lótus musical ao longo da viagem "mandaláctea"
que seu disco propõe: em olhos ateus, nos olhos de Deus se escondem
paisagens, Universos paralelos que ainda explodirão; anuncia
em tom lúcido profético o compositor, fazendo de sua "Mandala
Sonora" um exercício acústico de peregrinação
que se abre para o inaudito, num corajoso salto abismal no vazio que nos
separa de nós mesmos.
Fazendo jus ao nome da cidade em que nasceu, Belo Horizonte (MG),
em sua espontaneidade Diovvani descortina um novo tempo, uma nova ordem
psico-musical que nos leva a enxergar adiante sem estreitezas, ao mesmo
tempo que nos abre as portas de um templo sagrado de inquietudes que buscam
resolver-se na transcendência, quem sabe prerrogativa dos arautos
natos que, como ele, trazem desde a pia batismal o nome de Deus gravado
no próprio vocativo.
E é nesta senso-espiritualidade despretensiosa, a permear
toda sua Mandala Sonora, que somos convidados a dar o segundo passo no
caminho, que nos lança à nostálgica e sensualíssima
peça musicada por Cláudio Carvalho, antigo parceiro, com
quem há mais de uma década Diovvani tem gravado vários
de seus trabalhos.
Ao som da batida urbana a sugerir a roda mandálica da vida
que nos envolve neste mundo de ilusões, Diovvani conjuga na terceira
faixa de seu disco uma aguda crítica social, aglutinando numa ousada
construção poética dois ícones míticos
de arquetípica relevância: Pandora e a Mulher-Aranha; a primeira
ingenuamente disposta a soltar de sua terrível caixa todas as mazelas
espirituais que nos assombram; a segunda, em sua maldita arte de seduzir
o ego, entretida em tecer sua teia de infortúnios, um verdadeiro
espinho de peixe cravado na garganta da ilusão; ... cujo labor
ininterrupto injeta veneno em nossas veias; numa metáfora
causticante a desvelar o que há de podre no reino da rede internáutica,
capaz de nos sugar a alma tornando-a exangue na virtualidade do sexo mecânico,
despido de sua sacralidade, ou na artificialidade do dinheiro que sustenta
as tetas de silicone, ou ainda na superficialidade vazia que engorda as
páginas da revista Caras e em tudo mais aquilo que uma sociedade
decadente prestigia, desde que centrada na materialidade espúria
que nos engana quanto ao verdadeiro sentido da vida. Ao invocar Pandora,
o compositor nos impele à lembrança que somente a esperança,
arquétipo imortal, pode salvar-nos a alma "transiludida",
cada vez mais enredada nas armadilhas do desejo.
Aliando técnica e sensibilidade, Diovvani nos leva à
4ª sala de sua Mandala com a coragem dos grandes, propondo-se a uma
das mais difíceis tarefas: musicar um soneto. O mestre ao qual
o músico rende homenagens é o paraibano Augusto dos Anjos
(1884-1914), o mais lido e menos compreendido dos poetas brasileiros,
dotado de uma verve tão profundamente maldita quanto espiritualizada,
que, em "O Lamento das Cousas" nos leva a penetrar no âmago
das potências criadoras do Universo, conclamando-nos a abrir nossos
corações para que ouçamos, pancada por pancada,
na sucessividade dos segundos, o cantochão dos dínamos profundos,
presente no desejo cósmico que habita essencialmente todas as coisas
manifestas.
Vandder Lima, jovem talento, arranjador inspirado, introduz na
base do texto augustiano um maquinário acústico-eletrônico,
um moto-perpétuo da vida, alusão ao dínamo profundo
que o poeta ouvia ao compor este soneto, uma de suas Obras-Primas, a retratar
em 14 versos decassílabos heróicos toda a dinâmica
latente no seio da Criação.
A Mandala evolui desta dimensão de inquietude que procura
a transubstanciação dos instintos para um texto que expõe
o tempo como nosso grande "Companheiro de Viagem", a traduzir-nos
a sábia lição de que a espera faz parte do caminho.
Na dialética da real virtualidade do tempo, e no melhor dos estilos
da música esotérica de Raul Seixas, Diovvani encarna o roqueiro
iniciado e nos leva no ritmo fluente de sua Mandala, a penetrar no segundo
que antecede a explosão do Big Bang, na imprevisibilidade do próximo
gesto da força criadora, no desejo de que a eternidade seja a nossa
casa, num tom filosofal que expõe nossa temporaneidade, a efêmera
condição humana, confrontando-a ao rasgo de incomensurabilidade
cósmica que encontramos em cada curva do caminho.
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E
bem no meio de nossa senda iniciática, damo-nos conta de
que nada mais somos que "Andarilhos das Estrelas", nada
além de peregrinos montados, entretidos em meter a espora
num cavalo de aço, a fim de percorrer todo momento em
busca do Nirvana, na tentativa de abrir o portal do tempo e
vencer distâncias estelares que nos separam de nós
mesmos.
