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Vampirismo - Sedutora Mordida

Por Paulo Urban

Publicado na Revista Planeta nº 361 / outubro 2002


  

Nem tudo são trevas no mundo vampiresco. O mito mantém-se vivo e se renova através das artes; o cinema, o teatro, a música e a literatura exploram as nuances dessa maldição que se perpetua por suas tantas sutilezas.

Afinal, por que nos seduz tanto o vampiro?

Ora, ele encarna a possibilidade que não temos; ainda que fadado a vagar nas sombras, sua mordida é um convite para a imortalidade.
Bem sabemos ser a morte nossa única certeza; e a angústia disso decorrente nos perturba a existência. Mas o vampiro também sofre a condição de morto-vivo atormentado, e só sobrevive nas trevas à custa do sangue de suas vítimas.

  
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A imagem do vampiro é arcaica e universal. Com o passar dos séculos, converteu-se numa amálgama de superstições e viu-se associada à figura do morcego, íncola das cavernas sombrias, câmaras intermediárias entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Como invariavelmente acontece, o mito do vampiro encontra fundamentos históricos e científicos.

A crença nos mortos que retornam está perpetrada em todos os povos e culturas. A noite que antecede ao 1o de novembro, nas tradições celtas antigas estava consagrada, por exemplo, a Shamain, senhor dos mortos, correlato do Hades grego, personagem igualmente presente entre os povos andinos, que o chamam de Supae. O cristianismo, ao impor-se no Ocidente, instituiu a festa de Todos os Santos nessa data e, incapaz de apagar o costume pagão, cobriu-o com sua fé, consagrando o dia seguinte (2 de novembro - finados) a orações pelos espíritos dos mortos.

Também o objetivo principal dos ritos fúnebres, universalmente presente, é o de entregar a alma dos falecidos à paz divina, e cada ritual cumpre um protocolo específico, destinado a aplacar a ira dos mortos, talvez pelo medo comum de que, perturbados no além, os seres condenados às trevas possam voltar com idéias de justiça ou vingança.

Inscrições cuneiformes antiquíssimas, anteriores a 2.000a.C., já tratam de entidades trevosas aceitas entre os povos mesopotâmicos, capazes de perturbar os vivos e deles retirar o sangue, essência vital na qual os antigos acreditavam residir a alma. Tal idéia encontra eco na Teogonia de Hesíodo, poeta beócio do séc. VIII a.C., que nos revela ser Nix (a Noite) gerada a partir do Caos primordial. Dela nascem as várias deidades das Trevas: Hipnos, deus do sono; Thanatos, gênio masculino alado, senhor da morte; as três Moiras, deusas do destino; e as três terríveis Queres, cujo nome provém do radical ker, que significa devastar, destinadas a executar as determinações de suas irmãs. Espécie de abrutes facínoras, as Queres faziam-se presentes às batalhas sanguinárias, e são descritas como seres negros alados e vorazes, com unhas pontiagudas e caninos afilados, próprios para navalhar a carne e sugar o sangue de todo ferido mortal que fosse um assassino.

O termo vampire, segundo o Dicionário Houaiss, surge na língua francesa no séc. VIII, importado do alemão vampir, por sua vez emprestado com igual grafia do sérvio ou do húngaro. Mas seu significado traz divergências; é possível que derive do turco uber, que significa "bruxa", ou ainda do polonês upire, "sanguessuga".

Ainda que encontremos histórias de vampiros por quase todo o mundo, entre chineses e hindus desde a antigüidade, entre os povos pré-colombianos, também nos países de cultura árabe, incluindo o norte da África, sua ocorrência recrudesce por todo Leste Europeu, também na Grécia e Turquia, mas predomina em regiões tradicionalmente ligadas ao mito, como é caso dos Balcãs, da Sérvia, Silésia, Morávia, Boêmia, Valáquia, e sua província vizinha, a Transilvânia.

Foi nesta última, a propósito, que em 1431 nasceu na cidade de Sighisoara o maldito Vlad Basarab, filho de Vlad II, o demônio. Seu pai criara a Ordem do Dragão (que se diz Drakul, em romeno), destinada a proteger a região dos ataques dos turcos, bárbaros e muçulmanos. Por conta disso, o tirano passaria a ser conhecido pela alcunha de Vlad Drakul. O jovem fora enviado a Constantinopla para estudar e, aos 19 anos de idade, tornar-se-ia príncipe da Valáquia, região pertencente à Hungria àquela época. Em 1456, assumiu o trono sob o nome de Vlad Drakulea, isto é, filho do Dragão.

Seguindo os passos de seu pai, organizou uma série de campanhas militares contra os povos invasores e dedicou seu reinado à defesa da Transilvânia, região estratégica hoje anexada ao norte da Romênia, caracterizada por chapadões quase intransponíveis. O Príncipe Drakulea aprendera com os cristãos em Constantinopla a técnica de empalação praticada contra os muçulmanos por ocasião das Cruzadas. O castigo consistia em colocar o condenado sentado sobre a ponta de uma estaca e tracioná-lo com toda a força para baixo de modo a varar seu corpo internamente do ânus ao tórax, perfurando as vísceras entrepostas do abdômen.

Vlad Drakulea executou assim mais de 40 mil inimigos durante seu reinado, aplicando tal suplício tanto aos turcos otomanos invasores como também aos nobres e religiosos opositores de seu regime. Passou, por isso, a ser chamado de Vlad Tepes, ou seja, o empalador. Deposto em 1462, retornou com toda a sua selvageria ao poder em 1476, mas no mesmo ano seu reino cairia nas mãos dos turcos, chefiados pelo sultão Maomé II. Preso, Vlad Drakulea foi morto e degolado, acusado de não pagar impostos a Constantinopla, agora dominada pelos turcos. O fato de seu corpo jamais ter sido encontrado, durante muito tempo contribuiu para a crença de que o príncipe tivesse revivido das trevas. Uma dupla de pesquisadores, nos anos 70, entretanto, comunicou o achado de sua tumba num castelo da Áustria, mas em seu interior, curiosamente, nada havia além de ossos de animais.

Sobre essa personagem histórica o mito do vampiro se cristalizaria definitivamente, em 1897, com o lançamento da obra clássica Drácula, escrita pelo irlandês Bram Stoker (1847-1912), natural de Dublin. Stoker vivera oito anos de sua infância absolutamente recluso, adoentado em seu quarto. Povoara-lhe a mente uma infinidade de histórias fantásticas contadas todas as noites por sua dedicada mãe. Recuperado, aos 16 anos já era atleta do Dublin's Trinity College e logo ingressaria na carreira teatral, passando a escrever contos para os jornais. Publica em 1875 sua primeira novela de terror A Cadeia do Destino.

Três anos depois, casado com Florence Blacombe, muda-se para Londres e se torna empresário de Henry Irving, o mais conceituado ator britânico de sua época. Um pesadelo após um jantar em que comera frutos do mar lhe trouxe a visão do personagem que se imortalizaria como o Conde Drácula. Para dar-lhe vida, Stoker fez diligentes pesquisas no Museu Britânico, inspirando-se na terrível existência de Vlad Drakulea. Deparou-se ainda com dados biográficos da Condessa Elizabeth Bathory, que vivera na Transilvânia no final do séc. XVI, bruxa alquimista que, tendo ouvido que o sangue era um elixir rejuvenescedor, não hesitou em mandar matar suas servas para poder banhar-se com esse precioso líquido.

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