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- Santos Dumont -
O Brasil voou primeiro
Por Paulo Urban
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Difícil acreditar que ainda hoje se discuta
se foi Alberto Santos Dumont (1873-1932) ou os irmãos Wright
quem voou primeiro. Mas como a mentira tem asas curtas, Wilbur Wright
(1867-1912) e Orville Wright (1871-1948), estão cada vez
mais sendo deixados a rés do chão, à altura
da lama que espalharam sobre o nome de Dumont. E conforme os anos
passam a limpo os fatos, a verdade brilha alta e prevalece.
Outubro é um mês particularmente importante
na vida de Dumont. Foi em 19 de outubro de 1901 que o brasileiro
conquistou o Prêmio Deutsch, em Paris, diante de milhares
de pessoas. O aeronauta levantou vôo de Saint-Cloud em seu
dirigível fusiforme Nº VI, rumou em direção
à Torre Eiffel e, após contorná-la, retornou
ao ponto de partida dentro da apertada marca de 30 minutos, estipulada
pela prova. Estava decididamente provada a governabilidade dos balões,
que até então eram estruturas esféricas que
somente rumavam ao sabor do vento.
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E
foi em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, que a humanidade
assistiu pela primeira vez ao vôo controlado de um aeroplano mais
pesado que o ar, o XIV-Bis, que se ergueu do solo por meios próprios,
à custa de um motor a explosão de 24HP, voou a distância
de 60 metros e aterrissou incólume. Dumont conquistava assim a
Taça Archdeacon, que exigia um vôo de 25 metros.
O inventor repetiria o feito aos 12 de novembro, voando 220m em 21seg
e a 6m de altura, com um motor de 50HP. Quebrando o próprio recorde,
Dumont conquistou o Prêmio Aeroclub de France, cujo desafio
era um vôo de 100m.
Mas são três as raízes históricas
da fantasiosa crença, hoje globalmente espalhada, que atribui o
primeiro vôo de um “mais pesado que o ar” aos irmãos
Wright: 1º) o mau-caratismo de que ambos eram dotados; 2º) a
hipocrisia da imprensa francesa que, no começo do século
XX, era algo pior do que são hoje os tablóides sensacionalistas
ingleses e, 3º) a propaganda militar dos Estados Unidos feita durante
a II Grande Guerra, de modo a fazer o povo confiar em sua Força
Aérea, que inicialmente sofria reiteradas derrotas diante da muito
mais desenvolvida Luftwaffe, a Força Aérea Alemã.
Registre-se aqui o antigo dito romano: “seja qual for a guerra,
a primeira vítima é sempre a verdade”.
Vale lembrar: até quase a metade do século
XX, os Estados Unidos creditavam a Santos Dumont o pioneirismo da aviação.
Uma das várias provas disso está no Bulletin of the
Pan American Union, publicação do Aeroclube da América
do Norte, referente aos anais do II Congresso Científico Pan-Americano
(Washington, 1915), que confere ao brasileiro o mérito pela conquista
do ar. Inclusive, uma das propostas do Congresso era a criação
da Federação Aeronáutica do Hemisfério Ocidental,
plano que não vingou, mas para cuja presidência indicava-se
Santos Dumont. Curiosamente, os Wright não são sequer lembrados.
Também a National Aeronautics, periódico
da “The National Aeronautic Association”, de Washington, em
dezembro de 1939, ao relacionar os recordes aeronáuticos, aponta
Dumont como o primeiro homem a voar em 1906, e informa que os Wright repetiram
a façanha em 1908.
Foi, pois, com surpresa que Santos Dumont recebeu em
fins de 1908 a notícia de que Wilbur Wright, recém-chegado
à Cidade Luz, alardeava ter sido ele e seu irmão os primeiros
a voar num “mais pesado que o ar”, em dezembro de 1903, em
Kitty Hawk, Carolina do Norte. Mais pasmo ficou o brasileiro com a imprensa
francesa; ela, que fora testemunha ocular de todas as suas gradativas
conquistas aeronáuticas realizadas em Paris (desde o seu primeiro
balão de 1898 até os vôos de seu XIV-Bis), preferiu
dar crédito àquela voz infame, cuja intenção
não era outra senão a de vender por 50 mil dólares
in cash o protótipo de seu Flyer ao governo francês.
Wilbur declarava que ele e seu irmão haviam feito
ao longo de 1902 mais de 700 vôos bem sucedidos! A cifra é
por si só absurda. Ora, nem Santos Dumont, que dedicara seus últimos
dez anos à pesquisa aérea poderia ter cumprido tal marca.
