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P
o e s i a s
ESTADO
de ALMA
Encontrei-me
com Kafka
nos corredores da justiça.
Ele folheava os compêndios do processo,
eu aguardava o arquivista
enquanto treinava o jeito
de peitar o funcionário.
Peitar (informo para os jovens),
é suborno, chave falsa
para entrar no castelo.
Tenho gavetas cheias de letras,
selos, carimbos,
e os números tatuados no peito,
o telefone ao meu lado
querendo saltar de alegria
ao interurbano que ainda não veio.
De papéis escritos tenho vivido,
um pouco traídos pelo micro.
Quando falo, escrevo um manuscrito
na testa alheia.
Perdido em Kreutzlingen,
me respondiam em dialeto,
eu fazia gestos inúteis,
até um policial de bicicleta
me tomar o passaporte
a recitar alemães filósofos.
Fui índio no Arizona,
pária estrangeiro em toda a parte,
até aqui na fila do restaurante classe média.
Tenho lindas camisas usadas,
calças e sapatos ganhos
de amigos afortunados.
Saqueei lixo em Nova York,
onde achei a mala de náilon
e um telefone vermelho.
O que faço nesta tarde de maio?
(certo é manhã de abril)
mas a poesia é relatório cifrado
para alienígenas do espaço,
a verdade é um susto atrás das letras.
É bom meu estado de alma.
O sol resplandece nos buracos ozônicos,
tenho minha amiga barata
a conversar pelas antenas,
histórias em quadrinhos francesas
e Ulisses com castigo.
Talvez até
responda cartas postergadas de Agosto,
(para ser exato: janeiro).
O telefone repousa, depois de um recado perfeito.
A música de fundo vai em um crescendo, até o beijo.
Fins felizes duram
segundos.
No acetato deste poema escrevo "The End"
e saio do cinema de mãos dadas.
André Carneiro, in Virtual Realidade, 1992.
EU
ESCAPO
Não tenho gravata,
o último bigode raspei em primeiro de abril
de sessenta e quatro.
Darcy menina, inventora da mini-saia
ficou com as crianças, eu fugi
na subversiva perua Volkswagem.
Tenho
pudor de ser poeta,
prefiro escritor, cineasta, hipnotizador emérito,
palavras nem explicam
a economia doméstica,
amordaçam lágrimas ditas femininas,
derramadas pelo sexo másculo.
Há
sempre um atrás nos versos
a libertar rostos, mostrar pegadas viscosas
em direção ao seu quarto.
Minhas balas nunca explodiram,
a navalhada espanhola é barbeador elétrico.
Tento ser eclético, abarcar o continente.
Fui Navajo no Arizona,
joguei poker em cartas marcadas,
dou nó em pespontos,
lavo louça sem nenhum interesse.
De
onde surgem estas formigas minúsculas?
Deus displicente, esmago-as sem pena,
almas sem micróbios e baratas são desprezíveis.
Do satélite, só avisto a muralha da China
e a floresta amazônica em chamas.
Meu carro tem pontos de ferrugem,
o aço se transforma em marrons abstratos,
alguns botões da camisa fecham ao contrário,
marca feminina do contraste.
Sigo
cego o rumo coletivo deste ônibus.
Passam cenhos cerrados,
proíbem beijar de língua nas bibliotecas,
trocar roupas nos alpendres,
casar filhas com negros,
gargalhar no tribunal togado.
A morte
vai batendo de porta em porta,
vendendo bilhetes irrecusáveis
aos guardiães da sociedade.
Eu me escondo no banheiro,
disfarço lendo histórias em quadrinhos
e escapo.
André
Carneiro in Exemplos do Insondável, 1990.
HEISENBERG ME OLHA
Fraco, sensível, covarde,
quero benevolência
na verdade meio torta.
O trajeto dissolve a memória,
distância engole fatos,
desmaio e volto
na torrente variável dos ventos.
Felicidade inclui
o rito,
lixo unhas, lustro uvas geladas;
O seio, fruta fresca, engulo inteiro.
Amor é pássaro cego,
paga a dúvida inelutável
respirada todos os momentos.
Combino mecânica
quântica
e a gravidade.
Sigo a partícula no espaço-tempo,
descubro a hora imaginária.
Heisenberg me olha cheio de incertezas.
Que barro foi usado na fabricação da carne?
Jogo o tarô
das palavras
molhadas em suor e lágrimas.
A alma respira oxigênio,
vírus e micróbios
Sonham com sangue e a carne dos homens.
André Carneiro,
in Quânticos da Estranheza, 1992. 
Veja
outras poesias de André Carneiro
André pode ser contactado pelo e-mail: andrecarneiro77@hotmail.com
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