|
|
Re(des)velando
Mandalas
Por Paulo Urban - Continuação
(2)
ilustrações
com mandalas de Monica Facó
|
|
A
tradição alquímica propõe que os filósofos,
mediante a Pedra Filosofal, ou por meio do Elixir da Longa
Vida, atinjam o fulcro do derradeiro mistério oculto na
quadratura do círculo. Metaforicamente, "quadrar"
o círculo é fazer caber no plano humano (o quadrado)
toda a dimensão divina (o círculo).
Muito antes dos alquimistas medievais terem nascido, os Pitagóricos
(séc. VI a.C.), herdeiros dos ritos órficos, viam
na Tetrakys, ou Tétrade Sagrada, a base de sua doutrina
que faz do 10 um número perfeito, resultado da soma do
quatérnio básico (1+2+3+4=10) do qual emana toda
e qualquer forma vivente. "O Universo é número",
dizia o Mestre, que valorizava o 4 como alicerce da vida, e o
3 como a própria divindade. De seu produto (3X4) obtinha-se
o número que revelava a totalidade deste acerto entre homens
e deus: 12 é o número do Todo.
|
|
Metaforicamente, "quadrar" o círculo
é fazer caber no plano humano
(o quadrado)
toda a dimensão divina (o círculo).
|
|
Carl
Gustav Jung (1875-1961), psiquiatra suíço, idealizador
da "Psicologia Analítica", viu nas mandalas o melhor
dos exemplos figurativos daquilo que ocorre em toda a dinâmica
psíquica, cuja essência última resta sempre incapturável.
Inspirado na citada máxima de Nicolau de Cusa, Jung chamou
de Selbst o centro organizador da psique, espécie de núcleo
atômico psíquico. Traduzido para o inglês por Self,
o termo encontra em Português expressão que muito melhor
o representa, o Si Mesmo. A rigor, na psicologia junguiana, tal
instância é o ponto central de todo o psiquismo, mas também
sua esfera inteira, a abranger o mundo inconsciente bem como o consciente.
O ego aqui é mero centro funcional de nossa consciência,
a mesma que nos permite dar conta de nossa individualidade.

Monica
Facó
|
Como todo arquétipo, o si mesmo é essencialmente
incognoscível. Dele sabemos apenas empiricamente e por
vias indiretas. São nossos sonhos que nos contam de sua
existência, e o percebemos nos mitos e contos de fada sempre
disfarçado por detrás dos símbolos da totalidade,
como o são, dentre outros, o círculo, a cruz e o
quadrado; ou por meio de contrastes que expressem a coniunctio
opositorum, isto é, a União dos Opostos que
também se complementam, como é o caso do dia e da
noite, do bem e do mal, Yang e Yin.
|
Às
vezes, o si mesmo se esconde por detrás de
personagens que dinamicamente se encarregam de desenvolver toda uma
trama dialética, como ocorre com as duplas Fausto e Mefistófeles,
Dom Quixote e Sancho Pança, Peter Pan e o Capitão Gancho,
etc... Em outras ocasiões, o si mesmo está
no personagem axial desses enredos mágicos, quer na figura de
um rei, de um profeta, ou projetado sobre um avatar ou mesmo num herói
qualquer que, enredado em sua missão lendária, busca vencer
obstáculos intransponíveis pelos seres comuns, mediante
o que ele reorganiza e salva o mundo onde vive seu drama. Citemos os
12 Trabalhos de Héracles; neste mito grego arcaico, o herói
resgata a totalidade do arquétipo ao completar o último
dos trabalhos, com o que transcende sua natureza humana, recolocando-se
junto dos imortais. O 12, para Pitágoras, assim como o 4, melhor
expressam a idéia de inteireza. Haja vista serem 12 os signos
do zodíaco, os meses do ano, o número dos apóstolos
do Cristo, as notas musicais (tons e semitons), as horas do dia e da
noite, os deuses do Olimpo (seis masculinos e seis femininos) etc...
