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Máscaras
- As Mil Faces de Deus
Por Paulo Urban
Publicado
na Revista Planeta nº 362 / novembro 2002
Todas as ilustrações são com máscaras
de Monica Facó
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Enigmáticas,
inquietantes, trágicas ou cômicas, assustadoras
ou belas, as máscaras compõem um extraordinário
acessório de formas e funções múltiplas,
cujas origens se perdem na noite universal dos tempos. Simples ou
complexas, articuladas ou imóveis, antropomorfas, zoomorfas
ou híbridas, feitas de folhas, de cascas e de ramos vegetais
ou de tecido, de pele ou de couro, de madeira, de conchas, forjadas
em ouro, prata ou outros metais, esculpidas em pedra ou cozidas
em cerâmica, moldadas em papel etc, as máscaras são
artefatos omnipresentes que espelham as sociedades que as engendram.
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Monica
Facó
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Sua
ocorrência é de tal ordem diversificada que, desde
os primórdios da humanidade, pelos cinco continentes encontramos
variações de seu uso que chegam quase ao infinito.
Remarquemos ainda que mesmo os povos primitivos que ignoraram os
mais simples utensílios e ferramentas e que prosperaram sem
sequer conhecer a roda, fabricavam suas máscaras para usá-las
num contexto ritualístico e sagrado. Estudos
antropológicos e descobertas arqueológicas feitos
a partir do século 19 atestam serem as máscaras mais
difundidas pelo mundo do que o arpão, a alavanca e o arado.
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A
primeira máscara de que se tem registro está gravada,
entre centenas de outras figuras, na caverna labirinto de Trois Frères,
em Ariège, nos Pirineus, datada do Paleolítico Superior
(30.000 a 10.000 a.C.), descoberta em 20 de julho de 1914. Com a eclosão
da I Grande Guerra dali a um mês, seu estudo só pôde
ser iniciado pelo abade Henri Breuil em 1918. O arqueólogo interpreta
a imagem rupestre do feiticeiro barbudo, cujas pernas são de homem
e cujos membros dianteiros são de urso, como um xamã antropozoomórfico
que, usando máscara de cervo, preside um ritual de cura e caça,
associado à fertilidade.
De fato, consoante o mitologista Joseph Campbell (1904-1987),
temos de buscar no mundo primitivo, onde deuses e demônios não
são realidades fixas e rígidas, a maioria dos indícios
sobre a origem da mitologia; um deus (na acepção arcaica)
pode estar simultaneamente em dois ou mais lugares, como uma melodia
ou sob a forma de uma máscara tradicional. E onde quer que ele
surja, o impacto de sua presença é o mesmo: ele não
é reduzido pela multiplicação. Além disso,
a máscara em um festival primitivo é venerada e vivenciada
como uma verdadeira aparição do ser mítico que ela
representa. Durante o ritual do qual a máscara faz parte, aquele
que a estiver usando é identificado com seu deus.
Etimologicamente, o termo máscara tem origem controversa.
Para uns procede do italiano maschera que, no século XIV,
se constituiu sobre a forma anterior mascara. Originalmente, estaria
relacionada ao baixo latim mediterrâneo masca, cujo sentido
era o de "demônio" e que no século VII assume a
acepção de "bruxa ou feiticeira", que se transferiu
ao francês occitânico. Para outros, o termo maschera introduziu-se
na Itália a partir das invasões árabes, sendo corruptela
de mashara, a significar "personagem bufão", por
sua vez derivado do verbo sahir, que quer dizer "ridicularizar".
Dentre as inúmeras funções das máscaras
está a de reanimar os mitos que sustentam os costumes sociais;
por meio de seu uso os homens cumprem seus ritos cosmogônicos e
tomam consciência de seu lugar no universo. Citemos as danças
em procissões mascaradas que fecham os trabalhos de cultivo, semeadura
e colheita na maioria das culturas primitivas de base agrícola,
mais arcaicamente presentes entre os povos da África negra. Os
dançarinos mascarados kurumbas, por exemplo, fazem gestos e movimentos
circulares de cabeça que reproduzem o ato criador de seu herói
civilizador Yrigué e de seus filhos, descendentes do céu.
A propósito, na África e em muitas outras partes, as
máscaras não se acham somente associadas às práticas
agrárias, mas também aos ritos iniciáticos e funerários,
conferindo aos homens a possibilidade de compreensão do drama coletivo
que dá sentido às suas vidas. As máscaras presidem
cerimônias importantes, são insígnia de grau e de
poder, fazem-se presentes tanto na vida quanto na morte, regem ritos sazonais
e constituem-se em elemento de controle social, visto que permitem a certos
iniciados a comunicação com seus ancestrais e hostes elevadas
que protegem ou ameaçam a vida de seu grupo.

