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Paulo Urban
  


J A N O - Entre o Passado e o Futuro
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Por Paulo Urban - continuação (3)

Permitam-me os leitores uma digressão, e peço que me acompanhem numa abstração de André Carneiro, escritor brasileiro de ficção científica que, num ensaio a respeito da ciência e da parapsicologia, avalia os hipotéticos 15 bilhões de anos de nosso universo como se estivessem condensados num só ano. Reflitamos juntos acerca deste particular momento de virada de milênio.

Seria como se o Cosmos começasse a existir no 1º de janeiro e nós nos encontrássemos, hoje, no último dia do calendário desse ano, já à meia-noite de 31 de dezembro. Vamos resumir:

- No primeiro instante deste ano virtual e durante toda a sua primeira hora teria ocorrido o Big-Bang, a explosão inicial que teria dado vida ao universo.
- Só no mês de maio, aproximadamente, é que teria então se formado a Via Láctea.
- Todo o sistema solar, nosso endereço galáctico, teria sido criado por volta de setembro; e em meados deste mês a Terra teria se formado, esfriando-se em sua órbita.
- Saltemos para 28 de dezembro; data em que foram extintos os dinossauros que dominaram o planeta nos últimos 270 a 65 milhões de anos. Cabe lembrar que reduzindo tudo a um só ano, cada segundo que passa leva consigo pelo menos 500 anos de história.
- Já estamos em 31 de dezembro, último dia do ano. São precisamente 22h30min; falta hora e meia para a meia-noite; para nós é tudo o que nos resta para a passagem do milênio. Pois bem, às dez e trinta desta solene noite foi que surgiu sobre o planeta o primeiro "Homo sapiens".

- Avancemos um pouco nosso relógio: são 23h53min. Sete minutos nos separam de 2001; podemos colocar nesse interregno, resumidamente e pela ordem, a Guerra de Tróia, todo o início, ascensão e queda do Império Romano, o nascimento de Jesus por essa época, e tudo o mais que ocorreu nas Idades Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea.
- 23h 59min; estamos a um minuto do século 21, tempo suficiente para que a Europa viva seu Renascimento, descubre-se o Novo Mundo, a ciência moderna se institucionalize a partir de Galileu e Newton, ocorra a Revolução Industrial, a Francesa etc, e mais recentemente sofremos duas guerras mundiais...
- A rigor, só mesmo numa insignificante parcela deste derradeiro minuto é que podemos colocar a máquina a vapor, a eletricidade, o telégrafo, a telefonia, o invento dos automóveis, o rádio e a televisão, os aviões, o domínio do raio-X, as experiências atômicas, a explosão em Hiroshima, os computadores, a corrida espacial e o bebê de proveta. Dizendo o mesmo em outras palavras, toda a história da humanidade está ocorrendo agora, nestes últimos e infinitésimos segundos de nosso ano imaginário.
Somos platéia especialíssima, testemunha de um tempo insólito!

Recapitulemos: nossa galáxia dá uma volta completa sobre si mesma a cada 200 milhões de anos; a vida rudimentar protozoária começou há uns 3 bilhões de anos, e nós, seres humanos, só inventamos a agricultura há 12 mil, a roda há uns 6 mil e a palavra escrita há pouco menos do que isso. Surpreende lembrar que passamos os últimos 1500 anos acreditando que a Terra fosse plana e centro do universo, de forma que além do horizonte cairíamos num abismo habitado por criaturas monstruosas.
Pensemos então: e se acrescentarmos um décimo de segundo a este ano resumido por André Carneiro?

Poderemos então imaginar o ser humano prestes a interferir em sua própria mutação, fabricando ovelhas tipo Dolly e modificando cereais transgênicos com a mesma facilidade com que hoje as crianças operam seus computadores. As mães logo poderão escolher as qualidades genéticas de seus filhos, e a sociedade poderá clonar tudo aquilo que julgar belo e necessário. E o homem futuro, herdeiro de nossa geração, saberá ler pensamentos? Moverá objetos sem tocá-los, valendo-se de suas faculdades psicocinéticas? Nosso cérebro, o sabemos, faz uso apenas de algumas de suas capacidades; quais outras restam adormecidas? Qual espécie sucederá o Homo sapiens em seu desenvolvimento evolucionista? Há espaço para o advento de um Homo psíquicus ?

Brinco de Jano a cada dia, e na incerteza do porvir me pergunto o que poderemos estar deixando às crianças, representantes do milênio que temos escancarado às nossas portas; e angustia-me a sensação de que possa não existir planeta Terra habitável daqui a umas duas, no máximo três gerações, a ver pelo rumo inconseqüente desta humanidade. Observemos realisticamente o meio à nossa volta. A Terra tem sofrido a fúria imediatista do homem que, pensando ser dono do mundo, fabrica cada vez mais instrumentos e tecnologia capazes de operar radicais transformações. Se não prestarmos atenção entraremos logo, de modo irremediável, em fase terminal. Passemos a limpo alguns pontos:

- Vivemos num mundo cuja população cresce vertiginosamente; haverá 800 milhões de pessoas a mais nos próximos dez anos.
- A água, riqueza escassa, vem sendo estrategicamente disputada pela maioria dos países.
- As espécies desaparecem hoje 5 mil vezes mais rapidamente que seus ritmos naturais de extinção permitiriam.
- As matas tropicais vêm sendo igualmente dizimadas numa velocidade estonteante, são 11 milhões de hectares destruídos a cada ano.
- Número superior a 350 milhões de toneladas de dejetos potencialmente perigosos, incluindo o lixo radioativo, são expelidos anualmente.
- O efeito estufa tem aumentado a cada década a temperatura média do planeta.
E seguimos abusando do ambiente sem nos darmos conta de que é seu estado harmônico que nos garante a sobrevivência. Também houve incremento da miséria pelo mundo afora:
- Na Indonésia, a pobreza cresceu 20% em 1998; são mais 20 milhões de miseráveis. - Na Índia são mais 340 milhões os que passam fome.
- Em vários países da África, bem como no leste europeu, houve crescimento da miséria, e no Oriente Médio há dados assustadores de mortalidade infantil.

Por outro lado, os contrastes sociais são tantos que a medicina prevê aumento na expectativa de vida para a próxima década (73 anos para os homens e 80 para as mulheres). Isto, bem entendido, se a humanidade não pulverizar o planeta com uma guerra atômica e encontrar meios de garantir seu futuro ecológico.

O "Projeto Genoma Humano", desvendando cada vez com melhor técnica nosso código genético, tem pretensões de eliminar grande parte das doenças mediante a troca de genes falhos por saudáveis. Espera-se curar males congênitos antes mesmo do nascimento das crianças, e a ciência poderá fazer coisas próprias da alquimia...
Enfim, vivemos a oportuna época das transições, propícia à meditação e à reflexão quanto ao sentido de nossas vidas, quanto ao nosso papel neste planeta. É hora de desconfiarmos do futuro, para que ele, podendo ser bom, não nos surpreenda de forma tão amarga. Em verdade, reside dentro de nós a possibilidade de um terceiro milênio equilibrado. Que tal nos aconselharmos com Deus Jano e pedirmos a ele que nos oriente pelo caminho?


Paulo Urban é médico psiquiatra, psicoterapeuta do encantamento e acupunturista.