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Paulo Urban
  

O Sudário de Turim - À Hora do Veredicto
Por Paulo Urban - continuação (2)

Nossa história começa por volta do ano 40, com o Rei Abgar V de Edessa (hoje Urfa, na Turquia) que, estando paralítico, e tendo ouvido falar de um fabuloso homem que recuperava os doentes e ressuscitava os mortos, enviou carta a Jerusalém, convidando Jesus para que fosse vê-lo em seu reino. Abgar não sabia que o homem por quem procurava já havia sido executado, afinal, as notícias em seu tempo circulavam com demora. Relatos de Eusébio da Cesaréia (260-340) revelam que Adai, nome grego para Tadeu, teria sido o apóstolo a atender ao chamado. Aproveitando-se para se afastar da perseguição romana, o cristão, por outro lado, teria chegado receoso ao palácio de Abgar. Sentando-se numa cadeira, pediu para ser empurrado até a presença do rei pagão, e ainda manteve sua cabeça coberta por um pano, o Mandylion, que em grego quer dizer mortalha. Disse a Abgar não ser ele o Cristo, senão aquele cujo rosto estava estampado sobre o pano. O rei, havendo tocado a mortalha, milagrosamente curou-se; não só voltou a andar como determinou que o cristianismo fosse a nova religião de Edessa. Mas a ordem duraria somente até sua morte, em 57, quando seu filho Ma'nu VI assume o trono e passa a perseguir os cristãos. Quis destruir o Mandylion, mas os cristãos o esconderam.

No ano de 525, uma enchente devastou Edessa. Durante sua reconstrução, numa pedra oca situada sobre o portal ocidental da cidade, o Mandylion é encontrado. Estava lacrado numa caixa, dobrado em quatro e emoldurado por metal bizantino, de modo a revelar somente o rosto de sua imagem. Junto dele estava uma lamparina de barro, segundo o costume, um sinal de que o pano era sagrado. Tendo sido reencontrado após 5 séculos, surgiram referências ao pano acheirospoieto que, em grego, quer dizer "quem o pintou?", ou "não feito pelas mãos", de onde viria por corruptela latina o termo achiropitas, a designar todas as cópias pintadas a partir da misteriosa imagem original. Também seria chamado de Vera Ícon, expressão latina para "verdadeira imagem", em alusão a ser aquele o rosto do Cristo. Daí provêm o nome Verônica, que, a propósito, nunca existiu. Segundo a lenda, ela teria enxugado o rosto de Jesus a caminho do Calvário, quando então a face dele teria ficado impressa em seu lenço.

O Mandylion passa então a ser venerado como protetor da cidade até o ano de 943, quando Edessa é sitiada pelo imperador bizantino Romanus Lecapenus que, por conta de seu aniversário de 70 anos, resolvera levar consigo para Constantinopla (hoje Istambul) a relíquia. Edessa se opõe, mas sob ameaça de ser dizimada pelo exército do imperador, acaba entregando-lhe a imagem. Em 944, o pano entra solenemente na capital, e é levado à Igreja de Santa Maria de Blachernae. Em 1203, o cavaleiro francês Roberto de Clari faz referências ao Sudário em seus relatos de viagem, dizendo tê-lo visto na citada Igreja. No ano seguinte, Constantinopla é saqueada por ocasião da quarta cruzada, e o Mandylion novamente desaparece. Tudo indica que tenha sido levado pelos Templários, que mais tarde o passariam às mãos de um de seus chefes, o cavaleiro Godofredo de Charny.

A Ordem Templária seria proscrita em 1312 e Charny seria executado na fogueira, em 1314, ao lado do Grão Mestre da Ordem, Jacques de Molay. Dentre as várias acusações contra os Templários, cujo poder econômico passara a ameaçar o rei de França, Filipe IV, pesava a de que eles adoravam uma cabeça pálida e desbotada, a de Baphomet, ou a imagem do demônio; que veneravam falsos ícones no lugar de Cristo. Provavelmente aludiam ao Sudário que se encontrava no seio da Ordem na França, ainda dobrado em sua moldura bizantina, matriz da qual cada uma das casas Templárias fez sua cópia para terem peça semelhante a ser usada em seus rituais iniciáticos. Escavações arqueológicas das ruínas Templárias de Templecombe, Inglaterra, por exemplo, revelaram uma pintura emoldurada semelhante ao Sudário.

A mortalha reapareceria na cidade de Lirey, em 1357. Um cruzado, Godofredo de Charny, sobrinho homônimo daquele que fora morto na fogueira, patrocinava às sextas-feiras a exibição do linho mortuário de Jesus. A família Charny, entretanto, procurava negar relações genealógicas com o Templário por medo de perseguições. Com a morte do cavaleiro, a peça passou à sua filha Margaret. Alguns anos antes de 1464, Margaret doou o linho à Casa de Savóia, que mais tarde viria a assumir o trono da Itália, levando-o finalmente a Turim, em 1498. Abolida a monarquia italiana, e com o exílio da família decretado em 1946, o rei Umberto II acabou seus dias em Portugal. Por ocasião de sua morte, em 1983, legou o pano ao Vaticano.

Mas a história moderna do Sudário começa em 1898, um marco divisor no que se refere a seu mistério. Secondo Pia, advogado e conselheiro de Turim, foi requisitado para que fizesse algumas fotos da mortalha. Comemorava-se 400 anos da chegada do pano à cidade. Ao revelar as fotos, Pia desmaiou. Viu surgir nos negativos fotográficos uma imagem muito mais nítida do que aquela amarelada esmaecida que se podia ver no linho. Ou seja, seus negativos valiam como um positivo fotográfico, e revelavam um corpo anatomicamente perfeito.

