| Dentre
os gigantes,
tome cuidado com os pequenos, pois são estes que mais podem
crescer. Nada há de errado num crescimento que não
seja desordenado ou mero resultado de inflação egóica.
O verdadeiro crescimento é um processo sempre evolutivo e
mesmo os gigantes podem crescer harmonicamente, desde que o façam
alicerçados em sua simplicidade. A humanidade é rica
em gigantes.
Gandhi (1869-1948), por exemplo, foi um deles.
Mahatma, conforme o sábio era chamado por seu povo
em toda a Índia, significa “grande alma”, e a
gigantesca espiritualidade de Gandhi era fato evidente, própria
dos raros que primam preservar os princípios de justiça
e dignidade sem ferir a paz sob qualquer pretexto.
Napoleão Bonaparte (1769-1821) foi também
outro gigante. Tinha, entretanto, somente 1,58m de altura. Certa
feita, quando depreciado por um rei inimigo que o interpelou pelo
abjeto adjetivo de “nanico”, respondeu que "um
homem não se mede por sua estatura, senão até
onde consegue levar o seu destino”. Diferentemente de Gandhi,
entretanto, o imperador de França perdeu-se em seus desígnios
e, vitimado por um ego leonino, deixou-se guiar por sua parte instintiva
e bestial, metendo seu focinho (napus em latim significa
“nabo”; também alusivo a “nariz”)
nos buracos desconhecidos da própria vaidade, razão
pela qual acabou sendo devorado por sua ambição. Se
ao longo dos treze anos em que se manteve casado com Josèphine,
tivesse ouvido ao menos meia dúzia de conselhos dela, não
teria se dado tão mal. Napoleão perdeu-se, enfim,
no enredo de sua própria máxima.
Adolf Hitler (1889-1945), outro estranho espécime
atirado à conquista do mundo, não entra absolutamente
nesse grupo de gigantes. Primeiro porque seu tamanho era simplesmente
mediano, o que jamais faria dele nem um grande nem um pequeno portento,
mas, antes de tudo, porque o que não lhe prestava essencialmente
era sua qualidade humana. Exemplo de alma patológica, sem
grandeza anímica de qualquer espécie, Hitler era dotado
de uma personalidade monstruosa, cruel e tirânica, em suma
um psicopata cujos ideais megalomaníacos eram de todo inversamente
proporcionais à sua infinita baixeza de espírito.
Falemos, pois, dos verdadeiros pequenos gigantes,
daqueles que devotaram suas vidas ao bem comum da humanidade. Entre
os brasileiros encontramos um dos maiores exemplos desse gênero:
Alberto Santos Dumont (1873-1932). Do alto de seus 157 centímetros
(ele usava até saltos mais altos para compensar sua estatura),
nosso obstinado inventor alçou vôo livre por meios
próprios, e soube levar galhardamente a humanidade inteira
em suas asas a alturas nem sonhadas, desfraldando aos homens o futuro
de uma apaixonante nova era, marcada por inimagináveis conquistas
tecnológicas e espaciais. Talvez esteja aí o espécime
que melhor represente o quanto pode nos surpreender um pequeno gigante,
quando se deixa conduzir por ideais elevados e nobres sentimentos
em relação a seu mundo e sua época.
Albert Einstein (1879-1955), igualmente, seria
um cientista simplesmente mediano se avaliado em termos de escala
métrica, mas é reconhecido como um dos maiores gênios
da humanidade, cuja mente altruísta, pacifista e luminar
se transformou em verdadeiro farol de Alexandria para a ciência
tecnológica e toda a cosmologia do século XX. Como
os gigantes entre si se reconhecem, considerava Gandhi o maior homem
de sua época. Com sua Teoria da Relatividade, um breve manuscrito
publicado primeiramente em junho de 1905 na revista científica
alemã Annalen der Physik, provocou uma reviravolta
nas concepções mais acirradas que os cientistas tinham
do Universo. Contrapondo-se à doutrina newtoniana que entende
que todos os corpos tendem à inércia, ao repouso,
Einstein declarou que tudo na realidade que nos cerca está
em perene movimento e que todas as trajetórias, direções
ou deslocamentos são meramente relativos às posições
de seus respectivos observadores; ademais, as velocidades dos diferentes
corpos são ainda relativas entre si, exceção
feita à velocidade constante da luz. Da nova teoria depreendem-se
conceitos estonteantes que nos ensinam que o espaço é
curvo, o que, por conseguinte, nos leva a constatar que a menor
distância entre dois pontos nem sempre é uma reta.
