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Sonhos, o Mistério que Persiste

Por Paulo Urban - continuação (2)


Os neurônios do neocórtex se comunicam preferencialmente com as demais células nervosas que lhe são circunjacentes, por meio de ligações ditas sinapses, cuja maior parte tem função excitatória. Embora o termo sinapse, palavra grega, signifique união, convém esclarecer que os neurônios não se encontram propriamente conectados uns aos outros, sendo cada sinapse na verdade o espaço virtual e microscópico que os separa. Justamente aí, nas fendas sinápticas, estão presentes substâncias bioquímicas secretadas pelos neurônios a partir dos estímulos bioelétricos que estes sofrem, às quais denominamos neurotransmissores (NT), sendo a dopamina e a serotonina, por exemplo, dois nomes relativamente já popularizados dentre a variedade NT existentes.

A quantidade de ligações sinápticas que um neurônio estabelece com as células nervosas vizinhas varia amplamente; sabe-se que, numa progressão exponencial de ligações, cada neurônio é capaz de impressionar centenas de milhares ou milhões de outros, envolvendo instantaneamente um número de sinapses do tecido cortical que ultrapassa os trilhões.

A esta densa teia neocortical de ligações, infinitamente mais complexa que a Internet, credita-se a capacidade de armazenar todo tipo de informações que por ela circulam, arquivando-as sob a forma de memória, simples ou complexa, conforme a constelação de estímulos nervosos necessários para fixar ou recuperar tais lembranças.

Em 1950, o neurofisiologista norte-americano Karl Lashley escreveu: "Cada traço de lembrança requer literalmente a atividade de milhões de neurônios...e os mesmos neurônios que retêm determinado traço de memória também participam de incontáveis outras funções".

Donald Hebb, psicólogo canadense, estudando a questão, em 1958 propôs a hipótese de que certos grupamentos de neurônios, por exemplo, são rotineiramente impressionados por estímulos que se repetem, fato este que os torna mais coesos e treinados para sua função de lembrança e reconhecimento, possibilitando ao cérebro a recuperação de imagens completas a partir de qualquer estímulo que impressione uma quantidade mínima de neurônios relacionados a determinada informação arquivada na memória. Por isso é que basta olharmos um detalhe na foto de um rosto que nos seja familiar para que, imediatamente, ressuscitemos a lembrança da pessoa por inteira.

O exemplo serve para que melhor compreendamos de onde vêm as imagens presentes em nossos sonhos. Elas são fruto da atividade cortical latente; qualquer mínima quantidade de neurônios estimulada pode gerar lembranças de toda espécie, mesmo complexas, que se mesclam e se aglutinam a outras tantas fabricadas por grupamentos de neurônios concomitantemente ativados em outras áreas do cérebro, formando assim figuras que se condensam, de formas as mais bizarras, próprias do surrealismo onírico. Tais imagens podem ser ainda perturbadas quer porque surjam acrescidas de forte carga emocional, quer porque sejam deflagradas por estímulos sensórios que chegam a um cérebro incapaz de exercer devidamente seus juízos, posto que se encontra dormindo. Incapaz de identificar conscientemente a origem dos estímulos, fica à mercê das lembranças suscitadas, muitas vezes desagradáveis, quando então nossos sonhos se transformam em pesadelos.

Por outro lado, não é necessário desconforto físico algum enquanto dormimos para que surjam os chamados pesadelos. Estes podem ser produto de estados de alma aflitivos, próprios de quadros ansiosos ou depressivos que podem evidentemente comprometer a qualidade de nosso sono e, por conseguinte, de nossos sonhos. Também as drogas psicotrópicas como benzodiazepínicos e antidepressivos, longe daquilo que nos prometem suas bulas ou propagandas, via de regra comprometem a qualidade do sono, gerando desde perturbações de seu ciclo natural até pesadelos ou quadros alucinatórios. O mesmo podemos dizer do álcool e das anfetaminas, que prejudicam sensivelmente o ciclo do sono.

Os estudos científicos sobre os sonhos começaram na segunda metade do século passado. Após experiências incompletas de Toulouse e Piéron, na França, e de Pavlov e Betcherev, na Rússia, em 1955, o Dr. Nathaniel Kleitman, professor da Universidade de Chicago, estudando o traçado eletroencefalográfico de 12 voluntários que recebiam três dólares por noite para dormir em seu laboratório, descobriu o sono REM (Rapid Eyes Moviment - em Português, sono MOR, ou de Movimento de Olhos Rápido), também chamado sono paradoxal.

