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O Simbolismo da Serpente
Por Paulo Urban
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Publicado
na Revista Planeta nº 341 / fevereiro / 2001
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Dentre
os símbolos primordiais, a serpente é aquele que mais
fortemente encerra toda uma complexidade de arquétipos. Presente
em todas as culturas de qualquer época espalhadas pelos cinco continentes,
sua imagem mitológica assume sempre um papel fundamental, associada
que está, antes de tudo, à essência primordial da
natureza, à fonte original de vida, ao princípio organizador
do Caos, anterior à própria Criação.
A serpente guarda em si intrigantes paradoxos; se por um lado exprime
uma ameaça, já que de seu veneno pode sobrevir a morte,
por outro, resume no processo de renovação de sua pele escamosa
todo o intrincado mistério da vida, que se atualiza em movimento
rejuvenescente. Tudo na natureza se transforma, prova-o a troca de pele
das víboras, símbolo também da ressurreição.
Diferentes cultos e cerimônias ritualísticas reverenciam
este réptil sorrateiro, atribuindo-lhe as mais díspares
qualidades. As serpentes podem estar associadas a cultos solares ou lunares,
a sociedades matriarcais ou patriarcais, (quando assumem valores masculinos
ou femininos); podem significar a luz ou as trevas; a vida ou a morte;
o bem e o mal; a sabedoria ou seu oposto, a paixão cega; representar
ora o falo, por seu corpo assemelhar-se ao bastão, ou mesmo simbolizar
a vulva, conforme se lhe parecem as escamas que a recobrem bem como o
formato de sua goela quando esta se abre para devorar sua presa. Tanto
quanto as energias Yin e Yang expressam no taoísmo as polaridades
negativa e positiva que estão por detrás de toda manifestação
da natureza, os ofídios, miticamente, ocultam em si a síntese
desta dicotomia universal.
Uma das figuras mais intrigantes do simbolismo alquímico,
presente milenarmente em diversas culturas, é a da cobra (ou dragão)
que morde o próprio rabo e opera, num movimento circular e contínuo,
todo o processo dinâmico e transformador da vida. "Meu fim
é meu começo", diz a cobra nesse ato mágico
de devorar-se e cuspir-se, a representar a unidade indiferenciada da vida,
e seu caráter divino implícito na perfeição
do círculo. À serpente devorando a própria cauda,
os alquimistas chamaram Oroboro. Tal palavra não consta da maioria
dos dicionários, e em alguns livros da Grande Obra aparece grafada
como "ouroboros", principalmente na língua inglesa; outras
fontes, menos comumente, escrevem-na "uróboro". Prefiro,
particularmente, o termo oroboro, visto não ter sido nunca tão
oportuno em nossa língua nomearmos um símbolo cuja singularidade
é a de não ter começo nem fim, por meio de palavra
tão especial, que permite ser lida de trás para a frente
sem prejuízo sequer de sua pronúncia, transmitindo ela própria
a idéia de algo que se expressa ciclicamente.
Etimologicamente, o termo tem curiosa explicação:
óros, em grego, significa "termo, limite", podendo
ser também "meta, regra ou definição";
borós se traduz por boca, ou por voracidade. Daí
que oroboro representa aquilo que se delimita ou se atinge pela boca,
também aquilo que se define por sua própria função.
Órobos, em grego, ainda significa "planta", mais
especificamente a alfarroba (fruto da alfarrobeira), uma vagem de polpa
doce e nutritiva indicada no tratamento das doenças inflamatórias
digestivas. O dicionário Aurélio traz para órobo
o significado de "cola", palavra esta que além de se
referir a outro tipo de árvore, a Cola acuminata, cuja semente
produz alcalóides tônicos, também pode significar
"cauda", conforme certos regionalismos do Brasil, sendo igualmente
encontrada na língua espanhola a designar o rabo dos animais. Para
orobó (só muda o acento), o Aurélio reserva
o sinônimo "coleira", em nova referência à
aromática árvore acima citada, cujas sementes guardam extrato
lenhoso de propriedades estimulantes, semelhantes à cafeína.
