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o advento da imprensa de tipos móveis, os parisienses
do século XVII estavam acostumados aos cartazes-notícia
que eram semanalmente colados sobre os muros e postes de toda a
cidade. Numa manhã de agosto de 1623, entretanto, foram surpreendidos
pelo teor enigmático de um panfleto que fora espalhado na
fria surdina da madrugada, cujo tom era concitativo e revolucionário:
“Nós, membros do Superior Colegiado da Fraternidade
Rosa-Cruz, dirigimo-nos a todos os que desejam filiar-se à
nossa Irmandade, a quem transmitiremos o conhecimento da suprema
sabedoria. Fazendo-nos agora visíveis e invisíveis
nesta cidade pela graça do Altíssimo, para Quem se
voltam os corações dos justos, podemos ler e ensinar
sem a ajuda de livros nem sinais em todas e quaisquer línguas,
seja qual for o país em que desejamos estar, a fim de salvar
nossos semelhantes dos erros e da morte.
Os que a nós se voltarem por mera curiosidade, jamais se
comunicarão conosco; mas se a vontade de se juntar à
Confraria for realmente genuína, nós os encontraremos
do mesmo modo que estes saberão reconhecer-nos”.
A Igreja, gato escaldado que desde o século passado
vinha sendo admoestada pela Reforma Luterana, reagiu prontamente
atirando impropérios sobre estes mais recentes insurgentes
invisíveis, ameaçando-os de excomunhão. A polícia
francesa, a despeito das investigações, rendeu-se
ao anonimato dos manifestantes, suficientemente abastados para fabricar
o pergaminho impresso em uma gráfica própria.
René Descartes (1596-1650), atento à
sua época, ainda que criado e educado pelos jesuítas,
deixou-se seduzir pelo caráter filosófico do que parecia
ser a instauração de uma nova ordem social, ou o advento
de uma nova era anunciada pelos rosacruzes. Anos antes, ouvira falar
deles quando de suas viagens pela Alemanha, onde, segundo dizem,
teria se encontrado com um dos cavaleiros desta Ordem, aparentada
dos Templários, estes supostamente extintos. Mas tão
logo a Igreja cobrou do filósofo um esclarecimento diante
do furor da opinião pública que o associava à
Irmandade, Descartes negou peremptoriamente pertencer ao movimento,
dizendo não conhecer um só de seus integrantes. Mais
tarde, quando latinizou seu nome para Cartesius, muitos leram aí
a senha que identificava a abreviatura de seu novo nome, R.+ C.,
com os secretos rosacruzes.
Paris, predestinada que estava a gritar ao mundo os ideais
de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, por ora apenas
repercutia o eco revolucionário do esoterismo alemão,
cujas raízes mais profundas se originavam na sabedoria dos
povos magistas do Egito e do Oriente Médio.
Ao longo dos séculos XVI e XVII, correntes
messiânicas a afrontar a hegemonia católica varriam
a Alemanha. Não à toa germinaria aí a semente
da Reforma, bem regada e protegida pelos reis e nobres descontentes
com a intromissão dos Papas em seus interesses político-econômicos.
Paralelamente ao espírito Renascentista italiano que recuperava
para o mundo o hermetismo clássico e a cosmogonia neoplatônica
de Plotino (204-262d.C.), base do pensamento gnóstico e alquímico,
os intelectuais alemães haviam construído todo um
saber esotérico, cujas raízes se perdiam em sua secular
história. Geograficamente, a Alemanha era o elo forte entre
a mitologia nórdica - proveniente dos povos bárbaros
do norte, aceites à magia - e a Tradição esotérica
do sul – que trazia em seu bojo os ritos iniciáticos
de Elêusis e todo o esoterismo do Orfismo e da Escola Pitagórica.
Expoente da cultura ocultista germana é
Wolfram von Eschenbach (1170-1220), poeta trovador cuja obra-prima,
Parzival, é um poema épico da mítica arturiana.