Seriam pelo menos dois vôos por dia, todos os dias...
Mas a imprensa adorou dar pano à manga, disposta
que estava a desentalar o incômodo de ter sido um brasileiro, e
não um francês, o pioneiro dos ares. Diante da preciosa chance
de perturbar aquele herói estrangeiro, sobre quem recaía
tanto a admiração quanto a inveja de muitos, os jornais
espalharam a cínica declaração de Wilbur, que nenhuma
comprovação trazia do que falava, senão a arrogância
das próprias palavras. Reabriu-se assim a temporada de caça
pelo pioneirismo do vôo.
O ambiente em Paris ficou tão tumultuado com a
bombástica que até mesmo o milionário Clément
Ader (1841-1925), aeronauta francês, fez levantar a questão
de que era ele quem, antes de Dumont e dos Wright, havia voado numa máquina
a motor, mais pesada que o ar, à qual batizara de Avion, em 14
de outubro de 1897, no Campo de Sartory.
Devido à brecha, Ader conseguiu ainda que o octagenário
general Mensier (1829-1917), ex-ministro da guerra, viesse a público
dizer que “vira nitidamente o Avion deixar o solo e voar por 200
metros”, atestando assim a sua primazia. Mas a balela não
vingou. Vasculhados os relatórios do ocorrido, a história
era outra. Estava lá o parecer escrito pelas mãos do próprio
Mensier, de 21 de outubro de 1897, pelo qual se determinava a suspensão
total de subsídios governamentais ao aeronauta, uma vez que seu
Avion não havia sequer se erguido do solo. O documento
trazia ainda as assinaturas de dois oficiais militares e dois engenheiros
da Escola Politécnica de Paris.
Mas a França colheu do estardalhaço tudo
aquilo que desejava e, oficialmente, considera até hoje Clément
Ader o “Pai da Aviação”, em que pese a prova
de que o Avion não voara em 1897. Mas se no caso de Ader
havia provas documentais de que ele não voara antes de Dumont,
o que dizer dos que aceitam que sejam os Wright os pioneiros do vôo,
só porque assim o declararam, sem prova alguma que os abone?
Convém citar que os Wright, antes de serem bicicleteiros
em Dayton, Ohio, eram editores durante a penúltima década
do séc. XIX, de um inexpressivo jornal sensacionalista que, por
sinal, foi à falência. De onde se depreende a inclinação
de ambos para o exercício da mentira como profissão.
Os Wright contam que só se interessaram pela aviação
quando ouviram falar da morte de Otto Lilienthal (1848-1896), inventor
do aeroplano com asas em arco, em 1877, que, lançado por catapulta
do alto das montanhas, viajava cerca de 40 metros para cada metro de altura
perdida. Lilienthal publicara em 1889 seu Der Vogelflug als Grundlage
der Fliegerkunst (O Vôo dos Pássaros Como Base da Aviação),
obra que foi considerada uma “bíblia” sobre o vôo.
O alemão chegou a construir 18 planadores entre 1891 e 1895, mas
morreu justamente quando tentou voar num planador acionado por catapulta
que deveria ter-se sustentado por meio de um motor a CO2. Com a falha
do maquinário, o aparelho caiu. Em 10 de agosto de 1896, dia seguinte
ao acidente, o piloto teria dito sua frase derradeira: “É
preciso fazer sacrifícios”.
Segundo nos contam os Wright, após terem voado
na suposta data de 17 de dezembro de 1903, diante de cinco testemunhas,
teriam telegrafado ao pai relatando seu sucesso. Incrível que esse
telegrama venha a ser, na biografia dos Wright, o único elemento
presumivelmente datado, pelo qual alegam ter sido os primeiros a conquistar
o céu. Uma prova tão frágil como fácil de
se forjar; pitoresco retrato da “cara-de-pau” de que eram
dotados! Não é de estranhar que um feito dessa proporção,
cujas conseqüências rompem paradigmas milenares da humanidade,
desfraldando nosso futuro caminho tecnológico, tenha sido por eles
tratado de forma anônima e intimista, no estrito âmbito familiar?
Duro crer que a comunidade científica internacional possa considerar
esse relato anedótico, confrontado aos vôos públicos
de Dumont, realizados diante de multidões e sempre na presença
de Comissões Fiscalizadoras competentes para oficializar seus feitos.
