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Paulo Urban
  


Mumificação - Um Procedimento Alquímico
Por Paulo Urban

Publicado na Revista Planeta nº 338 / novembro 2000

"Oh! Tu que irradias solidões noturnas, Deus do Disco Lunar, vê!
Eu também te acompanho entre os habitantes do Céu que te rodeiam.
Eu, morto, Osíris, penetro à minha vontade
ora na Região dos Mortos,
ora na dos vivos sobre a Terra,
em todas as partes às quais meu desejo me conduz!"

Tal é a citação do segundo capítulo do Livro dos Mortos, cujos papiros eram comumente colocados junto ao corpo mumificado, sob a cabeça do cadáver, conforme o costume funerário egípcio. Outras vezes, passagens de seu sagrado texto eram transcritas nas câmaras mortuárias, principalmente sob a forma de recitações mágicas a serem proferidas pela alma em seus percalços no além. Até que pudesse se apresentar ao tribunal de Osíris, onde seria julgada em razão do que fora sua vida terrena, , a alma (agora separada de Ká, o corpo), teria que sofrer árdua caminhada, cruzar 21 pilares, desvendar 15 entradas e passar por 7 salas de provações.

O Livro dos Mortos, como ficou entre nós conhecido o conjunto de textos mortuários, mais de 200 fórmulas mágicas e hinos datados do Império Novo (1550a.C.) até o período de dominação greco-romana (332 a.C.-395 d.C.), prestava-se de fato como receita a ser seguida pelas almas que adentravam no desconhecido. Antes, porém, destinava-se a instruir os "vivos" que, uma vez iniciados em seus segredos, poderiam melhor preparar suas almas para o derradeiro julgamento. Por isso, o título verdadeiro deste livro é outro; uma melhor tradução de seu nome seria "Saída para a Luz", isto é, para o dia, para o renascimento.

Curiosamente, é o escaravelho, inseto sagrado para os egípcios, que nos remete a essa imagem cíclica de imortalidade. Associado geralmente na escrita hieroglífica ao verbo kheter, a significar "vir à existência", corresponde à imagem do sol que renasce de si mesmo. Decididamente, o escaravelho tem esse caráter, pois passa o dia inteiro empurrando entre as patas uma bolinha feita de suas fezes enquanto o sol está cruzando os céus em direção ao ocaso. Com a chegada da noite ele a enterra, e a fêmea vem colocar aí seus ovos. Ao amanhecer, um jovem escaravelho nasce do excremento para de novo acompanhar o astro rei em seu caminho. Tal qual o sol que ressurge das sombras da noite, o escaravelho renasce da própria decomposição.

Mas voltemos ao Livro dos Mortos. Alcançando êxito nas ordálias prévias do post-mortem, a alma deparara-se com a implacável figura de Osíris, também seu filho Anúbis (divindade semi-humana com a cabeça de chacal), e outros 42 juízes já paramentados para o grande tribunal. Thot, outra figura estranha, aparentemente humana, mas com cabeça de íbis coberta pelo crescente lunar a sustentar o disco do sol (conforme vimos na citação do Livro dos Mortos) é o escriba da secreta audiência. E seu tema central é a pesagem do coração, órgão este associado à idéia da alma.
A deusa Maat, cujo nome significa "verdade", é o fiel da balança. Quase exclusivamente representada por uma pena de avestruz, é ela quem se coloca sobre o outro prato da balança, a servir de contrapeso ao coração. Se este for mais pesado, é porque a alma é impura, e o cão Anúbis o atira a uma terrível divindade híbrida que o devora. Caso seu peso seja tão justo quanto a pena de Maat, a alma imaculada, triunfante, é então entregue aos cuidados de Osíris.

A religião egípcia, não diferente das demais culturas milenares, estava a alicerçar toda a sociedade. Seus sacerdotes compunham uma seleta classe de letrados, encarregados de manter os Templos, fabricar seus utensílios, reproduzir os rituais e cultuar as divindades. Eram eles, obviamente, quem melhor podiam atestar o grau divino do faraó. Fazendo isto, detinham um poder extraordinário, pois captavam não só o apoio deste, como também as incontáveis oferendas depositadas pelo povo.

Exceção foi o faraó Amenófis IV, da 18a dinastia, que trocou seu nome para Akhenaton, "Filho do Sol". A religião do Egito sofreria com ele uma radical reforma monoteísta. Akhenaton deflagrou sua guerra religiosa investindo contra o célebre Templo de Amon-Rá que se erguia defronte de seu palácio, em Tebas. Até hoje restos desta colossal construção podem ser visitados; pertencem ao complexo das famosas ruínas de Carnac. Para que Aton ocupasse definitivamente o lugar das outras divindades era necessário que a principal imagem do politeísmo fosse derrocada, e os demais templos de Amon passaram a ser alvo de ataques. Milhares de sacerdotes foram destituídos de suas funções. Sob as ordens do novo faraó, todos os nomes dos deuses escritos nos templos eram raspados, e suas estátuas destruídas ou confiscadas.

Obcecado pela utopia de seu Estado, idealizado para ser socialmente justo, Akhenaton esperava trocar a demagogia e os privilégios dos sacerdotes de Amon por uma realidade que unisse toda a humanidade sob a glória de um deus único, e elegeu o Sol como símbolo desta sua concepção religiosa universal. Mandou erigir um templo monumental para seu deus, o Gem-Pa-Aton, e, por volta de 1350, transferiu-se para o longínquo vale desértico de Tell-el-Amarna, onde dali a quatro anos inauguraria a nova capital do império, denominada Akhetaton, ou "Cidade do Sol". Ao lado de seus 50 mil habitantes, o faraó isolou-se da política externa, preferindo ali a vida contemplativa e esotérica. Duraria 17 anos a sua reforma, que se sustentou somente durante seu reinado. Acredita-se que o introspectivo faraó, por contrariar muitos interesses políticos e religiosos, tenha sido envenenado.

Entretanto, mesmo as radicais reformas de Akhenaton não ousaram violar os templos de Osíris. Também foram preservados os altares dedicados a Thot, divindade que ainda exportaria suas qualidades ao Hermes grego. Por que tal deferência? Qual o motivo do respeito de Akhenaton por estas divindades? Para esclarecermos a questão, peçamos auxílio ao mito de Osíris. Tal divindade, na era pré-dinasta devia estar associada à agricultura e à colheita, posto que morria periodicamente a cada outono para ressuscitar na primavera seguinte, com a cheia do Nilo. Referências ao mito, ainda que inúmeras e esparsas por diferentes papiros, não retratam em nenhuma das regiões arqueológicas já pesquisadas sua história por completo.
Há sempre divergências nos relatos que, até por isso, enriquecem o mito com detalhes. Resumidamente, a versão mais aceita nos é narrada pelo grego Plutarco, século I d.C.

Com o mito já avançado, Osíris chegara a ser governante dos egípcios, e era querido por seu povo, afinal, libertara-o da ignorância, havendo ensinado a todos a agricultura. Séti, invejoso do sucesso do irmão, arquiteta um plano para apoderar-se de seu trono. Promove um banquete e, havendo obtido previamente as medidas precisas do irmão, conclama todos a uma diversão, desafiando seus convivas a se deitarem num belo cofre, que seria ofertado àquele que nele melhor coubesse. Claro, mancomunados, seus aliados esperavam pela hora em que Osíris o experimentaria.