Escrito entre 1200 e 1210, retrata a Ordem dos Cavaleiros da Pedra
Dourada, irmandade mista devotada a proteger no secreto Castelo
de Munsalvaesch, o Cálice do Santo Graal, descrito como uma
pedra entregue à humanidade por uma legião de anjos,
cuja propriedade é a de curar a rejuvenescer todo aquele
que domine seu segredo. O épico influenciaria Richard Wagner
(1813-1883) a compor a parte culminante de sua ópera homônima,
que estreou em 1882.
Mestre Eckhart (1260-1327) é outro nome
a ser lembrado. Membro da Ordem Dominicana, o monge teve suas obras
condenadas pelo Papa logo após a sua morte. Eckhart propunha
o silêncio como meio de ascese à experiência
divina e pregava a salvação das almas não pelos
dogmas cristãos, senão através da introspecção,
independentemente de qualquer doutrina.
Outro adepto do misticismo medieval alemão
é Nicolau de Cusa (1401-1464), monge que chegou a ser enviado
à Constantinopla como legado papal. Em seu Dei Visione Dei
(Sobre a Visão de Deus), 1454, pregava que os olhos do Criador
estão por toda a parte, imanentes e eternos. É dele
a famosa citação: “Deus é uma esfera
cujo centro se encontra e toda a parte e cujas circunferências
não se delimitam em parte alguma”. Em sua teoria
do Microcosmo, dizia não ser o homem mero espelho de Deus,
senão Ele próprio essencialmente, razão pela
qual ninguém de sua época o compreendeu. O filósofo
validava a assertiva gnóstica da “Tábua de Esmeralda”,
recém-recuperada pela Renascença florentina, a partir
de traduções árabes de seu texto grego original.
A Tábua alquímica, apocrifamente atribuída
a Hermes Trimegistro, mitos à parte, compõe-se de
treze chaves para a elucidação da natureza da Pedra
Filosofal. Roga sua segunda e mais conhecida máxima:
“Assim como é em cima é embaixo, e assim como
é embaixo é em cima, de modo a realizar o milagre
de uma só coisa”.
Mas o hermetismo alemão não estaria
bem representado se deixássemos de lado outras três
figuras. A primeira delas é Cornelius Agrippa von Nettesheim
(1486-1533). Sua obra mestra tripartite, De Occulta Philosophia,
1531, rendeu-lhe sérias complicações com a
Santa Inquisição. Seus três volumes tratam respectivamente
“da magia natural”, “do simbolismo numérico”
e “dos nomes divinos”.
Mas o médico alquimista Paracelso (1493-1541),
inicialmente aluno de Agrippa, superou o mestre em sua fama. Dotado
de um gênio estouvado e polêmico, Paracelso comemorou
seu ingresso como doutor na Universidade da Basiléia queimando
Galeno em praça pública, acusando-o de atrasar a medicina
devido à sua errônea compreensão do cerne de
todo o pensamento hipocrático. Pai da alquimia médica,
foi ele quem lançou as bases daquilo que dois séculos
e meio mais tarde seria a Homeopatia, conforme foi enunciada por
Samuel Hahnemann (1755-1843), outro médico alemão.
Paracelso influenciaria ainda o pensamento de Jacob Boehme (1575-1624),
o sapateiro filósofo de Görlitz, cuja cosmogonia revelada
em suas obras parece ter-lhe sido entregue pelos anjos, em 1600,
ano este em que teria se iluminado. Permanece a questão:
como pôde um homem tão simples, que deixara a escola
aos 14 anos, conceber tão complexa filosofia cósmica?
Decerto Boehme não era, como fazem crer os românticos,
um operário rude e iletrado; ele viajara bastante, freqüentava
reuniões de estudos paroquiais e rogava da amizade de vários
intelectuais, mas às vezes penso que o maior abismo do mundo
seja pequeno demais para comportar em profundidade a sua sabedoria.
Pois
foi nesse cenário de fervilhante espírito
que os Rosacruzes escolheram surgir ou renascer. Em 1614, publicava-se
pela primeira vez, em Kassel, oeste da Alemanha, um manifesto intitulado
Fama Fraternitatis, des Löblichen Ordens des Rosenkreutzes
(Fama Fraternitatis, ou a Louvável Ordem dos Rosa-cruzes),
cujo texto já circulava discretamente desde 1610, sob a forma
de manuscrito no meio erudito e acadêmico.
