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Talismãs
Por Paulo Urban
Publicado
na Revista Planeta nº 368 / maio 2003
Todos os talismãs das ilustrações são
de Monica Facó.
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Um
dos temas mais fascinantes de toda a sabedoria hermética
é certamente o da magia operativa. Magia é algo que
funciona? , perguntam-se muitos. Até que ponto o mago pode
mesmo produzir certos fenômenos e realizar os seus propósitos?
Para responder a esta questão um tanto cética e
de todo razoável, analisemos, despidos de preconceitos, o
princípio que se coloca sempre a priori e por detrás
de toda e qualquer ação ou efeito de ordem mágica:
a vontade. Ela é imprescindível para que exerçamos
desde os mais simples atos como dar um passo ou ler um texto como
este, até os mais difíceis empreendimentos, seja escalar
o Evereste ou quebrar recordes olímpicos. Não fosse
a vontade, nosso próprio pensamento estaria desre-
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grado, exprimindo idéias e imagens desconexas, haja vista que
para nos expressarmos devemos bem escolher nossas palavras, no sentido
de conferir sintaxe ao pensamento e torná-lo continente. Mais
que isso, somente à custa da vontade é que podemos mobilizar
a energia necessária para transformar em atos concretos o que
antes somente existia sob a forma de um mero pensamento ou desejo;
exclusivamente por meio dela é que podemos centralizar o interesse
em nossos objetivos e dirigir esforços a fim de realizar alguma
coisa. |
Esta
verdade psicológica já era sabida por nossos antepassados
mais antigos. Prova disso, por exemplo, são os achados arqueológicos
que mostram talismãs e amuletos, objetos estes depositários
das vontades e intenções daqueles que os confeccionaram,
enterrados junto aos corpos (geralmente presos junto ao peito) de homens
ou animais que datam do final do neolítico.
Mas foi entre a civilização egípcia, cuja
religiosidade sempre esteve atrelada à magia e à alquimia,
que o uso de amuletos, feitos de diversos materiais e para variados fins,
mais se difundiu na antigüidade. Num sem número de sepulturas
pré-dinásticas do Egito, tais objetos, geralmente feitos
em xisto verde, já são fartamente encontrados. Popularizaram-se
gradativamente a partir de 3 mil a.C., ao longo da era das dinastias,
quando passaram a ser esculpidos sob diversas formas de divindades, como
o olho de Hórus; animais, como o abutre, o boi etc; insetos, sendo
destes o mais comum o escaravelho; ou ainda sob o molde de coração,
cruz ansata, cetro, colar ou outros tantos.
Não raro, tais artefatos, remotamente datados, traziam ainda
inscrições com palavras de poder, obviamente talhadas por
magos sacerdotes, com o intuito de que pudessem ser proferidas pelo morto
em sua vida no além-túmulo. Muitas dessas imprecações,
mais tarde, seriam inseridas no Livro dos Mortos, em seções
especificamente destinadas a exortar o mal e provar a dignidade da alma
perante o tribunal de Osíris.
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Do
Egito, o uso dos amuletos difundiu-se pelo mundo antigo, impressionando
os persas e os hebreus que os adotaram; também os gregos,
e a partir destes os romanos; e sobretudo os árabes, que
os chamaram de tilasmi, que significa tanto "sortilégio"
quanto "aquilo que se veste ou se porta", de onde se originou
o nome talismã.
O mestre Pitágoras, por exemplo, que se instruiu formalmente
nos altos mistérios do Egito, adotou uma série de
talismãs, com números e nomes gravados, com o intuito
de por meio deles garantir sobretudo a saúde, e ensinava
a seus discípulos em Crotona, no século V a.C., acerca
do funcionamento de tais objetos, que deveriam ser confeccionados
sob a devida orientação astrológica. Seguidor
das idéias pitagóricas, foi o filósofo grego
Apolônio de Tiana (4-97d.C.), a quem se reputa uma série
de supostos milagres, quem teria melhor desenvolvido a técnica
de criar talismãs denominados de "quadrados mágicos",
com números dispostos em linhas e colunas de tal forma que
a soma destes, tomadas em qualquer sentido, resultasse sempre num
mesmo valor.
