Vivemos
um Janeiro especial, de quádruplo caráter:
início de ano, de década, de século
e de milênio. A comunidade cristã desperta
em seu 1º de Janeiro e estranhamente sente estar
pisando o amanhã. Foi o futuro quem chegou, ou
nós que o alcançamos? Mero sofisma, afinal,
somos seres efêmeros, presos a um presente interminável
que nos acompanha por toda a vida.
Janeiro, cujo nome se origina de deus Jano, foi
acrescentado ao calendário por Numa Pompílio
(715-672a.C.), sucessor de Rômulo, personagem histórico-mítico
que, segundo Plutarco, teria fundado Roma em 21 de março
de 753a.C.
Figura das mais singulares, Jano é exceção
no panteão romano, visto não haver seu
correlato entre os gregos. Tampouco o encontramos nas
mitologias indo-européias, e seu surgimento está
envolto na aura da incerteza. Uns dizem que nasceu em
Cítia (Ásia Menor), outros que seja proveniente
de Perrébia, cidade da Tessália (região
da Grécia). Algumas versões o fazem filho
de Apolo e Creusa, filha de Ereteu, um dos reis de Atenas.
Jovem maduro, Jano teria seguido pelo mar Tirreno
até as terras que hoje são a Itália,
acompanhado por uma extensa frota. Aportando, seu exército
fez várias conquistas e Jano construiu sua cidade,
Janícula. Daí passaria a reinar no Lácio
(Latium Vetus, região de Roma, de onde vêm
o latim). Saturno, destronado por Júpiter e expulso
do céu, foi obrigado a viver no exílio e
buscou inicialmente abrigo no Lácio, sendo bem
recebido por Jano. Profundamente agradecido, ao partir,
abençoa seu anfitrião com dom da mais alta
prudência, conferindo-lhe o poder de ver o passado
e o futuro ao mesmo tempo. Por esse motivo, os romanos
cunhavam a efígie de Jano em sua mais antiga moeda,
o asse, ora representando-o imberbe, ora barbudo, mas
sempre com dois rostos numa mesma cabeça, voltados
para direções opostas, de modo que suas
faces nunca se olham. Uma delas pode ver somente o passado,
conquanto a outra volta-se para a frente, antecipando-se
no porvir. Escavações arqueológicas
encontraram moedas com Jano bifronte tendo em seu reverso
a proa de um barco, em menção ao domínio
que os romanos lhe atribuíam, já que o consideravam
introdutor dos barcos e do comércio.
Cícero (106-43a.C.) associa o termo jano ao
verbo ire (ir) e ressalva que os caminhos públicos
romanos eram chamados de jani. Outras fontes associam-no
à palavra janua, a significar "portas em forma
de arco", ou "aquilo que abre e fecha",
até porque a divindade era protetora de todas as
entradas e saídas, estando a guardar não
só as portas das casas e cidades, como também
os portais do céu, neste caso em companhia das
Horas. Nesta condição, Jano sustenta dois
símbolos, a chave e o báculo, com os quais
os porteiros fechavam e defendiam as entradas das cidades.
Jano preside tudo o que se abre, é deus
tutelar de todos os começos; rege ainda tudo aquilo
que regressa ou que se fecha, sendo patrono de todos os
finais. Por sua dupla função, recebeu dos
romanos dois epítetos principais, Jano Patulcius,
ou "aquele que abre", e Jano Clusius, ou "aquele
que cerra". Neste aspecto estava relacionado às
guerras, posto que anunciava seus começos e seus
términos. Consta que seus templos permaneciam abertos
enquanto durassem os conflitos, para somente serem fechados
em tempos de paz, numa tradição que perdurou
até o século IV d.C. O Templo de Jano, erguido
em Roma na região do Fórum, teria permanecido
fechado por longos anos durante o pacífico reinado
de Pompílio; uma vez reaberto, só voltou
a ser cerrado após a segunda guerra púnica,
e por mais três vezes, com distintos intervalos,
já no reinado de Augusto, século V d.C.
Com a ninfa Camasene, Jano teve um filho, Tiber,
de onde se originou o nome do rio Tibre cujas águas
banham Roma. Outra esposa foi Venilia, de quem nasceu
a filha Canente, do verbo canens, a designar "aquele
que canta", cuja voz maviosa tinha o poder de atrair
as pedras e acalmar os animais selvagens que a ouvissem.
A ligação de Jano com as guerras
parece ter se originado durante o episódio do rapto
das sabinas. Vamos narrá-lo resumidamente. Havendo
Rômulo recebido por bravura um território
das mãos de seu avô Numitor, e tendo demarcado
aquilo que seria sua cidade, viu-se envolto num problema,
tinha um terreno enorme e vazio, não povoado, sem
lavoura nem rebanhos. Consultando o oráculo num
santuário que construíra no monte Capitólio,
vislumbra a solução: faria de sua cidade
um grande asilo, transformaria todos os marginalizados
dos arredores em cidadãos comuns, devolvendo-lhes
seus direitos. Em nossos dias, seria um arrojado homem
de marketing. Parece que seu plano deu certo. Logo encontrou
seu povo entre maltrapilhos, desgraçados, doentes,
escravos fugitivos e criminosos, que rapidamente invadiram
de forma pacífica seu território.
Roma teve assim um começo febril; em suas
terras ardia a vontade de fazer crescer e preservar o
povoamento, mas quase não havia mulheres entre
sua gente. Rômulo mais uma vez precisava de uma
solução rápida, e resolveu buscar
suas fêmeas entre os sabinos, povo ordeiro e pacato
que vivia nas vizinhanças. Convida-os então
para os festejos de início de ano, as chamadas
Consuálias, ou festas da colheita, presididas por
Jano Consivius, outra alcunha a designar "aquele
que semeia", o que faz de Jano também uma
divindade agrícola, responsável pela geração,
pelo movimento da vida em todas as suas fases. As Consuálias
caracterizavam-se por jogos, especialmente corridas de
cavalos, e os romanos ofereceram seus melhores animais
aos visitantes para que estes pudessem competir. Impressionados
com cidade tão espaçosa, de largas avenidas
e casas magníficas, os sabinos nada desconfiaram
da armadilha e se deleitaram com suas famílias,
entregando-se aos festejos. A um gesto combinado de Rômulo,
os romanos puxam suas armas; raptam todas as mulheres
e expulsam os indefesos visitantes, humilhados, para fora
da cidade. Por dias e noites seviciam as mulheres, engravidam-nas,
e pregam para que se acostumem à nova morada e
aceitem suas novas famílias.