A edição do Fama em forma de livreto
vinha acompanhada do opúsculo Allgemeine und General Reformation,
der gantzen weiten Welt (Reforma Geral de Todo o Amplo Mundo),
de autoria também desconhecida, que recontava em alemão
a alegoria Ragguagli di Parnasso (Notícias do Parnaso),
publicada um ano antes (1613) na Itália, pelo satirista Trajano
Boccalini. O monte Parnaso, 2.457m de altura, era consagrado aos
deuses gregos. Castália, uma de suas encostas bucólicas
mais baixas, era onde viviam as musas, em torno da nascente de uma
fonte dedicada a Apolo. Segundo imaginou Boccalini, o local fora
palco de um frustrante conclave. Preocupado com o egoísmo
do ser humano, Apolo convocara ali seus “letterati”,
os sete sábios da Grécia, com os quais buscava aconselhar-se,
no intuito do que fazer diante da crescente corrupção
do mundo.
Pitaco de Mitilena propõe a criação
de leis mais rigorosas que forçassem os governantes
a melhor tratar seus súditos, a que Periandro refuta, afirmando
que o mal estava nos cidadãos aceites em bajular seus príncipes.
Cleóbulo de Lindus afirma que o erro estava no ferro, que
mais era transformado em armas do que em arado. Chílon de
Esparta propõe a Apolo que acabe com toda prata e todo ouro
do mundo, razão de tantos crimes e ganância. Bias de
Priena, já àquela época preocupado com a devastação
da natureza, adverte que a razão do mal era estar o homem
ultrapassando seus limites, impostos pelos deuses; e Sólon
de Atenas, apontando as injustiças, sugere uma radical redistribuição
dos bens do mundo entre os homens. Mas Tales de Mileto, mais sensível
a solucionar que a reclamar, observa que o mundo nem tanto precisa
de uma reforma em sua sociedade, senão de mais amor e caridade,
e propõe que simplesmente se fizesse abrir uma janela no
coração dos homens, capaz de torná-los transparentes
em suas intenções, de modo que todos preferissem agir
de modo honesto e amoroso.
Metáforas à parte, a reforma geral
do mundo era tema dos mais fortes no anseio renascentista, época
em que o espírito humano, libertário por natureza,
mostrava-se descontente com a opressão católica, que
teimava equilibrar seus dogmas sobre o pensamento de Galeno e Aristóteles,
intocáveis marcos do saber medieval.
Era, pois, providencial a publicação de Kassel.
Se a Reforma Geral do Mundo fomentava a inquietude e apontava a
podridão humana, o Fama propunha que a salvação
estivesse ao alcance de todo aquele que acreditasse numa sociedade
mais fraterna.
Em linhas mestras, o Fama revelava a existência
da Fraternidade Rosacruz, fundada por Christian Rosenkreutz (1378-1484),
sábio alemão que teria dedicado seus longevos 106
anos de vida à oração e aos estudos da alquimia,
preocupado com o rumo dos homens. Segundo o estranho documento,
o mestre profetizara o alvorecer de uma nova civilização
e elaborara um plano para que se mantivesse secreta sua tumba até
que, século e meio mais tarde, em momento oportuno, quando
fosse descoberta, tanto o tesouro quanto a sabedoria nela guardados
pudessem prover um verdadeiro despertar espiritual da humanidade.
A história é fascinante! Os rosacruzes,
inicialmente sete além de Christian, tinham por obrigação
não praticar outra coisa senão a cura metafísica,
sem nada cobrar por ela. Comprometiam-se, ainda, a agir de modo
anônimo, não usando hábitos que os caracterizassem,
e mantinham o propósito de, uma vez distribuídos em
missão pela Europa, encontrarem-se uma vez ao ano na casa
do Sanctum Spiritus, a fim de tratar das estratégias da Irmandade.
Cada um dos irmãos deveria ainda procurar alguém mui
digno a fim de instruí-lo para que, após sua morte,
pudesse sucedê-lo em sua função. Juravam manter
secretos a palavra de passe e os sinais que lhes permitiam o mútuo
reconhecimento e, especialmente, propunham ocultar a organização
por cem anos, até que em situação histórica
favorável, pudessem vir a público e conclamar os que
estivessem em sintonia com seus ideais a ingressar a corrente em
prol de um mundo melhor e renascido.