Coincidentemente, coleira é o nome dado ao colar que cinge o pescoço
dos animais, e o oroboro lembra sua forma; além disso, nossas vísceras
intestinais assemelham-se à serpente enrolada, e o aparelho digestivo
como um todo, se tomado da boca ao ânus, bem desenha a serpente
aprumada, prestes a dar seu bote, a devorar sua presa.
Outra aproximação do significado implícito
no oroboro encontramos entre os caldeus, que com uma mesma palavra designavam
vida ou serpente. Por influência destes, os árabes também
denominam de el-hayyah a cobra, e por el-hayat, a vida. El-Hay,
por sua vez, um dos principais nomes divinos do islamismo, não
deve ser traduzido por "o que está vivo", mas sim por
"aquele que vivifica", sendo El-Hay o princípio
primário da vida.
Dialeticamente, a cobra que morde sua cauda e não pára
de girar sobre si mesma, evoca a roda da vida à qual estamos presos,
bem representada pelo décimo arcano do Tarô, denominada em
sânscrito roda de Samsara, que se traduz por "fluir
junto". Samsara nos condena a experimentar as ilusões
do mundo sem que jamais escapemos de seu giro, salvo quando rompemos o
ciclo vicioso pelo despertar da serpente Kundalini, como veremos
logo adiante.
Numa tentativa de resgate arcaico, cumpre lembrar que desde o paleolítico
este réptil era representado por inscrições rupestres
em forma de linha, assim como até hoje o fazem os pigmeus caçadores
do sul da República dos Camarões. Mas como da linha só
enxergamos a parte desenhada, e intuímos que ela se prolongue por
suas duas extremidades ao infinito, talvez provenha daí o conceito
de que a cobra que vemos (que pode nos envenenar, ser caçada, sacrificada
em rituais etc) nada mais seja do que encarnação da verdadeira
serpente universal, invisível, fundamento da vida e também
o eixo e a base sobre os quais se escora o mundo conhecido.
A "Grande Serpente Invisível" acha-se representada
em diversas culturas. Entre os egípcios ela é Ra-Atum, divindade
que ao emergir das águas primordiais cuspiu, ou expeliu pela masturbação
conforme outras versões, Shu (o ar) e Tefnut (a umidade), que por
sua vez engendraram Geb (a Terra) e Nut (a noite). Várias são
as passagens do Livro dos Mortos em que Rá-Atum se pronuncia.
No capítulo VII diz estar situada no centro do oceano celeste,
frisa ser seu nome um mistério e seu poder, absoluto. No capítulo
XVII diz ser o deus solitário dos vastos espaços do Céu,
ser deus Rá levantando-se na aurora dos Tempos, também a
suprema divindade que nasce de si mesma, e que seus misteriosos nomes
criam as hierarquias celestes; Ra-Atum, maravilhado pela própria
criação, noutra passagem adverte: "Sou aquele que não
passa;... quando tudo retornar ao indiferenciado, então me transformarei
de novo na serpente que nenhum homem conhece nem os deuses podem ver".
Na mitologia hindu encontramos concepção cosmogônica
semelhante. O tantrismo roga que entre cada um dos ciclos de vida e morte
do universo há um período de repouso durante o qual Vishnu,
o princípio conservador de Brahma, repousa sobre Ananta, a serpente
da eternidade. Nesta condição atemporal, Shiva, o princípio
desorganizador de Brahma, está imiscuído de modo indiferenciado
em seu próprio poder, Shakti. Quando Shiva inicia sua dança,
o universo é então criado, e Shakti, operando agora como
Prakriti (energia primordial incapturável e imperceptível
da qual todas as formas de vida evoluem) desenvolve todo o universo desde
os tattva (mundos) mais sutis até os mais densos, até criar
a mente, os sentidos e a matéria sensível sob suas cinco
formas, éter, água, fogo, terra e ar. Quando Shakti penetra
no último e mais grosseiro dos tattva, a "terra", ou
seja, a matéria sólida, sua missão está acabada.
Shakti aí adormece sob a forma de Shesha, a serpente que sustenta
o mundo, até a próxima era da nova Criação.
Shesha nada mais é que um correlato da serpente cósmica
Ananta, o infinito, e sua função é a de suportar
o orbe e tudo o que nele se manifeste. Shesha e Ananta compõem,
respectivamente, o sono divino e o divino despertar de Brahma.
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