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O Tarô
e o Caminho da Individuação
Por
Paulo Urban
| Publicado
no Fascículo 2 da obra Planeta Tarô
integrante da Revista Planeta nº 337 / outubro 2000 |
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Veja
também: lançamento do livro
Resgate da
Essência,
Arcanos Sob a Ótica de Eduardo
Vilela, artista
plástico,
e comentários do psiquiatra
Paulo Urban.
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Não
é por acaso que os 22 Arcanos Maiores do Tarô acham-se
numerados. Suas cartas, perfiladas tal qual os capítulos de uma
novela, retratam uma história verdadeira, a do ser humano em sua
senda iniciática, repleta de experiências transcendentes
e desafios que se nos apresentam como oportunidades para o autoconhecimento.
Desde a antigüidade, espalhados por distintas culturas, incontáveis
são os mitos que abordam a imagem do homem colocado à prova,
chamado a enfrentar perigos e resolver enigmas, a ultrapassar seus próprios
limites e escolher o rumo certo nas encruzilhadas do caminho.
Foi o médico psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961),
inicialmente seguidor de Freud, e que desenvolveu sua própria teoria
para a compreensão do psiquismo, a psicologia analítica,
quem cunhou o nome de "individuação" para esse
processo ininterrupto de aprimoramento pessoal, destinado a orientar a
personalidade para algo maior e transcendente, a cumprir psicologicamente
o mesmo papel a que se destinavam os rituais de iniciação
dos povos antigos.
A questão fulcral da psicologia junguiana esbarra num dos
principais mistérios da existência, o da consciência
em busca da fonte primordial, inconsciente em sua essência, de onde
se desprendeu originalmente. Para Jung, o ego poderia ser comparado ao
inconsciente na mesma proporção que uma ilha estaria para
o oceano à sua volta. Outra analogia seria a do planeta Terra,
pequenina morada da civilização humana (a consciência),
comparado ao universo desconhecido no qual estamos inseridos (o inconsciente).
Jung
chamou de ego o núcleo da consciência, sendo a individuação
toda a busca empreendida por esta diminuta instância em direção
ao presumido centro da totalidade psíquica, a abranger obviamente
o mundo inconsciente. Ao ponto de fusão entre consciência
e inconsciente, núcleo da personalidade total e ao mesmo tempo
passagem para uma dimensão transcendente e coletiva, espécie
de porta para o psiquismo universal, Jung denominou de Selbst,
em inglês self, que em português melhor ainda se traduz
por "si mesmo".
O si mesmo seria o órgão regulador de todo o psiquismo,
dotado de qualidades abissais que ultrapassam as dimensões do simples
ego. Paradoxalmente, o si mesmo, ponto central da psique, preenche toda
a sua circunferência, abarcando todos os fenômenos anímicos
possíveis, a incluir portanto, os do próprio ego. Nicolau
de Cusa, monge filósofo do século XV, já usara imagem
semelhante ao referir-se à onisciência divina: "Deus
é uma esfera cujo centro está em toda parte e cuja circunferência
não se delimita em parte alguma".
Como
veremos, as alegorias dos 22 Arcanos Maiores, ainda que veladas por
intrincado hermetismo, de caráter particularmente medieval no baralho
de Marselha, representam nada mais que as situações comuns,
reservadas a todos aqueles que se dediquem a explorar seu mundo psicológico
mais profundo. Os que partem em busca de si mesmos em geral abrem suas
vidas para o amadurecimento pessoal, e sofrem experiências consideradas
arquetípicas, de cunho propriamente iniciático.
Aqui convém explicar, arquétipo é palavra
de origem grega, primeiramente usada por Platão, a significar "padrões
arcaicos" (arqui = antigo, arcaico + typos = padrão,
matriz), e Jung se valeu do termo para denominar certos padrões
registrados no comportamento da humanidade, que vêm sendo manifestos
ao longo de sua história pelas mais diversas culturas. Embora semelhantes
entre si, expressam-se pela variedade dos mitos, religiões, lendas
ou folclore; e através de padrões também identificáveis
em nosso mundo onírico, quer no cerne de nossos sonhos, quer sob
a forma das fantasias.
O arquétipo serve, portanto, como matriz comportamental
herdada por todo ser humano, como arcabouço capaz de selecionar
nas experiências da vida os elementos significativos que estejam
em sintonia com o processo inato da individuação. Os arquétipos,
verdadeiras potências imateriais, surgem como entidades impalpáveis
e incognoscíveis, mas se manifestam por meio de idéias e
imagens, e vestem-se com as mais distintas roupagens de acordo com as
culturas que os representam.
Neste sentido, o Tarô os simboliza amplamente, e um mergulho
no mundo dos Arcanos permite-nos espelhar nossa alma. Por isso a "leitura"
das cartas, quando contemplativa e dinâmica, bem pode transportar-nos
para um mundo psicológico mais profundo. Percorramos juntos então,
passo a passo, esta estrada pictográfica da individuação.