Monica
Facó |
Compreendamos
melhor essa relação nas palavras do etnólogo
Claude Lévi-Strauss: Animada por seu portador, a máscara
transporta a divindade até a Terra, ela revela sua realidade
e a mistura à sociedade dos homens; inversamente, quando
se mascara, o homem atesta sua própria existência social,
manifesta-a, codifica-a à custa de símbolos. A máscara
é a mediadora por excelência entre a sociedade e a
natureza, e a ordem sobrenatural subentendida.
Portanto,
cumpre ressaltar, as máscaras se revestem de um poder mágico
especial; por meio delas podemos ter acesso ao mundo invisível
e, por isso, não são inócuas. A máscara
e seu usuário se alternam e se mesclam numa só (inter)face;
estabelece-se assim, por intermédio dela, uma ponte onde
supostamente se condensa a força vital capaz de apoderar-se
daquele que se coloca sob sua proteção.
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| Máscaras
são, destarte, instrumentos de possessão. A multiplicidade
de suas formas, que muitas vezes funde numa mesma figura traços
humanos e animais, bem expressa a infinidade de forças circulantes
no universo que, captadas pela máscara, aglutinam-se de modo
a permitir ao ser humano confrontar-se com potências que jazem
dormentes no mundo interior, desconhecido e sombrio. |
Isto
nos reporta aos indígenas norte-americanos - tribos Hopi e
Zuñi e outros habitantes pueblos e iroqueses - cujos ritos mascarados
são complexos, voltados à proteção contra
a fome, a seca, as doenças e as catástrofes naturais. São
deuses-animais que presidem a "Sociedade de Medicina" desses
povos, todos mestres das ervas medicinais e ritualísticas, também
detentores dos segredos da feitiçaria.
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Neste
particular, os deuses totêmicos assumem relevante papel,
servindo aos iniciados na magia e na cura xamânica como base
de identificação dos valores que eles simbolizam.
Os totens, representações geralmente colunares de
máscaras de animais, plantas ou objetos sagrados, sob esse
aspecto, potencializam as qualidades de suas entidades mágicas
pela repetição de seus ícones ao longo de sua
verticalidade.
Ainda que nos seja impossível esgotar tão fascinante
tema, não deixemos passar as tradições
gregas que, desde as civilizações de Minos e Micenas,
bem exploraram o uso mágico das máscaras, quer em
danças sagradas quer em ritos funerários. Foi o espírito
grego, entretanto, dotado de argúcia e senso estético,
o principal responsável pela primeira grande transformação
no que se refere ao sentido e ao uso das máscaras. Os gregos,
por meio delas, inovaram o teatro.
A bem
da verdade, as primeiras representações teatrais
não são gregas, mas egípcias. As mais antigas
referências datam de 2.800 a.C. e o drama de Osíris,
por exemplo, continuou sendo produzido em estrito senso litúrgico
pelo menos até o século 5 a.C.
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Monica
Facó |
Também na Grécia
antiga o teatro era forma corrente de se dramatizar e reavivar a mitologia;
os Mistérios de Elêusis, por exemplo, desde o século
8 a.C. eram encenados segundo um protocolo sagrado imutável e diziam
respeito a um rito de fertilidade. Uma montagem teatral em três
atos representava os dois graus dessa iniciação; o primeiro
de caráter popular; o segundo, reservado aos eleitos. Mas, por
conta de festivais anuais dedicados a Dionísio, instituiu-se a
competição teatral nas categorias tragédia e comédia.
A propósito, a palavra teatro provém do verbo grego theasthai,
cujo significado é "ver e enxergar".
A
primeira encenação artística foi uma tragédia
escrita por Téspis de Icaria, realizada em Atenas, em 534 a.C.,
durante o governo do tirano Pisístrato. O primeiro autor foi também
ator de seu drama; engajou-se num diálogo com o coro e, para melhor
expressar a densidade trágica de seu texto, posto que a platéia
se sentava no chão ou sobre rochas, distante da cena, introduziu
as máscaras. Estas eram mantidas frente ao rosto apenas durante
as falas, seguras pelas mãos. Os trágicos clássicos
Ésquilo e Sófocles, mais tarde acrescentaram um segundo
e um terceiro atores ao drama, que mantinham diálogos com o coro.
Este, chefiado pelo corifeu, era composto por 15 homens. Já as
comédias admitiam coros de 24 integrantes; e às mulheres
estava vetada a função. O teatro grego, originalmente, era
um simples grande círculo conhecido por orquestra, que em
grego quer dizer "local onde se dança"; somente em 460
a.C. foi introduzido o palco de madeira, embora o coro continuasse a colocar-se
lateralmente a ele, na orquestra.
