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O
Tarô e o Caminho da Individuação
Por
Paulo Urban continuação (2)
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Estes
representam uma diferenciação a mais da "ciência
dos opostos", já insinuada pelos braços do Mago que
ligavam o em cima ao embaixo. Observemos que as quatro cartas se casam
muito bem, são duas figuras femininas e duas masculinas; há
da mesma forma uma dupla de imperadores e outra de sacerdotes; e é
no equilíbrio de cores de suas vestes que o baralho de Marselha
oculta outros mistérios. O detalhe mostra que as mulheres vestem
mantos azuis sobre os vermelhos, ao passo que os homens trazem a composição
contrária, com vestes vermelhas por cima das azuis. Aqui as cores
também têm significado; o vermelho associa-se ao lado consciente,
ao aspecto racional do psiquismo. O azul representa o inconsciente, a
irracionalidade, os processos intuitivos de percepção.
Nas personagens femininas (A Papisa e A Imperatriz), a intuição
prevalece sobre a razão; já na dupla masculina (O Imperador
e O Papa), são os processos racionais que estão por cima.
A psicologia analítica identifica, além disso, tanto o aspecto
feminino no interior do psiquismo masculino, ao qual Jung batizou de anima
(no caso, definido pela Papisa), bem como a relação contrária,
a essência masculina no psiquismo feminino, denominada animus,
no Tarô, melhor representado pelo Papa.
A Papisa é antes de tudo o complemento do Mago. Guarda
tudo aquilo que lhe falta, sendo portanto o verdadeiro moto de sua busca.
Se o mago é movimento, ela é repouso; se ele é ativo,
ela é a receptividade em pessoa. Ele é ação;
ela, reflexão. Em suma, todo o desenrolar do baralho a partir do
Mago é a Papisa, pois tudo aquilo que estiver em seu caminho servir-lhe-á
como complemento. A relação Mago-Papisa no Tarô é
correlata do binômio Yang-Yin dos chineses; aliás não
poderia faltar no esoterismo do Ocidente o arquétipo da "ciência
dos opostos".
Havendo o Mago experimentado das diferentes maneiras de perceber
o mundo, e consciente da natureza interminável de seu caminho,
pela primeira vez tem nítida noção das dificuldades
que ainda enfrentará. Sua determinação estará
sempre à prova.
Na situação arquetípica sucedânea, o
herói depara-se com a encruzilhada do Enamorado, quando se encontra
dividido entre duas mulheres que cobram dele uma escolha. A que está
à sua direita, para a qual ele volta sua face, toca-lhe o ombro,
e veste roupas predominantemente vermelhas. Representa a via racional.
A outra moça, aparentemente mais jovem, vestindo principalmente
o azul, toca-lhe o coração, como se quisesse despertar suas
emoções, seu lado intuitivo. No alto, acima da cabeça
do herói, em instância que transcende sua consciência,
um anjo direciona sua seta para a via intuitiva, como se quisesse orientá-lo
em sua escolha. Enfim, aí está representado o drama do livre
arbítrio, capaz de atormentar a consciência com o conflito
da eterna dúvida. O personagem acha-se cruelmente dividido entre
o racional e o intuitivo, observe-se suas roupas listradas de azul e vermelho,
além do amarelo, seu aspecto pessoal. Mas pouco importa por onde
seguirá nosso herói, até porque razão e intuição
encontram-se mescladas em todas as experiências da vida, apenas
predominando ora esta, ora aquela. O principal é que o herói
dê seu próximo passo, para que não reste estagnado
em seu caminho. Siga por onde seguir, desembocará na tríade
seguinte, O Carro, A Justiça, e O Eremita.
Decidindo prosseguir, O Mago experimenta a extroversão
das conquistas rápidas, simbolizado pelo Arcano VII, O Carro. O
primeiro terço das 21 cartas numeradas se completa. O Mago está
emancipado. Destemido, deixa de ser mero neófito para amadurecer
na senda, e mediado pelo senso da Justiça, virtude que será
assimilada no Arcano subseqüente, chega à condição
de maior introversão e capacidade introspectiva, quando descobre
que há sabedoria em seu próprio poço, a ser buscada
por um processo sereno e cuidadoso, como o faz o velho Eremita.
A carta X, A Roda da Fortuna, traz as vicissitudes da vida, com
seus rodopios e reveses. O herói deve afinal saber tirar proveito
do movimento do cosmos. "Há nas lides do homem uma maré
que, se aproveitada enquanto cheia, o levará à fortuna",
diria Shakespeare.
No Arcano XI, A Força, alcançamos a metade do caminho,
mas prosseguem as vicissitudes, até que O Mago perceba que, invariavelmente,
ações sutis repercutem melhor do que as atitudes brutas,
como nos mostra a figura intuitiva da vestal, que sob um manto azul, domina
com suas delicadas mãos toda a brutalidade duma besta-fera, contendo-a
pela mandíbula. A fera ocupa a metade inferior da carta, e não
fosse sua cor distinta, estaria misturada ao hábito da personagem.
Representa os processos instintivos, aspectos brutos que esperam ser dilapidados
e transformados em algo mais sutil.
Os dois Arcanos seguintes nos trazem a experiência da morte.