O 4, da mesma forma revela a totalidade; são 4 as estações
do ano, os elementos da natureza (água, fogo, terra e ar), os
pontos cardeais etc... Também o 8, eqüidistante entre 4
e 12, é número mandálico, e reforça a idéia
de justa proporção. As mandalas expressam a plenitude
também pelas subdivisões de seu espaço interno
que respeitam o quatérnio fundamental por meio de seus múltiplos.
Mandalas orientais, entretanto, muitas vezes subdividem-se em 64 partes
(8X8), que é o total de hexagramas do I Ching, ou mesmo
em 81 partes, resultado da multiplicação do 9 por si mesmo,
número perfeito para os taoístas, por sua vez produto
de 3X3. Os chineses, milenarmente, entendem que o 1 seja o céu,
2 a terra, e 3 o homem; a partir do que todas as dez mil coisas são
geradas. Não é por acaso que o Tao Te King, livro
sagrado taoísta, acha-se subdividido em 81 aforismos, a fazer
do texto propriamente uma mandala aberta para ser lida e aplicada à
vida.
Através dos séculos, a humanidade sempre se mostrou
mais ou menos consciente acerca da existência do si mesmo.
Entre os egípcios há o conceito Ba como instância
além da alma comum, correspondente ao daimon dos gregos, aspecto
que Sócrates admitia aconselhá-lo sempre, em suas horas
mais difíceis. Em sociedades e culturas primitivas, a idéia
está incutida ora num espírito protetor da natureza, ora
sobre a imagem de algum animal, ou num sábio antepassado cuja
função, depois de morto, é a de orientar sua tribo.
Segundo Jung, há duas razões principais pelas quais
podemos perder contato com o si mesmo que nos regula e nos tempera,
o que compromete a distribuição homogênea e espontânea
da energia anímica por toda a mandala de um psiquismo saudável.
O
primeiro obstáculo surge sempre que nos vemos tomados por
impulsos instintivos emocionalmente fortes, que nos levam a reagir visceralmente.
Até os animais comportam-se assim, quando, por exemplo, excitados
sexualmente, esquecem-se até da fome, ou descuidam-se de suas
defesas, em detrimento da conduta habitualmente tomada para sua segurança.
São inúmeros os povos indígenas em que situações
de perturbação mental, associadas ou não às
doenças físicas, são interpretadas pelos xamãs
como um quadro de "perda da alma"; nada mais, segundo a psicologia
analítica, que o resultado da unilateralidade do funcionamento
psíquico, capaz de condensar demasiada energia em torno deste
ou daquele aspecto num processo neurótico e gerador de complexos.
O segundo empecilho é propriamente uma condição
oposta à primeira; advém da cristalização
excessiva do ego que adora se prender ao mundo da realidade objetiva
e esquecer-se de todo o resto, dificultando a percepção
dos estímulos inconscientes provenientes do centro psíquico
interior. Claro, precisamos de um ego conscientemente voltado às
tarefas habituais da vida, mas que seja bem disciplinado, que nos leve
às realizações pessoais sem cair no abismo de julgar
que só a realidade objetiva possa locupletar as necessidades
da alma. Por esta razão, muitas vezes acordamos ungidos pela
benção de certos sonhos significativos, cuja função
é a de restaurar a receptividade cotidianamente perdida, e restabelecer
o diálogo necessário entre a consciência e o mundo
psíquico mais profundo. Sempre que nos privamos prolongadamente
deste intercâmbio entre o ego e o Si Mesmo, ainda que não
o percebamos, adoecemos; e o surgimento de sintomas neuróticos
ou psicóticos, mesmo doenças orgânicas das mais
simples às incuráveis, passa a ser mera questão
de tempo.
|
Jung elegeu
a mandala por excelência adequada para simbolizar o
psiquismo; isto porque nas representações mitológicas
do Si Mesmo está presente, quase sem exceções,
a estrutura quaternária como arcabouço nuclear da
alma. Mandalas multiplicam-se pelo mundo. Todas os povos do Planeta,
por todas as épocas e lugares, expressam-nas em sua arte,
bem como nos enredos de seus mitos.
