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Nostradamus Previu a Tragédia?
Por
Paulo Urban - continuação (2)
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Primeiramente
deixemos claro: Nostradamus nunca mencionou Nova Iorque, que nem existia
em sua época. Podemos tanto associar esta quadra ao atentado como
vinculá-la a outros acontecimentos do passado; por exemplo, ao
incêndio de Chicago de 1871, ou ainda a devastação
pelo fogo da floresta de Peshtigo, ocorrido na mesma noite, que provocou
1200 vítimas, exatamente sobre o paralelo 45.
A propósito, Nova Iorque situa-se a uns 300 km abaixo do
paralelo 45; cidades como Chicago, Boston, Minneapolis, Toronto e Montreal
estão bem mais próximas da referência geográfica.
Particularmente, suspeito que Nostradamus referia-se a Villeneuve sur
Lot, cidade do sudoeste francês, cujo nome significa "cidade
nova", e cuja latitude confere. Há ainda Villanova d'Asti
na Itália, além de Nápoles, que igualmente caberia,
posto que seu nome provém de Neo pólis, mistura de
latim com grego a dizer cidade nova. Além disso, várias
outras quadras trazem a expressão cidade nova, por exemplo,
I, 87 e X, 49. Para os que argumentam que cinc&quarant se traduza
por 40,5º, tentando aproximar a latitude de Nova Iorque à
da quadra, convém lembrar que no séc. XVI não se
usava o sistema decimal, e que a expressão cinc&quarant
era a forma comum e arcaica de se dizer 45.
Vejamos ainda a curiosa quadra II, 35:
"Dans deux logis de nuict le feu prendra,
Plusieurs dedans estoffez e rostis:
Pres de deux fleuues pour seul il aduiendra:
Sol l'Arq e Caper tous seront amortis"
"Em
duas casas à noite o fogo tomará,
Muitos dentro serão queimados e asfixiados:
Próximo a dois rios, por só isto ocorrerá
Sol, Sagitário e Capricórnio todos em declínio".
De fato, as torres
do WTC ficavam na confluência do Rio Hudson e East River, mas
há um desacerto astrológico quanto à data da tragédia,
já que a quadra sugere o solstício de 21 de dezembro. Além
disso, já houve intérprete que a associasse ao incêndio
de Lyon, em 1600, cidade que também se situa na confluência
de dois rios.
Outrossim, esclareçamos, Nostradamus concentra suas Profecias
sobre o mundo de sua época. Em seu Prefácio ao Rei Henrique
II, explica que suas previsões cobrem "a maior parte
das cidades de toda a Europa, compreendendo ainda a África e uma
parte da Ásia". Para a América que acabara de ser
descoberta, Nostradamus nunca deu mínima importância. Alguns
intérpretes defendem que ao menos ele nos teria dedicado uma solitária
quadra, X, 66, tratando-nos por reino de Almerich. Mas Almerich,
entendem os exegetas, é inversão de Limerick, cidade irlandesa
(o Profeta adorava trocar as letras de certas palavras), relacionada ao
texto desta quadra que ainda fala de Londres e da Escócia.
Dentre os intérpretes mais popularizados de Nostradamus
encontram-se o francês Jean-Charles de Fontbrune, autor do clássico
Nostradamus, historiador e profeta (Círculo do Livro), e
a inglesa Erika Cheetham que alcançou, com As Profecias de Nostradamus,
dezenas de edições pela editora Nova Fronteira. Anos após
sua publicação, Erika precisou alterar muitas de suas primeiras
previsões, visto que quebrou a cara em todas elas, e relançou
seu livro sob o título As Novas Profecias de Nostradamus,
onde mantém sua linha sensacionalista que já lhe rendeu
certa fortuna apesar dos novos constrangimentos causados por seus novos
erros que substituíram os antigos. Sua cara de pau chega ao requinte
de publicar em edição bilíngüe, ao lado do texto
francês das Centúrias, traduções estapafúrdias,
repletas de termos enxertados por ela. A autora assume sua ignorância,
diz que só ao matricular-se num curso de provençal em Oxford
foi que ouviu pela primeira vez na vida falar de Nostradamus. Dali a poucos
anos, sem maior aprofundamento, traduzia e modificava os textos originais
para lançar sua obra. Como tem fixação pela América,
deixou-se impressionar demasiado pelos fatos de sua juventude, e teima
em ligar as quadras às desgraças da família Kennedy,
e abusa ao relacioná-las aos E.U.A. Comete impropriedades históricas
de toda monta e vê nas Profecias várias referências
à Terceira Guerra Mundial.
Mas devo deixar claro, Nostradamus nunca previu a Primeira nem
a Segunda Grande Guerra, quanto menos a Terceira! Intérpretes que
alardeiam isso não conhecem as Profecias, ou as maquiam
conforme seus interesses, como fizeram Cheetham e Fontbrune, só
para citar dois exemplos. Fontbrune, a propósito, revela-nos um
caráter paranóide. Seguindo os passos de seu pai, repetiu
as bobagens que aprendeu com ele a respeito de Nostradamus e as engordou
com as suas. Sempre que criticado, limitava-se a dizer que os perseguiam
só porque tinham coragem (?) para dizer as verdades sobre a humanidade.
