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- O que é a hipnose?
Paulo Urban - Hipnose é um estado
alterado de consciência particular, induzido por técnicas
de sugestão e que, uma vez alcançado, permite ao hipnotizador
influir - também por meio de sugestões - sobre as condições
psíquicas, somáticas e viscerais do hipnotizado. Difere
do sono comum por várias razões: o indivíduo que
dorme reage ou acorda somente a partir de estímulos mais fortes,
o hipnotizado pode reagir facilmente a estímulos débeis
ou a comandos verbais simples; há ainda um dinamismo sensorial
e de intelecto que se mantém presente no transe hipnótico,
o mesmo que permite ao hipnotizador atuar na relação criada
com seu paciente, ao passo que nos indivíduos que simplesmente
estão dormindo isto não ocorre. Ademais, como observam
vários autores, na hipnose não se observa alteração
dos reflexos neurológicos que no sono se acham diminuídos.
Também o eletroencefalograma do indivíduo hipnotizado
costuma ter também traçados característicos, distintos
do traçado comum do sono.
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- Na sua opinião há muita desinformação
quanto a hipnose? Por quê?
Paulo Urban - Exatamente! Há ainda
muita desinformação em relação a hipnose.
Grande parte da classe médica, incluindo psiquiatras e neurologistas,
também muitos psicólogos e psicanalistas, chegam ao século
XXI com sérias dificuldades para compreender tal fenômeno
psíquico. Muitos ainda tomam a hipnose por algo mágico,
ou a confundem com mero exercício de relaxamento. Por outro lado,
ainda vemos charlatães exibindo-se nas tevês, expondo pessoas
incautas a situações ridículas, facilmente alcançadas
por meio da sugestão hipnótica. Agindo assim, contribuem
para o imerecido preconceito acadêmico em relação
a esta técnica. Ainda há aqueles que se valem dessa técnica
para tentar provar a tese da reencarnação ou mesmo as
tais abduções por discos voadores e
decididamente a hipnose não se presta para provar nada disso
-, o que faz, ainda mais, misturar a hipnose com crenças pessoais
e fés religiosas.
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- Existe mesmo um preconceito com relação a hipnose? O
que deveria ser feito para acabar com isso?
Paulo Urban - Ainda existe. A maior parte
desse preconceito, entretanto, cuja força quase extinguiu a prática
da hipnose da clínica médica ao longo do século
XX é bom que deixemos isso bem claro -, veio da Psicanálise,
mais specificamente de seu criador, o Dr. Sigmund Freud (1856-1939)
que, a propósito, era pessoa dotada de enormes preconceitos em
relação a muitas outras coisas também, principalmente
aquelas que de algum modo pudessem competir com sua doutrina ou ameaçá-la.
(Veja abaixo a opinião de Paulo Urban)
Saraiva.com.br - Quando a hipnose começou
a ser usada cientificamente?
Paulo Urban - Precisamente em 1843. James
Braid (1795-1860), cirurgião oftalmologista de
Manchester, Inglaterra, dotado de espírito crítico, dois
anos antes viu-se intrigado diante das exibições de Lafontaine,
um mesmerizador francês que fazia turnê em seu país.
Braid concluiu que as pessoas podiam cair "num estado particular
do sistema nervoso determinado por manobras artificiais" desde
que ocorresse fadiga cerebral e cansaço visual, o que se conseguia
por meio de repetições de palavras e gestos sugestivos.
Os passes, segundo ele, não eram dotados de poder magnético
algum, mas predispunham os pacientes a um estado psicofísico
alterado. Braid cunhou o termo hipnotismo em sua obra "Neurohipnologia",
de 1843, e colaborou para o desenvolvimento da técnica hipnótica,
desde então também chamada de braidismo.
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- Quais foram as principais mudanças no decorrer de todos esses
anos?
Paulo Urban - Devido ao intimidante saber/poder
psicanalítico, a hipnose quase nada evoluiu no século
passado. Como Freud a abandonou, muitos acadêmicos viram nesse
gesto o pressuposto de que a hipnose pouco seria proveitosa para a clínica.