Estabelece-se ainda que não só o espaço, mas
também o tempo é relativo, não podendo este
sequer ser medido de mesmo modo em toda a parte. Basta lembrar que
cada planeta possui seu sistema cronométrico em relação
à posição que ocupa dentro de seu sistema estelar,
e que um dia da Terra nada mais é do que um interregno demarcado
por condições absolutamente singulares, que não
servem para medir o tempo virtualmente existente em quaisquer outros
lugares. A propósito, a imagem que fazemos das estrelas nos
informam de sua aparência há tantos anos-luz quantos
os decorridos para que sua luminosidade vença a distância
que dela nos separa, de modo que, por exemplo, se alfa-centaurii,
estrela mais próxima da Terra (excetuando-se o Sol), situada
a 4,3 anos-luz de distância, explodisse, só veríamos
o fenômeno ocorrer no firmamento daqui a pouco mais de quatro
anos. Ora, indo às últimas conseqüências,
passado, presente e futuro para Einstein são condições
que nos prendem à nossa tridimensionalidade ilusória,
e que, se fosse possível a um homem viajar em velocidade
superior a da luz, este faria o tempo retroceder e iria ao encontro
de seu passado, podendo paradoxalmente experimentar os efeitos antes
das causas, além de que entenderia ser tão lógico
viajar do amanhã para o ontem como naturalmente podemos nos
deslocar da cidade onde estamos para outra qualquer.
Uma vez atestada a relatividade das verdades, cientes
de que tudo nesse mundo em que vivemos é impermanente e relativo,
e em pertinência à tese desse texto, fica mais simples
compreender como foi que Davi, o quarto e menor dos filhos de Isaí,
um garoto de seus quatorze anos e peito desnudo, derrotou o temível
Golias, experiente guerreiro filisteu de seis côvados e um
palmo de altura, armado até os dentes, com espada, lança
e escudo, trajando capacete e couraça escameada que por si
só pesava 55 quilos. Golias tomou a iniciativa do combate
e, com certo desprezo, partiu para cima do rapazote. Contrariando
todas as probabilidades daquilo que se espera de um confronto entre
um pequenino e um gigante, Davi, correndo dele, pôs a mão
no alforje, de onde tirou uma funda e uma pedra, e girando-a atingiu
em cheio a cabeça de seu oponente, abrindo-lhe a testa. Golias
tombou pra trás atordoado, e o menino, tirando da bainha
do brutamontes sua própria espada, cortou-lhe de um só
golpe a cabeça.
Rui Barbosa (1849-1923), de 1,58m, jurista e jornalista,
é outro dos pequenos gigantes que deve ser lembrado. O baiano
tornou-se espécie de herói nacional ao defender em
1907 a igualdade jurídica das nações na II
Conferência da Paz de Haia, Holanda. Convocada pelo czar da
Rússia, a Conferência reunia delegados das grandes
potências mundiais, países atirados à corrida
industrial e que mantinham entre si uma inconsistente e delicada
relação de “paz armada”. Não abrindo
mão dos princípios de soberania nacional diante de
propostas trazidas pelos delegados europeus que pretendiam trocar
vantagens econômicas hipócritas por apoio diplomático
a seus propósitos imperialistas, Rui Barbosa enfrentou com
coragem as figuras mais prestigiosas do conclave e fez valer os
verdadeiros ideais de paz que davam nome e sentido àquele
encontro. Diante de admoestações e argüições
de toda espécie, respondia fluentemente às “vacas
sagradas” do congresso nos idiomas nativos de seus interlocutores
valendo-se ora do francês, ou do inglês, do espanhol,
do alemão, do italiano, também do grego e do latim
conforme fazia citações e segundo lhe chegavam as
perguntas. Deixou todos os presentes boquiabertos; não houve
como pudessem despercebê-lo e teve seu nome incluído
entre os sete sábios de Haia.