Comecemos pela especial figura do Louco que, exceção
à regra, não se mostra numerada. O Louco, por não
ter um número que lhe determine a posição, acha-se
livre para ser notado em qualquer parte da jornada, podendo assumir diferentes
valores em nossa vida; daí talvez ter sido preservado sob a efígie
do curinga nos baralhos mais comuns. Preferencialmente o colocamos entre
o tudo e o nada de Pascal, isto é, simultaneamente ocupando o início
e o fim da jornada. Feito Jano dos romanos (a divindade de dois rostos
que nunca se olham, voltados que estão para lados opostos), é
O Louco quem sabe do porvir tão bem quanto do passado, já
que se acha situado antes do primeiro Arcano, O Mago, ao mesmo que ocupa
tempo posição após o último, O Mundo. O Louco
confere assim ao conjunto um caráter rotativo e perene. Ao assumir
duplo papel de fechar e (re)abrir o ciclo, promete a continuidade da individuação.
Representa ainda uma força inconsciente, não personificada,
por isso sem número, e a figura de bobo da corte expressa a ambivalência
de sua função, já que os tais bobos medievais, antes
de idiotas, eram sábios, quiçá os únicos capazes
de falar verdades ao rei sem o risco de perder a cabeça.
O
Louco nos prende assim em sua mágica, na paradoxal leitura
de seu sentido. Se pode ser visto como um bobo que nada sabe sobre si,
caminhando a esmo, por outro lado é ele o sábio que, tendo
mergulhado no abismo de si mesmo, ressurge renascido, disposto a retomar
sua senda. E não há monotonia nem repetição
nesse processo; embora as experiências mais fortes sejam arquetípicas,
elas são inusitadas no modo como acontecem e nos propiciam leituras
sempre novas do livro da vida. Também os passos do Louco nunca
são lineares, pois a individuação pressupõe
voltas e rodeios até que nos aproximemos do si mesmo, ou até
que tropecemos em algo e caiamos dentro dele.
A
carta seguinte, O Mago, é a consciência personificada.
Resulta da transformação do impulso inconsciente do Louco,
agora direcionado conscientemente para o trabalho da individuação.
Decididamente, O Mago é o grande herói desta jornada (ele
é cada um de nós), pois a cada passo nos transformamos,
conforme desfilamos pela "estrada real" dos Arcanos. Ele está
em pé, é portanto ativo; e, feito aprendiz de feiticeiro
opera na mesa à sua frente. Um de seus braços aponta para
cima, o outro para baixo, como se nos lembrasse da primeira máxima
de Hermes Trimegistrus, a ensinar que o nível humano da existência
apenas reproduz o plano cósmico da vida; que somos sim manifestação
da divindade, mas nem por isso privilégio algum da natureza. O
homem precisa trabalhar com o que tem às suas mãos e intuir
acerca do universo à sua volta para que venha a compreender-se.
Consoante os preceitos básicos da magia, O Mago posiciona-se
como elo entre os planos humano e divino, surge como centro e medida de
todas as coisas. Quatro objetos, dentre outros, despertam-nos a atenção.
São eles a moeda e a baqueta que traz em suas mãos, além
dos copos e da adaga postos sobre a mesa. Aludem claramente aos quatro
naipes do baralho, ouros, paus, copas e espadas, que representam a inteireza
do caminho ora descortinado. Isto porque o 4, assim como o 12, são
números que por excelência expressam a totalidade, haja vista
serem quatro as estações do ano e doze o número de
seus meses, também as constelações do zodíaco
por onde o sol passeia ao longo de um ciclo. Quatro e doze sempre nos
dão a idéia de algo completo.
Jung
escolheu as mandalas (nome sânscrito a designar "círculo
mágico") como símbolos da integridade psíquica,
visto que são geralmente representadas por formas circulares (ou
outras que insinuem a presença de um centro); de mesmo modo podemos
perceber em cada um dos 22 Arcanos uma mandala oculta. No Mago ela se
mostra tanto pelos instrumentos dos quatro naipes citados como pela mesa
de três pés e quatro cantos, números estes cujo produto
nos leva ao 12. É como se O Mago já tivesse diante de si
o tesouro que deseja encontrar pelo caminho, o que, aliás, lhe
permite seguir viagem mesmo que não saia do lugar onde se encontra,
até porque a individuação é processo essencialmente
espontâneo de nosso psiquismo.
Pois bem, tendo à frente uma senda que se desdobra em quatro
caminhos, O Mago, resoluto, entende que precisa percorrer simultaneamente
todos eles, sob pena de nunca alcançar a transcendência,
razão pela qual se divide ele próprio no quatérnio
que lhe sucede, formado pelos próximos quatro Arcanos, A Papisa,
A Imperatriz, O Imperador e O Papa.
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Paulo Urban
é autor do livro
"O que é Tarô",
da coleção
Primeiros Passos,
Ed. Brasiliense.

Confira! |
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