Somente nos fins do século XX ela começou a resgatar seu
prestígio e a recuperar seu credenciamento terapêutico.
Em nossos dias, quando a psicanálise enfrenta enorme concorrência
e já se mostra um tanto ultrapassada em seu modelo de compreensão
do psiquismo - analogamente ela traz em sua pretensão a mesma
precisão de uma mecânica clássica - de Newton -
tentando compreender o universo quântico que ora se revela paradoxal,
momento esse em que novas abordagens psicoterápicas podem oferecer
novas propostas às questões profundas do psiquismo, a
hipnoterapia e outras técnicas novas ou antes depreciadas voltam
a encontrar espaço. Em 1998, por exemplo, na Universidade de
Harvard, Estados Unidos, pacientes sob hipnose receberam a sugestão
de que enxergavam cores numa figura em preto e branco. Avaliados pela
tomografia por emissão de pósitrons, um exame capaz de
mapear áreas cerebrais, comprovou-se que a região relacionada
à visão das cores era especificamente ativada. Mais uma
prova de que o estado hipnótico diferencia-se do sono simplesmente.
Também é largamente reconhecido o uso da hipnose para
alívio de dores, como anestésico para procedimentos dentários,
como agente aliviador de estresse, regulador da pressão arterial
e outras funções orgânicas, como instrumento de
apoio no pré-natal e parto, etc. Mas entendo que esteja na psicoimunologia
seu futuro promissor, podendo a hipnose tanto retardar a evolução
de doenças auto-imunes como melhorar o padrão imunológico
de pacientes cancerosos e imunodeprimidos. A verdade é que ainda
estamos longe de aproveitar a hipnose em sua plena capacidade, mas as
psicoterapias, modo geral, têm muito a enriquecer com sua prática.
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- Assistir às sessões de hipnose pela televisão
não lhe parece mais um quadro de mágica? Isso não
expõe as pessoas a uma situação desagradável?
Qual a sua opinião?
Paulo Urban - Nada há de mais anti-ético
neste particular que expor pacientes e pessoas - vítimas seria
a melhor palavra aqui - incautas ao ridículo, em programas de
palco ou de televisão, sob o pretexto de divulgar a técnica
da hipnose. Os que assim o fazem, agem exclusivamente por interesses
financeiros e vaidades pessoais, e nada acrescentam à técnica
ou à vida daqueles que lhes servem de cobaias, o português
aqui deve ser claro. Infelizmente, encontramos vez por outra hipnotizadores
bem treinados que se prestam a isso, o que não significa, entretanto,
que sejam minimamente éticos em suas apresentações,
cujo caráter é circense e não clínico.
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- Quais são os cuidados que uma pessoa deve ter ao procurar um
tratamento através da hipnose?
Paulo Urban - O primeiro e mais importante
é escolher um bom profissional em quem o paciente possa depositar
confiança. E antes de submeter-se ao tratamento, conversar com
o terapeuta escolhido e sanar as dúvidas necessárias,
como por exemplo, se há indicação de hipnose para
seu caso.
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- Qualquer pessoa pode ser hipnotizada?
Paulo Urban - Desde que possa concentrar-se
nas palavras do hipnotizador, sim. Torna-se, por conta disso, mais difícil
fazê-lo com crianças, principalmente as hiperativas, pacientes
oligofrênicos - deficientes mentais-, psicóticos em surto
ou mesmo fora deles, quando não são capazes de se concentrar
etc. Há também enorme dificuldade em hipnotizar deficientes
auditivos, embora haja técnicas para isso, e é impossível
fazê-lo com demenciados. Nesse último caso, de qualquer
modo, a hipnose nem teria aplicação terapêutica.
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- Você poderia descrever um caso curioso, onde o resultado da
hipnose tenha sido surpreendente?
Paulo Urban - Lembro-me de um paciente
jovem, do sexo masculino, que sofria de um quadro esquizotípico.
