www.amigodaalma.com.br
www.paulourban.com.br
   

 

 

Artigos
Paulo Urban
  


Mutirão - Escola da Vida
Por Paulo Urban - continuação (2)

   
Escola Mutirão,
tels: (11) 4702-2551 (11) 4702 4578 Fax: (11) 4702 2245.
Dias úteis das 9 às 16 h

e-mail:
mutirao@escolamutirao.com.br
site: www.escolamutirao.com.br

   

"Papai, compra prá mim um barranco?", dizia Júlia, dois aninhos, ao ter que deixar a escola na hora de ir para casa. As crianças do Mutirão são assim. Começam o dia sempre cantando, estudam em harmonia, brincam descalças quando o tempo o permite, discutem os problemas da atualidade e, bem articuladas com os acontecimentos do mundo, não se prendem a nenhum livro didático, até porque além de conhecimento, eles nunca trazem o essencial para ser aplicado à vida. De seus professores a escola exige uma dedicação especial, pois as aulas são sempre originais, preparadas em função de um tema especial que é estudado por toda a escola, de forma integrada. Mais uma vez, como em quase tudo, o Mutirão antecipou-se àquilo que vem sendo proposto pela pedagogia do novo milênio, e faz com que professores e alunos estudem e aprendam juntos.

Hoje, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), homologados pelo Ministério de Educação desde 1998, estão introduzindo nas escolas um conceito novo e revolucionário no ensino brasileiro, os chamado "Temas Transversais". Tais Parâmetros propõem que em vez de se criar novas disciplinas, sejam introduzidos assuntos para serem estudados de forma transversal, concomitantemente ao programa oficial, para que sejam tratados sob as óticas das diferentes disciplinas. Tal filosofia promove maior integração entre as mesmas, bem como mobiliza toda a escola em torno de questões que envolvam cidadania, ética social, profundamentos em problemas brasileiros de saúde e desenvolvimento, e assim por diante.

Pois bem, esta inovadora proposta vem sendo há 30 anos praticada no Mutirão. Seus temas, geralmente bimestrais (ou vistos por mais tempo, conforme a necessidade), têm privilegiado além destas questões, muitos outros assuntos de caráter histórico, filosófico, ou mesmo esotérico.

Seus "grandes temas" já tiveram por objeto o universo, a origem da vida, o cometa Halley, a pré-história no continente americano, as civilizações perdidas (incluindo Atlândida, Lemúria, o continente de Mu), as civilizações pré-colombianas, as plantas medicinais, medicina alternativa, alimentação natural, os egípcios e outros povos antigos, onde se incluiu uma discussão sobre o nascimento da ciência; os países do oriente (médio, próximo e distante), os índios brasileiros, entradas e bandeiras etc... isto, claro, sem deixar passar o óbvio, que faz da Inconfidência Mineira, da Independência do Brasil, dos 500 anos de Descobrimento, assuntos a serem aprofundados conforme sua pertinência, independentemente dos "grandes temas" integrados de estudo.

Quando a escola se entretinha com os índios brasileiros, por exemplo, vários rituais indígenas foram estudados, alguns reproduzidos; e a escola recebeu a visita de chefes Xavantes que vieram falar de sua cultura, cantar hinos à natureza e contar acerca da vida que levam em sua reserva, na aldeia de São Marcos (MS). Impressionados com o tanto de verde e rústico do local, os chefes pediram para encaminhar alguns de seus jovens para que viessem estudar no Mutirão. Foram aceitos. Resultado disso? Além do intercâmbio cultural, um índio Xavante hoje está formado em pedagogia, e ele às vezes telefona para o Mutirão e chama a diretora por "colega"!

Ano passado, foi a vez do livro "Viagem Atravéz do Brasil" (que, no português antigo, se escreve assim, com "z"), de Olavo Bilac e M. Bonfim. A obra narra a viagem de alguns jovens pelo país, ora por barco, ora de trem, ou a pé, que saem de Recife em direção ao sul. Excelente pretexto para o estudo dos costumes regionais e das diferentes tradições que compõem a sociedade brasileira. E as turmas realizaram apresentações sobre o tema, houve pesquisa de vestuário, pratos típicos etc... Ao aniversário dos 500 anos do Descobrimento foi dado o respeito em tempo real: professores, pais e alunos, num projeto conjunto, reproduziram cada um dos 45 dias de viagens da nau capitânia e sua esquadra, enriquecidos com textos da literatura quinhentista, desde a saída de Portugal até o dia do descobrimento, que na escola foi comemorado com festa e carnaval. Com dramatizações diárias, todos paramentados a caráter, a notícia foi adiante e até televisão correu para filmar.

Atualmente, a escola está imersa no estudo de um grande tema anual: os elementos da natureza. Iniciou o ano enfocando a água, recurso imprescindível para a vida no planeta, cada vez mais escasso. Isso levantou questões de ordem ecológica e de cidadania para o seu não desperdício, envolvendo ainda estudos geográficos de nossas bacias hidrográficas, bem como aspectos de implicação social como as enchentes que São Paulo sofre todo ano. Na seqüência, veio o elemento terra; estudou-se solo e vegetação, as propriedades terapêuticas da variada flora local, encontrada na própria escola. Sementes foram plantadas, árvores classificadas; as mesmas nas quais as crianças sobem e brincam, também onde os pequeninos vivem histórias mágicas e encantamentos.

O segundo semestre
trouxe o elemento fogo. Dilemas quanto à utilização de energia térmica comparada à energia nuclear são objeto das aulas de ciências para os maiores, e a física aborda as conquistas sobre o átomo. Já ciências administrada aos alunos de 3a e 4a séries leva as crianças às primeiras noções de astrofísica, apresentando-as ao astro-rei, nossa estrela mais próxima, para em seguida introduzi-los aos rudimentos de anatomia a partir do estudo do coração, órgão este que a medicina oriental, fundamentada no taoísmo, associa ao elemento fogo. As aulas de história parte da importância da máquina a vapor para pensar o desenvolvimento do Brasil, e as de música e dança servem-se de um repertório amplo pertinente ao tema, do clássico ao popular, sem se esquecer das composições eruditas de nomes brasileiros. No ritual de abertura do semestre, por exemplo, a Dança Ritual do Fogo, do espanhol Manuel de Falla, fez mostrar aos alunos que existe coisa bem melhor que o rock.