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Paulo Urban
  


O Simbolismo da Serpente

Por Paulo Urban - continuação (2)

  

Além da serpente, outros animais podem ser carregadores do mundo; há versões mitológicas em que o touro, o crocodilo, a tartaruga e o elefante exercem tal papel; mas estes são meros substitutos da serpente em sua função cósmica, haja vista que em sânscrito o termo naga designa ao mesmo tempo cobra e elefante, e nenhum indiano sensato constrói sua casa sem antes descobrir geomanticamente (pela radiestesia) em seu terreno qual o ponto relacionado ao "centro do mundo", quando então enterra uma estaca na cabeça do naga subterrâneo, em torno do qual erigirá sua morada.

Análoga à serpente macrocósmica Ananta/Shesha é Kundalini (cuidado, a palavra é feminina e oxítona), serpente esta que se encontra enrolada na base coccigiana, na extremidade inferior da coluna vertebral humana. Afinal, o hinduísmo considera indistintos macro e microcosmo, de modo que todas as forças universais encontram no ser humano perfeita correlação. Também o corpo físico do homem é mera manifestação do corpo sutil, dizem os hindus, e nele se distribuem os chakras, centros energéticos com funções específicas, em concordância com a ordem de emanação dos tattva, isto é, indo dos mais sutis aos mais densos em sentido descendente. Kundalini jaz dormente no último e mais grosseiros dos chakras, denominado muladhara, que se traduz por "suporte". Despertar a Kundalini é tarefa das mais arriscadas mas ao mesmo tempo necessária à nossa transcendência. A serpente, potencialmente perigosa, obstrui com sua cabeça a entrada para o canal de Sushumna, via direta para que a mente suba aos Céus e comungue diretamente com Brahma, o deus supremo. Perturbar Kundalini em seu sono, por conseguinte, é viabilizar este contato transcendente. Quando a serpente desperta, sibila e se enrijece, permitindo nesse momento a ascensão sucessiva da libido pelos chakras imateriais situados ao longo da coluna até que se alcance o sétimo e mais sutil deles, relacionado à fontanela superior, no alto da cabeça; este recebe o nome de Sahasrara, ou chakra coronário, posto que "coroa" todos os demais. Isto porque Kundalini, uma vez acordada, não pára em sua ascensão, que se faz por etapas que podem durar anos ou mesmo a vida inteira, sempre numa progressão que dissolve o tattva inferior naquele que lhe é imediatamente superior. E cada um dos degraus só pode ser galgado à custa de importante sacrifício pessoal, de modo que o homem se purifique, passo a passo, até que se dissolva na essência bramânica universal de onde se originou.

Inúmeras culturas incutem na serpente essa idéia de espiritualidade confrontada aos padrões mais grosseiros da existência, fazendo deste réptil enigmático o emblema da síntese dos opostos, da coniunctioni opositorum dos alquimistas. O dragão, exemplo de serpente alada, traz em suas asas o tom de espiritualidade inerente ao símbolo. Aliás, entre os chineses, butaneses e outros povos do oriente, nem se faz distinção entre a cobra e o dragão, suas imagens são intercambiáveis, e há oroboros em que o dragão que morde a própria cauda é branco na metade superior do círculo e negro em sua parte inferior, a reforçar a noção de complementaridade dos opostos. O dragão celeste é o pai mítico de muitas dinastias, e os imperadores chineses o traziam estampado em suas vestes e estandartes para que o povo não se esquecesse de sua origem divina. Curiosamente, entre os astecas e outras culturas da América Central e andina, Quetzalcoatl, a serpente emplumada (uma combinação de Quetzal pássaro e serpente), é divindade solar, e surge como elo entre os deuses e os homens, podendo ainda estar associada à chuva, ao vento, aos raios e trovões, bem como ao sopro de vida, ou ainda ao tempo incriado.

Destarte, vemos que a serpente expressa antes de tudo um desejo de hegemonia espiritual em detrimento das forças mundanas que nos iludem quanto ao sentido da existência. Preocupação semelhante encontramos na mitologia grega, no episódio em que Zeus enfrenta Tifão, filho da cólera de Hera, criado pela serpente Píton. Tifão é gigantesco dragão de cem cabeças, de cujos olhos saem labaredas de fogo infernal, com asas no lugar dos dedos, "vestido" de víboras que, presas em torno de sua cintura, alcançam seus calcanhares. Tifão afugenta todos os deuses, exceto Zeus e sua filha Atena, a razão, que resistem a seus ataques. Por fim, Zeus o fulmina com seus raios e o lança ao Etna, de onde, vez por outra, moribundo, volta a cuspir fogo. Derrotar Tifão é tarefa das mais árduas, necessária porém a todo aquele que se decida pela dilapidação de seus aspectos brutos e terríveis, e que deseje alcançar a maestria.
A serpente, na mitologia clássica, e em outras tantas, surge ainda associada à prática da adivinhação. Prova-o deus Apolo ao subjugar a serpente Píton que jazia na caverna do santuário de Delfos, da qual derivou o nome "pitonisas" dado às sacerdotisas de seu Templo, exímias profetizas. Também os ofídios vêm atrelados ao cultivo das artes, poesia e música principalmente, mas sobretudo, à medicina.