O rapaz sentia seus pensamentos serem-lhe bloqueados, até mesmo
aniquilados, o que lhe gerava a sensação de anergia e
psicastenia, ou seja, o paciente não se sentia disposto para
pensar, não conseguia mais estudar, acreditava-se possuído
por forças que o dominavam e, diante de qualquer atividade que
exigisse algum raciocínio, imaginava-se incapaz; por conta de
sua patologia havia deixado os estudos universitários e evitava
o contato social, acreditando-se sem condições sequer
para manter conversações e amizades por falta de inteligência.
Mediante sessões hipnóticas regulares, o paciente, estimulado
a escolher lugares onde desejaria estar, passou a descrever cenas de
um rio quase morto cuja correnteza estava obstruída por enormes
pedras. Por meio da hipnose, o paciente foi levado a entrar nesse rio
e servir-se de alavancas com as quais moveu todos os obstáculos
que detinham o curso das águas. Para a surpresa de si próprio
e de seus pais, que já o viam sem condições sequer
de prosseguir em seus estudos, concomitantemente a esse processo de
imaginação ativa facilitada pela hipnose, o paciente voltou
às suas atividades normais, retomando inclusive seus estudos.
Mas é importante que deixemos claro: a hipnose muitas vezes não
nos leva a resultados surpreendentes; ela é apenas uma possibilidade
terapêutica que, mesmo bem administrada, pode melhorar uma série
de casos e não chegar a lugar algum em outros tantos, igualzinho
à psicanálise e a qualquer outro tipo de terapia.
Serviço:
E-mail:urban@paulourban.com.br
Veja
alguns livros sobre hipnose:
A Magia da Hipnose na Psicoterapia
Auto Hipnose
Conversando Sobre... Hipnose
Curando-se com a Auto Hipnose
Poder Psiquico da Hipnose
Para entender o caso desde seu
início
Por Paulo Urban
Desde
1870, o médico parisiense Jean Martin Charcot (1825-1893),
chefe do Hospital Escola de Salpêtriere, tornara-se famoso por
seus estudos experimentais sobre a histeria. A administração
de Salpêtriere decidira separar os doentes alienados das mulheres
histéricas e dos epilépticos, juntando essas duas últimas
patologias numa mesma enfermaria. Rapidamente as histéricas assimilaram
os sintomas epilépticos em suas crises e aprenderam a simulá-las
plasticamente. Charcot valia-se da hipnose para diferenciação
diagnóstica, capaz que era de fabricar sintomas extraordinários
nas histéricas submetidas à sugestão hipnótica,
de modo a provar o caráter neurótico dessa doença.
Em 1884, os médicos franceses Liébault e Bernheim
fundam juntos a Escola de Nancy, que imediatamente faria oposição
à Escola de Salpêtriere. A histeria e a hipnose foram razão
da disputa entre Nancy e Salpêtriere, que se estendeu por dez
anos. Bernheim dizia ser a hipnose decorrente da sugestão verbal,
e que tal técnica já estava desmistificada, desvinculada
do simples mesmerismo, desde fins de século XIX, quando a clínica
da palavra sobrepujava a do olhar. Acusava Charcot de fazer mal uso
da hipnose, já que dela se servia não para fins terapêuticos,
senão para provocar crises convulsivas em suas pacientes, manipulando-as
de modo a conferir um status de neurose à histeria. O médico
de Nancy afirmava ainda que os efeitos alcançados pelo hipnotismo
poderiam advir por simples sugestão dada em estado de vigília,
estando aí o prenúncio do que mais tarde veio a se chamar
de psicoterapia.
Enquanto ocorria a disputa entre essas Escolas, Freud interessava-se
pela hipnose: chegou a ser aluno de Charcot de outubro de 1885 a fevereiro
de 1886. Tanto se impressionou com as demonstrações de
hipnotismo nas aulas em Salpêtriere, que traduziu para o alemão
o primeiro volume das "Lições de Terça-Feira",
escrito por Charcot. Foi também influenciado por Liébault
e Bernheim, e traduziu também um livro deste último, tendo
igualmente freqüentado os bancos escolares de hipnose em Nancy
durante o verão de 1889, pouco antes de ir a Paris assistir a
dois congressos internacionais sobre hipnotismo.
