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Artigos
Paulo Urban
  


J A N O - Entre o Passado e o Futuro
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Por Paulo Urban - continuação (2)

Ultrajados, os sabinos organizam-se, preparando-se para invadir a cidadela do Capitólio. Inúmeras empreitadas são seguidamente rechaçadas por Rômulo. Afinal, seu exército estava formado por homens brutos, essencialmente ferozes. Coube à perspicácia de Tito Tácio conseguir entrar em Roma. Para tanto, o guerreiro, vendo-se incapaz de derrubar os muros da cidade, valeu-se de um estratagema, e conseguiu pouco a pouco atrair para si a paixão de Tarpéia, filha de Semprônio Tarpeio, um dos guardiães da entrada principal de Roma. A moça, a quem prometera esposar se ela lhe abrisse as portas da cidade, apaixonada e cega que estava, atendeu-lhe; e entregou Roma aos sabinos. Rômulo, vendo-se cercado, faz preces a Júpiter, mas é deus Jano quem surge neste exato instante para fazer brotar do solo água fervente, que interrompe a passagem dos invasores, fazendo com que os sabinos recuem, cheios de medo. Tempos mais tarde seriam as mulheres sabinas que, cansadas de assistirem à morte de seus ex-maridos e tementes pela vida de seus filhos com os romanos, divididas entre suas dores, exigiriam o fim dos embates, quando então os dois povos passaram a se respeitar.

Com a paz, Tito Tacio chegou a governar Roma ao lado de Rômulo por alguns anos. Desde então, os romanos entenderam que quando Jano se manifesta nas guerras, o faz para anunciar a proximidade de seu fim. Também fundiam muitas vezes sua imagem à de Júpiter, e o denominavam Janus Pater, atributo de deus Criador, pai de todas as coisas, ou mesmo Jano Matutinus Pater, ou "pai de todas as manhãs". O poeta Ovídio (43a.C.-18d.C.), em sua obra Os Fastos, associa-o ao Caos, estado anterior à própria Criação, e diz que Jano tem duplo rosto porque "governa o céu, a terra e o mar; e sendo tão antigo quanto o Mundo que criou, sabe observar ao mesmo tempo o oriente e o ocidente".

Tito Tácio logo morreria em combate contra os laurentinos, outro povo da região, e Rômulo encontraria seu fim mítico mais tarde, aos 54 anos, após haver reinado por 38. Numa tormenta, ele desaparece misteriosamente; diz a tradição que um raio o levou para morar no céu. Há um intervalo durante o qual os cem senadores administram a cidade, e o sucessor escolhido é Numa Pompílio, homem culto e piedoso.

O segundo rei de Roma sobretudo prestigia deus Jano, e resolve construir-lhe o já citado templo. Por volta de 700a.C. faz alteração no calendário de Rômulo, de referencial lunar. O ano até então tinha apenas 304 dias divididos por dez meses; começava no equinócio primaveril, em Martius (março), e os meses seguintes eram Aprilis, Maius e Junius; daí em diante vinham os numéricos: Quintilis, 5º mês, Sextilis, o 6º, September, o 7º... até December, o 10o mês. Pompílio, observando as imprecisões desta contagem, incluiu dois meses no ano romano elevando para 355 seus dias; e batizou os novos meses de Januarius (em homenagem a Jano, de quem era admirador) e Februarius, em menção às festas com este nome.

Jano desde então teve crescente prestígio, até que Júlio César, encomendando os trabalhos do sábio Sosígenes, astrônomo de Alexandria, em 46 a.C. resolve corrigir novamente o calendário, passando a adotar o ano solar com período de 365 dias e ¼, sistema este mais preciso que o anterior, que só seria aprimorado em 1582 pela reforma gregoriana. César rebatizou o mês Quintilis com o nome de Julius, numa homenagem a si mesmo; transferiu o equinócio de primavera para 25 de Março, e determinou que o ano começasse em 1o de Janeiro, fazendo jus à divindade bifronte capaz de estar entre o tudo e o nada, olhando concomitantemente o passado e o futuro.

Perguntemo-nos então, o que estaria vendo Jano nesta passagem contemporânea de século e milênio? Qual futuro nos espera para além desta marca especial do tempo do calendário cristão gregoriano? Quais segredos Jano vislumbra em seu olhar?