Consoante a versão mais aceita, Asclépio, é filho de Apolo e Corônis, filha de Flégias, um dos reis de Tebas. Certa feita, devendo retornar a Delfos, Apolo deixa um corvo branco ao lado de sua esposa prenhe, para guardá-la. Mas Corônis, muito bela, temendo que Apolo, eternamente jovem, a abandonasse na velhice, mesmo grávida, une-se a Ísquius. Consumado o coito, o corvo, que estava encantado, torna-se preto, o que faz com que Apolo descubra o adultério. Apolo atira Ísquius ao Tártaro (um dos níveis do mundo dos mortos), onde até hoje está a envenenar tudo aquilo que ele toque. Corônis é morta, ao parir o menino, por uma flecha de Ártemis, irmã de Apolo. Asclépio passa então a ser amamentado por uma cabra, o que para os gregos é distinção de divindade, e é deixado pelo pai, na infância, aos cuidados do centauro Quíron, que o introduz à arte médica. Quíron é abreviatura de queirourgós, a designar aquele que trabalha com as mãos, de onde se deriva o nome "cirurgião". O sábio de corpo metade humano metade eqüino, ensina as artes a seu pupilo: música, poesia, a guerra e a caça, e principalmente a medicina, na qual era versado. Acidentalmente teve seu joelho ferido numa batalha pela flecha envenenada de um amigo. Por conta disso, Quíron, sendo imortal, encontra o destino de sofrer por toda a eternidade, posto que, mesmo sendo médico, não tinha poderes para desfazer-se do veneno assimilado. Daí dizer-se que os médicos feridos são os que melhores curam, ou os que pelo menos melhor ensinam sua arte. Pois bem, o sofrimento atroz só se resolve quando Prometeu, que a princípio era mortal, cede-lhe seu direito à morte, e Quíron sobe aos céus para brilhar feito constelação. Ele é Sagitário, aquele que aspira às coisas belas, que é zeloso, arguto e altruísta. À constelação, os antigos consagravam a serpente, o galo e a tartaruga.

Asclépio, cuja arte era a de saber observar, certa feita feriu uma serpente que estava prestes a mordê-lo, e pôde ver que outra veio em seu socorro, trazendo em sua goela a erva que curaria a primeira. Desde então teria tomado para si completo domínio sobre as drogas, e assumido a serpente como símbolo da vida. Asclépio, presume-se, viveu por volta do século XIII a.C.; já na expedição dos Argonautas seu nome aparece, quando trouxe de volta à vida alguns mortos em combate, o que atraiu contra si a ira de Hades, que o acusou frente a Zeus do crime de estar sonegando almas ao Inferno. Por conta desta grave falta, Zeus o fulminaria com seus raios para não permitir um desequilíbrio no Cosmo. Asclépio seria ainda assimilado pelos romanos como Esculápio, e estes o tinham em tão grande respeito que chegaram a importar a serpente de Epidauro e construir um templo ao novo deus na ilha tiberina, para que pudessem conter uma epidemia que assolava Roma no ano de 293 a.C., creditada à ira de Apolo.

Em Epidauro, o culto de Asclépio ganhou força principalmente dos fins do século VIa.C. ao final do V d.C.; mais de um milênio de glória. O médico era conhecido como "o bom e o simples". Fundou aí sua Escola de Medicina, fundamentada na magia e hábil ao buscar nas plantas seus remédios. Dela ramificaram várias escolas ditas Asclepíades, de medicina "científica", a formar alunos dentre os quais Hipócrates (de Cós) é o melhor exemplo. Seus templos se estabeleceram na ilha de Cós, em Corinto, Pérgamo e outras regiões. Epidauro era famoso por seu labirinto, no centro do qual guardava-se a serpente sagrada. Esta, por ser ctônica (habitante das entranhas da terra), detinha o dom da adivinhação, e enrolada num bastão, em alusão ao ancião Asclépio, passou a ser símbolo da medicina. Não devemos confundir este símbolo com o caduceu de Hermes, sobre o qual se enrolam duas serpentes, guardiãs de nosso adormecer e despertar de cada dia, representantes também de sua virtude de levar a alma dos vivos ao mundo dos mortos, ou de lá voltar com as almas que renascerão em nosso mundo. A confusão toda foi feita na época da Primeira Guerra Mundial, quando tropas médicas militares francesas passaram a usar o caduceu de Hermes no lugar do de Asclépio, antes de ser adotado o símbolo cristão da Cruz Vermelha nos uniformes. Daí para frente, os EUA., por meio de seus laboratórios farmacêuticos que nada sabem de mitologia nem têm por princípio respeitar a medicina, também por meio de suas insígnias militares, têm reforçado o erro. Mas nenhuma representação de Asclépio o traz com duas serpentes em seu caduceu. E deus Hermes, dentre inúmeros atributos que têm, nunca foi médico absolutamente.

De qualquer modo, o fato é que a serpente encerrará para sempre seus mitos de tantas sutilezas. Nas curvas de seu dorso deslizam sinuosos mistérios; em seu veneno oculta-se a dose curadora; em sua goela está o portal para as entranhas da Terra. A víbora detém o enigma da vida. Eis aqui colocado e resumido, o escamoso mistério serpentino.


Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do encantamento e acupunturista.