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Tal
prática mais tarde influenciaria o médico alquimista
Paracelso, na Basiléia do século XVI, que, além de
talismãs alfa-numéricos, desenvolveu um amuleto em formato
de pentagrama, a conter uma letra em cada uma de suas cinco pontas, juntas
formando a palavra S-A-L-U-S (saúde, em latim), trazido por ele
num colar como proteção contra a terrível peste negra.
Também entre os judeus, a ciência oculta, milenarmente
guardada na cabala, não fugindo à regra, tem suas raízes
no Egito faraônico. Citemos Moisés, grande iniciado na magia
egípcia, que se notabilizou pelo uso preciso que fazia das "palavras
de poder", ingrediente comumente acrescido aos amuletos para que
melhor concretizem o seu propósito. Lemos em Atos dos Apóstolos;
7, 22, atribuído a São Lucas que, na opinião de Santo
Estevão, Moisés foi instruído em toda a ciência
dos egípcios, e era poderoso em palavras e obras. Fácil
constatar, em Êxodo; 7; 8-12, lemos a respeito do prodígio
de Moisés, que transformou seu caduceu numa cobra diante do faraó.
Este, não se fazendo de rogado, pediu a dois de seus sacerdotes,
Iambres e Ianes, que imitassem tal façanha. Mas, para a surpresa
de todos, a serpente de Moisés devorou as de seus adversários.
Quando da fuga do
Egito, Moisés levou consigo os seus segredos e ministrou-os
sob forma de Tradição Oral (a cabala) a outros escolhidos
de seu povo. Convém lembrar que em hebraico, assim como o faziam
os antigos gregos e romanos, os números não são escritos
com cifras, senão com as mesmas letras de seu alfabeto. Com base
nisso, surgiu a Gematria, sistema esotérico judaico que
estabelece relações entre os nomes escritos e seus respectivos
valores numéricos, de modo que as palavras passam a ter um significado
oculto, somente perceptível por iniciados na arte da numerologia.
Segundo esta técnica, presume-se ser possível criar nomes
de poder com base no valor das letras que o compõem, nomes estes
que, uma vez escritos, passam a gerar emanações secretas
específicas. Tal procedimento passou a ser de fundamental importância
entre os hebreus e demais iniciados na cabala, para a confecção
de talismãs destinados a criar determinada condição,
visto que tais artefatos poderiam ser potencializados por inscrições
devidamente estudadas para tal finalidade.
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Tal era a crença dos iniciados na cabala no poder
das palavras, que histórias fantásticas dão
conta de que o rabi Elijah de Chelm, no século XVI, com o
auxílio do Sepher Yetzirah (livro sagrado cabalista, redigido
entre os séculos V e VI d.C.), teria fabricado um homem artificial,
o Golem, termo que literalmente significa "matéria informe",
ao qual dera vida inscrevendo em sua testa um dos nomes secretos
de Deus, revelado a ele segundo a gematria. Mas a cria teria logo
escapado ao controle de seu mestre, posto que não parava
de crescer e se tornava hora a hora mais monstruosa. O religioso
só conseguiu pôr fim a um iminente desastre apagando
a inscrição do poderoso nome, com o que a criatura
desfez-se totalmente.
Da gematria derivou-se o Notarikon, sistema cabalístico
que considera cada palavra hebraica como um acróstico, do
qual se deriva uma nova palavra de cada uma de suas letras. Talismãs
famosos foram construídos por vários dos mais importantes
ocultistas como Trithemius, Cornélio Agrippa e Eliphas Levi,
com o precioso auxílio do notarikon. AGLA, palavra hermética
muitas vezes encontrada em amuletos e outros utensílios mágicos,
por exemplo, encerraria o poder da imprecação hebraica
que ela guarda potencialmente em suas quatro letras: Atha
Gibor Leolam Adonai, que se traduz por
Senhor, Vós sois eternamente poderoso.
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Todo
talismã encerra duas faces: o selo e o sigilo. Entende-se por
selo (ou corpo talismânico) seu aspecto externo, segundo o qual
ele se apresenta a nossos olhos. Geralmente os talismãs assumem
forma mandálica, ou seja, são circulares, quadrangulares,
ou de formato outro que insinue a presença de um centro a partir
do qual toda a figura simetricamente se organiza. Podem ainda ser esculpidos
em pedra, forjados em metais, desenhados sobre o papel, feitos de gesso
ou de tantos outros materiais.