Vale dizer também que o motor de 12HP dos Wright
fora construído pelo mecânico Charles Taylor, já que
os melhores conhecimentos de Orville e Wilbur não passavam da complexidade
técnica de uma bicicleta. E pesemos que nenhuma indústria
de motores, emergentes àquela época, quis dar à dupla
qualquer apoio. Ora, tais indústrias não teriam interesse
em financiar tais pesquisas, caso fossem notórios seus testes quanto
à dirigibilidade aérea?
O que se sabe é que os Wright chegaram a convocar
a imprensa de Dayton para que assistisse a uma de suas tentativas de vôo,
em 22 de abril de 1904, rara ocasião em que puderam ser vistos
operando seu Flyer. Um fiasco! Às tantas, frustrando os
presentes, Wilbur anunciou que não iriam mais tentar voar. Explicou
Orville, o piloto: “não havia vento o bastante para um vôo
naquele dia”. Mais uma prova de que nem mesmo em 1904 possuíam
tecnologia alguma que lhes possibilitasse sair do chão por meios
próprios, já que dependiam até do vento para ajudá-los
nesse intento.
Santos Dumont, por sua vez, em seus consagrados vôos
de 1906, alçava-se a partir do chão, sem o ridículo
auxílio de uma catapulta e preferencialmente optava por fazê-lo
“contra” o vento, que nunca lhe foi obstáculo.
Em que pese o vexame de Dayton, os Wright afirmam que
seguiram em seus projetos voando regularmente no biênio de 1904/05.
Declaram que seus vôos subseqüentes ao de Kitty Hawk foram
“às vezes” acompanhados pela imprensa local. Ora, onde
estão essas notícias e suas respectivas fotos? Insólito
imaginar que os jornais tenham preferido o silêncio a publicar suas
reportagens.
Lembremos ainda que o famoso Gordon Bennet, proprietário
do New York Herald, embora vivesse nos E.U.A., mantinha diuturnamente
um de seus correspondentes na oficina de Dumont. Pois então, na
mesma época estariam os Wright descrevendo círculos no céu
sem que ninguém da imprensa local disso se ocupasse?
A propósito,
tão logo o citado jornal publicou as fotos do XIV-Bis em seus vôos
de 1906, Wilbur imediatamente enviou uma estranha carta ao capitão
Ferber, seu empresário francês, responsável por tentar
vender o Flyer ao Ministério da Guerra francês. Ele diz:
“... Já tivemos a oportunidade de ver numa gravura do New
York Herald que o aeroplano repousa na terra sobre três rodas, e
deduzimos então que se faz necessário a Santos Dumont uma
corrida prévia para decolagem, isto realizado sobre um campo extenso
e bem uniforme. Com a catapulta de lançamento que empregamos, Orville
e eu saltamos diretamente no ar, com a velocidade adequada, de uma forma
mais prática”. Meu Deus?! Onde estamos? Wilbur tem a
pachorra de se achar um gênio! Basta ver como é que decolam
e aterrissam os aviões de hoje, para cujas rodas (equipamento ainda
fundamental) continua sendo necessária uma pista uniforme, perfeitamente
lisa, de preferência.
Outra prova documental está numa carta patente
que os Wright requisitaram em 1904, na Inglaterra, de um planador simples,
sem motor. Ora, se houvessem de fato voado em Kitty Hawk, em 1903, por
qual razão patenteariam algo assim, ultrapassado? Também
a Exposição Universal de Saint-Louis (E.U.A.), realizada
em 1904, oferecia um prêmio de 50 mil dólares a quem voasse
num “mais pesado que o ar”. Ora, por que os Wright teriam
esperado pelo ano de 1908 para tentar vender seu modelo na França
se poderiam tê-lo feito em seu próprio país nessa
ocasião? Fica evidente: eles não sabiam voar em 1903.
Ainda que o suposto vôo dos Wright tenha ocorrido, em nada alteraria
a condição de Santos Dumont ser o pioneiro dos ares, já
que a dupla se valia de uma catapulta de mais de 700 Kg, batizada de Pylon,
que caía feito estaca sobre um fole para arremessar por um trilho
inclinado o planador, cujas hélices eram previamente postas em
ação. Ou seja: o Flyer não subia aos ares
sozinho; jamais venceu por meios próprios a aceleração
da gravidade. Era preciso ser lançado em balística por impulso
mecânico externo ao aparelho, isso para cair um pouco mais adiante,
já que seu motor de 4 cilindros e 12HP não era capaz nem
de levantar nem de manter no ar aquela estrutura, um biplano de dupla
hélice, com 110 kg, fora o peso do piloto.
