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O
Real Mundo da Magia
Por
Paulo Urban - continuação (2)
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Expulsos do Éden, sentimo-nos livres. A inteligência
despertada tem sede e fome de luz; tentando retornar à fonte, inicia
sua longa jornada de percalços. Centrando-se em si, a consciência
se vê tomada por angústia decorrente de suas reflexões;
olhando à sua volta, enxerga o alcance de seu poder bem gravado
na história das civilizações. Voltemos à lição
de ocultismo do mago Levi; ele conclui: "Deus não criou a
dor; a Inteligência a aceitou para ser livre".
E a magia nasce daí, dessa vontade de ser livre! Surge da
necessidade do homem descobrir sua identidade, seu verdadeiro papel no
palco da natureza, da vontade de melhor compreender os enigmas do cosmos
e de si mesmo, missão à qual se entrega fazendo valer todos
os artifícios possíveis para exercê-la. Comprova-se
assim a primeira tese: o pensamento mágico é um estado primordial
da consciência humana.
Como as verdades conhecidas são todas pertencentes a esse
pensamento vivo, presume-se que outras verdades existam além dos
limites do intelecto. São as chamadas verdades ocultas, ou verdades
transcendentes, acessíveis apenas pelo caminho da intuição
ou mediante estados alterados da consciência. A magia passa a funcionar
então como instrumento capaz de rasgar o véu dos mistérios
e transpor o muro da separação, pois expressa a relação
direta entre o homem e a fonte de onde provém. Feito o caduceu
de deus Hermes, Pai da magia e da alquimia (de onde se deriva
o nome de sua doutrina, o hermetismo), é a magia quem nos
une de modo vertical e direto aos planos transcendentes.
A propósito, a palavra magia vem do grego magéia,
a designar as artes de um mago. Entretanto, o nome foi importado dos antigos
povos da Mesopotâmia. Porfírio (232-304 d.C.), por exemplo,
em sua Vida de Pitágoras, relata que o mestre depois de
aprender por 22 anos a magia egípcia, foi feito prisioneiro do
rei persa Cambises, que invadiu o Egito. Enviado à Babilônia,
viveu um exílio de 12 anos. Diz Porfírio: "vários
historiadores o atestam, Pitágoras aprendeu a astronomia dos caldeus,
a geometria dos fenícios e as artes ocultas dos magi".
Estes últimos, esclarece-nos Heródoto em sua História
1;140, compunham uma tribo meda não ariana, uma das seis tribos
da Ásia Menor, e sua classe sacerdotal dedicava-se à magia,
de onde os gregos assimilaram o termo.
Também o profeta Jeremias (650-586a.C.), cap. 39, ao descrever
o séquito de Nabucodonosor, rei da Babilônia, quando da conquista
de Jerusalém, informa que dentre os oficiais invasores estava Nergal-Sereser,
chefe dos magos, a quem o profeta chama em aramaico de rab mag.
Entre os assírios, os magos eram ditos mahhu; e os persas
chamam magusk ao "homem sábio".
As origens dos signos lingüísticos, conclui-se, estão
essencialmente vinculadas ao pensamento mágico praticado desde
o pré-histórico alvorecer da consciência. Evidências
da relação entre linguagem e magia acham-se por todas as
línguas. Em inglês, por exemplo, spell quer dizer
"soletrar" e ao mesmo tempo designa toda fórmula de encantamento.
Sorcier, "bruxo" em francês, muito se aproxima
do termo source, "fonte", que genericamente abrange tanto
a idéia de potencial como o local onde tudo se origina. Em italiano,
bruxa diz-se strega, mas há o sinônimo saga,
que também diz respeito à oralidade poética. Já
o termo runa, nome do arcaico alfabeto germânico que se difundiu
na escandinávia e alcançou as ilhas Britânicas, quer
dizer "feitiço".
Glamour,
que em inglês é "encanto, charme pessoal",
provém do escocês glamer, "feitiço",
por sua vez corruptela do próprio inglês grammar (gramática),
a revelar a associação que sempre existiu entre o ocultismo
e a erudição. O conhecimento da gramática, desde
suas origens, sempre foi considerado um saber mágico, destinado
a raros iniciados.
Há ainda o termo francês grimoire, a denominar
os livros de magia, obras obscuras, que em português são
"grimórios ou engrimanços". A palavra vem do francês
grammaire, que designa a gramática latina, também
chamada grimorium verum, cuja complexidade é inacessível
para o vulgo. De mesma forma, grimorium em seu sentido vulgar é
todo alfabeto incompreensível, atribuído ao demônio,
do qual se originam as fórmulas imprecativas com as quais os bruxos
crêem fazer obedecer-lhes os espíritos da natureza.
Outra palavra chave é "fetiche", do francês
fétiche, a significar sortilégio. Foi tomada por
empréstimo do português feitiço que, por sua vez,
provém do latim factitius, ou "imitativo", no
sentido de "copiar a natureza". Interessante é descobrir
o fetichismo como o primeiro traço da interação psíquica
entre o homem e o meio, numa espontânea tentativa de compreender
o todo. A mente fetichista atribui poderes às coisas todas, e declara-se
deles imbuída quando quer que traga preso ao corpo certo objeto
especial ou algo que o represente. No fetichismo está à
crença de que os objetos "imitam", isto é, representam
entes espirituais com qualidades próprias.