Fernando Pessoa (1888–1935) talvez seja o
maior dentre todos os gigantes da literatura universal, haja vista
seu sui generis desdobrar-se em tantos outros grandes nomes da arte
poética, que fizeram transbordar sua personalidade principalmente
por meio da pena de seus quatro heterônimos: Alberto Caeiro,
Ricardo Reis e Álvaro de Campos, além de Fernando
Pessoa ele próprio. Os três últimos, por sinal,
todos discípulos confessos do grande mestre Caeiro, alteridade
egóica que era melhor poeta por estar humildemente aberto
à gigantesca experiência da vida. Enfim, Fernando Pessoa
individuou sua alma pelos quatro elementos; fez de si mesmo uma
completa e portentosa literatura, cuja genialidade soube explorar
com profunda riqueza e maior homogeneidade possível toda
a heterogênea gama de expressão e sentimentos da natureza
humana. O homem que dizia que a verdade se veste de paradoxos expressou
assim, em diferentes passagens, o colossal sublime de seus anseios:
Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério
mais alto que pode obrar alguém da humanidade. (...) Sinto-me
múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos
fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única
anterior realidade que não está em nenhuma e está
em todas. (...) Sê plural, como o Universo. (...) Tenho pensamentos
que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam
mais luz às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao
coração dos homens. (...) E, traduzindo a consciência
que tinha de sua própria missão, declarou: Hoje,
ao tomar de vez a decisão de ser Eu (...) reentrei de vez,
(...) na posse plena do meu Gênio e na divina consciência
de minha Missão. (...) Atitude por atitude, a mais nobre,
a mais alta,e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.
(...) A superioridade não se mascara de palhaço, é
de renúncia e de silêncio que ela se reveste. Desnecessário
dizer que o imponderável da poesia pessoana agradaria sobretudo
à (meta)física de Einstein, e que essas citações
têm a grandeza de nos insinuar a existência de uma dimensão
transcendente, da qual comungava a alma do poeta português.
Já que estamos tangenciando o campo sutil,
batendo às portas da espiritualidade, citemos Saulo de Tarso,
que de perseguidor ferrenho dos cristãos passou a ser um
dos principais apóstolos do Cristo, responsável pela
sobrevivência, estruturação e fortalecimento
do cristianismo numa época historicamente adversa. Saulo
teve sua experiência transcendente por volta do ano 34-35
d.C. na estrada para Damasco, Síria, para onde se dirigia
munido de cartas judiciárias que o autorizavam a prender
cristãos fora da Palestina. Saulo seguia todo imponente em
seu cavalo quando “...aconteceu que, ao aproximar-se de Damasco,
subitamente o cercou uma luz vinda do céu. E caindo por terra
ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que tu me
persegues?’ E ele disse: ‘Quem és tu?‘;
e (ele) a voz lhe respondeu: ‘Sou Jesus, aquele a quem persegues”.
(Atos, 9, 3-5). Bem, o que se deu então foi que Saulo caiu
do cavalo e tremeu diante da aparição. Os que o acompanhavam
igualmente se atemorizaram, pois ouviam a voz mas nada viam. A luminosidade
deixou cego Saulo por três dias, e seus olhos só voltaram
a enxergar depois que deles se desprenderam escamas, devido à
imposição de mãos que o curador Ananias lhe
prestou. Ele vislumbrara o estado transcendente e quase morrera
fulminado por sua luz. Transformado pela clarividência crística,
tangenciara a dimensão de sua verdadeira altura ao se dar
conta da realidade celestial que existia muito acima de seu mundo
cotidiano. Desde então, mudou o curso de sua vida, tornou-se
missionário e dedicou seu coração e sua inteligência
à evolução da consciência humana, que
ele julgava só fosse viável através dos soberanos
canais da fé, da esperança e, sobretudo, pela experiência
do amor, conforme mais tarde dela trataria em sua primeira epístola
aos Corínthios (I Cor, 13, 1-13). Mas para que se deixasse
transmutar por algo tão arrebatador, fora preciso que antes
caísse do desembestado cavalo de sua arrogância; finalmente,
com seu ego ao rés do chão aprendeu concretamente
que a dimensão espiritual nos iguala a todos em nossas condições
humanas, que ninguém é melhor que ninguém.
E Saulo, para reiterar a transformação sofrida, houve
por bem alterar seu nome de origem hebraica (Saul) para outro de
raiz latina que lhe fosse consoante: e escolheu Paulo, que se traduz
por “o pequeno”, a designar que um dos mais brilhantes
gigantes que a humanidade conheceu preferiu manter-se humilde diante
de Deus.
Poderíamos citar outros avatares, mestres
espirituais em diversas religiões que fazem jus à
altura de Paulo de Tarso. Entretanto, não percamos o critério
colocando Jesus entre os gigantes, pois ainda que este tenha vindo
ao mundo dotado de uma estatura razoavelmente alta, 1,82m (assim
nos atesta o Sudário), seria um erro querer encontrar referência
de tamanho entre os homens a fim de comparar um ser cuja natureza,
essencialmente, é divina.
A propósito, os gigantes nunca foram deuses.