Embora de linhagem nobre, Christian nascera num
lar tão pobre que seus pais, não podendo criá-lo
dignamente, confiaram sua educação a um mosteiro,
onde o menino aprendeu a ler indistintamente o latim e o grego.
Aos 15 anos, iniciaria uma peregrinação à Terra
Santa em companhia de seu tutor, mas o rapaz jamais chagaria a Jerusalém.
Quis o destino que o monge com quem viajava morresse na Ilha de
Chipre, razão pela qual Christian seguiu sozinho à
Turquia e daí até Damasco, no Oriente Próximo.
Encantado com o mundo árabe, deixou-se atrair por homens
experientes na arte da magia, que o receberam como se ele há
muito fosse esperado. Os anciões o trataram com deferência,
iniciando-o na ciência dos números, nas artes médicas
e na sabedoria de seus textos sagrados, especialmente no mítico
Livro M, que o jovem traduziu para o latim.
Após três anos, a bordo do “Sinus
Arabicus”, o aprendiz foi encaminhado ao Egito, onde permaneceria
uma década entre os magos sacerdotes, a fim de ser admito
aos grandes mistérios. Em sua viagem de retorno pelo Mar
Mediterrâneo, aportou em Fez, no Marrocos, onde se encontrou
com os “habitantes elementares” que lhe revelaram outros
segredos. Ao perceber como turcos, egípcios e árabes
de diferentes regiões mantinham eficiente entrelaçamento
cultural entre si, lamentou que na Europa os homens cultos preferissem
viver isolados uns dos outros, fato este que o teria levado a imaginar
uma Irmandade cujos membros aspirassem aos mesmos ideais, e daí
a criar algo concreto em torno do que os homens pudessem reunir-se,
livres dos dogmas e das doutrinas, com o intuito de construir uma
sociedade mais justa. Teriam sido suas palavras: “...
assim como em toda semente está contida uma boa árvore
e seu fruto, vejo que no corpo do homem esteja incutido todo o mundo,
cuja religião, política, saúde, natureza, línguas,
palavras e obras são concordantes e solidários, em
perfeita harmonia com Deus, o Céu e a Terra; e aquilo que
está em discordância com isso tem sido a causa do erro
e da falsidade, também da cegueira e das trevas do mundo”.
O Fama Fraternitatis revelava detalhes de como
o irmão N.N., membro da terceira geração dos
rosacruzes, ao reformar o prédio que herdara de seu antecessor,
irmão A., encontrou incrustada numa das paredes uma placa
memorial de bronze, na qual estavam gravados os nomes dos primeiros
oito irmãos. A placa estava presa por enorme prego que só
a muito custo pôde ser retirado. Por trás do reboque,
soltou-se então uma pedra que, por sua vez, revelou uma passagem
oculta. No dia seguinte, na presença dos demais irmãos,
derrubada a parede, desvendou-se a cripta de Christian Rosenkreutz,
onde repousava intacto o seu corpo. O umbral trazia a inscrição:
Anno Domini MDCIV, Post CXX Annus Patebo (ano da Graça de
1604, após 120 anos morto). Incrivelmente, o ano em que se
fazia a descoberta! Isto permitiu não só saber quando
precisamente falecera o mestre como atestar seu agudo vaticínio.
A revelação da tumba, segundo o Fama,
era o sinal que autorizava os Rosacruzes a anunciar ao mundo a existência
da Fraternidade. No ano seguinte, 1615, também em forma de
folhetim, agora escrito em latim, veio a público em Kassel
o Confessio Fraternitatis R+C, ou “Confissão da
Fraternidade Rosacruz”. Se o Fama exortava os homens
de bem a retomar as artes e as ciências em prol de um mundo
melhor, e pedia para que se trocasse a ilusão pela verdade,
o Confessio enaltecia os rosacruzes e estabelecia 37 razões
para pertencer à Irmandade; reforçava ainda seu fundamento
cristão, mas se colocava frontalmente contra a tirania papal.
O documento, bastante polêmico, dava extensão ao mito.