A psicanálise leu nesse arcaico mapa do psiquismo um desvio,
uma perversão da libido que, direcionada para qualquer parte corporal
que não os órgãos sexuais e potencialmente capaz
de substituir o coito e produzir orgasmo, denunciaria um distúrbio
psicopatológico. A essa idéia contraponho o simples fato
de que a energia sexual, quando manipulada pelo artifício do fetiche,
traduz-se num dos mais eficientes recursos, inerente ao pensamento primordial,
capaz de resgatar para o ato sexual seu caráter mágico e
verdadeiramente prazeroso. A palavra energia, inclua-se aqui a
libido, oculta em si o segredo perdido do animismo. En, do grego,
quer dizer "voltado para dentro"; ergon, é "trabalho".
Logo, todo aquele que lide com energia, seja o mago, o psicoterapeuta,
ou o casal à beira do altar do sexo, realiza um trabalho interior,
e procura pela vida guardada no âmago de cada ser e cada coisa.
Onde Freud viu a perversão da libido, penso que uma mente mais
aberta encontraria o sagrado modo de perceber o universo, e de realizar
magicamente sua obra pessoal, a incluir saudáveis celebrações
do sexo, atividade esta que, sem encantamento, se reduz a instinto simplesmente.
Dentre os inúmeros objetos da magia cerimonial, quatro deles
são universalmente eleitos; mera maneira de se aplicar o princípio
do fetiche ao ato mágico deliberado, pelo qual o mago busca alcançar
certos efeitos e poderes. São eles: o caduceu, a taça, a
espada e o pentagrama.
Cada um desses símbolos mereceria uma matéria inteira;
vejamos o mais importante. Eles denotam valores e desafios que o mago
deve decifrar para incorporar-se de seus atributos ocultos. O caduceu,
seja um cetro real faraônico ou o cajado sagrado de Moisés,
ou ainda a varinha dos mágicos de salão, representa o saber
do mago, o conhecimento do truque; é o poder, portanto. Corresponde
ao naipe de paus dos baralhos e associa-se ao elemento terra, que é
a prima matéria do ser, aquilo que nos dá forma e nos permite
sensações.
A
taça é o ícone do Santo Graal; miticamente é
o cálice em que José de Arimatéia teria recolhido
o sangue de Jesus crucificado, antes de migrar para algum lugar da França
ou da Inglaterra, países que reivindicam para si o local onde o
Graal estaria enterrado. A lenda do Rei Arthur e a Távola Redonda
nos conta que somente Galahad, o mais puro dos cavaleiros, pôde
encontrá-lo. O Graal é a plenitude interior, onde se recolhem
nossos sentimentos mais profundos; por meio dela, o mago conhece e cala.
É copas no baralho; elemento água, que é só
conteúdo. Daí a expressão "fechar-se em copas".
A espada é a força do mago. Também sua vontade,
seu querer. Instrumento metafísico, simboliza a discriminação
aguçada dos sentidos, a intuição, o raciocínio
penetrante do intelecto, a decisão. Geralmente, a espada mágica
é forjada por algum deus, ou deve ser retirada de uma pedra onde
jaz há tempos encravada, ou ainda é entregue ao herói
pela deusa do lago; surgindo por isso ou da terra ou das águas,
razão pela qual ela é o terceiro objeto da magia. Associada
ao naipe de espadas, seu elemento é o fogo. É também
o pensamento do mago.
A
tétrade mandálica se completa com o pentagrama, ou estrela
de cinco pontas, na qual podemos inscrever a figura humana de braços
e pés estendidos e abertos, fazendo a cabeça coincidir com
a quinta ponta do desenho mágico. Paracelso (1493-1541) valia-se
de um desenho do pentáculo, acrescentando a cada ponta uma letra
da palavra S-A-L-U-S (saúde), como talismã contra as doenças.
Associado ao naipe de ouros, traduz a espiritualidade do ouro alquímico,
metal nobre e incorruptível, também símbolo da perfeição
divina. Seu elemento é o ar, que confere intuição
ao mago.
O mago segue, portanto, por quatro caminhos; e deve ser sensível
e perspicaz para saber, calar, ousar e querer na dose certa. Nessa
perspectiva, os signos desses quatro objetos têm a capacidade de
constelar no inconsciente pessoal uma série de conceitos, de modo
imediato e mágico, estabelecendo uma ligação direta
entre o mundo de dentro e o de fora, também entre o mundo humano
e o divino. A magia, nesse sentido, pode ser aplicada à prática
terapêutica, quando passa a ser explorada e reverenciada de forma
ritualística de modo a equilibrar a energia da psique.
Por fim, para atualizar nosso mito, convém dizer que o mundo
do primeiro herói humano Gilgamesh é o mesmo mundo em que
Tolkien faz transcorrer a grandiosa Saga do Anel; ambos meros correlatos
de nosso psiquismo original e profundo, o que faz dos mundos da magia
algo absolutamente verdadeiro, repleto de medos, monstros, heróis
e tesouros guardados. Se estivermos dispostos a perceber a realidade da
alma muito além da barreira da libido, teremos que mais dia menos
dia mergulhar de corpo e alma no real reino da magia. 
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do encantamento
e acupunturista.
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