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Paulo Urban
  


Nostradamus Alquimista
Por Paulo Urban - continuação (2)

  

Há uma corruptela no termo escrito em francês arcaico pasture, que não deixa claro se Nostradamus escreveu aqui pasteur (pastor), trocando a ordem das vogais, como era seu hábito fazer com palavras-chave; ou se ele quer dizer pasto, que em francês se escreve pâture. De qualquer modo, nada se altera em sua leitura simbólica, a dubiedade do termo até a amplia, já que Hermes seria feito pastor de Vulcano justamente porque cuida de seu rebanho composto pelos iniciados na alquimia, ou se comporta feito pasto do deus artesão, onde os buscadores da Pedra Filosofal se resguardam amparados pelo alimento espiritual em que se traduz seu conhecimento, a "Ciência dos Filósofos". Estando Hermes a cumprir seu duplo papel, de pasto e de pastor, permite, por uma forma ou por outra, que os homens vislumbrem detrás de si o verdadeiro Sol, rutilante e dourado, em alusão ao ouro da iluminação.

Outras provas de que Nostradamus praticava a alquimia estão nas cartas que o profeta trocou durante anos de sua vida com outros iniciados franceses, italianos e alemães. Na Biblioteca Nacional de Paris e na Biblioteca Méjanes de Aix-en-Provence estão guardadas 51 cartas, entre enviadas e recebidas, datadas entre 1557 e 1565, nas quais Nostradamus declara-se alquimista, ainda que de modo reservado, somente entre seus pares, para não despertar maiores problemas do que os que já tinha tido com a Santa Inquisição.

Centralizemo-nos numa destas epístolas que Nostradamus escreveu a um certo Dr. François Bérard, de Avignon, aos 6 de setembro de 1562. Quando da morte do profeta, tal carta passou às mãos de seu discípulo Jean Aimes Chavigny. Este, anos depois, entregou-a a César de Notredame, filho de Nostradamus, de quem foi preceptor. Com a fama alcançada por Nostradamus, que aumentou ainda mais após sua morte, César de Notredame repassa a carta, em 1629, como forma de contribuição à história, a um certo Sr. Fabri de Peiresc, conselheiro de Aix. Na ocasião, adverte para que o documento não fosse publicado, apenas guardado. Razão disso? Várias passagens a ligar seu pai com procedimentos espúrios tais como ritos mágicos, demonologia e alquimia.

Dr. Bérard havia escrito a Nostradamus por duas vezes em 1558; na primeira pedia-lhe informações a respeito da alquimia e também acerca de um anel considerado mágico que tinha adquirido, por meio do qual seria possível fazer predições. A segunda carta solicitava ao astrólogo que lhe enviasse os estudos de seu mapa natal, o qual lhe foi mandado. Não há novos contatos até 13 de agosto de 1562, quando escreve a Nostradamus pedindo-lhe que confiasse a seu emissário, o portador da carta, "seu astrolábio, o Livro de Hermes com todos os seus acessórios inerentes, e ainda a medida de um peso de âmbar cinza". De que falavam? Em linguagem velada faziam alusão à Pedra Filosofal?

Nostradamus, desculpando-se pela demora em responder, explica na referida carta: "Entenda que por nove noites consecutivas estive entretido, oculto e solitário, da meia-noite às quatro da manhã, com a cabeça coroada pela folha do loureiro e acima de mim tendo a Pedra,(...) e obtive com a força uma parte do que desejava saber, por meio do vosso anel, do mesmo modo com que emprego meu tripé". Diga-se de passagem, o loureiro é planta associada milenarmente aos vaticínios; os antigos sacerdotes gregos a usavam no Oráculo de Delfos para produzir algum estado alterado de consciência nas pitonisas por meio de beberagens feitas com elas.
Mais adiante, na mesma carta, confessaria ao invocar as hostes divinas: "Ó mensageiro de Deus, que é meu protetor! Com tua bondade dirige-me(...) vejo a transformação do corpo que se encontra na natureza, do mesmo modo que com o tripé de bronze predigo a verdade segundo o curso dos astros"! Poucas linhas abaixo escreveria em tom de oração: "Sobretudo, faze no mundo que, através de Ti que comanda a natureza, eu produza abundância e riqueza; que com ajuda de Mercúrio eu transforme os metais comuns tornando-os semelhantes a partículas de ouro de verdadeiro aspecto solar". E produzirei o ouro propriamente bom de se beber e potável (franca alusão ao Elixir da Longa Vida), capaz de prolongar a vida dos imperadores, reis e grandes personagens".

