|
|
|
Jung
e a parapsicologia
Por Paulo Urban - continuação (2)
|
Num
curto espaço de exatas duas semanas do ano de 1898, durante
as férias de verão da Faculdade de Medicina da Basiléia,
dois curiosos acontecimentos no estilo Poltergeist vieram servir
de alimento para suas indagações futuras. Estando a sós
com sua mãe em sua casa, em Zurique, Jung estudava em seu escritório
enquanto ela fazia tricô na sala contígua. De repente, o
silêncio foi quebrado por forte estampido, semelhante a um tiro
de revólver! Sobressaltados, ambos procuravam saber o que havia
acontecido; olhavam às suas voltas quando deram com a mesa de madeira
inteiriça da sala principal que havia se partido, rachando-se ao
meio misteriosamente. Era nogueira sólida que secara há
setenta anos e, segundo Jung, naquelas condições climáticas
de umidade relativamente elevada tal rachadura nem poderia ter ocorrido.
Quatorze dias mais
tarde, Jung
viveria outro episódio de psicocinesia, tão estranho quanto
o primeiro. Havendo entrado em sua casa por volta das dezoito horas, encontrara
sua mãe e sua irmã, esta com 14 anos, extremamente agitadas
e nervosas. Há uma hora haviam escutado outro barulho ensurdecedor,
vindo da direção de um pesado móvel do século
XIX, onde se dispunham os pratos e talheres. Numa de suas gavetas, onde
se guardava a cesta de pão, além das migalhas, Jung encontrou
a faca que há pouco fora usada no café da tarde com sua
lâmina rompida em três pedaços. No dia seguinte, Jung
levou o material quebrado a um dos melhores cuteleiros da cidade. Este
lhe teria garantido, "É faca de boa qualidade, não
há defeito no aço, quem a partiu deve tê-la forçado
contra a fenda de uma gaveta ou martelado com ela sobre pedras. Alguém
está querendo lhe pregar uma peça!". A faca, inexplicavelmente
partida, foi cuidadosamente guardada por Jung durante toda a sua vida.
Por que se estilhaçara? E como explicar a rachadura da mesa de
nogueira maciça? "A hipótese do acaso para explicar
o ocorrido, diz Jung, tinha a mesma probabilidade que a do Reno correr
em direção a sua nascente". Ele já suspeitava
por essa época que forças inconscientes consteladas, isto
é, reunidas em potenciação, a ocorrer em momentos
específicos de nossas vidas, em situações que Jung
mais tarde batizaria como "arquetípicas", poderiam ter
energia suficiente para desencadear fenômenos físicos perceptíveis
à nossa volta, ainda que de forma repentina e quase nunca sob o
controle de nossa vontade.
Digo quase nunca pois, ao que parece, Jung acabaria desencadeando
mais ou menos conscientemente um dos mais curiosos fenômenos psicocinéticos
de sua vida. Deu-se em presença daquele que para ele foi, desde
quando se conheceram pessoalmente em 1906, em Viena, primeiramente um
mestre, depois quase um pai, para mais tarde, em 1913, desentenderem-se
e terem rompida a amizade. Estamos falando de Freud, o pai da Psicanálise,
que quis ver em Jung um de seus melhores discípulos, nele projetando
toda a esperança de fazê-lo herdeiro de seu saber psicanalítico.
Mas a vontade do mestre não se concretizou. Tendo divergido de
Freud, principalmente no tocante à questão da libido e quanto
às bases de interpretação do material onírico,
Jung acabou por estruturar seu próprio sistema de compreensão
do psiquismo humano ao qual denominaria de "Psicologia Analítica".
Além disso, pensava: "Retribui-se muito mal aos mestres se
nos tornamos para sempre seus discípulos!"
Jung visitou Freud em 1909 justamente com o intuito de questioná-lo
a respeito dos fenômenos "psi". Perguntando a Freud o
que ele pensava acerca da precognição e da nova ciência,
a parapsicologia, ouviu do mestre que não deveria estar se preocupando
com tolices desse gênero. (*)
E enquanto Freud discursava, Jung ia sofrendo uma estranha sensação;
sentia seu diafragma como ferro ardente, parecia haver dentro dele energia
capaz de abaular seu abdômen. Foi quando algumas pancadas misteriosas
passaram a ser ouvidas pelo consultório, culminando num estalido
forte como se a estante de Freud (curiosamente, símbolo de seu
saber) fosse desabar sobre os dois. Jung gritou: "É o que
eu chamo de fenômeno catalítico de exterioração!"
Ao que Freud respondeu: "Ora, isto é puro disparate!".
Jung, atestando sua razão, profetizou: "Pois estou tão
certo do que falo que afirmo que igual fenômeno se reproduzirá
neste exato instante!" E, pou!, outro estalido bem sonoro explodiu
ali mesmo na estante. Freud olhou-o emudecido e horrorizado. Tinha acontecido!
Em carta datada de 16 de abril daquele ano, Freud diz a Jung, falando
sobre o assunto, que poderia dar inúmeras "explicações
naturais" para os "espíritos golpeantes". Não
podemos deixar de observar que na fala do "mestre" estava a
suposição de que no discurso dos que se interessavam por
"tolices desse gênero" estivesse a crença de que
seriam "espíritos sobrenaturais" os agentes causadores
destes estampidos. Mas Freud estava bem distante das interpretações
que Jung proporia para os fenômenos psi, para ele explicáveis
de forma natural e sempre relacionados com nosso psiquismo mais profundo,
individual ou coletivo, mas humano.
Poderíamos narrar muitos outros episódios parapsicológicos
na vida de C. G. Jung, boa parte deles encontra-se descrita na citada
autobiografia. Mas fugiríamos das dimensões deste texto,
cuja pretensão é apenas a de revelar o quanto de mistério
ainda existe em nosso mundo psicológico mais profundo, passível
de interação não mecânica com o meio físico
à nossa volta, psiquismo esse também capaz de transpor as
barreiras impostas quer pelas malhas do tempo, quer pela rede do espaço.
No apêndice de sua obra póstuma, O Homem e seus Símbolos,
traduzida pela editora Nova Fronteira, voltada ao público leigo,
esboça-se uma relação entre a Psicologia Analítica
e as descobertas relativísticas da física quântica.
Jung julgava imprescindível uma complementaridade à sua
psicologia para que a humanidade encontrasse modelos mais satisfatórios
para a explicação dos fenômenos psi. Sonhava Jung
que os físicos, a começar por seu analisando e amigo Wolfgang
Pauli, um dia pudessem emprestar à sua obra um auxílio enorme,
para que uma teoria interdisciplinar mais consistente se firmasse sobre
novos e revolucionários paradigmas, transcendendo a maneira encontrada
pela física clássica para explicar o universo e seus fenômenos.
Mais uma vez o médico da Basiléia profetizara, pois é
isto justamente o que vem ocorrendo no discurso científico contemporâneo.
(*) Na
verdade, dali a alguns anos Freud abriria publicamente sua mente, ainda
que com reservas, para inteirar-se dos eventos parapsicológicos,
chegando a escrever interessantes e reveladores artigos sobre sua pia
crença no fenômeno telepático. São os trabalhos
"Psicanálise e telepatia"(1921), "Sonho e telepatia"(1922),
"O significado oculto dos sonhos"(1925) e "Sonho e ocultismo"(1933),
textos estes, lamentavelmente, pouco lidos pela maioria dos psicanalistas.
Paulo
Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do encantamento
e acupunturista.
|
|
|