A máscara dramática introduzida por Téspis
fazia figurar o prósopon, isto é, a pessoa ou o personagem
que, em latim, se diz persona, sinônimo de máscara,
também de caráter ou papel representado pelo ator.
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Dar-se
conta das diferentes personas que vestimos, isto é, estar
consciente das máscaras que servem ao ego em seu exercício
de (re)velar-se aos outros, é fase preliminar e imprescindível
de todo e qualquer processo de auto-conhecimento, a que o psiquiatra
suíço Carl G. Jung (1875-1961) chama de individuação.
Isto porque, forçosamente, para que estabeleçamos
contato com o mundo exterior, assumimos parências que nem
sempre correspondem àquilo que somos essencialmente. Sob
o prisma da psicologia junguiana, a persona encarna a metáfora
da fixidez da máscara do ator que, no transcorrer de sua
recitação, desenvolve o papel que lhe cabe procurando
fazer coincidir as qualidades de seu personagem com a
(i)mobilidade plástica de seu rosto. Desse modo, tornar-se
consciente da própria persona ou de seus aspectos mais relevantes,
é perceber aquilo que "já somos" no mundo,
posto que a persona traz elementos fortes de caráter que
nos são dados desde as primeiras experiências de vida
e que se cristalizam sobre o ego ao longo de todo um complexo processo
de desenvolvimento da personalidade.
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Monica Facó
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A
persona "per si", é claro, não pode ser entendida
como traço psíquico patológico; nem a constatação
óbvia de que nos valemos de certas máscaras que intermediam
as relações humanas pode ser chamado simplesmente de hipocrisia.
As personas são mesmo necessárias e representam até
certo ponto um sistema útil de defesa. Tornam-se patológicas
quando o ego as valoriza em absoluto e deixa-se enganar por sua mera aparência,
a propósito, aquela mesma com ele quer se mostrar aos outros. Em
tais circunstâncias neuróticas, comuns por sinal, o ego converge
a energia psíquica quase que exclusivamente para os papéis
sociais assumidos e guarda uma consciência cada vez mais virtual
dos verdadeiros valores perdidos em seu mundo interior, esquecendo-se
de si próprio e preterindo o revitalizador caminho da individuação.
Nestes casos, restamos presos em nossas próprias armadilhas tal
qual o ator que se deixa dominar por seu papel a ponto de perder a noção
de sua genuína identidade, negligenciando o verdadeiro sentido
de sua existência.
Convém
resgatarmos aqui a citada crença primitiva, que ora se reveste
de profunda verdade psicológica, que faz da máscara um instrumento
de possessão, capaz de pôr em risco a integridade psíquica
daquele que a experimenta sem antes sacralizar este seu ato.
A psicoterapia, nesse aspecto, é processo dinâmico
e necessário capaz de aguçar o ego para que se conscientize
de seus disfarces, a partir do que poderá vislumbrar sua natureza
mais profunda. O caminho da individuação pressupõe
que nossas máscaras sejam paulatinamente experimentadas, assimiladas,
reconhecidas e retiradas; tão logo a última das personas
seja compreendida pelo ego, este se depara com sua face natural e despida,
até então oculta, entretanto.

Exatamente
nesse ponto se imbricam o ego e o eu profundo; abre-se aí o
portentoso umbral para o mundo da sombra, psicologicamente denso. Se chegamos
a esse ponto da jornada, a alma sabe que voltar é impossível;
penetrar nesse reino é inevitável a essa altura do processo.
A experiência não é mesmo fácil, assume caráter
iniciático e promete dor, morte simbólica, renascimento
e transformação.
Em
nossa sombra, oculta pelas máscaras cotidianas, encontra-se
a possibilidade da plena comunhão psíquica pela conjunção
intrínseca de nossos pares opostos e complementares; nesse mundo
abissal está a chance do ser humano conhecer-se por inteiro. Os
alquimistas representam esse fenômeno pela sigízia, ou o
casamento entre sol e lua. Os taoístas revelam-no pela ciência
de Yin e Yang. Os povos magistas ensinam, de mesmo modo, há milênios,
que assim como é embaixo é em cima; assim como é
dentro é fora; assim como tudo foi, tudo é e sempre será.
E cada máscara representa um detalhe de Deus a ser reconhecido
e experimentado em prol da evolução de nossas almas.
O que há para se ler:
Masques du Monde, M. Revelard & G. Kostadinova; La Renaissance
du Livre, Bélgica, 2000.
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do Encantamento
e acupunturista.
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