Mas o vivo interesse de Freud pelo hipnotismo, a partir daí,
gradativamente decresceria. Quais as razões para isso? Ora, elas
estão bem distantes do mito comum que faz de Freud um incompetente
para aprender a hipnose. Aluno interessado que fora de Charcot e Bernhein,
e freqüentando congressos sobre hipnotismo como fazia, é
improvável que Freud não soubesse valer-se dessa técnica.
Claro que Freud conhecia, muito bem por sinal, a hipnose. Abandonou-a,
portanto, por outros motivos que não sua incompetência
nessa área. Quais seriam eles? Compreendamos a questão:
curiosamente, em sua autobiografia de 1925, ao relatar as visitas que
fizera à Escola de Nancy, Freud se vale de um argumento estúpido
ao dizer que a hipnose só se presta ao ambiente hospitalar, sendo
inadequada à clientela particular. E ele completa sua explicação:
"Abandonei, portanto, a hipnose e só conservei dela a posição
deitada do paciente sobre um divã, atrás do qual eu me
sentava, de modo que eu o via, sem ser visto por ele". Ora, o que
salta à vista aqui não é sua incapacidade para
a prática hipnótica, mas sim sua imaturidade, própria
dos que se iniciam na arte da psicoterapia, diante da questão
da contra-transferência sentimentos despertados no inconsciente
do analista e projetados sobre o paciente -, que Freud preferiu manejar
por "detrás do biombo". Daí propor aos psicanalistas
que se comportem feito espelhos, assumindo atitude completamente passiva
em sua escuta.
Ainda que os psicanalistas disso se esqueçam, houve época
na história em que Freud foi também iniciante, quando
ele preferiu lidar com esse fenômeno clínico da transferência
instituindo o "divã", que só mesmo os psicanalistas
fazem questão de manejar tão bem. Freud desmerece, portanto,
demagogicamente, a hipnose, já que as razões de ele tê-la
preterido são bem outras que não as apontadas em seu discurso.
A principal delas, cumpre-se dizer com justiça, é que
para a prática psicanalítica a hipnose não é
mesmo necessária. Podemos dizer que Freud criou a psicanálise
privilegiando a catarse em detrimento da hipnose, e o fez com razão
nesse ponto, sem sequer valer-se da sugestão; afinal, o discurso
do paciente vigil é seu suficiente material de trabalho para
acessar as portas do inconsciente.
Isto, porém, sejamos claros, não destitui a hipnose
de seu próprio valor terapêutico, nem podemos aceitar o
argumento de Freud quando defende que a hipnose não se preste
aos consultórios. Isso é ridículo! Mas levemos
em conta uma atenuante para este seu disparate: as idéias de
Freud sofreram durante décadas forte resistência por parte
do saber acadêmico vitoriano, que as criticava sem querer compreendê-las,
e associar a psicanálise a uma hipnose ainda estigmatizada pela
aura de superstição e misticismo em que nascera, seria
decretar o fim precoce da nova teoria. E digo mais: há outro
equívoco de Freud, bem maior que o primeiro - repetido pelas
gerações de psicanalistas cujo maior prodígio é
reproduzir à risca até os defeitos de seu mestre -, ao
acreditar que a hipnose servisse apenas para dar sugestões fáceis
aos pacientes, de modo a levá-los por um caminho temporário
e fictício de cura. Façamos ainda um adendo quanto à
resistência de Freud em relação a hipnose. Entendo
que o mestre falasse sobre a hipnose com desdém justamente por
saber residir nesta técnica um grande potencial para a cura e
tratamento, de modo que ao desconsiderá-la, visava assim limpar
a área para deixar passar somente o carro da psicanálise.
Chamemos o próprio discurso freudeano par sustentar essa tese;
afinal, ninguém melhor do que os psicanalistas para saber o quanto
as resistências se cristalizam sobre as fraquezas e receios que,
por temermos, preferimos esconder.
Hoje, havendo passado o furacão da psicanálise sobre
a hipnose, ela resta incólume como excelente via de acesso
ao inconsciente e, sempre que trilhada por profissionais competentes,
estabelece importante relações entre sintomas somático-viscerais
e nosso psiquismo mais profundo.