Quando dormimos ou estamos bem relaxados, de olhos fechados, devido à diminuição de estímulos que recebemos, o traçado registrado no eletroencefalograma (EEG) se caracteriza pelo predomínio de ondas lentas tipo alfa, de 8 a 13 ciclos por segundo. Quando o sono se aprofunda, surgem as ondas delta, ainda mais lentas. Mas Kleitman percebeu que o traçado por períodos inteiros apresentava padrão de ondas rápidas, tipo beta, de mais de 14 ciclos por segundo, que justamente conferiam com o momento em que seus pesquisados apresentavam um movimento intenso dos olhos por sob as pálpebras cerradas, enquanto dormiam; daí o nome dado: sono REM. Se acordados nestes períodos, os voluntários confessavam que sonhavam. Kleitman também observou um comportamento cíclico no registro do EEG, que se repetia em média a cada hora e meia. Notou que, ao adormecemos, o traçado de ondas alfa, próprio do estado de relaxamento, vai dando lugar às ondas delta. Estas, periodicamente, são substituídas pelas ondas beta, a conferir com o sono REM, que Kleitman julgou fossem o traçado laboratorial dos sonhos.

Se considerarmos
um período de aproximadamente 8 horas de sono, no 1o primeiro ciclo dele, segundo o cientista, haveria cerca de 9 minutos de sonhos (sono REM); no 2o período outros 19 minutos ; no 3o mais 24; no 4o, 28; e no último, quase meia hora. Kleitman concluiu que devemos sonhar, portanto, por quase 2h a cada noite bem dormida.

Numa segunda fase das pesquisas, descobriu que se formos privados de nossos sonhos (ele acordava seus contratados quando estes começavam a apresentar o traçado REM no eletroencefalograma) tornamo-nos muito ansiosos e estressados como se nem tivéssemos dormido, o que levou o pesquisador a aventar a idéia de que os sonhos tivessem por principal função nos proteger da loucura.

Hoje, novos trabalhos e pesquisas permitem aos neurofisiologistas admitir que os sonhos ocorrem durante todo o período de sono, o que ao menos parcialmente concorda com o que sempre defendeu Jung, para quem o processo de produção onírica é algo ininterrupto, de modo que mesmo quando acordados, estamos sempre sonhando, ainda que nossa consciência não se dê conta disso. A neurociência atualmente entende que durante a fase REM, que surge acompanhada por inúmeras alterações fisiológicas como taquicardia, respiração mais rápida etc, temos apenas maior facilidade para recordar-nos de nossos sonhos, uma vez que, quando os olhos se movem rapidamente sob as pálpebras, o sono é mais superficial do que profundo.

Mas as teorias sobre os sonhos se caracterizam pelo tanto de polêmica que suscitam. Dr. Francis Crick, que dividiu em 1962 o Nobel de medicina com o Dr. James Watson por desvendar a estrutura molecular do DNA, é um dos mais importantes cientistas que derivaram suas pesquisas para o estudo do fenômeno onírico. Crick admite que "sonhamos para esquecer"; diz que a principal razão para a existência dos sonhos é sua capacidade de ressuscitar lembranças inúteis, que ocupam desnecessariamente espaço em nosso computador cerebral, e que são atiradas à lixeira quando sonhamos. Tal faxina serviria para nos recompor, permitindo-nos que, ao despertarmos, estejamos novamente prontos para enfrentar o enorme bombardeio de novas informações que são cotidianamente armazenadas.

A meu ver, esta é uma visão meramente utilitária da ciência, acostumada a desqualificar o mundo onírico na mesma proporção com que nossa sociedade insiste em depreciar valores que não estejam destinados a incrementar as linhas de produção de seus bens de consumo. A poderosa indústria farmacêutica, inclusive, é quem mais tira proveito das controversas pesquisas neurocientíficas feitas no terreno imponderável dos sonhos, oferecendo-nos drogas para dormir que, não obstante o efeito hipnótico alcançado, causam dependências física e psíquica, e suprimem a fase REM do sono, sabidamente aquela em que mais facilmente nos lembramos daquilo que sonhamos. Enquanto os homens civilizados, em suas vidas industrializadas, esquecem-se até mesmo de sonhar, a neurociência segue tentando impor culturalmente as regras do jogo científico acadêmico.

Mas até mesmo o homem mais civilizado do mundo não pode deixar de observar que, às vezes, um simples sonho é milagre suficiente para alterar-lhe todo o seu humor, particularmente quando acordamos significativamente impressionados, com algo estranhamente repercutindo fundo em nossas almas, levando-nos a indagações mais profundas e sempre necessárias, desencadeadas pelo material onírico. Nestas horas, quando somos levados a buscar por uma interpretação de nossos sonhos, abrimos definitivamente as portas para uma visita ao nosso mundo interior, fato este que por si só já revela, evidentemente, e de modo muito simples, o porquê de sua importância em nossas vidas. Sem receios em parafrasear Fernando Pessoa, de fato, sonhar é preciso.


Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento e acupunturista.

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