|
|
Sonhos, o Mistério que Persiste
Por Paulo Urban
|
Podemos
chamar de sonho ao fenômeno psíquico espontâneo
de produção de imagens e representações de
idéias que involuntariamente ocorrem durante o período de
sono.
Desde a antigüidade mais remota o ser humano se preocupa com
a elucidação dos mistérios oníricos. As culturas
arcaicas os interpretavam como oráculos ou instrumento de premonição,
e as mitologias de todos os povos, sem exceção, valorizavam-nos
como linguagem de seus deuses. Homero reforça tal idéia
tanto na Ilíada como na Odisséia (séc. VIII a.C.).
Referências mais remotas são encontradas no Antigo
Egito, a partir da 10a dinastia (cerca de 2070 a.C.), no texto do faraó
Mervkare, que incluía chaves para a decifração dos
sonhos. Já o Papiro Chester Beatty III, datado por volta de 1785
a.C., atribuído à 12a dinastia, oferece 28 fórmulas
de agouro para entendimento dos elementos oníricos, algo como:
"Se um homem se vê em sonho comendo, isto é bom, significa
que nada lhe faltará; se vê uma serpente, isto é bom,
pois haverá abundância; se um homem se vê olhando por
uma janela, é favorável, haverá promoção
social; se se vê fazendo amor com um gerbo, isto é mau, significa
que intentam contra ele na Justiça..."
Mas coube ao grego Artemidoro de Héfeso o primeiro compêndio
Oneirocritica, datado de 150d.C., composto por 5 Livros, a documentar
centenas de sonhos que lhe foram relatados. Com base no que ouviu, e contrariando
o pensamento predominante de sua época, Artemidoro concluiu que
a simbologia onírica deveria ter um significado antes particular
que universal. A propósito, com a consolidação a
partir do séc. V a.C. do culto de Asclépio, seus templos
medicinais, espalhados por toda a Grécia, sendo os de Epidauro,
Cós e Atenas os mais famosos, previam que seus visitantes enfermos
primeiramente se purificassem através de orações,
jejuns, exercícios e beberagens, também pelos ritos de incubação,
quando se deitavam cobrindo a cabeça com ramos do loureiro, planta
sagrada capaz de propiciar-lhes os sonhos por meio dos quais lhes seriam
revelados os caminhos para a cura.
Esta
valorização do mundo onírico encontra berço
no orfismo, de onde derivou a corrente filosófica pitagórica,
a influenciar mais tarde o platonismo. Cumpre lembrar aqui uma célebre
passagem: certa noite, Sócrates sonha com um pássaro
magnifíco. De asas abertas, a ave pousa-lhe no peito e canta
maviosamente. No dia seguinte, um jovem interessado em conhecê-lo
era-lhe apresentado. Seu nome? Platão, que registrou este relato.
Esta milenar idéia de que os sonhos sejam via de comunicação
entre os homens e os deuses serve de base a muitas Escolas esotéricas
que, inferindo um pouco adiante, advogam a existência de mundos
paralelos, aos quais a consciência se transporta enquanto dorme.
A neurociência, entretanto, reduz os sonhos a mero produto
de reações bioquímicas desencadeadas por estímulos
bioelétricos. Opõem-se a este pensamento as correntes psicológicas
e psicoterápicas que enxergam nos sonhos um fenômeno abstrato
muito mais complexo e de natureza transcendente ao mundo simplesmente
bioquímico.
Freud, por exemplo, creditava aos sonhos suma importância.
Via em sua ocorrência a prova indireta da existência do Inconsciente.
Na "Interpretação dos Sonhos", 1900, afirma serem
os sonhos a "estrada real para o inconsciente", facilitadora
da realização de nossos desejos proibidos centrados na esfera
da sexualidade (uma das idéias fulcrais da psicanálise),
que se ocultariam por detrás das imagens bizarras e fantásticas
do mundo onírico.
Jung, transcendendo os limites da psicanálise na qual se
iniciou, passaria mais tarde a entender os sonhos como a autêntica
linguagem da alma, a expressar o que de modo específico o inconsciente
esteja tentando nos dizer. Na Psicologia Junguiana, a principal função
onírica é a de orientar e equilibrar o psiquismo como um
todo, aliviando assim nossas neuroses e predispondo a consciência
(nosso intelecto) para novas idéias e concepções
mais amadurecidas, compensando, destarte, certas deficiências da
personalidade, prevenindo-nos até mesmo quanto a certas situações
que estejam na iminência de acontecer em nossas vidas.
Mas, do que são feitos os sonhos? Não o sabemos.
Impossível capturá-los, apreendê-los, estudá-los
em nossas mãos, gravá-los em DVD ou ampliá-los pelas
lentes de um microscópio. Procuremos, entretanto, entender de modo
mais simples possível o processo que os produz.
Mesmo
durante o sono mais profundo, o neocórtex, camada de uns 3
mm de espessura que recobre todo o nosso cérebro, mantém-se
funcionante, ainda que esteja praticamente isolado dos estímulos
proprioceptivos (função que nos permite saber a exata posição
de nosso corpo sem que precisemos olhar para ele), bem como dos que são
trazidos pelos órgãos dos sentidos. Mas então, como
se promove esta atividade mental latente? Ora, como nas demais áreas
de massa cinzenta do cérebro humano, o neocórtex está
formado por células nervosas chamadas neurônios. Até
as últimas décadas estimava-se existir cerca de 14 bilhões
de neurônios processando informações em nosso cérebro.
Estudos mais recentes, porém, feitos pelo Dr. Vernon Mountcastle
da The Johns Hopkins University, apontam para algo em torno de 50 bilhões
de neurônios cerebrais, isto sem levar em conta o número
de células nervosas da glia, camada de sustentação
do tecido nervoso, que chega a 500 bilhões. Todo o nosso sistema
nervoso central tem massa aproximada de 1.400 gramas, sendo que o cérebro
responde por 96% deste peso.
|
|