Por volta de 1930, o médico Pierre Barbet dedica-se ao estudo da crucifixão e escreve o impressionante livro A Paixão de Cristo Segundo o Cirurgião. Crucifixa cadáveres e descobre que os pregos não poderiam fixar ninguém pelas palmas das mãos, pois o peso do corpo as rasgaria e o condenado cairia da cruz. Os romanos perfuravam os punhos, inserindo os pregos numa fenda anatômica hoje chamada "espaço de Destot". Com a lesão do nervo radial, ocorria a retração dos polegares para as palmas. Tal qual a foto de Pia revelava, as chagas estavam sobre os punhos, e os polegares não eram vistos. Barbet encontra 121 golpes de açoite compatíveis com o chicote romano denominado flagrum taxilatum, cujas pontas traziam halteres de chumbo, que deixaram 600 ferimentos sobre o corpo, menos sobre o coração, região proibida para o açoite. Conclui que o homem do Sudário devia ter uns 35 anos, 1,82m de altura, 81 kg de peso, e que foi chicoteado por dois carrascos, um mais alto que o outro. Observa hematomas por todo o corpo e rastros de sangue compatíveis com a posição de um crucificado. Nota que sobre a cabeça fora colocado um "capacete de espinhos". Também encontra lesões nos ombros que carregaram o patíbulum, ou a trave horizontal da cruz. O nariz está fraturado, próprio de quem tivesse sofrido quedas a caminho do Calvário. Há uma ferida no flanco esquerdo, feita por lança, que atingira o quinto espaço intercostal no tórax e daí, o coração, de onde jorrou sangue e soro, a conferir com o relato de Jo 19,34. E segue-se a isso uma carrada de intermináveis evidências que relacionam perfeitamente o flagelado com Jesus. Não há espaço para dúvidas. E Barbet conclui: a morte deu-se por asfixia.

Em 1973, o suíço Dr. Max Frei recolheu por meio de fitas adesivas amostras para pesquisa de pólens que pudessem estar fixados sobre o linho. Encontrou 58 tipos diferentes. Além de pólens de plantas francesas e italianas, encontrou outras espécies da Turquia Oriental, incluindo pólens de espécies já extintas, que só existiam na Palestina há 2.000 anos.

O Dr. John Heller do projeto STURP, da NASA, que em 1978 estudou o Sudário, especialista em porfirinas, revelou que há sangue sobre o linho, e que seu tipo é AB, comum entre os Judeus.

O estudo do tecido mostrou ser o linho trançado como espinha de peixe, propriamente o tipo fabricado manualmente na Palestina, sobre o qual foram identificados vestígios de Gossypium herbaceum, um tipo de algodão que nunca foi cultivado na Europa durante a Idade Média.

Sob análise do computador VP8, o mesmo usado para avaliar imagens do planeta Marte pelas naves Vikings, por exemplo, descobriu-se que a imagem sobre o Sudário é tridimensional, o que elimina qualquer possibilidade de que tenha sido pintada. Ampliações do rosto revelaram ainda moedas sob as pálpebras, com inscrições que permitiram descobrir tratar-se do dilepton lituus, moeda cunhada por Pôncio Pilatos entre 29 e 32 d.C. São achados à prova de qualquer chance de falsificação.

Enfim, as provas a favor da autenticidade já são tantas e incontáveis que o C14, que restava até há pouco como único empecilho, cada vez mais perde seu prestígio. E tal exame foi há pouco fulminado pelas descobertas que trazem uma reviravolta para o caso: o bioquímico Dr. Leôncio Garça Valdez, da Universidade de San Antonio (Texas), à microscopia eletrônica examinou fibras de linho do Sudário, sobra de amostras retiradas para a datação pelo C14, e descobriu uma verdadeira "capa bioplástica" produzida por bactérias e outros contaminantes presentes no tecido, capazes de absorver o isótopo radioativo do carbono, razão suficiente para alterar o cálculo de sua idade. Indo adiante, Garça Valdez, analisando fios retirados da nuca da imagem do Sudário, além de sangue, identificou traços da madeira do patíbulo e concluiu tratar-se do roble, um tipo de carvalho, e não o pinho, como antes se pensava.

Para o advogado Dr. Paulino Brancato Jr., presidente da Associação Brasileira de Estudos do Santo Sudário (ABESS), uma das maiores sumidades brasileiras no assunto, a quem o Dr. Garça Valdez concedeu várias entrevistas, não resta mesmo dúvida: está provado, o teste do C14 sofreu desvios e o Sudário é mesmo verdadeiro.

E quanto à imagem sem qualquer traço de tinta sobre o pano? A NASA entende que o corpo do Sudário desintegrou-se, emitindo calor e luz instantâneos, equivalente a um processo de fissão nuclear, e que tal clarão chamuscou o linho de forma superficial e indelével. Os cristãos vêem aí a prova da ressurreição. Alguém se arriscaria a ver outra coisa?

É isto que o Sudário conta. Ele é um evangelho insólito; seu autor, o próprio Cristo. O último de seus milagres? Ora, sem escrever uma só linha, assinou com sua imagem a incrível história da Paixão. 


Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do encantamento e acupunturista.