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Psicoterapia do Encantamento
Por Paulo Urban - continuação (2)

É portanto através dos sonhos que as forças instintivas e arquetípicas influenciam nossa atividade consciente, e conforme o impacto que sofremos de nosso conteúdo inconsciente, colecionamos boas ou más experiências, capazes de gerar processos neuróticos, psicóticos, ou saudáveis, isto sem falar das vivências transcendentes que ampliam e alteram o estado de nossa consciência. Chegamos assim a uma das raras verdades do campo psicológico, a de que todo indivíduo é sempre uma realidade única. Quanto mais nos afastarmos em direção ao gênero, mais possibilidades temos de errar em nossa pretensão de interpretar os fenômenos psíquicos que se apresentam em cada ser particular. Se, por um lado, precisamos buscar nos mistérios enterrados a compreensão de nosso presente, e necessitamos dos mitos para avaliar a produção simbólica da alma, por outro não devemos esquecer que cada sonho diz respeito antes de tudo ao sujeito que o sonha, e traz em si toda uma mitologia particular, refratada pelo prisma do inconsciente pessoal.

Por isso tudo entendo estar aí a chave para a compreensão da natureza humana, ao menos uma possibilidade a mais de entrarmos em nossos velhos templos escondidos, dando seqüência à investigação arqueopsicológica de Freud e de Jung. E por que não de J. Campbell, que tantas considerações teceu acerca deste nosso
imponderável mundo interior, divinamente mapeado pela mitologia universal?

Seguindo os faróis deixados por Jung
e as trilhas analógicas desenhadas na carta náutica da mitologia, aventuro-me feito Ulisses na Odisséia de compreender o psiquismo, em busca da Ítaca transpessoal, integradora e absoluta. Mas claro, posso ser também Teseu procurando sair do labirinto em que está presa a psicologia toda. É neste terreno de intrincados meandros, a alma humana, que procuro desenvolver minha clínica e encontrar elementos que facilitem a autopercepção de todo aquele que deseja honestamente desatar seus nós psíquicos, ou simplesmente conhecer-se um pouco mais profundamente.

A psicologia analítica é meu fio de Ariadne, meu referencial teórico; a hiperventilação (técnica chamada pelo psiquiatra Stanislav Grof de holotropia) e outros exercícios respiratórios orientais são o instrumento propiciador de insigths e vislumbres, facilitadores que são de estados alterados de consciência, a nos orientar para o portal da experiência transpessoal. Chamo esta minha abordagem terapêutica, cuja técnica venho desenvolvendo ao longo dos anos de clínica psiquiátrica e psicoterápica, de Terapia do Encantamento.

Nesta linha de trabalho, valho-me também de técnicas de RPG (Role Playing Games) aplicada ao processo terapêutico que, em Português, prefiro chamar de dramatização interativa, uma interlocução criativa entre terapeuta e paciente, com o propósito de levar este último no bojo de suas fantasias a vivenciar situações críticas de seu universo mítico pessoal, na intenção de que encontre dentro de si os recursos que devem ser reorganizados, a fim de que o paciente aprenda a lidar melhor com seus conflitos, que inevitavelmente vêm à tona conforme evolui a terapia. Para que o ensaio funcione, claro, há regras a serem cumpridas; assim como o xadrez que se desenvolve sobre o mesmo tabuleiro há milênios, a dramatização interativa, quando quer que jogada, revela-se absolutamente nova e envolvente.