Encerrando a tríade misteriosa, em 1616, escrito em alemão,
veio à tona em Estrasburgo o mais hermético dos trabalhos,
Die Chymische Hochzeit von Christian Rosencreutz, ou “O
Casamento Químico de Christian Rosencreutz”, conto
alegórico possivelmente inspirado no famoso matrimônio
protestante ocorrido em 1613, entre Elizabeth, filha de Jaime I,
Rei da Inglaterra, com aquele que logo mais seria Frederico V, rei
da Boêmia.
O elegante texto traz a narrativa em primeira pessoa do
próprio Christian Rosencreutz, contando de como
fora visitado por um anjo em sua cela monástica e de como
dele recebera o convite para as bodas entre um rei e uma rainha
a serem realizadas num maravilhoso castelo, no ano de 1459. Aceitando
comparecer, Christian enfrenta todo o tipo de obstáculos,
passa por estranhas provações, mas triunfa e chega
finalmente ao casamento, cuja cerimônia já havia começado,
numa velada metáfora ao difícil progresso espiritual
necessário até que os dois elementos opostos da alquimia,
macho e fêmea, seco e úmido, possam comungar da plena
síntese. A obra é enigmática, rica em símbolos
alquímicos e astrológicos, repleta de princípios
da magia. Nela, o mestre rosacruz, sempre tratado com honrarias,
é feito cavaleiro da Ordem da Pedra Dourada, alusão
ao segredo da fabricação da Pedra Filosofal, que lhe
teria sido revelado em seus anos de estudo no Oriente. Semelhantemente
ao Fama e ao Confessio, o livreto fazia questão de evidenciar
que a verdadeira transmutação alquímica era
de natureza espiritual, que o ouro a se buscar não era vulgar,
mas transcendente.
Nenhum exegeta soube até hoje afirmar sem dúvida
quais nem quantos são os verdadeiros autores dessas três
seqüenciais publicações. Entretanto, Johann Valentin
Andreae (1586-16540), em época tardia, já um respeitado
pastor luterano de Vaihingen, em sua autobiografia Vita ab ipso
Conscripta, assumiu a autoria do “Casamento Químico”,
com a ressalva de que ele próprio não era membro da
Fraternidade Rosacruz, à qual não conhecia, e a de
que escrevera seu opúsculo como mera diversão em pleno
ardor da juventude, em 1605, mais de uma década antes de
sua publicação que, por sinal, cumpriu o sucesso de
seis edições.
Uma soma de inegáveis coincidências biográficas,
porém, leva-nos a crer que Andreae estivesse proferindo somente
meia verdade. Tendo nascido em Herrenberg, ainda criança
mudou-se com a família para Königsbronn, onde seu pai,
também chamado Johann Andreae, morreria na flor da idade,
em 1601, em ascendente carreira no clero luterano. A mãe
de Andreae, mulher instruída, a fim de buscar guarida para
a família, dirigiu-se para Tübingen, às margens
do rio Neckar, onde seu sogro, Jacob Andreae, também chamado
de o “Lutero de Württerberg”, era reitor da Universidade.
O velho Jacob, afeito à alquimia, ao acolher o neto em sua
casa, acabou por colocá-lo em contato com a nata intelectual
de sua época. O jovem logo ingressaria na Universidade e
destacar-se-ia nos estudos de óptica, geometria, letras e
teologia, para receber precocemente, em 1604, o título de
mestre. Além disso, envolver-se-ia com os maiores alquimistas
de seu tempo, entre eles Christopher Besold, fluente em nove idiomas,
estudioso da cabala hebraica, que defendia a reunificação
de uma Europa livre da dissensão religiosa. Besold teria
sido a principal influência por detrás dos manifestos
Fama e Confessio, cuja autoria, presume-se, tenha a lavrada participação
de Andreae, e o erudito deve ter ainda sugerido a Andreae que escrevesse
a alegoria do Casamento Químico de Christian Rosencreutz.
Passemos isso um pouco mais a limpo: o mais importante
trabalho de Johann V. Andreae, que escrevia proficuamente, é
Christianopolis, 1614, no qual o autor nos apresenta uma sociedade
utópica centrada num cristianismo livre dos dogmas da Igreja
de Roma. O título não só alude a uma nova ordem
cristã como homenageia nominalmente seu mestre alquimista.