Está provado: Nostradamus era um alquimista. Mas qual tripé de bronze é este de que fala duas vezes em sua carta ao Dr. Berard?

As primeiras duas quadras da I Centúria trazem a resposta:

I
Estant assis de nuit secret estude,
Seul reposé sur la selle d'aerain:
Flambe exigue sortant de solitude,
Fait prosperer qui n'est à croire vain.
II
La verge en main mise au milieu de Branches
De l'onde il moulle le limb et le pied
Un peur et voix fremissent par les manches:
Splendeur divine. Le divin pre s'assied.

I
Estando sentado à noite em secreto estudo,
Só, repousado sobre o tripé de cobre:
Chama exígua surge na solidão,
Faz prosperar aquele que não está a crer em vão.
II
A vara à mão é posta em meio a Branches,
De suas ondas ele umedece o limbo e o pé (o céu e a terra)
Um medo e voz fremente para as ordens:
Esplendor divino. A divindade assenta-se bem perto.

A estranha expressão "Selle d'arein", segundo Anatole le Pelletier, um dos comentaristas clássicos do profeta, e conforme consenso entre os analistas das Centúrias, faz alusão ao "Tripé Sagrado de Apolo", do alto do qual as pitonisas do Templo de Delfos profetizavam. Imagina-se que Nostradamus praticasse a hidromancia, isto é, a adivinhação pela água, que era colocada numa cuba, apoiada no tal tripé. Na superfície da água, Nostradamus enxergava o firmamento refletido, já que o sábio adorava passar horas a fio a céu aberto, meditando em cima do telhado de sua casa em Salon, buscando atingir o transe concentrando-se nas imagens que via se formarem dentro da cuba d'água.

Além disso, ao que parece, vez por outra Nostradamus remexia a água com sua baqueta (o verso inicial da segunda quadra é claro), e, das ondas que se formavam, conseguia abstrair imagens. Em francês, "l'onde" pode também significar certa vibração que se propaga, como se proviesse dos espíritos, do além. Branches, assim destacado com inicial maiúscula, é alusão a outro importante oráculo da antigüidade pagã, o de Branchus. Cita-o como que para tornar explícito, e o verso seguinte o garante, que por esse método se estabelecia sua ligação com o mundo superior ou divino. Nostradamus está com seus sentidos transcendidos, ele ouve vozes, e é honesto quando diz que sente medo ao presenciar que algo extraordinário dele se aproxima, como se sentasse ao seu lado.

A primeira quadra, não por acaso nos fala de seus estudos secretos e noturnos; Nostradamus não a teria escolhido à toa para começar seu livro de Profecias. Ele está obviamente falando aos demais alquimistas, e para tantos quantos sendo sensíveis saibam percebê-lo, de seu sistema de perscrutação do infinito e do porvir. Como roga a Tradição da alquimia, ele está a sós em sua busca, e uma chama (o fogo de Vulcano) o ilumina em sua solidão, fazendo-o prosperar em seu ofício e revelando-lhe os segredos da natureza. Adverte-nos de imediato que aquele que nos fala é um iniciado nos mais profundos mistérios e, por isso, suas lições não podem ser desprezadas, afinal, nem ele está a crer em vão, nem nós deveríamos ignorar suas palavras.

De fato, poucos até hoje se deram conta de que Nostradamus era um mago. O sábio cumpriu bem o seu papel de velar os seus segredos dos profanos, deixando-os entretanto bem claros aos olhos dos verdadeiros iniciados, capazes que são de enxergá-los nos mais inusitados lugares; mesmo em meio às metáforas das quadras escritas pela pena mágica de um médico alquimista.


Dr. Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta e acupunturista,
a partir de pesquisas no Instituto Histórico e Geográfico de Provence,
há anos vem preparando um livro sobre o Profeta Nostradamus.