Curiosamente, publicou a carta de Nostradamus a seu filho César,
que abre a primeira edição das Profecias de 1555,
também o prefácio ao Rei Henrique II, de 1558, mas, ao traduzi-los
para o francês moderno modificou inúmeras passagens valendo-se
de termos como comunismo, Segunda Grande Guerra, etc, os quais Nostradamus
nunca escreveu.
Infelizmente,
foi sobre a obra de Cheetham que Orson Welles se baseou para produzir
seu filme O Homem que viu o Amanhã (Warner, 1980), no qual
procurou destacar o então emergente conflito entre os E.U.A. e
os países do Oriente Médio, propondo que dentre os árabes
surgiria o anticristo. O documentário é fascinante e assustador.
Mas o gênio de Orson Welles apenas se aprimorara ao repetir em seu
filme aquele mesmo clima de tensão alcançado por sua transmissão
radiofônica inspirada na obra de ficção A Guerra
dos Mundos de H.G. Wells, transmitida para todo o seu país
na noite de 30 de outubro de 1938. Na ocasião, narrou tão
realisticamente a invasão da Terra pelos terríveis marcianos,
que multidões saíram às ruas desesperadas em clima
de violenta histeria. Parecia o fim do mundo! A propósito, Nostradamus
nunca nos falou sobre dele; em sua Carta ao filho César apenas
diz que "seus vaticínios são perpétuos de
sua data até o ano de 3797". Mas sua contagem do tempo
estava particularmente baseada em cálculos bíblicos próprios
que ainda são motivo de muitas divergências.
Mas voltemos à
cena do atentado cujo horror pouco importa ter sido ou não
previsto por Nostradamus. Reflitamos um pouco mais profundamente sobre
seu duro significado. Se por um lado nada há que justifique o hediondo,
por outro não consigo deixar de estabelecer um paralelo entre as
desabadas torres gêmeas do Centro Mundial do Comércio, nas
quais uma centena de línguas diferentes discutiam relações
internacionais de compra e venda, e a Torre de Babel, ícone da
prepotência humana em sua teimosia estúpida de sobrepor-se
a Deus. Como nos furtar de apontar a prepotência norte-americana
que se recusa a assinar seu antigo compromisso com o Protocolo de Kyoto,
que se nega a diminuir sua excessiva emissão de gás carbônico
alegando que a indústria americana não deva ser prejudicada,
e que levianamente se retirou da Conferência de Durban sobre o racismo
não aceitando discutir o sionismo e a política protecionista
dedicada a Israel?
Outra cruel coincidência: a data do atentado. Onze de setembro
é aniversário do golpe militar fomentado pelos Estados Unidos
no Chile, que levou o ditador Augusto Pinochet, ora demenciado, a instaurar
um dos mais sangrentos regimes ditatoriais da história, mero exemplo
do que a política norte-americana proporcionou a todos os demais
países da América sob o pretexto de extirpar daqui o comunismo.
Comparemos ainda a assustadora cifra de americanos mortos no atentado
ao WTC e ao Pentágono com as centenas de milhares de vítimas
mundo afora, causadas por guerras criadas ou patrocinadas pelos Estados
Unidos, seja na América Central, na Indonésia, no Oriente
Médio, no Vietnã, ou em Kosovo, apenas para citarmos alguns
poucos exemplos. Não nos esqueçamos ainda que o principal
acusado pelos atentados é o saudita Osama Bin Laden, prata da casa
criada pelos E.U.A. que lhe financiaram a resistência e os meios
para libertar o Afeganistão da dominação soviética
na guerra de 1979 a 1988 que, por sua vez, gerou outros milhares de mortos.
Neste momento em que o Pentágono, símbolo máximo
da invulnerabilidade norte-americana, está reduzido a um simples
quadrado ou triângulo estourado devido às suas áreas
destruídas e interditadas, e depois das Torres de Babel da opulência
humana caírem pela segunda vez diante dos olhos pasmos de todo
o mundo, resta somente a sensação de que a humanidade ainda
não aprendeu suas lições. É hora do mundo
reavaliar o seu caminho, a começar pela terra de Bush.
Mas se Nostradamus nunca previu Terceira Guerra Mundial alguma,
Einstein, outro sábio, bem soube opinar sobre sua realidade e nosso
presente, e avaliou que não saberia dizer como seria uma Terceira
Grande Guerra, mas, certamente, uma quarta se travaria novamente a paus
e pedras. De nada adianta procurar em Nostradamus a descrição
oculta de nossas desgraças, elas estão à flor da
pele, e é melhor buscar urgentemente dentro da alma a solução
para os impasses! 
Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do
Encantamento
e acupunturista,
Há
anos vem preparando um Livro sobre Nostradamus,
havendo pesquisado in loco no Instituto Histórico
e Geográfico de Provence.
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