Ultrajados,
os sabinos organizam-se, preparando-se para invadir a cidadela
do Capitólio. Inúmeras empreitadas são seguidamente
rechaçadas por Rômulo. Afinal, seu exército
estava formado por homens brutos, essencialmente ferozes. Coube
à perspicácia de Tito Tácio conseguir entrar
em Roma. Para tanto, o guerreiro, vendo-se incapaz de derrubar
os muros da cidade, valeu-se de um estratagema, e conseguiu pouco
a pouco atrair para si a paixão de Tarpéia, filha
de Semprônio Tarpeio, um dos guardiães da entrada
principal de Roma. A moça, a quem prometera esposar se
ela lhe abrisse as portas da cidade, apaixonada e cega que estava,
atendeu-lhe; e entregou Roma aos sabinos. Rômulo, vendo-se
cercado, faz preces a Júpiter, mas é deus Jano quem
surge neste exato instante para fazer brotar do solo água
fervente, que interrompe a passagem dos invasores, fazendo com
que os sabinos recuem, cheios de medo. Tempos mais tarde seriam
as mulheres sabinas que, cansadas de assistirem à morte
de seus ex-maridos e tementes pela vida de seus filhos com os
romanos, divididas entre suas dores, exigiriam o fim dos embates,
quando então os dois povos passaram a se respeitar.
Com a paz, Tito Tacio chegou a governar Roma ao lado de
Rômulo por alguns anos. Desde então, os romanos entenderam
que quando Jano se manifesta nas guerras, o faz para anunciar
a proximidade de seu fim. Também fundiam muitas vezes sua
imagem à de Júpiter, e o denominavam Janus Pater,
atributo de deus Criador, pai de todas as coisas, ou mesmo Jano
Matutinus Pater, ou "pai de todas as manhãs".
O poeta Ovídio (43a.C.-18d.C.), em sua obra Os Fastos,
associa-o ao Caos, estado anterior à própria Criação,
e diz que Jano tem duplo rosto porque "governa o céu,
a terra e o mar; e sendo tão antigo quanto o Mundo que
criou, sabe observar ao mesmo tempo o oriente e o ocidente".
Tito Tácio logo morreria em combate contra os laurentinos,
outro povo da região, e Rômulo encontraria seu fim
mítico mais tarde, aos 54 anos, após haver reinado
por 38. Numa tormenta, ele desaparece misteriosamente; diz a tradição
que um raio o levou para morar no céu. Há um intervalo
durante o qual os cem senadores administram a cidade, e o sucessor
escolhido é Numa Pompílio, homem culto e piedoso.
O segundo rei de Roma sobretudo prestigia deus Jano, e
resolve construir-lhe o já citado templo. Por volta de
700a.C. faz alteração no calendário de Rômulo,
de referencial lunar. O ano até então tinha apenas
304 dias divididos por dez meses; começava no equinócio
primaveril, em Martius (março), e os meses seguintes eram
Aprilis, Maius e Junius; daí em diante vinham os numéricos:
Quintilis, 5º mês, Sextilis, o 6º, September,
o 7º... até December, o 10o mês. Pompílio,
observando as imprecisões desta contagem, incluiu dois
meses no ano romano elevando para 355 seus dias; e batizou os
novos meses de Januarius (em homenagem a Jano, de quem era admirador)
e Februarius, em menção às festas com este
nome.
Jano desde então teve crescente prestígio, até
que Júlio César, encomendando os trabalhos do sábio
Sosígenes, astrônomo de Alexandria, em 46 a.C. resolve
corrigir novamente o calendário, passando a adotar o ano
solar com período de 365 dias e ¼, sistema este
mais preciso que o anterior, que só seria aprimorado em
1582 pela reforma gregoriana. César rebatizou o mês
Quintilis com o nome de Julius, numa homenagem a si mesmo; transferiu
o equinócio de primavera para 25 de Março, e determinou
que o ano começasse em 1o de Janeiro, fazendo jus à
divindade bifronte capaz de estar entre o tudo e o nada, olhando
concomitantemente o passado e o futuro.
Perguntemo-nos então, o que estaria vendo Jano nesta
passagem contemporânea de século e milênio?
Qual futuro nos espera para além desta marca especial do
tempo do calendário cristão gregoriano? Quais segredos
Jano vislumbra em seu olhar?