Estamos no clímax de Mandala Sonora, momento crítico
de toda a obra, não por acaso ilustrado pela artista plástica
Mônica Facó, inspirada criadora de mandalas, máscaras
e talismãs, iniciada nos mistérios, nobre amiga de
almas nobres, que lança luz em nossa trilha por meio de sua
mandala especialmente feita para acompanhar esta música,
a nos servir de mapa para que possamos percorrer também as
demais áreas deste disco sem que nos esqueçamos do
fulcral centro da vida, em torno do qual se organizam harmonicamente
todas as mandalas da existência.
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Mandala Andarilho das Estrelas
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Resgatando
a verve psíquica de Augusto dos Anjos, Diovvani descarrega a maldição
de que somos dotados, interrogando em "Vírus" o próprio
Cogito de Descartes. "Vírus" expõe a ferida
existencial que trazemos desde a Origem, traduzida pela dor lancinante
de sermos corpos sublimados por nossas almas, conquanto somos almas densificadas
em corpos sobre os quais pesa esta nossa dura e crua condição
que nos obriga a viver feitos faunos pensadores.
"Vírus" nos arremeda ao abismo, projeta-nos em
busca do antídoto que talvez nem exista, enquanto o tempo da
ampulheta escorre, e o pensamento nos arrasta para o alto da torre.
A composição é a dicotomia da dúvida dolorosa
que encarcera nossa metade humana na metade eterna, enquanto as
cordas graves de um cello semidivino (arranjo de Vandder Lima)
fazem contraponto às nossas angústias, numa alusão
ao estado denso de reflexão, lúmen-interregno onde incertamente
esperamos confrontar as nossas almas. O exercício de introspecção
segue em "Acorde do Silêncio", ao som de um sax filosofal,
que responde ao cello por metáforas de um aveludado metálico,
dizendo-lhe que ao ir embora, não deixe de apagar a luz das
estrelas, sem contudo se esquecer de acender o sol, tangenciando a
imagem invocada pelo subtítulo da obra.
"Te Encontrei pelo Mundo" retorna à sensualidade
declarada em "Minha Janis", explorando o que de melhor permite
uma mandala, circular por temas e quadrantes que simétrica e homogeneamente
relacionam-se entre si. Nesta nona casa, o compositor revive o espírito
mouro, exalta a vida nômade e a entrega plenamente ao amor, antes
transpirado pela sexualidade das faixas 2 e 3, ora textualizada em seu
caráter de magia e pureza.
A décima faixa recebe uma especial contribuição
do produtor e arranjador Vandder Lima, que, com seus "Olhos Negros"
permite a Diovvani apresentá-los em tom declamatório, nítida
influência de Renato Russo em seu exercício de interpretação.
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Um
blues todo envolvente é passagem para a décima-primeira
sala da Mandala , uma "Introdução" instrumental
ao tema seguinte "Cuidado, Cachorro Bravo!", oportunamente
apresentado, a levantar questão acerca da roda que nos prende
ao atropelo da vida, mesclando fantasia e realidade concêntricas
ao ponto de onde tudo se origina e em torno do qual tudo se desdobra,
por meio de sonoras e audíveis mandalas, que se amarram ao
oroboro em constante mutação, a cada volta e a
cada instante dando adeus ao que fomos um segundo atrás.
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O
percurso mandálico não estaria completo, entretanto, se
não nos alçasse, após suas doze casas, à luminescência
da metáfora que nos "mete afora" do círculo dimensional
da existência, a fim de abarcarmos a totalidade das esferas transcendentes.
Essa transposição do Cogito cartesiano ocorre justamente
no salto quântico que nos aguarda na 13ª faixa (pois o 13 é
por excelência o número que perverte a ordem), verdadeiro
hino libertário, som diáfano e transparente, com o qual
Diovvani Mendonça homenageia seu grande ídolo, o músico
mineiro Marco Antônio Araújo, que, em 6 de janeiro de 1986,
precocemente partiu para sua viagem absoluta, para além de todas
as mandalas sonoras em busca do silêncio do Nirvana Universal. Marco
Antônio Araújo, andarilho das estrelas, Prometeu da nova
música, alimenta o fogo do pássaro que voa em pleno sol
da meia-noite, em sua paradoxal missão de nos trazer lembranças
(de um futuro que se aproxima).
Mandala
Sonora enfim é isso: uma dança circular em torno de
nós mesmos, uma trilha em busca da essência perdida que só
os artistas, músicos e poetas e pessoas realmente sensíveis
sabem perceber e resgatar nos sonhos do caminho.
Comentário
de Paulo Urban sobre o CD Mandala Sonora.
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