Em seu ensaio de 1619, intitulado Turris Babel, Andreae adverte-nos
estranhamente: “Ouvi, ó mortais, em vão
esperais pela vinda da Fraternidade, a Comédia está
no fim”. Aqui convém frisar que Andreae viveu
numa Alemanha de seu tempo via nascer as primeiras sociedades secretas.
Em 1617, por exemplo, surgiu a Fruchtbringende
Gesselschaft (Sociedade Frutificadora), criada pelo príncipe
Ludwuig de Anhalt, da qual Johann V. Andreae era membro fundador,
ao lado de outros nobres cujo ideal era o de unir as pessoas em
torno do bem comum. A insígnia da confraria mostrava um coqueiro
com o dístico “Alles zu Nutzen” (Tudo em Benefício).
Ela nascia inspirada nos preceitos da Orden der Indissolubilisten
(Ordem dos Inseparáveis), talvez a mais antiga Ordem da Alemanha,
fundada em 1577, de cujo arcabouço teria se erguido a Fraternidade
Rosacruz. Entre seus fundadores estavam donos de minas e de casas
de fundição, homens de negócios vividamente
interessados nos avanços da alquimia. Documentos que atravessaram
os séculos, guardados pela loja maçônica “Zu
Freudschaft” (Em Irmandade) de Berlim, bem revelam os ideais
afins entre esta organização e o teor dos manifestos
rosacruzes, que propunham uma completa reforma espiritual no mundo,
utopia esta que estava entre as principais idéias de J. Valentin
Andreae.
Com o advento da Segunda Guerra, infelizmente,
os nazistas destruíram a maior parte desses registros históricos,
mas há cópias dos mesmos e outras peças fidedignas
que sobreviveram em vários outros templos da maçonaria,
como por exemplo, a Loja Archimedes, de Altenbug. Também
fora do meio maçônico há indícios da
íntima relação entre os rosacruzes e a “Ordem
dos Indissolúveis”. Na Biblioteca Estadual de Stuttgart,
por exemplo, encontra-se o elo chave entre as duas Irmandades. Trata-se
de um manuscrito alquímico datado do século XVIII,
atribuído à Gold-und-Rosencreutz (Rosacruz Dourada),
mas cujo frontispício é cópia de um tratado
de 1580, possivelmente pertencente à Orden der Indissolubilisten.
Tiremos o destilado disso tudo: Johann V. Andreae,
cuja criação se deu entre os ocultistas de seu tempo,
que se fez membro da Sociedade Frutificadora, que muito provavelmente
também pertenceu à Ordem dos Inseparáveis,
e que viveu acreditando num mundo a ser reformado pela verdadeira
Luz do Espírito, passa a ser, portanto, o mais provável
nome por detrás dos manifestos que reviraram a Europa do
século XVII. E, claro, teria buscado o fictício nome
do Pai de todo o Movimento Reformador, inspirando-se na personalidade
nobre e marcante de seu professor Christian Besold. Sua negação
do fato assemelha-se ao cuidado de Descartes para desvincular seu
nome de toda especulação sensacionalista que pudesse
macular e comprometer os nobres e secretos ideais dos rosacruzes.
De qualquer modo, ainda há muita polêmica quanto à
autoria dos manifestos. Inegável, entretanto, é a
força transmutadora que eles detêm. E o cerne alquímico
de sua proposta sem dúvida responde pelo extraordinário
fenômeno coletivo que as publicações causaram,
cujo frisson se estendeu à França, de onde seus idéias
se espalharam pelo mundo.
Um dos poucos que mais claramente enxergaram a
verdade por detrás do fabuloso véu dessa história,
é Fernando Pessoa, poeta português, iniciado nos mistérios,
cuja pena tem algo a nos dizer sobre a Fraternidade Rosacruz, bem
como sobre a real identidade de Christian Rosencreutz, cujos segredos
guardados junto ao peito anunciam ao mundo uma nova consciência,
capaz de acrescentar luz às estrelas e mais amor ao coração
dos homens. É assunto de nossa próxima matéria.

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