O Enforcado é ela própria, em seu sentido terminal. A lâmina
mostra o herói dependurado, de cabeça para baixo, vendo
a vida por seu outro ângulo, ou como se estivesse num ataúde,
cercado por terra e troncos, os dois verticais com seus doze ramos podados,
a representar o esgotamento da mandala, a morte aparente do dinamismo
psíquico. Mas o herói, se sobrevive à força
perturbadora deste arquétipo que dele exige sacrifícios,
comunga pela primeira vez com o mundo transcendente, representado pelo
Arcano XIII. Por ser o único sem nome, nem deveria ser chamado
Morte. O esqueleto que ceifa sugere transformações substanciais,
a troca do velho pelo novo. É um momento iniciático de fértil
aprendizagem, representada pelos arbustos em quantidade que brotam neste
novo campo da existência. Afinal, o 13 expressa o rompimento da
mandala, a transposição da ordem; a soma de 1+3, entretanto,
leva-nos de volta ao 4, à mandala de uma nova dimensão.
O Arcano XIV, A Temperança, é a terceira das quatro
virtudes medievais a estar representada no Tarô. As outras três,
já vistas, são a justiça (Arcano VIII), a prudência
(Arcano IX), e a força (Arcano XI). Este tema é chave dos
alquimistas, e o segundo terço se completa com o Mago promovido
à esta condição. A Temperança se (re)vela
no equilíbrio parcimonioso de seu movimento, e a figura feminina
aqui traz azul e vermelho em iguais proporções.
Uma vez feito alquimista, pode agora nosso herói experimentar
as provações mais duras, reservadas aos que penetram no
Diabo, Arcano XV, ou na Casa de Deus, Arcano XVI.
Tais estações referem-se ao mundo sombrio, aos aspectos
mais críticos de nossa personalidade, produtos que são de
partes pouco exploradas ou desconhecidas de nós mesmos. O demônio
nada mais faz do que escravizar a nossa consciência, prendendo-a
em seu altar, exigindo de nós o auto sacrifício da extinção
de nossas buscas. É por meio dele (o intelecto) que nos sentimos
separados da fonte primordial. Por conta dessa mesma consciência
é que podemos refletir acerca da única certeza que temos,
a de nossa morte, de onde nasce uma natural angústia capaz de nos
prender em temores pessoais. O Mago descobre que a única forma
de evitar o demônio é enfrentá-lo! Se por um lado
não devemos negar os méritos de nosso intelecto, por outro,
de alguma forma, precisamos transcendê-lo.
A Casa de Deus é o arquétipo da destruição,
das mudanças avassaladoras em nossas vidas. Por vezes, somente
algo assim tem força capaz de nos arrastar para longe do Diabo
que antes nos prendia. A Torre fulminada mostra o ego abalado pelo grito
de um inconsciente incontido, simbolizado pela labareda de fogo que explode
a cúpula da Torre, cuja forma lembra uma coroa, real adorno de
uma consciência que se esquece muitas vezes de perceber a realidade
por detrás da realeza.
O Arcano XVII, A Estrela, nos entrega à esperança.
Revela à consciência libertada que a individuação
continua a ser possível. Ao menos é o que representam as
luzes que brilham no firmamento. A jovem desnuda não é outra
senão o nosso herói, despido dos valores mundanos, a verter
no rio do inconsciente coletivo suas próprias águas (azuis)
de seu mundo intuitivo, de seu inconsciente pessoal. As estrelas no céu
simbolizam as almas já individuadas. Pela primeira vez os 4 elementos
se agrupam numa mesma lâmina: água, fogo, terra e ar estão
aí representados, este último reafirmado pela presença
do pássaro, símbolo da alma inclusive. De novo descobrimos
a mandala disfarçada.
A Lua, Arcano XVIII, representa as trevas, os porões da
alma; na psicologia junguiana será chamada de sombra. A sombra
representa o lado oculto do psiquismo, fonte de inúmeros perigos
e potenciais que jazem adormecidos. As trevas psicológicas apresentam
sérios desafios à nossa frágil consciência,
que precisará pedir ajuda à intuição para
vencer a provação noturna. A Lua é receptiva, absorve
a energia (as gotas) do sistema, e demarca a aproximação
entre consciência e inconsciente, aqui representados pela duplicidade
de símbolos, dois lobos a serem vencidos e dois templos a serem
alcançados. Jung admitia que quando os símbolos se duplicavam
em nossos sonhos, provavelmente estaria havendo a assimilação
de valores inconscientes por uma consciência que se aprimora.
Vencida a noite negra, o Sol do Arcano XIX é quem traduz
o momento áureo da jornada, quando a consciência comunga
do si mesmo, inspirado instante em que ela se ilumina. A energia agora
se espalha pelo sistema, e as duas crianças (consciência
e inconsciente) que se tocam para cá do muro que antes as separava,
descobrem-se idênticas, visto que nenhuma diferença deveria
mesmo haver entre instâncias de um mesmo psiquismo. No contato mútuo
das crianças, a ponte para o si mesmo se apresenta, e a iluminação
preenche esta mandala.
Mas não por isso o caminho chega ao fim. Restam ainda a
análise e a síntese alquímica do processo, previstos
pelos últimos dois Arcanos, O Julgamento, XX, e O Mundo, XXI. Juntos
simbolizam o ajuste da mandala pessoal, momento em que o herói
procura reorganizar seu mundo psicológico, transformado que está
por tudo aquilo que sofreu. No Mundo, a síntese (a mandala) se
define claramente. O herói está liberto no núcleo
da carta, em sintonia com o universo à sua volta. As figuras nos
quatro cantos da carta são alusão aos quatro naipes em que
se desdobra o baralho. Mas o Mundo é apenas o fechar de um ciclo.
Serve para impulsionar o herói, nós mesmos, para frente.
Afinal, somos sábios apenas em relação àquilo
que vivemos, e completamente Loucos frente ao que nos é desconhecido.
Vamos dar outra volta? 
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do encantamento
e acupunturista.
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| Arte: Monica
Facó |
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