Se tivéssemos que admitir a infâmia que voar por meio de
uma catapulta seja o critério para estabelecer o que é conquistar
os ares, então deveríamos dar esse mérito a Otto
Lilienthal. Nem aí caberia aos Wright o reconhecimento.
Resta claro: somente a partir do sucesso alcançado pelo brasileiro
em 1906, foi que os Wright puderam aperfeiçoar dia a dia e rapidamente
seu aeroplano, até torná-lo em fins de 1908, superior aos
outros modelos de sua época. Uma vez colocado por Dumont o “ovo
em pé”, melhorar o avião passou a ser uma mera questão
técnica. Como os Wright dispunham-se a fazer dinheiro, valeram-se
da vileza do mundo dos negócios para declarar que eram os tais
que haviam solucionado há anos a questão nuclear de toda
a aeronáutica! E a imprensa francesa, não inocentemente,
comprou a idéia. Explicado o mal-entendido, que cada brasileiro
ou cidadão do mundo saiba muito bem a quem dar a glória
do invento do avião.
O
que há para ler:
1. Santos Dumont, Bandeirante dos Ares e das Eras, Paulo Urban & Homero
Pimentel. ed. Madras, 2006.
2. As Lutas, a Glória e o Martírio de Santos Dumont, Fernando
Jorge, T.A. Queiroz, editor, 2003.
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Em 17 de dezembro de 2003, nas comemorações do Centenário
da Aviação, nos E.U.A., numa praia da Carolina do
Norte, 30 mil pessoas esperavam debaixo de chuva pela reconstituição
do alegado vôo dos Wright feito em Kitty Hawk, a ser realizado
por uma réplica do aeroplano fabricado em Dayton, em madeira
e tecido. O presidente George Bush discursou: -- “A invenção
dos Wright pertence ao mundo, mas os irmãos Wright pertencem
aos Estados Unidos!”. Estavam presentes os astronautas Neil
Armstrong, primeiro homem a pisar na Lua, e John Glenn Jr., que
teve a prerrogativa de subir ao espaço duas vezes, a primeira
em 1962.
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O
que há para ler:
1. Santos Dumont, Bandeirante
dos Ares e das Eras, Paulo Urban &
Homero Pimentel. ed. Madras, 2006.
2. As Lutas, a Glória
e o Martírio de Santos Dumont, Fernando
Jorge, T.A. Queiroz, editor, 2003. |
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| O
Flyer teve seus motores acionados, dessa vez até
mais possantes que o supostamente usado em 1903. Assim mesmo custou
para que as hélices funcionassem. E o evento transformou-se
num vexame. O Flyer nem sequer levantou vôo. Após
deslizar pela plataforma de partida, literalmente desmoronou com
piloto e tudo numa poça de lama.
No Brasil, Danillo Fuchs, cel. aviador da FAB, também comandante
de linhas comerciais, construiu uma perfeita réplica do XIV-Bis
com os materiais originais de que se valeu Dumont ao concebê-lo.
Com ele já descreveu vários vôos, desde 1989.
Embora a réplica seja algo mais pesada que o aeroplano original
de 1906, o avião parte do solo movido por um motor de 48
HP, dois cavalos a menos que o do XIV-Bis.
O
Flyer teve seus motores acionados, dessa vez até
mais possantes que o supostamente usado em 1903. Assim mesmo custou
para que as hélices funcionassem. E o evento transformou-se
num vexame. O Flyer nem sequer levantou vôo. Após
deslizar pela plataforma de partida, literalmente desmoronou com
piloto e tudo numa poça de lama.
No Brasil,
Danillo Fuchs, cel. aviador da FAB, também comandante de
linhas comerciais, construiu uma perfeita réplica do XIV-Bis
com os materiais originais de que se valeu Dumont ao concebê-lo.
Com ele já descreveu vários vôos, desde 1989.
Embora a réplica seja algo mais pesada que o aeroplano original
de 1906, o avião parte do solo movido por um motor de 48
HP, dois cavalos a menos que o do XIV-Bis.
Mesma façanha foi realizada pelo empresário Alan Calassa,
aficionado por Dumont, que construiu artesanalmente uma perfeita
réplica do XIV-Bis, em tecido e com aros de bambu
e alumínio. Calassa voou em 14 de abril deste ano sobre Caldas
Nova, em Goiás. Claro, não foi preciso nenhuma catapulta.
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Paulo
Urban é médico psiquiatra e psicoterapeuta do Encantamento
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