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Mutirão
- Escola da Vida
Por
Paulo Urban - continuação (2)
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"Papai,
compra prá mim um barranco?", dizia Júlia,
dois aninhos, ao ter que deixar a escola na hora de ir para casa. As crianças
do Mutirão são assim. Começam o dia sempre cantando,
estudam em harmonia, brincam descalças quando o tempo o permite,
discutem os problemas da atualidade e, bem articuladas com os acontecimentos
do mundo, não se prendem a nenhum livro didático, até
porque além de conhecimento, eles nunca trazem o essencial para
ser aplicado à vida. De seus professores a escola exige uma dedicação
especial, pois as aulas são sempre originais, preparadas em função
de um tema especial que é estudado por toda a escola, de forma
integrada. Mais uma vez, como em quase tudo, o Mutirão antecipou-se
àquilo que vem sendo proposto pela pedagogia do novo milênio,
e faz com que professores e alunos estudem e aprendam juntos.
Hoje, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), homologados
pelo Ministério de Educação desde 1998, estão
introduzindo nas escolas um conceito novo e revolucionário no ensino
brasileiro, os chamado "Temas Transversais". Tais Parâmetros
propõem que em vez de se criar novas disciplinas, sejam introduzidos
assuntos para serem estudados de forma transversal, concomitantemente
ao programa oficial, para que sejam tratados sob as óticas das
diferentes disciplinas. Tal filosofia promove maior integração
entre as mesmas, bem como mobiliza toda a escola em torno de questões
que envolvam cidadania, ética social, profundamentos em problemas
brasileiros de saúde e desenvolvimento, e assim por diante.
Pois bem, esta inovadora proposta vem sendo há 30 anos praticada
no Mutirão. Seus temas, geralmente bimestrais (ou vistos por
mais tempo, conforme a necessidade), têm privilegiado além
destas questões, muitos outros assuntos de caráter histórico,
filosófico, ou mesmo esotérico.
Seus "grandes temas" já tiveram por objeto o universo,
a origem da vida, o cometa Halley, a pré-história no continente
americano, as civilizações perdidas (incluindo Atlândida,
Lemúria, o continente de Mu), as civilizações pré-colombianas,
as plantas medicinais, medicina alternativa, alimentação
natural, os egípcios e outros povos antigos, onde se incluiu uma
discussão sobre o nascimento da ciência; os países
do oriente (médio, próximo e distante), os índios
brasileiros, entradas e bandeiras etc... isto, claro, sem deixar passar
o óbvio, que faz da Inconfidência Mineira, da Independência
do Brasil, dos 500 anos de Descobrimento, assuntos a serem aprofundados
conforme sua pertinência, independentemente dos "grandes temas"
integrados de estudo.
Quando a escola se entretinha com os índios brasileiros, por
exemplo, vários rituais indígenas foram estudados, alguns
reproduzidos; e a escola recebeu a visita de chefes Xavantes que vieram
falar de sua cultura, cantar hinos à natureza e contar acerca da
vida que levam em sua reserva, na aldeia de São Marcos (MS). Impressionados
com o tanto de verde e rústico do local, os chefes pediram para
encaminhar alguns de seus jovens para que viessem estudar no Mutirão.
Foram aceitos. Resultado disso? Além do intercâmbio cultural,
um índio Xavante hoje está formado em pedagogia, e ele às
vezes telefona para o Mutirão e chama a diretora por "colega"!
Ano passado, foi a vez do livro "Viagem Atravéz do
Brasil" (que, no português antigo, se escreve assim, com "z"),
de Olavo Bilac e M. Bonfim. A obra narra a viagem de alguns jovens pelo
país, ora por barco, ora de trem, ou a pé, que saem de Recife
em direção ao sul. Excelente pretexto para o estudo dos
costumes regionais e das diferentes tradições que compõem
a sociedade brasileira. E as turmas realizaram apresentações
sobre o tema, houve pesquisa de vestuário, pratos típicos
etc... Ao aniversário dos 500 anos do Descobrimento foi dado o
respeito em tempo real: professores, pais e alunos, num projeto conjunto,
reproduziram cada um dos 45 dias de viagens da nau capitânia e sua
esquadra, enriquecidos com textos da literatura quinhentista, desde a
saída de Portugal até o dia do descobrimento, que na escola
foi comemorado com festa e carnaval. Com dramatizações diárias,
todos paramentados a caráter, a notícia foi adiante e até
televisão correu para filmar.
Atualmente, a escola está imersa no estudo de um grande
tema anual: os elementos da natureza. Iniciou o ano enfocando a água,
recurso imprescindível para a vida no planeta, cada vez mais escasso.
Isso levantou questões de ordem ecológica e de cidadania
para o seu não desperdício, envolvendo ainda estudos geográficos
de nossas bacias hidrográficas, bem como aspectos de implicação
social como as enchentes que São Paulo sofre todo ano. Na seqüência,
veio o elemento terra; estudou-se solo e vegetação, as propriedades
terapêuticas da variada flora local, encontrada na própria
escola. Sementes foram plantadas, árvores classificadas; as mesmas
nas quais as crianças sobem e brincam, também onde os pequeninos
vivem histórias mágicas e encantamentos.
O segundo semestre trouxe o elemento fogo. Dilemas quanto à
utilização de energia térmica comparada à
energia nuclear são objeto das aulas de ciências para os
maiores, e a física aborda as conquistas sobre o átomo.
Já ciências administrada aos alunos de 3a e 4a séries
leva as crianças às primeiras noções de astrofísica,
apresentando-as ao astro-rei, nossa estrela mais próxima, para
em seguida introduzi-los aos rudimentos de anatomia a partir do estudo
do coração, órgão este que a medicina oriental,
fundamentada no taoísmo, associa ao elemento fogo. As aulas de
história parte da importância da máquina a vapor para
pensar o desenvolvimento do Brasil, e as de música e dança
servem-se de um repertório amplo pertinente ao tema, do clássico
ao popular, sem se esquecer das composições eruditas de
nomes brasileiros. No ritual de abertura do semestre, por exemplo, a Dança
Ritual do Fogo, do espanhol Manuel de Falla, fez mostrar aos alunos que
existe coisa bem melhor que o rock.
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