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Re(des)velando Mandalas
Por Paulo Urban

Publicado na Revista Planeta nº 352 / janeiro 2002
Ilustrações com mandalas de Monica Facó



MANDALA é termo sânscrito: traduz-se por círculo mágico. Mas seu conceito expressa, na tradição hindu, muito mais do que as palavras que possam defini-lo.

O Au
rélio aceita o termo, registra-o como substantivo feminino, e o explica como imagem do mundo e instrumento para a meditação. Em seu estado original a palavra é oxítona de gênero masculino, pronunciada abertamente: man-da-lá. Não somente designa um mantra, mas o vivifica por ser ela própria o movimento.


Monica Facó

Mantras são sons vocálicos que, puros ou combinados, são passados dos mestres aos discípulos. Costumam ser verbalizações secretas de poder, transmitidas como fórmulas rituais particulares, usadas para fins iniciáticos; mas há mantras de domínio geral, aplicados à coletividade, especialmente devotados ao despertar psíquico, ou proferidos em prol da paz ou saúde do Planeta.

Quando escritos, os mantras assumem a forma de seu equivalente gráfico, os Iantras, figurações que tendem à simetria geométrica e que se comportam também como raízes gráficas (ditas Mula-Iantras) dos diferentes mantras e demais termos que deles se derivam. Os Iantras nada mais são que o suporte, o arcabouço linear dos mantras. Mas estão muito além do correlato conjunto de letras que se combinam para criar vocábulos nos idiomas ocidentais, já que o hinduísmo considera que as palavras tenham vida, que toda vogal seja extensão das notas musicais da voz divina. Os mantras, portanto, são a alma dos iantras, o espírito por detrás da matéria que o Verbo cria e denomina.

Curiosamente, o eco mântrico repercute e sofre desvios a provar seu movimento. Em nossa língua, por exemplo, Mandala é termo paroxítono. Os fonemas dançam a dança de Shiva e o Ocidente perpetua a vibração cósmica, repetindo-a sob nova forma, a revelar-nos uma segunda verdade: o Verbo pede complemento. Por isso, sobre o altar do paradoxo, decantado está o véu de Ísis, síntese de naturezas opostas que se completam mutuamente. Ainda que possível seja distingui-las, impossível é separá-las.

Yin e Yang dos chineses igualmente expressam este arquétipo primitivo a simbolizar a tensão primordial da vida, a mesma que Freud (1856-1939) identifica no psiquismo, conforme sua teoria das pulsões, em cujo cerne está a antinomia arcaica, a disputa entre os instintos de vida e de morte. Certamente, o pai da psicanálise era amante das idéias de Empédocles (séc. V a.C.) para quem o Universo era resultado do conflito entre Amor e Luta, que permanentemente gera tensão, a mesma que precisamos impor ao arco para atirar a flecha em seu certeiro movimento parabólico.

  
Representações mandálicas são sublimes;
suas formas representam a combinação perfeita entre os mantras e seus respectivos iantras.

 

Representações mandálicas são sublimes; suas formas representam a combinação perfeita entre os mantras e seus respectivos iantras. No tantrismo, prestam-se à meditação; comumente as vemos pintadas ou riscadas no chão, feitas de sementes ou grãos de areia, usadas para delimitar locais sagrados, como o altar dos templos, ou áreas destinadas a procedimentos ritualísticos específicos.

Assim como o fogo, as mandalas têm ainda a propriedade de nos prender a atenção, de nos convidar à introspecção, à percepção de seus aspectos, de seu arranjo harmônico que se distribui num quatérnio espacial.

Tal como a água, deleitam-nos a ponto de nos fazer tranqüilos, propiciando à mente que se distancie dos problemas imediatos, induzindo-a ao exercício da contemplação. Efeito semelhante ocorre quando observamos peixes num aquário em seu vai-vem constante, em sua dança circular que nos acalma.

Mandalas são, portanto, todas as formas que nos permitem penetrar no jogo das vibrações que constituem o Universo. São portas quânticas para outros níveis de consciência, verdadeiras bases de lançamento de nossas naves Enterprises, no seio das quais viajamos a lugares onde nenhum homem jamais esteve.

As mandalas selam o sacramento de nossa união com o Cosmos. São veículos para o religamento de nossa consciência com a fonte absoluta de onde provimos. Na tradição tibetana, são guias imaginários e provisórios da alma; orientam-nos em nossa prática meditativa e transmitem o equilíbrio com que se distribui a essência divina, cuja ubiqüidade jamais permite que a capturemos em nossas mãos. Concordante é o pensamento do filósofo medieval Nicolau de Cusa (1400-1464): "Deus é uma esfera cujo centro está por toda parte embora suas circunferências não O delimitem em parte alguma".


Monica Facó

O círculo é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais. Comecemos pelo ponto, virtualidade sem a qual o mundo inteiro não estaria manifesto; de sua natureza se estende a cruz, segundo elemento que, ao girar sobre si mesma, produz o círculo. Este, por ser perfeito, sem começo, meio ou fim, diz respeito ao mundo divino, ou à imagem de Deus quando quer que O representemos pelo Oroboro, ou a cobra que morde o próprio rabo, a simbolizar a vida que, perenemente, se devora e se transforma. Do círculo divino, forma absoluta, fechada em si, emana o quadrado, o quarto dos símbolos primordiais, a representar a Terra e todas as criaturas.

Ancorado sobre seus 4 lados, o quadrado tende à estabilidade, contrastando com o dinamismo da roda ou do círculo, que é puro movimento. Em oposição ao céu, o quadrado designa o plano terreno em que se manifestam todas as coisas criadas. Altares e templos comumente são quadrangulares ou retangulares, e sob estas formas também se organizavam as cidades antigas, bem como as fortalezas e os acampamentos militares. No campo das religiões, observemos a Ka’aba de Meca, templo máximo do islamismo maometano, verdadeira pedra cúbica a significar a divindade dando fundamento a toda a humanidade, ao mesmo tempo que sustenta, feito pilar supremo, a abóbada celeste, outra representação da morada de Deus. Ademais, em época anterior ao Islã, Meca era chamada por Umm-al-Qura, ou Mãe das Cidades (Corão, 6, 92 e 42,5), sendo considerada, tal qual o Templo apolíneo de Delphos, o Umbigo do Mundo.

Em outros casos, é o círculo que delimita lugares consagrados ao divino, como por exemplo o enigmático templo rochoso de Stonehenge, construído entre 2600-1700a.C. a partir de conhecimentos astronômicos de espantosa precisão. Curiosamente, a palavra inglesa usada para designar Igreja, church, provém do escocês antigo kirk, que além de "templo", significa "círculo".

Na verdade, toda forma circular, quadrangular ou qualquer outra que insinue a presença de um centro em torno do qual todo um complexo se organiza, pode ser tida como uma forma mandálica. Não foge à regra a Távola do Rei Arthur, circular e orientada em torno do Graal, símbolo do ideal comum de integração e transcendência.

Mandalas podem ser consideradas sagradas por tudo isso. Ao sintetizarem os conceitos de Mantra e Iantra em todas as suas possíveis combinações, revelam, por imagens que nunca se repetem, a infinita variedade do potencial divino. Quando quer que meditemos incursos na harmonia de seus desenhos, mais prontamente nos alçamos em espiral, projetando-nos em torno do rabo da serpente e nas asas da espiritualidade.

Continua...
  

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