|
|
|
Jung
Responde a Jó
Por Paulo Urban
|
Publicado
na Revista Planeta nº / outubro 2001
|
|
Havendo
certo dia os anjos apresentado-se diante do Senhor, e dentre eles
Satanás, dirigiu-lhe Javé a palavra, fazendo-o notar
seu servo Jó, homem íntegro, afastado do mal e incapaz
de blasfemar. "Porventura Jó teme debalde a Deus?",
indaga Satanás, considerando que, cercado de bens como
vivia, seria mesmo de se esperar que o abastado Jó nunca
protestasse. Bastaria que Javé lhe tirasse a família,
o conforto, a saúde, e o fiel logo estaria cuspindo em
Sua cara. "Pois bem, responde-lhe o Senhor, tudo o que
ele tem está em teu poder; somente não estendas
tua mão sobre ele próprio". E Satanás
dali se foi (Jo 1,12), autorizado que estava a desgraçar
o pobre homem.
|
Escrito
em prosa no séc. VI a.C., este é o prólogo do
Livro de Jó do Antigo Testamento, de autor desconhecido,
cujo estranho enredo vive a inquietar-nos.
O demônio arruina Jó completamente. Incita os sabeus
e os caldeus a roubarem-lhe os bois e os camelos e a matarem seus escravos.
Num incêndio, queima seu rebanho e seus pastores e, não satisfeito,
o anjo maldito levanta um furacão no deserto, levando deste mundo
os dez filhos de Jó. Este, resignado, não profere palavra
contra Deus.
Satanás volta ter com Javé, mantêm-se os mútuos
desafios, e o diabo obtém nova chancela divina para continuar atazanando
Jó. Javé, dizendo-se seguro da integridade do representante
de seu povo, negocia: "Pois bem, ele está em teu poder,
poupa-lhe apenas sua vida". (Jo, 2,6). E Satanás se exalta;
faz arder em Jó, corpo inteiro, a lepra maligna. Mesmo assim, Jó
não ofende seu Senhor. Mas, desta vez, senta-se para se coçar
com um caco de telha, e solta impropérios, amaldiçoando
o dia em que nasceu.
Nesse ponto o texto estende-se sob a forma de hinos que confrontam
a fala de Jó à de quatro amigos que vêm visitá-lo
com intuito de ensinar-lhe a moral, criticá-lo, explicar-lhe o
porquê de seus reveses. Sempre há farta amostra de pessoas
moralistas deste tipo, e desgraças não faltam para vê-las
em serviço.
Elifaz de Teemã diz que só os ímpios são
castigados, e Jó lhe responde que seu castigo é bem maior
que seus pecados; Baldad de Chua lembra que Javé é sempre
justo, com o que concorda Jó, ressalvando que Ele não aflige
só os maus; Sofar de Naama fala que Javé é o único
sábio a ver toda injustiça, ao que Jó repete ser
desproporcional o seu castigo. Sofar replica que a alegria dos ímpios
é breve, mas Jó aponta a prosperidade de vários deles.
Acusado de arrogância, apela para o testemunho de Deus. Eliú
de Buz discursa exaustivamente, diz que só o sofrimento purifica
o homem, até ser interrompido pela aparição do próprio
Javé, saído de uma tempestade (influência do helenismo,
cujo deus maior, Zeus, é Senhor dos Raios e Trovões), pronto
a atender a súplica de seu servo inconformado.
Javé defende Jó, proclama sua inocência diante
de seus quatro amigos, e repreende-os. Também interroga Jó
sobre os mistérios da Criação, abusa de ironias,
e cobra do infeliz uma resposta. Pasmo, Jó diz que se arrepende
em nome do pó ao qual retornará, pede perdão e se
retrata. Javé, sentindo-se vitorioso sobre Satanás, restitui
então a Jô, em dobro, todos os seus bens; dá-lhe ainda
novos filhos e o faz viver por mais 140 anos, para compensá-lo(!?).
Mas que Deus é este? Ao contrário dos deuses gregos,
Javé não tem genealogia. Criador absoluto do Universo, antes
Dele, só havia o Nada. Zeus grego, pai da 3a geração
divina, ao contrário, tem família: é filho de Cronos,
neto de Urano. Por sinal, Zeus nada quer da humanidade; vez por outra
fecunda uma mortal, cobra lá seus sacrifícios, joga seus
raios sobre este ou aquele que o afronte, mas vive distante dos homens,
regendo o mundo por instintos, lá do Olimpo.
Javé, por sua vez, é afetivo. Ciumento, faz da humanidade
uma de suas maiores preocupações, decide o que é
melhor para seu povo e, via de regra, assume um comportamento neurótico.
Sela pelo arco-íris sua aliança com Noé, renova-a
com Abrãao, daí com Moisés no monte Sinai, depois
com Davi. Vale-se ainda de severos castigos coletivos com os quais tenta
corrigir seu povo eleito, que insiste em ser teimoso, haja vista o episódio
do Dilúvio, a destruição de Sodoma e Gomorra, e Sua
inclinação para matar primogênitos, como lemos em
Gênesis 22 e Êxodo 22,29. Qualquer reflexão mais profunda
nos prova: Javé não é o Summun Bonum, Ele
tem também seu lado perigoso. O temente a Deus, treme de
medo diante de sua austeridade!
Estranhamente, a figura de Jó expõe, de modo inequívoco,
a frágil condição humana diante de uma inexplicável
crueldade divina; complexo dilema sobre o qual se deteve o psiquiatra
suíço Carl G. Jung, dedicando-lhe um profundo tratado, escrito
aos 76 anos de idade, intitulado Resposta a Jó.
Jó parece ter vivido entre o tempo de Esaú e Moisés.
Sua história foi escrita cerca de 200 anos antes dos Provérbios,
onde, pela primeira vez, surge a figura de Sofia, a Sabedoria de Javé.
Ela é a natureza feminina de Deus, que até então
não havia sido sequer mencionada. Javé criou o mundo sem
reconhecê-la, mas é a própria Sofia quem nos diz ter
estado por toda eternidade ao lado Dele: "O Senhor me criou desde
o princípio...ainda não havia abismo quando fui concebida"
(Pro 8,22-24).
Sabedoria corresponde no cânon bíblico à Deusa
Isthar dos Babilônios que, por sua vez, originou Ísis
egípcia, ambas capazes de se apresentar sob a forma de árvore,
seja o cedro, o carvalho, a oliveira etc... Gênesis alude a esta
face desconhecida de Deus, disfarçando-a na serpente arbórea
que corrompe o casal edênico. Isto porque Sofia também pode
ser representada pelo Logos, isto é, a razão, a luz de nossas
consciências; afinal, a inteligência tem um caráter
que a aproxima da Sabedoria. Neste aspecto, podemos entender Satanás
(do hebraico; satan: o que se opõe) como aquele que nos
oferece o fruto interdito da consciência que, uma vez experimentado,
nos separa da natureza absoluta original (Deus e o Paraíso), transformando-nos
em indivíduos, com a luz própria do arbítrio e do
discernimento. Distante da idéia do mal, seu correspondente clássico
é Prometeu, que rouba o fogo de Zeus para entregá-lo aos
homens.
|
|