No Oriente, mandalas são usadas para recompor o
ego diante da majestade do Eu interior. A contemplação
destas imagens homogêneas, organizadas em torno de um centro,
por analogia tende a facilitar a emergência de processos
inconscientes, capazes de permear de paz interior a mente que
deseja vislumbrar a ordem subjacente no Cosmos, ou que queira
abstrair da contemplação algum significado para
a existência ou para o milagre da vida.
|

Monica
Facó
|
Mandalas
multiplicam-se pelo mundo. Todos os povos do Planeta,
por todas as épocas e lugares, expressam-nas em
sua arte, bem como nos enredos de seus mitos.
|
|
Nas
paisagens de nossos sonhos, nas visões proféticas,
nos contos de fadas, a estrutura mandálica está sempre
presente. Há exemplos por toda a parte. Nossa Via Láctea,
galáxia espiralada com dois braços que se evolvem a partir
de um núcleo, é uma assombrosa mandala. O Sistema Solar
é núcleo da mandala que o circunda de Planetas; de mesmo
modo, életrons viajam a 960 km/s "presos" a uma esfera
mandálica imaginária atômica. Nossos olhos, globos
mandálicos, enxergam o mundo por uma lente mandálica cristalina
ovalada, coberta pela colorida e radiada mandala da íris. O Planeta,
aparentemente esférico, é mandala que orbita. O cérebro,
composto por dois hemisférios mandálicos, com partes anterior
e posterior, mantém o padrão. O mesmo podemos dizer do
coração humano, palácio da alma descrito em quatro
câmaras. Os pássaros costumam fazer ninhos circulares,
e as aranhas tecem mandalas de extraordinário requinte nos cantos
das cavernas.
Mandalas estão abundantemente representadas no Ocidente
principalmente desde a Idade Média, e as rosáceas dos
vitrais das Catedrais de Chartres e Notredame são mandalas translúcidas
inspiradoras da paz interior que deve estar presente nos campos religiosos
da mente. Aliás, todas as cruzes, religiosas ou não, incluindo
a suástica, são mandalas; a Estrela de Davi com seis pontas
idem, reforçando o mistério do cruzamento divino e humano
pelo entrelaçado de seus dois triângulos equiláteros.
Os tabuleiros dos milenares jogos esotéricos, xadrez, go, damas,
gamão, etc.. são espaços mandálicos sobre
os quais se reproduz o simulacro da dança da vida. Cartas de
baralho são igualmente mandalas; no Tarô, acha-se delineada
em todos os arcanos, ressaltada nos maiores, principalmente no Mago,
na Justiça, na Roda da Vida, no Enforcado, na Temperança,
na Estrela (onde pela primeira vez surgem juntos os 4 elementos), no
Julgamento e no Mundo. Na abóbada celeste, projetamos a mandala
zodiacal. Nos mitos, as mandalas do destino humano. Um deles, o de Hermes,
conta-nos que em torno de seu caduceu estão duas serpentes abraçadas,
uma com função psicopômpica, a de acompanhar as
almas em sua viagem ao Reino de Hades, mundo dos mortos; a outra com
função psicagógica, a de reconduzir as almas mortas
à luz da vida, quando devem renascer. Mandalas fazem isto: propiciam
iluminação às mentes que diante delas silenciam
e a partir da pacificação dos indivíduos comuns,
proporcionam paz ao mundo, tão carente desta dádiva. 
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento
e acupunturista.
Comentários:
fale com Paulo Urban
Este
artigo não pode ser publicado ou distribuído sem
autorização escrita do autor
ou citado sem referência ao mesmo. Todos os direitos reservados.
|
|
Arte
das Mandalas: Monica Facó - Todos os direitos reservados
|
|