A partir de uma entrevista tem início a primeira fase do processo, a ancoragem, cujas sessões servem para trazer o aporte seguro e necessário sem o qual o posterior desenvolvimento do trabalho não seria bem aproveitado. Evidentemente, não se escapa aqui dos moldes clássicos; Freud e Jung têm indiscutível razão: toda terapia começa pelo binômio Transferência/Contra-transferência, quando paciente e terapeuta projetam cada qual sobre o outro seus primeiros sentimentos. Chamo esta inevitável ocorrência de matriz terapêutica, destinada a estabelecer sintonias (incluindo as não verbais) entre paciente e analista, momento em que a empatia fala mais alto e estabelece toda uma trama original sobre a qual o Encantamento irá operar suas mágicas. Quando há simpatia, Paracelso já o dizia, a ação é curativa. Caso o fenômeno suscite antipatias, deve o analista compreender que talvez esteja diante de um caso que fugirá mais cedo ou mais tarde à sua competência, talvez em virtude de aspectos psicológicos seus que deverão ser oportunamente trabalhados em prol de seu aprimoramento. Nestes casos, a honestidade profissional manda recusar o paciente, propondo a ele algum outro tratamento. Caso haja simpatia, na acepção alquímica do termo, a Terapia do Encantamento abre as cortinas para que se inicie o espetáculo da alma.

A cada sessão o paciente inicia o jogo atualizando sua rápida autobiografia verbal. Mas o trabalho pode envolver sessões especiais, em grupo ou não, quando há exercícios respiratórios, de visualização, ou iniciações ritualísticas reservadas, pelas quais se busca encenar os dramas míticos da existência.

As primeiras sessões se destinam, entre outros objetivos, à criação da Figura Conselheira, uma espécie de daimon de Sócrates, ou voz interior, personalizado por Carlos Castañeda como o aliado. Alguns pacientes preferem dar vida à imagem de um xamã, outros criam um alquimista particular. Jung, por exemplo, revela-nos em suas Memórias, Sonhos e Reflexões, obra autobiográfica, que dialogava profundamente com três personagens: Elias, Salomé e a serpente. Neste exercício por ele batizado de imaginação ativa, mais tarde surgiria Filemon a compor sua tétrade alquímica. Por meio de consantes diálogos com estes seus "conselheiros", Jung compilou em sua juventude um manuscrito gótico, o Livro Vermelho, no qual elabora esteticamente as suas fantasias. Mais tarde, em 1916, processo semelhante deu origem a seu texto gnóstico intitulado Sete Sermões aos Mortos. Um paciente meu, ateu, curiosamente escolheu como seu Conselheiro a figura de um padre confessor. Outro preferiu eleger o filósofo Aristóteles para orientá-lo em momentos de dúvida.

A terapia envolve ainda experiências práticas de elaboração onírica, feitas no laboratório dos sonhos, onde a sugestão, a hipnose e técnicas de incubação onírica atuam. Num estágio mais avançado, o indivíduo aprende a relacionar seus sentimentos mais fortes e comuns com seus órgãos físicos, maneira esta profilática e curativa de se lidar com a somatização, fenômeno inconsciente e comum, capaz de gerar desde gripes até o câncer. Por meio da conscientização corporal e exercícios de vitalização psicorgânica, terapeuta e paciente podem juntos perceber melhor por onde devam começar a mexer nos complexos psiconeuróticos revelados. Musicoterapia, expressão artística, literatura e poesia, exercícios físicos e outros recursos são válidos para balancear dinamicamente todo o processo destinado a operar na mitologia pessoal, isto porque o aprendizado da alma não é linear, mas holográfico.

Toda a psicanálise cartesiana ensinada por Freud nada mais é do que uma excelente chave com a qual podemos melhor abrir as portas do inconsciente do que com as mãos vazias; mas decididamente, só o discurso dos consultórios muitas vezes se mostra insuficiente para lidar com todas as nuances que o caminho psicoterápico de autoconhecimento evoca. Difícil dizer se há sentido ou não na vida, mas vivê-la com encantamento será sempre melhor. E a mitologia pessoal empresta muito do prazer desta jornada iniciática, eterna senda onde sempre somos aprendizes entre ciprestes, esperando encontrar dentro da alma o verdadeiro mestre de nós mesmos.

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Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento e acupunturista.

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Arte: Monica Facó