Jamais virão a sê-lo. Mitologicamente, são seres
descomunais gerados por Géia, com a incumbência de
vingarem os seus filhos Titãs, que haviam sido atirados por
Zeus para sempre nas malditas profundezas do Tártaro. As
mitografias divergem entre si, mas é consenso da maioria
que os gigantes fossem treze: Alcioneu, Porfírio, Efialtes,
Eurito, Clício, Mimas, Encélado, Palas, Polibotes,
Hipólito, Grátion, Ágrio e Toas. Seres ctônicos,
os gigantes representam os instintos mais primitivos que trazemos
desde o tempo em que o caos desafiava a ordem, e se fazem perceber
por forças telúricas portentosas de destruição
como os terremotos, maremotos, furacões, etc... Embora de
origem divina, os gigantes são seres mortais, ainda que seja
extremamente difícil derrotá-los. De espessa cabeleira,
barbudos e hirsutos, trazendo preso às pernas cachos e cachos
de serpentes, os gigantes logo que surgem começam a atirar
árvores em chamas pelo céu e a fazer chover rochedos
por todos os lados, em franco ataque de destruição
desordenada. Inicialmente, Zeus passa a enfrentá-los com
seus raios, e Palas Atena vem ajudá-lo na tarefa, lutando
com a lança e a égide, mas, diante da intrepidez da
dupla, os gigantes resistem furiosamente. Outros deuses olímpicos
engrossam o combate, mas os gigantes continuam levando vantagem
e causando convulsivas desgraças por todo o planeta. Consultando
o oráculo os deuses descobrem que só poderiam derrotar
esses monstros se o fizessem auxiliados sempre por um mortal. E
é assim que Zeus fulmina Porfírio quando este estava
prestes a violentar sua esposa Hera, mas requer de Héracles
(antes que o herói se imortalizasse) que o abata definitivamente
no solo. Héracles ajuda ainda Atena a matar Alcioneu, levando
seu corpo moribundo para expirar longe de Palene, região
em que o gigante nascera, posto que em contato com o solo de origem
a bruta besta recobrava suas forças. É Héracles
também quem fere Efialtes mortalmente, cravando uma flecha
em seu olho esquerdo, após Apolo ter perfurado com outra
o olho direito do inimigo. Dioniso derrota Eurito, auxiliado pelos
sátiros; Hermes, Posêidon, Hefesto, Ártemis,
Hécate e as Moiras acabam por exterminar os outros todos,
sempre em ato conjugado com seres humanos ou mortais, a quem os
deuses se vêem obrigados a deixar que dêem o derradeiro
golpe de misericórdia.
Nisso está implícito um conceito
nuclear: Deus tem necessidade do homem. Embora seja a vida resultado
de um ato de Criação, ela, a vida, requer da criatura
sempre um ato consciente em prol de sua evolução perene,
e isso se faz através do auto-aperfeiçoamento humano,
cujo caminho não é outro senão o da espiritualização
crescente. Isto é, para lidar com seus aspectos irracionais,
com seus instintos intempestivos, também para romper padrões
de heranças neuróticas ancestrais, é preciso
que o homem se comprometa arduamente com sua vida e se entregue
o mais humanamente possível à missão de conscientemente
lutar contra forças regressivas e involutivas que nos são
imanentes. Ou seja, não devemos esperar que tudo nos caia
do alto, que os deuses estejam sempre realizando no plano cósmico
aquilo que estritamente é nossa obrigação.
O arquétipo presente no mito dos gigantes pede como compensação
o heroísmo humano, é um convite para que arregacemos
as mangas e façamos com brio a parte que nos cabe. Os gigantes
simbolizam, nesse sentido, todos os obstáculos que um homem
deve vencer para assumir a própria altura e, a partir disso,
tornar desperta a consciência.
Por isso vale mais tomar cuidado com os homens pequenos
gigantes, pois deles é que se espera maior crescimento;
são esses os que realmente podem atingir com sua grandeza
os padrões arcaicos coletivos que sob os nomes de culpa e
sofrimento pesam sobre a alma da humanidade, para então saneá-los
mediante a conduta limpa de suas vidas. Vencer os gigantes é
também superar forças trevosas egóicas e subegóicas
nossas ou daqueles que querem, por falta de luz própria,
nos controlar. Nesse sentido o que vale é fazer como Davi
que derrotou Golias com agilidade e esperteza: o homem estará
livre do jogo dos outros tão logo se liberte, primeiro, interiormente.
Só assim poderá crescer e assumir-se pleno na espiritualidade.
Sim, não resta dúvida: é importante
ser pequeno, desde que o sejamos com grandeza! Inspiremo-nos no
mar, que é imenso e profundo, pois sabe melhor que ninguém
ser humilde; colocando-se ao nível do chão, recebe
todos os rios que o tornam soberano. 
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