Outra classe talismânica é a dos amuletos naturais,
preparados por xamãs ou feiticeiros sob a forma de pequeno pacote
para ser levado preso ao corpo ou nos bolsos da roupa. Costumam encerrar
mesclas de matéria orgânica e inorgânica em sua composição.
Podem conter em seu invólucro uma infinidade de itens devidamente
escolhidos como ervas, ossos ou restos desidratados de pequenos animais,
ícones de gesso, terra, sementes, pedras ou metais, sais minerais,
restos de unhas ou fios de cabelo daquele que irá portá-lo,
penas de aves, etc... E não nos esqueçamos dos costumes
populares, que valorizam amuletos como a ferradura presa às costas
da porta de entrada das casas, ou o pé de coelho, trevo de quatro
folhas e dentes de javali carregados em colares e pulseiras, ou levados
nos bolsos para atraírem a sorte ou espantarem o mau-olhado.
O selo pode ainda conter ou não inscrições de
poder, sob a forma de palavras e números, orações
ou traços cabalísticos que dizem respeito ao sigilo talismânico,
isto é, a seus segredos intrínsecos. O sigilo é a
alma talismânica, contraparte de seu corpo, e resume a razão
ou finalidade pela qual foi confeccionado o artefato. Não necessariamente,
entretanto, o sigilo deve estar gravado sob alguma forma no amuleto; ele
pode simplesmente ser mantido vivo abstratamente nas intenções
pessoais e genuínas de quem o preparou. Isto porque se considera
que o amuleto encerre ou possua intrinsicamente uma força mágica,
extensiva da vontade do indivíduo que o criou, e que se transmite
àquele que irá portar o objeto, a fim de que este tenha
maior proteção ou mais saúde, por exemplo.
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Um
dos maiores gestos de amor na magia operativa se traduz no preparo
de um talismã para alguém de quem gostamos muito ou
a quem desejamos nossos melhores sentimentos. Se recebemos um amuleto
de um xamã, por exemplo, devemos reconhecer aí uma
prova especial de sua amizade. Podemos ainda confeccionar talismãs
para nossos filhos ou entes queridos, e contar com a participação
deles no conjuro de tais objetos, no intuito de presenteá-los
com nossas melhores intenções. Paracelso e Nostradamus,
por exemplo, confeccionavam amuletos para uso de seus pacientes,
e depositavam sobre eles uma intenção capaz de impressionar
psicologicamente os enfermos, de modo que estes acreditassem em
seus próprios tratamentos, o que de todo facilitava o caminho
para a cura.
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A
bem da verdade, podemos dizer que não se encontra nos talismãs
poder maior que o da vontade humana; eles sintetizam e representam toda
uma intenção especificamente voltada para determinado efeito
que se busca alcançar. Nesse sentido, os amuletos catalisam forças
cósmicas e fixam o genuíno poder daquele que os possui.
Se o Universo, explica-nos a física quântica, é
fruto daquilo que pensamos sobre ele, e se já é suficientemente
sabido desde o século passado que o observador influi nos fenômenos
que presencia, está aí a própria ciência em
sua revolução chegando às conclusões que nossa
arcaica mente mágica pressupunha existir ao fabricar amuletos de
pedra há mais de 7 mil anos. Torna-se perfeitamente plausível
a tese de que nossos pensamentos interferem no meio e criam condições
mais ou menos favoráveis, consoantes com nossos padrões
psíquicos conscientes ou não, que corroboram uma série
de eventos entrelaçados pela fabulosa teia dos instantes sincronísticos.
A magia operativa encontra assim, no preparo talismânico,
sua melhor expressão. Por meio dos amuletos ou independentemente
deles todos, funciona sempre nossa vontade. Aquilo que desejamos com intensidade
e justiça, não raro acabamos mesmo por realizar. Por isso
cabe o aviso: são necessárias lucidez e humildade, com as
quais podemos melhor discernir a boa persistência da mera teimosia,
de modo que saibamos bem direcionar nossa vontade e por meio dela contribuir
para o feitio do grande talismã cósmico, depositário
de todos os sigilos. Seu nome? Sincronicidade. Seu maior propósito?
Conspirar a nosso inteiro favor. Façamos pois (mentalizemos) as
nossas preces! 
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento
e acupunturista.
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